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Capítulo 2 - parte 1

O som dos móveis sendo arrastados ecoava pela casa, misturado ao ritmo suave da música que tocava do celular de Lucy. Ela havia aberto todas as janelas, permitindo que o ar fresco e o cheiro úmido da floresta entrassem, e a luz do fim da tarde iluminasse o ambiente.

— Pronto — suspirou, limpando uma gota de suor da testa. — Último móvel.

O cansaço começava a pesar em seus ombros, mas Lucy sabia que a sensação de estar naquela casa era tudo o que precisava para continuar. Já fazia horas que estava de pé, limpando cada canto, cada móvel coberto de poeira. Colocar tudo em ordem era a forma dela de lidar com as memórias e a saudade. O sofá da sala, onde ela e sua mãe costumavam passar as noites juntas assistindo séries de TV, estava agora limpo e convidativo. As cortinas brancas balançavam suavemente ao vento, trazendo uma sensação de paz que ela não sentia há muito tempo.

“Parece que estou mais perto de você agora, mãe”, pensou, sentindo uma pontada de tristeza no peito.

A música mudou para uma faixa mais animada, mas Lucy não conseguia acompanhar o ritmo. A ausência de Elaina era gritante em cada canto daquela casa.

Lucy olhou para o relógio na parede e percebeu que já era fim de tarde. O céu começava a ganhar um tom alaranjado, e a luz suave do pôr do sol tingia as paredes de um dourado delicado, banhando a copa das árvores com aquela cor belíssima que reluziu sob os cabelos dela, quando a garota se aproximou da janela para olhar.

— Já fiz muito por hoje — ela murmurou para si mesma, desligando a música e pegando uma garrafa de água que estava na bancada.

Seus braços doíam e as pernas estavam pesadas, mas o importante é que tudo estava finalmente limpo e arrumado, e que agora a casa estava, mais uma vez, vivida, exatamente como ela se lembrava.

Ela olhou pela janela da cozinha, observando o quintal vasto e o mato alto que balançava com o vento. Um sorriso nostálgico brotou em seus lábios. Quando era criança, adorava brincar ali, correndo entre as flores e o gramado verde. Era sua zona de conforto, seu refúgio quando tudo parecia errado no mundo.

Decidida a reviver um pouco daquele sentimento de paz, Lucy pegou uma toalha fina e foi até o quintal. O som de seus passos afundando na grama alta era suave e familiar, como se a natureza estivesse dando boas-vindas. Sentou-se no centro do quintal, estendendo a toalha sobre a grama e deitando-se sobre ela, com os olhos fixos no céu.

O crepúsculo já tomava conta do horizonte, e as estrelas começavam a surgir, uma a uma, pontilhando o céu com sua luz suave. Lucy fechou os olhos por um instante, sentindo o cheiro de terra molhada e das plantas que cresciam ao seu redor. O silêncio profundo da floresta a envolvia, apenas quebrado pelo som distante de grilos e pelo farfalhar das folhas.

— Isso… Isso é o que eu precisava — sussurrou, sentindo a calma invadir seu corpo.

Lembranças da sua infância começaram a surgir, a voz de sua mãe ecoando enquanto ambas cuidavam do jardim, as risadas que compartilhavam. Era como se, ali, no meio do quintal, ela estivesse mais próxima de Elaina do que em qualquer outro lugar.

"Você estaria orgulhosa, mãe. Estou de volta, e vou fazer isso dar certo. Quero fazer tudo exatamente como você sonhou, mamãe…” pensou, com o coração apertado. A sensação de solidão que a acompanhava desde o acidente parecia, por um momento, ser substituída por algo mais suave, mais acolhedor.

Lucy não sabia quanto tempo havia passado ali, mas, aos poucos, o cansaço começou a dominá-la. Seus olhos pesaram, e a brisa fresca que soprava da floresta parecia embalar seus sentidos. Ela tentou resistir, mas seu corpo pedia por descanso, havia feito tanto o dia todo que não havia como negar um bom cochilo. Então, sem nem perceber, ela adormeceu.

Foi um som distante, quase como um rosnado, que a despertou. Lucy abriu os olhos de repente, o coração acelerado. Estava escuro, e a lua cheia brilhava intensamente no céu, iluminando o quintal com uma luz prateada. Ela se sentou, esfregando os olhos e olhando ao redor, confusa.

— Que droga… Cochilei aqui fora. — murmurou, sentindo um arrepio correr por sua espinha. O ar estava frio, e ela tremia levemente.

Levantou-se devagar, os músculos do corpo ainda um pouco rígidos pelo tempo que passou deitada no chão. Foi então que seus olhos pousaram sobre algo estranho. A grama alta ao seu redor estava amassada em alguns pontos, como se algo grande tivesse passado por ali.

— O que é isso? — Lucy deu alguns passos, tocando o mato amassado com a ponta dos dedos.

O padrão parecia ser o de pegadas, mas grandes demais para serem humanas.

Seu coração bateu mais rápido. A sensação de ser observada a incomodava, mas ela tentou afastar o pensamento.

"Deve ser algum animal da floresta... Um cervo, talvez", disse a si mesma, embora não estivesse completamente convencida.

Com um suspiro pesado, Lucy deu meia-volta e caminhou até a porta da casa. Ao passar pelo portãozinho de madeira, algo chamou sua atenção. Virou-se para olhar novamente para o quintal, e, por um breve segundo, pensou ter visto um par de olhos vermelhos brilhando entre as árvores. Ela piscou, assustada, mas, quando tentou focar sua visão, não havia nada, nada além da imponente floresta a sua frente.

— Ótimo, agora to ficando maluca… É só cansaço. — disse em voz alta, tentando convencer a si mesma. Entrou rapidamente na casa, fechando a porta atrás de si. "É só o cansaço", repetiu mentalmente, mas aquela sensação de desconforto continuava ali, alojada em seu peito.

No dia seguinte, Lucy despertou com o som suave do vento balançando as cortinas do quarto. O sol mal havia nascido, e os primeiros raios de luz invadiam o ambiente com delicadeza. Ela se espreguiçou, sentindo o corpo um pouco dolorido por ter dormido no quintal.

— Que ideia foi essa de dormir lá fora? — reclamou para si mesma, enquanto se levantava da cama.

Caminhou até a cozinha, ligando a cafeteira. Precisava de um café forte para começar o dia. Hoje seria o dia de encontrar o local perfeito para a floricultura, não podia demorar, precisava pegar a boa estação para garantir que as flores cresceriam bem quando ela plantasse.

Até que pudesse cuidar da própria produção, enquanto as suas flores não cresciam, ela precisaria de um fornecedor, mas já tinha um em mente, a mesma pessoa que lhe forneceria as sementes para que ela começasse a plantar suas flores em seu grande quintal.

Lucy tinha várias ideias em mente, e a ansiedade por começar logo era quase palpável.

Enquanto esperava o café ficar pronto, seus pensamentos voltaram à noite anterior. As pegadas na grama, os olhos vermelhos. O incômodo ainda estava lá, como uma sombra na sua mente.

"Foi só um sonho. Não pode ter sido real", pensou, tentando ignorar a sensação de que algo estava fora do lugar. Mas, ainda assim, resolveu dar uma olhada no quintal, só para ter certeza.

Vestiu um casaco leve e saiu da casa. O sol ainda era fraco, mas iluminava bem o terreno. Lucy caminhou até o local onde havia visto a grama amassada. As marcas ainda estavam lá, mas, agora, sob a luz do dia, pareciam menos ameaçadoras. Não era possível identificar de que animal eram, mas, definitivamente, algo grande havia passado por ali.

— Deve ser só algum bicho da floresta… Não tem motivo pra se preocupar. — disse em voz alta, tentando afastar o desconforto.

Depois de alguns minutos, ela voltou para dentro, determinada a seguir com seu dia. Tomou o café apressada, trocou de roupa e a primeira coisa que fez foi esperar, precisava receber o caminhão com sua mudança e também a empresa que iria trazer seu carro. O que não demorou muito a acontecer. O caminhão de mudança chegou bem cedo, antes das oito da manhã, as caixas ficaram espalhadas na sala e na cozinha e não demorou mais que quarenta minutos para os funcionários partirem, deixando a casa de Lucy calma novamente.

Então, cerca de uma hora depois, a empresa que levaria seu carro parou na porta dela com um guincho. Lucy bateu um pouco de papo com o rapaz, que reclamou um pouco sobre a casa dela ser escondida quase no meio da floresta, mas pouco depois o carro dela estava devidamente estacionado e pronto para o uso.

Só depois de tudo isso ela se arrumou e foi até a cidade, tinha um destino certo.

Quando chegou ao centro de Pinewood, a cidadezinha estava acordando lentamente. As lojas abriam suas portas, e os poucos habitantes começavam a circular pelas ruas estreitas. Lucy caminhou até o local que havia visto nos classificados: uma pequena loja no centro, que parecia perfeita para a floricultura. As paredes de tijolos vermelhos e a fachada simples tinham um charme que a atraiu assim que ela começou a procurar por anúncios, antes mesmo de chegar a cidade.

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