CAPÍTULO 4
VictorFaz três anos desde a última vez que coloquei meus pés no Brasil. Três anos que eu tento esquecer a todo custo. Esse não é mais o meu lugar. Não depois de tudo o que aconteceu na minha vida.
— Papai, quando vamos chegar em casa?
A voz de Davi me tira dos meus devaneios. Meu pequeno tesouro, a razão pelo qual ainda não desisti de tudo, está agarrado à mão de Beth, sua babá, enquanto espero nossas malas na esteira.
Ele tem olhos verdes como os da mãe. Os cabelos são castanhos como os meus, mas o jeito de olhar atravessado quando é contrariado, a maneira como se comporta à presença de estranho, seu sorriso é todo dela.
Davi é a prova viva que Regina foi real na minha vida. É por esse pequeno anjo que me levanto diariamente e encaro os desafios.
Minha amada Regina, se estivesse aqui, estaria nesse momento irritada pela demora das bagagens. Sorrio. Ela nunca teve muita paciência para esperar.
Quando descobrimos que Davi estava a caminho, ela comprou todo o enxoval de uma só vez, nem ligou para o sexo. Nosso bebê tão desejado durante sete anos de casamento finalmente iria se tornar real.
— Papai… — Davi choraminga.
— Já estamos indo meu amor. Beth vá à frente na frente com ele, está quase caindo de sono. Irei logo atrás.
— Sim, senhor. Só preciso que me dê seu endereço.
— Claro.
Pego minha caneta e anoto o endereço. Entrego a Beth e fico olhando até ela sumir pelo corredor.
Encontrar Beth, uma brasileira perdida em outro país, procurando um emprego de babá foi muita sorte. Ela é a única que conseguiu se aproximar de Davi depois do que aconteceu com Regina.
Ela é alguns anos mais velha que Regina e é um anjo cuidando de Davi enquanto trabalho. Fiquei feliz por ela ter aceitado vir comigo e ficar aqui até que eu finalize mais um trabalho, ajudar alguém que acabou de sair do coma e precisa se reabilitar a sua vida.
Quando finalmente vejo minhas malas, pego-as, coloco no carrinho e sigo para a saída. Pego um táxi, informo o endereço e partimos.
A cidade não mudou muito em quatro anos, talvez um pouco, mas não perderei tempo em ser nostálgico, ficarei por pouco tempo e depois voltarei para Nova Iorque.
Chego ao bairro da Glória sem transtornos. O lugar parece ter parado no tempo, pelo menos onde meu apartamento está localizado, um condomínio classe média.
Foi ideia de Regina comprar um apartamento aqui. Segundo ela, seria um bom lugar para criar nossos filhos. Na época, faltavam poucos meses para o nascimento do nosso segundo filho, Arthur.
Ela havia cuidado pessoalmente de toda decoração do apartamento e dos quartos dos nossos filhos. Davi já estava na fase das primeiras palavras e tudo para ele era novidade.
Ela mal estava aguentando de ansiedade para ver o rostinho de Arthur e saber se seria igual ao irmão. Tudo estava perfeito até aquela maldita noite de sábado.
Meu telefone toca quando estou retirando as malas do carro.
— Oi mãe, sim, chegamos. Tentei avisar, mas seu celular só dava caixa postal. Sim, está em casa com a Beth. A babá. É claro que eu a trouxe comigo. Ok. Amanhã passo aí para uma visita.
Minha mãe não se conforma por eu não ficar na sua casa. Na verdade, eu deveria ter feito isso, evitaria lembranças que ainda tenho. Mas a casa dela parece uma pensão, está sempre cheia de pessoas e Davi não gosta muito de multidão.
Meus irmãos sempre resolvem deixar os filhos com minha mãe quando decidem sair à noite. Nunca achei certo fazer isso também, mas nunca falei nada com eles. Todos são adultos e sabem o que fazem.
Pago a corrida e arrasto as malas para a entrada do condomínio. Meu apartamento fica localizado no final, perto da pracinha, onde eu descia para brincar com Davi nas minhas folgas.
Percebo que fizeram algumas reformas no lugar enquanto sigo para meu prédio. O porteiro abre a porta para que eu passe com as malas e me cumprimenta com um balançar de cabeça. Espero paciente enquanto o elevador volta para o térreo.
Meu apartamento fica no vigésimo segundo andar, e é um dos maiores e tem uma vista privilegiada para o mar.
O momento em que abro a porta, tudo o que eu vinha evitando todos esses anos se choca comigo. Tudo está como antes, nada fora do lugar. Está totalmente igual quando Regina esteve aqui pela última vez.
Algo me sufoca e tenho que me segurar para não sair correndo para longe. A sala espaçosa, com um sofá retrátil enorme, um rack contendo vários porta-retratos, contando um pouco da nossa história. Uma TV 42 polegadas presa a um painel, vasos de flores espalhados pelo ambiente, com certeza foi a arrumadeira que cuidou de tudo.
Um carpete entre o sofá e o rack, onde Davi costumava ficar horas brincado. São tantas lembranças que fica difícil voltar ao normal.
Respiro fundo e sigo para o lugar onde tem todos os momentos que tento esquecer a cada noite que me deito para dormir. Nosso quarto.
Abro a porta e por um momento vejo Regina na sacada observando a paisagem. Ela olha para mim e abre um sorriso apaixonado quando me vê. Largo as malas e vou ao seu encontro.
Pisco e percebo que estou imaginando. Na minha frente não tem ninguém. A janela está fechada, com as cortinas abertas. Não me aproximo dela por medo. A presença de Regina está em cada pedaço do quarto.
Nossa cama está com cobertas salmão, combinando com as cortinas. Nos criado-mudo outros porta-retratos. Regina havia espalhado fotos por todo o apartamento para que todos vissem a nossa felicidade.
Do meu lado da cama, há uma foto nossa comemorando a viagem de lua de mel. Do outro lado, uma foto de Regina no final da gestação de Davi.
Pego a foto e não consigo ficar sem tocá-la. A sensação que tenho é que tudo continua igual e que se olhar para a porta, vou vê-la encostada me admirando, como sempre gostava de fazer.
Devolvo a foto e vou até o guarda-roupa. Ele é enorme e vai de um canto a outro do quarto. Sei o que encontrarei ao abrir, mas não resisto.
Está intacto, como eu havia deixado. Todas as suas roupas estão lá. Nada fora do lugar. Mexo nas gavetas e suas coisas pessoas estão lá. Toco-as para sentir sua presença. Quase posso sentir seu toque.
— Senhor Victor.
Assusto-me e viro para a porta. Beth olha para mim constrangida, imagino o que sabe sobre esse apartamento.
— Deixei sua mala na sala. Precisa de algo?
— Não senhor. Já a levei para o meu quarto. Davi se recusa a dormir sem ver o senhor.
Abro um leve sorriso para Beth. Ela nunca conseguiu colocar Davi para dormir, apesar de suas tentativas. Meu filho sempre me espera acordado, mesmo quando estou de plantão.
— Já estou indo, vou apenas trocar de roupa.
— Sim, senhor. Quer que eu prepare algo para comer?
— Obrigado pela gentileza, mas não se preocupe comigo — sorrio gentilmente — prepare algo para você e depois pode ir descansar. Amanhã vou ao mercado.
— Os armários estão abastecidos. Sua mãe deve ter cuidado disso.
— Claro. Dona Amélia não deixaria seu filho e neto passar fome.
Ela rir e depois sai do quarto.
— Boa noite, senhor Victor.
Apesar de termos quase a mesma idade, ela sempre me trata como senhor.
— Boa noite, Beth.
Troco de roupa, colocando uma calça moletom, camiseta branca e vou para o quarto de Davi com os pés descalços. O chão de madeira faz barulho quando piso, mas nada que incomode.
Davi está vendo TV quando entro. Beth deixou em um canal onde passa seus desenhos favoritos. Está todo embrulhado, com olhos pesados de sono, mas me esperando.
— E aí, garoto, o que quer ouvir hoje?
— Pode ser a história de como o príncipe derrotou o dragão e salvo o reino?
Davi adora ouvir histórias antes de dormir. Faço isso desde que sua mãe nos deixou. Foi a maneira que encontrei para suprir a falta que ele sente de Regina. Na maioria das vezes, eu invento, outras, eu pego um livro e leio para ele.
— Essa história de novo? — pergunto sorrindo.
— Gosto dessa.
— E por quê?
— Não sei, mas gosto dela.
Sento-me na cama e o puxo para meu colo. Começo a contar a história e em pouco tempo, Davi adormece. Tenho todo o cuidado para não o acordar ao me levantar da cama. Beijo sua testa e sigo para a porta. Apago a luz e fecho a porta cuidadosamente.
Vou para a cozinha, busco na adega uma garrafa de vinho. Tenho certeza de que minha mãe cuidou disso também.
Estou certo. Há uma garrafa de Marques de Casa Concha Merlot 2007. Sirvo uma taça e vou para a sala. Ligo a TV em um canal qualquer e saboreio meu vinho, enquanto pensamentos e imagens passeiam por minha mente.
