
Resumo
Micaela Alencar Castilho é uma garota impulsiva que foi ensinada pelos pais desde criança a pensar que não tinha limites. Dona de cabelos cor-de-fogo, olhos verde-jade e sardas delicadas espalhadas pelo rosto, sempre esbanjou charme acima da média, além de um carisma radiante. Aprendeu ainda jovem que as pessoas ao seu redor existiam para servi-la e não demorou a começar a manipular todas elas feito objetos, a fim de que satisfizessem os seus desejos mais imediatos. Ainda na adolescência, passou por uma experiência traumática envolvendo a sua família — os Castilho — que lhe deixou sequelas psicológicas graves e que reverberaram por todos os anos subsequentes da sua vida. Por conta desse trauma, Micaela teve a sua libido aumentada mais do que era necessário para a sua idade, e dentro de casa, começou a desenvolver um “Complexo de Electra” por seu próprio pai, o engenheiro-civil Roque Alencar. Enquanto tentava lidar com os desejos cada vez mais crescentes por Roque, a bela espevitada embarcou numa aventura amorosa atrás da outra, buscando sempre o prazer máximo em suas relações. Ao conhecer uma amiga de colégio muito mais sensata e comedida que ela, passou a invejar tudo que a garota representava — incluindo a sua bondade intrínseca —, o que fez com que, embora inconscientemente, ela deturpasse a imagem de boa-moça da outra perante os amigos. Enquanto a sua inveja pela estudante Kelly Ferraz se tornava cada dia mais crescente, não satisfeita em manchar a sua reputação, Micaela passou a se dedicar também a tomar para si o coração do rapaz pela qual Kelly era apaixonada desde a infância. Numa competição feroz envolvendo traição e manipulação, a ruiva resolve então se colocar entre o amor dos dois, querendo inteiramente para si o sentimento bom e doce que nunca antes experimentou na vida, mas que sabe que existe na relação da amiga com o seu amado. Em sua jornada pelo amor desconhecido e pelo seu amadurecimento como pessoa, Micaela narra a sua própria história de uma maneira eloquente — e nada ortodoxa — a fim de que desvendamos, afinal, quais são os seus segredos. “Os Segredos de Micaela” é uma história contendo altas doses de romance, sedução e erotismo em que a sua própria narradora conduz os seus leitores pelos vales mais inóspitos e profundos de sua mente, os apresentando à sua personalidade completamente desnudada e sem amarras. “Os Segredos de Micaela” pertence ao selo Desejos do autor Rod Rodman e é parte integrante do mesmo universo de “Um Novo Paraíso”, “O Destino dos Ferretis” e “As Mineirinhas”.
Capítulo 1 - Complexos junguianos
ELECTRA ERA A PRINCESA GREGA de Micenas. Filha de Agamemnon e Clitemnestra, tinha verdadeira adoração ao pai e passou a odiar a mãe depois que esta arquitetou com o amante, Egisto, a morte do próprio marido. Por sua fixação paterna, junto ao irmão Orestes, a princesa jurou vingança à rainha e deu cabo da sua progenitora com requintes de crueldade.
Eu tinha aprendido tudo sobre aquela tragédia grega durante as aulas de Filosofia da escola, mas foi em outro lugar que entendi que estava eu mesma sofrendo do chamado “Complexo de Electra”.
O psicanalista Carl Jung tinha passado a utilizar aquele termo para designar o desejo de uma filha por seu próprio pai em contrapartida ao “Complexo de Édipo”, que funcionava da mesma maneira, só que com relação de um filho para com sua mãe. Eu nunca tinha ouvido falar nem de um e nem de outro, mas foi sentada no divã do consultório de psicologia que acabei sendo, digamos, diagnosticada dessa forma por minha analista.
Agora que ganhei a sua atenção com essa introdução inteligente da qual me vali para ilustrar a minha história, vou começar a contar o início daquele meu complexo.
Meus pais se casaram relativamente cedo e os dois ainda estavam na faculdade quando minha mãe, Carla, engravidou do meu pai. Segundo ela, apesar do fato de que eles “praticavam” constantemente sem qualquer proteção, não era do desejo de ambos que tivessem um bebê tão cedo, mas para a alegria geral da nação — e o aparente desassossego do casal — eu acabei vindo ao mundo logo em seguida.
Batizada de Micaela — a variação feminina de Miguel e que no hebraico significa “quem é como Deus? ” —, nasci linda, ruiva e escandalosa numa ensolarada tarde de julho. Todos na maternidade tinham ficado encantados com a minha beleza, dos médicos às enfermeiras, e a partir daquele instante, Roque, o meu pai, ficou totalmente apaixonado por mim.
Meu pai era um engenheiro-civil muito bom que tinha feito uma bela carreira dentro da construtora fundada por meu avô Jaime Castilho, a hoje intitulada Suares & Castilho. Antes mesmo disso, no entanto, ele já era bastante influente como assistente de projeto numa empreiteira de nome Ao Cubo e foi nessa época que ele conheceu Carla Castilho. Os dois se deram bem logo de início e é claro que a moça — herdeira de uma das maiores fortunas de São Paulo — ficou de quatro por ele bem rápido. Seus olhos verdes, os cabelos ruivos naturais e todo o charme que mal cabia em seu um metro e oitenta de altura fizeram dele o par perfeito para a, na época, estudante de arquitetura. Eu não estava lá — Dãã! É lógico —, mas todo mundo dizia que eles formavam o casal perfeito.
A minha chegada ao mundo, de um jeito ou de outro, acabou influenciando negativamente na união dos dois e eles pararam de se dar bem por conta dos cuidados que eu exigia. Por mais que fossem fofos, cheirosos e "mordíveis", os bebês tinham o péssimo hábito de serem barulhentos, grudentos e dependentes da mãe, o que, obviamente, atrapalhou bastante na parte sexual do casamento.
Minha tia Elisa, irmã mais velha de minha mãe, dizia que até mesmo ela e meu tio Peterson, seu marido, haviam tido atritos com o nascimento de meus primos gêmeos Cleide e Cleber, mas que ele, como pai, tinha sabido agir de maneira a não piorar ainda mais a tensão que se formava ao se ter dois bebês em casa. Roque, por sua vez, por mais que fosse compreensivo, acabou não sendo tão cuidadoso ao lidar com mamãe e os dois passaram os primeiros anos após meu nascimento em pé de guerra.
As coisas melhoraram bastante conforme eu cresci um pouco mais. Os dois passaram a ganhar muito dinheiro depois de formados em suas respectivas profissões, começaram a viajar pelo mundo, conhecer novos lugares, e a minha avó Vilma não viu problema algum em cuidar tanto de mim quanto de meus primos Cleide e Cleber enquanto nossos respectivos pais viajavam e gastavam a fortuna da família. Eu ainda era muito nova para saber, mas aqueles foram os anos que resgataram o amor que Roque sentia por Carla e vice-versa.
O tal do “Complexo de Electra” passou a se tornar mais notório depois dos meus dez anos, que foi quando eu passei a tomar consciência de o quanto eu era apegada a meu pai. Por mais que eu também amasse mamãe, não dava para esconder de ninguém — nem dela mesma — a minha predileção por Roque e a segurança que eu sentia agarrada a aquele peito acolhedor.
Eu e ele vivíamos grudados e as horas que ele passava em casa após o trabalho eram quase que totalmente dedicadas a estar comigo. Com aquele grude, é claro que vinha também o mimo, e diferente de minha mãe, que tentava podar os meus desejos cada vez mais consumistas, ele me dava tudo que eu queria. De brinquedos, passando por jogos eletrônicos, roupas, calçados e bugigangas variadas, eu ganhava cada presente que lhe pedia e não tinha como negar que aquilo acabou me estragando como pessoa e me fazendo crescer sem limites.
Eu não percebia na época, mas meu agarramento constante com meu pai deixava minha mãe enciumada. Enquanto ela ficava jogada de escanteio, eu e ele nos divertíamos para caramba juntos e seria impossível contabilizar a quantidade de horas que passávamos jogando videogame na sala ou assistindo meu desenho favorito, o Pokémon. Além disso, nós dois saíamos bastante de casa também e ele tinha uma paciência incrível para me levar ao shopping e me esperar decidir por qual jogo ou vestimenta eu ia escolher. Íamos quase todo final de semana ao cinema e era indescritível como era boa a sensação de ficar lá agarradinha a ele em cada filme de animação que assistíamos só nós dois. Eu amava aqueles momentos a sós e aquilo passou a se tornar meio que obsessivo.
Você deve estar pensando agora que já era algo sexual desde o início, que eu já me insinuava para o meu próprio pai incestuosamente desde cedo, mas é óbvio que isso não é verdade. O nosso carinho naqueles tempos era puramente o de pai e filha, e especialmente ele não tinha qualquer desejo por mim — isso seria até meio doentio! —, embora adorássemos ficar abraçados e sempre muito colados.
Nosso primeiro selinho foi bastante inocente e rolou quando ele me levou para a cama à noite depois que eu desmaiei de sono na sala, e sem querer, acabou me acordando quando me deitou no colchão em meu quarto. Eu estava naquele limiar entre a inconsciência quase completa e o despertar, mas não sei porque eu me lembro bem que o segurei pelo ombro, falei que o amava e me precipitei a beijá-lo, voltando a dormir em seguida. Depois daquilo, fazíamos sempre e não era incomum que trocássemos bitoquinhas para desejar boa noite um para o outro.
Alguns anos depois daqueles primeiros contatos, eu passei a ter cada vez mais desejo em estar perto de meu pai e comecei a arranjar todo tipo de desculpas para dormir na cama de casal de meus pais, entre os dois. Eu não sabia explicar, mas era muito prazeroso dividir os lençóis com ele, bem como sentir aquele corpão quente em contato com o meu. Tinha vezes que eu o deixava enlaçar a minha cintura por trás e me encostava relaxada nele, sentindo seu coração pulsar com seu peito em contato com minhas costas. Às vezes, era eu quem me deitava em seu peito e o deixava fazer carinho em meus cabelos até que o sono viesse e tinha noites ainda que eu ficava acordada, só o vendo dormir, sentindo bem de perto o cheiro gostoso que exalava de seu corpo.
Como eu tinha dito, minha mãe não ficava nada feliz com aquelas interrupções noturnas e certa vez, ela teve uma conversa séria comigo. Disse, entre outras coisas, que eu já estava bastante crescida e que não era mais natural que eu me deitasse com eles na cama atrapalhando, o que ela cuidadosamente me chamou de “relações amorosas”. Se eu me ligasse naquelas coisas à época, eu saberia que eu estava sendo a maior empatadora dos meus pais e não teria mais saído do meu quarto à noite. Nada como alguns anos de experiência para nos botar em nossos devidos lugares!
