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Sequestrada: Pecado e Pele

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HenryM
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Resumo

Sinopse: Sequestradas: Pecado e Pele O que começou como uma viagem para recuperar... transformou-se num pesadelo sem volta. Camila só queria fugir do barulho. Queria fugir da mãe ausente, do vazio deixado pelo pai falecido e da sensação constante de invisibilidade. O retiro espiritual parecia uma boa ideia... até se transformarem num beco sem saída. Camila e mais três raparigas são sequestradas por homens com rostos cobertos e motivos ocultos e descobrem que o verdadeiro inferno nem sempre está no fogo, mas na espera. Na incerteza. Na pele que arde por um toque proibido. E justamente quando o medo deveria dominar tudo... ele aparece. Um deles. O único que a olha com algo parecido a compaixão. O único que ela não deveria desejar. Entre ameaças, mentiras e olhares que não deveriam existir, Camila aprenderá que o amor nem sempre salva. Por vezes, o amor também aperta o laço.

amorromanceAmor trágico / Romance angustianteÓrfãomafiaRomance com homem mais velho

Capítulo 1

Nosso avião havia pousado há apenas quatro horas e eu já estava me arrependendo de ter feito essa viagem. Estava quente e úmido, e o ar condicionado do nosso carro alugado estava quebrado. Pior ainda, estávamos presos no trânsito, sob o sol do meio-dia, cercados por ônibus escolares enormes, velhos e revisados, cobertos de adesivos pegajosos que cuspiam uma nuvem espessa de fuligem preta toda vez que avançavam.

Mariela nos proibiu de abrir as janelas porque temia que a fumaça nos causasse câncer. No entanto, Mariela não parecia se importar com os produtos químicos em seu vaporizador com sabor de chiclete e indutor de dor de cabeça. Então, lá estava eu, preso em um forno sobre rodas, fervendo em meu próprio suor, tentando não sair correndo do carro aos gritos.

-Quanto falta para chegar? -perguntou Valéria. Ela estava recostada no banco de trás, com o pé descalço apoiado no encosto de cabeça e as costas da mão na testa. Ela bufava alto e com frequência, como se quisesse mostrar que não queria estar ali tanto quanto eu, o que provavelmente era a única coisa que Vale e eu tínhamos em comum.

- O GPS diz oito horas", respondi depois de verificar no meu celular, "mas acho que pode ser mais por causa do trânsito. -

-Oito?! -Por que não poderíamos ter encontrado um abrigo mais perto do aeroporto?

-Isso não é um retiro, Vale, é o retiro", disse Renata, batendo animadamente no volante com seus dedos longos e finos.

- Tem uma plataforma de ioga em frente a esse lindo lago e fica a apenas três horas de caminhada de uma pirâmide legal ou algo assim", acrescentou Mariela, enquanto percorria ruidosamente as imagens em seu telefone com as pontas das unhas de acrílico.

-Yoga e caminhadas, sério, Mariela? -resmungou Vale. Achei que estávamos indo para festas e garotos bonitos.

-Podemos fazer as duas coisas", disse Mariela, "e... podemos fazer as duas coisas, não podemos, Camila?

-Huh? -Respondi, virando-me para olhar para Mariela e Vale, que estavam rindo um com o outro ao fundo. Voltei-me para Renata, que balançou a cabeça suavemente e sorriu.

- Quando foi a última vez que você fez sexo, Camila? - perguntou Vale.

-Não é da sua conta", respondi secamente, enquanto pegava um pacote de Doritos debaixo do meu assento.

-Sabe de uma coisa? -disse Mariela, antes de arrancar o pacote de Doritos de entre meus dedos no instante em que o peguei. Vamos treiná-lo: nossa missão será fazer a Camila transar!

-Estamos com sorte", riu Vale. Ouvi dizer que os latinos gostam de garotas gordas.

-Foda-se", cuspi. Eu não sou gorda.

-Ei, língua", respondeu ela, estalando os dedos.

Ela só tem ossos grandes, sabe? -Ouvi Mariela sussurrar.

-Não, não, ela é de tamanho médio", Vale zombou.

Fiquei olhando para a estrada em silêncio, tentando pensar em uma resposta espirituosa, mas quanto mais pensava nisso, menos relevante parecia, e mais estúpida parecia. Acabei fechando os olhos, na esperança de que, se eu os fechasse com força suficiente, todos os meus problemas desapareceriam.

Minha paz e tranquilidade conseguiram durar um pouco, o suficiente para sair da estrada principal e escapar do trânsito infernal. Até agora, o país não se parecia em nada com o folheto do retiro: nenhuma selva exuberante, nenhum rio azul-turquesa, nenhuma cachoeira espetacular ou pássaros coloridos. Na verdade, parecia quase um deserto. Ao nosso redor, havia paisagens empoeiradas e estéreis, repletas de latas e garrafas plásticas amassadas, árvores mortas, cactos apodrecidos e, ocasionalmente, cães vadios esqueléticos.

Eu me senti enganado. Eu havia gastado meu dinheiro suado nesse retiro. Renata havia me dito que essa viagem seria ótima para esquecer minha vida de merda. "Isso vai mudar minha vida", disse ela, e, por mais tolo que eu fosse, acreditei nela. Mas a verdade é que a culpa foi minha. Como pude pensar que escalar uma pirâmide antiga resolveria tudo o que estava quebrado? Minha família destruída, que estava desmoronando há anos. Meu relacionamento que havia se desfeito há poucos meses. Minha cozinha quebrada, que me forçou a comer apenas ramen e saladas de micro-ondas nas últimas três semanas, pois meu senhorio ainda não respondia às minhas mensagens. Não é assim que a vida funciona e, aos vinte e três anos, eu deveria saber melhor.

Renata quebrou o silêncio pesado dentro do carro quando ele parou em um posto de gasolina decrépito na beira da estrada.

-Vão ao banheiro, suas putas magras! - gritou ele ao estacionar o carro.

Assim que o motor foi desligado, Vale e Mariela saíram do carro. Elas correram uma em direção à outra, cobrindo o rosto com as mãos enquanto riam maliciosamente, e correram em direção a uma latrina em ruínas no canto do estacionamento empoeirado. Renata se virou para mim e suspirou:

- Escute, Camila, eu sinto muito. -

Não precisa sentir", eu disse, interrompendo-a. Eu realmente queria ir. Eu queria muito vir.

Ela me olhou desesperadamente por um tempo, e acho que ela sabia que eu estava mentindo. Ela franziu a testa, como sempre fazia quando se preocupava comigo.

- Você só precisa conhecê-los melhor", disse ela, inclinando a cabeça para um lado.

-Eu os conheço há anos, Renata", suspirei. Nós não somos do mesmo mundo, eles e eu.

-Eu sou do mesmo mundo que você e me dou muito bem com eles", insistiu ela. Você precisa se abrir um pouco mais.

-Então a culpa é minha? -Gaguejei, e meu sorriso rapidamente se transformou em uma careta. -Eles sempre insistem que sou gorda, feia, chata e deprimente, mas sou eu que preciso me abrir?

-Não desconte em mim, Camila, só estou tentando ajudar", ele bufou, revirando os olhos. É apenas o senso de humor deles. Na verdade, eles são muito gentis, eu prometo. Só estão brincando com você.

-Tenho certeza de que estão.

Fingi um sorriso e agarrei a maçaneta da porta. Ela bufou ruidosamente atrás de mim, e olhei por cima do ombro para vê-la balançando a cabeça em desespero.

-Ei, você pode me trazer uma Coca-Cola? - ela perguntou baixinho quando saí.

Acenei com a cabeça e saí do carro. A alguns metros dali, os gritos e risadas de Mariela e Vale ecoavam pelo galpão de metal enferrujado enquanto brincavam com as caretas que eu havia feito. Engoli em seco e corri para a pequena loja do posto de gasolina.

O interior da loja era minúsculo e desorganizado. Havia apenas o eco da campainha tilintando quando fechei a porta atrás de mim, o zumbido alto e baixo de uma geladeira velha e o piscar constante de uma luz de neon. Não vendia muita coisa: principalmente pacotes de batatas fritas, refrigerantes e cervejas, a maioria de marcas e sabores que eu desconhecia completamente.

Abri a geladeira com cheiro de mofo e rapidamente peguei uma garrafa de Coca-Cola para Renata e uma cerveja local para mim. Quando me aproximei da caixa registradora, vi dois homens encostados no balcão. Não sei se eles estavam ali, em silêncio o tempo todo, ou se entraram de fininho enquanto eu escolhia minhas bebidas, mas algo na atitude deles e na maneira como me olharam quando me aproximei, sem nem mesmo se contorcer ou dar um pio, causou um arrepio na minha espinha. Puxei minha bermuda nervosamente ao me aproximar deles.

Os dois homens cheiravam intensamente a suor e perfume. Um deles parecia um cinquentão desalinhado, com cabelo retraído, óculos antiquados e manchas de umidade em toda a camisa polo azul-clara. Ele enxugou o suor da testa, e notei um relógio de ouro grosso e cafona em seu pulso, com pedras brilhantes que contrastavam com o restante de sua aparência.

Atrás dele estava um homem mais jovem, com a cabeça raspada, ombros largos e uma corrente de ouro no pescoço. Ele estava escondido atrás de seus óculos escuros de aviador com aro dourado, e notei que ele carregava uma arma enfiada na calça jeans. Não em um coldre, nem em um bolso, apenas presa entre a barriga e a cintura. Dei um passo para trás, nervoso.

-Vá em frente, senhorita", disse o homem mais velho, indicando que eu fosse rapidamente para o balcão.

Acenei com a cabeça educadamente e sussurrei um tímido "obrigada" antes de colocar minha lata e a Coca-Cola de Renata na frente do caixa. Apontei para a parede atrás dele e perguntei hesitantemente, em um espanhol ligeiramente arrastado:

- Uhm... Posso pegar alguns cigarros? -