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CAPÍTULO 6

Victor

Sabe qual é a pior parte do luto?

O momento em que você pensa que já superou.

Todos me avisaram que passaria, que o tempo curaria tudo.

Mas tudo continua igual. Ainda sinto dor. Sinto a falta. O cheiro, o sorriso, o perfume. Sinto tudo.

Arrasto-me como um zumbi para fora da cama, me obrigo a ser forte. Eu preciso ser, não tenho escolha.

Passo no quarto de Davi e fico olhando para ele sem me importar com o tempo. Meu pequeno porto seguro, meu maior motivo para continuar lutando.

Chego à cozinha e encontro Beth preparando o café da manhã.

— Bom dia, senhor Victor.

— Bom dia, Beth.

— O café está quase pronto.

— Muita gentileza sua, mas tomarei café com minha mãe. Você pode cuidar do Davi por algumas horas?

— É para isso que sou paga — ela riu.

— Eu sei — eu ri também — É que fiquei de lhe dar o dia de folga, mas não acordar Davi. Ele parece estar bastante cansado.

— Tudo bem, não marquei nada para minha folga.

— Amanhã pode tirar o dia de folga. Se precisar de dinheiro extra, me avise.

— Não preciso.

— Eu preferiria ficar em casa, mas se eu não aparecer, é capaz dela vir como um furacão. E nós não queremos a senhora Angelina invadindo esse apartamento.

— Não senhor.

Sabemos como minha mãe pode ser exagerada quando é contrariada. Adoro minha mãe, sou grato por tudo o que ela fez após a morte de Regina, mas não gosto quando ela se mete na minha vida particular.

— Eu não vou demorar muito.

Volto para o quarto, pego a minha carteira, as chaves do carro e vou para o elevador.

Na portaria encontro alguns conhecidos, trocamos cumprimentos e sigo para pegar meu carro, um BMW preta quatro portas. Ligo em uma estação de rádio qualquer e sigo para a casa de minha mãe.

Demoro vinte minutos até chegar ao condomínio onde minha mãe mora. Ela ainda está no banho quando entro. Vejo que ela trocou de governanta. Minha mãe é uma mulher difícil de levar, acredito que sou o único que consegue confrontá-la.

Enquanto espero, pego o jornal em cima da mesa e começo a folhear. Vejo as principais notícias da cidade e quando estou guardando vejo uma nota na parte de eventos. O anúncio do casamento de Carlos Eduardo, o irmão de Nick de quem cuidei e Eduarda, a irmã que ficou em coma por quatro anos.

Recebi fotos de Eduarda e me compadeci do seu problema. Depois de tantos anos em coma, deve estar sendo difícil para ele.

— Pensei que chegaria para o almoço — diz minha mãe entrando na sala.

É incrível como ela consegue estar produzida como se fosse sair apenas para tomar café.

— Onde está Davi? — pergunta olhando ao redor procurando o neto.

— Em casa se recuperando da viagem — falei dando-lhe um abraço.

— Isso é maldade. Sabe o quanto sinto saudades dele.

— Eu sei mãe, a senhora poderá ir a minha casa quando quiser.

— Quanto tempo ficará no Brasil?

— Não sei mãe, dependerá de como a paciente irá reagir ao tratamento.

— Li algumas notícias sobre o caso dela.

— Hoje é o casamento de um dos irmãos dela.

— O casamento saiu em alguns sites de notícias. A família da noiva é bem conhecida e não poupou economia na festa. Quando você irá conhecer a Eduarda, esse é o nome dela, não é?

— Sim, Eduarda. Fui convidado para ir à festa, mas não vou.

— Você deveria ir. Conversar um pouco, conhecer pessoas novas.

— Mãe…

— Você vive apenas para o seu trabalho. Precisa se divertir um pouco.

Quando minha mãe começa com esse papo, é o momento em que mudo de assunto.

— O que houve com a outra governanta?

— Não mude de assunto.

— Não vim aqui para ouvir sermão. Vim ver como você está.

Minha mãe suspira, mas não toca mais no assunto.

— Liguei para Paulina, ela quer saber quando poderá ir ver o neto.

Paulina é a mãe de Regina. Depois do acidente, ficamos um pouco distantes, pois perder sua filha tão prematuramente a abalou.

— Avise que minha casa estará com as portas abertas quando ela quiser ir.

— Verônica deve chegar ao Brasil por esses dias também. Não para de falar que está louca para ver o sobrinho.

— Pensei que Verônica nunca mais fosse voltar ao Brasil.

— Também achei.

— Sabemos que Verônica nunca foi muito família, sua vida sempre foi regrada a festas e viagens. O oposto de Regina.

E ao tocar o nome dela, sinto a dor apertar meu coração. Expulso o sentimento antes que minha mãe comece com suas lamúrias.

— Podemos tomar café? Estou morrendo de fome.

— Você não anda se alimentando direito.

— Tenho uma vida bastante corrida.

Apesar de sua insistência, não fiquei para o almoço. Planejava ficar a tarde inteira com Davi.

Despedi-me da minha mãe e voltei para casa, prometendo que estaria em casa o domingo e que ela poderia ir visitar seu neto.

Passei à tarde no parquinho com Davi, dando um descanso para Beth. Ao final, eu estava exausto. Eu estava ficando velho ou meu filho sugara todas as minhas forças.

Fui para a cozinha preparar seu lanche preferido, misto quente. Voltamos para a sala e ficamos vendo TV até eu o ver adormecer no meu colo.

Eu acabara e colocar na cama, quando Beth apareceu na porta.

— Desculpe senhor Victor, não imaginei que demoraria tanto.

Olhei para a porta e vi o olhar assustado dela.

— Relaxa Beth, consegui domar meu filho por algumas horas. Tenho um evento para ir, mas já dei banho no Davi. Você pode ir dormir.

Eu não queria ir à festa do casamento do irmão da minha paciente, mas não seria educado recusar um convite.

Coloquei um dos meus ternos, preto, que usava em raras ocasiões, passei pela sala, pegando as chaves e saindo.

Não foi difícil chegar à mansão onde estava acontecendo à festa. Uma banda tocava no palco, animando os convidados no jardim.

Um garçom passou por mim e me ofereceu uma bebida, aceitei apenas por educação. Ira voltar dirigindo, não correria o risco ser pego pela lei seca.

Eu não conhecia ninguém no local, mas seria bom socializar um pouco. Meia hora depois, vi um rosto familiar, Nick. Ele estava vindo ao meu encontro com uma garota ao seu lado.

— Doutor Victor, que bom que pode vir — disse me cumprimentando com um aperto de mão.

— Eu não poderia recusar um convite para beber e comer de graça — eu ri.

— É claro — ele riu também — deixe-me apresentar minha noiva, Nanda.

— Noiva? É um prazer conhecê-la.

— Obrigada.

— Serão os próximos a casar?

— Estamos trabalhando nisso — Nick riu — Venha, vou te apresentar aos noivos.

Nick segurou a mão de sua noiva e levou para a mesa dos recém-casados. Kadu era realmente idêntico ao irmão. Sua esposa estava radiante, distribuindo sorrisos a todos ao seu redor.

— Kadu, Belinda, quero apresentar Victor, o médico que me colocou de pé e cuidará agora da Eduarda.

— Olá — seu irmão ofereceu a mão e eu a apertei.

— Parabéns pelo casamento.

— Obrigado. Finalmente consegui levar minha ruiva ao altar.

Vi sua esposa revirar os olhos.

— Oi, estou muito feliz que você aceitou cuidar da Eduarda. Estamos ansiosos para ver sua recuperação — Belinda me cumprimentou.

Conversamos por alguns minutos até a mãe deles se aproximar da mesa.

— Doutor Victor, que prazer tê-lo aqui.

Ela era uma senhora radiante e que também cuidava muito bem do seu visual.

— O prazer é todo meu. Obrigado por me convidar. E Eduarda, onde está? — perguntei quando não vi nenhum sinal dela.

— Ela se retirou para descansar. O barulho a deixou com um pouco de dor de cabeça. Lamento que o senhor não possa conhecê-la hoje.

— Está tudo bem. Imagino ser muitas emoções desde que acordou.

— Você não imagina o quanto — Kadu falou por sua mãe.

Depois de uma hora, precisei ir ao banheiro, e Nick me falou como chegar. Atravessei o jardim até a entrada da casa. Subi as escadas e segui para o corredor. Nick havia me falado que era só virar à direita e eu encontraria o banheiro.

Quando fiz o que mandou, ouvi um barulho vindo de uma porta ao lado, parecia um choro, acompanhado de soluço. Aproximei-me da porta não querendo assustar a pessoa que estava do outro lado.

Era uma mulher. Seus soluços estavam aumentando e fiquei tentado a abrir a porta e ver o que estava acontecendo, mas talvez ela quisesse ficar sozinha. Virei-me para ir embora quando ouvi o barulho de algo quebrando.

Sem pensar, abri e porta e procurei pela dona dos soluços. Ela estava caída no chão, tentando alcançar a cadeira de rodas.

— Deixe que eu te ajude — falei me aproximando.

— Fique longe, não preciso de ajuda para sentar na porcaria de uma cadeira de rodas — ela disse sem levantar o olhar.

Olhei para sua mão e vi pequenas manchas vermelhas se formando na sua mão direita.

— Você está sangrando. Deixe-me ver.

— Eu já falei. Saia daqui. Acredito que você terá muito mais serviço a fazer do que ajudar uma idiota a se levantar.

— Não fui contratado como garçom, estava apenas procurando o banheiro.

Lentamente, ela ergueu o olhar e me encarou. Seus olhos estavam vermelhos, assim como seu nariz.

Era Eduarda, a irmã do noivo, a garota a quem eu ajudaria a se recuperar. Ela era ainda mais linda do que vi nas fotos, mesmo sua maquiagem estando borrada.

— Aceita minha ajuda agora? — perguntei me aproximando um pouco mais.

Ela não falou nada, mas permitiu que eu me aproximasse.

Levantei a cadeira de rodas e depois a peguei nos braços e coloquei sentada.

Eduarda continuava a me olhar de uma maneira que parecia que estava observando a minha alma.

— Sou Victor.

— Eduarda — sua voz saiu como se estivesse com medo de falar.

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