Capítulo 05
PENÉLOPE VERONESI
— Penélope! — o Sr. Parker gritou e bateu com a régua contra a mesa, me fazendo rapidamente olhar para si.
O seu rosto não aparentava bom humor, e não o culpo, não tenho estado realmente atenta a sua aula.
Uma sombra de descontentamento pairava sobre o rosto do professor. E quem poderia culpá-lo? A verdade é que não tenho prestado a devida atenção às suas aulas, e isso é algo que posso admitir sem reservas. No entanto, como poderia ser diferente? A minha mente teimosa insiste em reviver os eventos daquela madrugada, minando constantemente qualquer tentativa de foco.
Os lábios do meu tutor roçando na minha pele e os seus dedos pressionando a minha cintura..., o episódio foi o mais indecente e errado que eu já vivenciei em toda a minha vida, e mesmo assim, ainda assim o meu corpo clama por... Não!
As minhas bochechas devem ter adquirido uma coloração rubra, a sensação incômoda aquecendo a minha pele era quase tangível, como se as minhas emoções internas tivessem vazado para o mundo externo em um tom de vermelho envergonhado.
O olhar do Sr. Parker, meu professor, fixou-se em mim com uma intensidade que parecia transcender a mera observação. Era como se ele pudesse decifrar os segredos mais íntimos que eu tentava esconder sob a máscara da compostura. Eu sabia que as minhas recentes distrações em sala de aula não haviam passado despercebidas. Sentia-me em débito com ele por minha falta de concentração, por permitir que a minha mente vagueasse por trilhas de pensamentos que não tinham lugar no contexto educacional.
— Perdão, Sr. Parker, já não retornará acontecer — articulei, fazendo um esforço para esboçar um sorriso que, esperava, pudesse suavizar a expressão dele, que se mantinha rígida e insatisfeita, resistente a qualquer forma de apaziguamento.
Eu poderia jurar que o professor quase fumegava pelas ventas.
— De qualquer forma, a nossa aula terminou, Srta. Penélope, o Sr. D'Artagnan será informado sobre o seu desatento — informou dando-me as costas enquanto arruma as suas coisas ainda resmungando. — Durante tantos anos nunca me senti tão insultado.
— Senhor Parker... — levanto para o alcançar, mas ele rapidamente saiu da sala e logo Annie adentra a mesma com uma bandeja de água e aperitivos nas suas mãos.
— Penélope, o que se passou? — perguntou curiosa e eu sorri enquanto arrumava o meu material escolar.
— Passei a aula toda divagando — suspirei e fui saindo adjunto de Annie do cómodo. — E o Sr. Parker tem todos os motivos para se sentir insatisfeito e apresentar queixa, estou-me a sentir bastante mal por isso.
— Bem que desde manhã tens andado meio-aérea, o quê se passa? — olhei no seu rosto e penso se devo realmente contar.
Por um extenso período de tempo, eu vivi com o peso de nunca ter alguém em quem pudesse desabafar. A reclusão dos meus sentimentos sempre foi sufocante, tornando-se uma carga que eu não sabia como aliviar. No entanto, questionava a adequação do assunto em questão para discussão, tanto agora quanto no futuro.
Além disso, Annie permanecia como uma integrante da equipe do Sr. D'Artagnan, e eu suspeitava que parte do seu papel envolvesse relatar detalhes sobre mim. Com essa preocupação em mente, resolvi ocultar a verdadeira razão por trás da minha recente distração.
— Tenho tido pesadelos, mas acredito que sejam apenas pela mudança, ainda não me sinto inteiramente em casa — menti, esboçando um sorriso forçado. Annie retribuiu com gentileza enquanto eu abria a porta do meu quarto.
— Tenha paciência. Logo você se acostumará. Não posso prometer que duas semanas serão suficientes para se adaptar completamente, mas você está lidando muito bem com tudo isso. Com o tempo, este lugar se tornará como um lar para você — ela disse, colocando a bandeja com quitutes sobre a penteadeira.
Oxalá, Annie, é tudo o que eu mais quero.
— Vou trocar-me. Se você quiser, podemos nos encontrar atrás da casa mais tarde — sugeri. Ela assentiu, concordando com a ideia. Deixei os meus materiais sobre a escrivaninha, observando enquanto a minha dama de companhia saía do quarto.
Optei por um vestido de popeline branca, simples e desprovido de muitos detalhes. Como o dia já havia começado mais quente e abafado do que o habitual, escolhi chinelos confortáveis para acompanhar o vestido. Mantive o coque alto que fiz pela manhã, uma vez que não fazia sentido desfazê-lo.
Deixo o meu quarto e desço a escada que leva até o térreo da residência. Caminho por um trajeto prolongado até chegar à entrada posterior da casa, onde se abre o acesso a um exuberante jardim que se estende até uma pequena floresta. A paisagem é de tirar o fôlego, com a natureza se desdobrando numa dança de cores e texturas.
Nos últimos sete dias, fui persuadida por Annie a explorar a beleza da floresta. Sem dúvida, foi uma das melhores ideias que já me foram apresentadas. Além disso, aproveitei a oportunidade para conhecer cada recanto da casa, desvendando segredos como a piscina subterrânea e o ginásio que permite treinar durante os meses de inverno rigoroso.
O local é verdadeiramente magnífico, irradiando uma sensação de tranquilidade que só a natureza pode proporcionar. As árvores ostentam folhas em tons de amarelo, laranja e vermelho, como se estivessem orgulhosas da sua própria metamorfose sazonal.
Interrompo a minha caminhada na entrada da floresta, posicionada diante do vitral que oferece uma vista para a sala de estar e jantar. O vento traz consigo uma brisa quente e úmida, e eu delicio-me com a sensação relaxante que ele proporciona. Ergo ambos os braços, permitindo que a corrente de ar fresco acaricie a minha pele, e sou inundada por um momento de gratidão. Essa sensação faz-me lembrar dos dias na minha antiga casa, onde eu desfrutava de momentos semelhantes.
As lembranças fluem, transportando-me para um passado que parece tão distante agora. Posso ver-me vagando pelo quintal da antiga casa, sentindo a relva sob os meus pés, apenas para entrar em casa e desfrutar de uma sopa quente de legumes. E, é claro, não posso esquecer da ocasião em que peguei vários biscoitos de recheio de batata-doce da cozinha sem que ninguém percebesse.
Entretanto, essa onda de nostalgia é abruptamente interrompida pelo vazio persistente que habita no meu coração desde a partida. Conscientemente, ponho fim a essa viagem pelo túnel do tempo e concentro a minha atenção no presente. Não faz sentido perder-me em memórias distantes quando estou construindo novas experiências e novos vínculos.
O meu olhar busca por Annie, que deveria estar por perto. Porém, ao virar-me, dou de cara com um jovem que não reconheço. O susto percorre a minha espinha e um arrepio envolve-me. A surpresa inicial rapidamente dá lugar à curiosidade e cautela, enquanto o desconhecido e eu nos encaramos por um instante de incerteza.
Um grito se forma na minha garganta, mas antes que ele possa escapar, o jovem se aproxima com gestos tranquilizadores, acenando com as mãos como se pedisse que eu me acalmasse.
— Lamento imensamente tê-la assustado — disse, pondo a mão sobre o peito enquanto sorrio para ele, quase rindo da minha própria reação. — Sou Marcus Jonnues, o assistente do jardineiro.
Sinto um leve alívio ao perceber que o susto foi resultado de um simples encontro casual. Apesar do meu coração ainda estar batendo um pouco mais rápido do que o normal, a presença do jovem é acolhedora e reconfortante. As minhas preocupações iniciais se dissipam, e eu permito-me relaxar um pouco.
— Penélope, eu sou Penélope — cumprimento, estendendo a mão em um gesto amigável. Ele aperta a minha mão com um sorriso gentil. — Nunca o vi por aqui, por quê?
A aura tranquila e amigável de Marcus faz-me sentir instantaneamente à vontade, uma sensação que não posso explicar completamente. No entanto, uma voz interna ecoa um alerta suave, lembrando-me de que talvez eu esteja a projetar o meu desejo de conexão em um estranho. A carência por afeto que venho sentindo pode estar a influenciar os meus sentimentos, e eu devo tomar cuidado para não criar expectativas excessivas.
"Isso é tão esquisito..."
"Acho que a minha carência por afeto está a extrapolar o normal, já tenho Annie, não preciso de mais do que isso."
— Comecei a trabalhar hoje. Sou o novo assistente jardineiro, talvez conheça a minha avó, Isadora Jonnues. Hoje é o meu primeiro dia de trabalho aqui — explica Marcus, desviando o meu foco de pensamentos internos. — Assumi o cargo de assistente do jardineiro. E você, é uma hóspede ou talvez parente da família?
A minha mão volta junto ao meu corpo e recosto-me levemente sobre uma árvore próxima.
— Na verdade, sou uma nova hóspede por aqui. Cheguei há pouco tempo. E você mencionou a sua avó, Isadora Jonnues? Ela é a governanta da casa, certo? — questionei, aprofundando a conversa — falo mais para mim do que para ele. — Imagino que eu esteja ocupado e eu atrapalhando-o.
— Ah, sim, claro — afirma, mas depois abana a cabeça freneticamente — Não! Eu não quis dizer isso, é claro que não... — abafo o riso com a mão e o garoto para de falar para dar uma sonora gargalhada. — Estou fazendo papel de ridículo, a senhorita deve imaginar que sou um completo idiota.
— Imagino que seja apenas legal...
Um misto de curiosidade e apreciação surge dentro de mim. A conversa flui de maneira natural, como se estivéssemos destinados a cruzar os nossos caminhos naquele momento. Enquanto continuamos a conversar, compartilhamos histórias engraçadas sobre incidentes nos nossos primeiros dias de trabalho e trocamos experiências sobre os encantos da casa e os seus arredores.
No entanto, a conversa é interrompida quando uma voz conhecida chama o meu nome. Annie se aproxima, e tanto eu quanto Marcus nos voltamos na direção dela. A sua chegada repentina corta o momento, mas não posso deixar de sentir um certo alívio ao ver a minha amiga.
— Penélope, peço desculpas pelo atraso. Acabei auxiliando a nova empregada e... — começa Annie a dizer, sacudindo o seu uniforme preto para ajeitá-lo. No entanto, a sua expressão logo muda quando ela percebe a presença de outra pessoa ao meu lado. — Oh, Marcus, vejo que já conheceu a protegida do nosso chefe.
— Ah, sim... — Marcus responde, a sua expressão toma uma forma neutra, quase inexpressiva, como se um véu tivesse sido colocado sobre os seus sentimentos. Um olhar significativo é trocado entre ele e Annie. — Foi um prazer conhecê-la, Srta. Penélope — ele despede-se e parte, sem dizer mais nada.
Fico surpresa com a súbita mudança de atitude de Marcus, e essa surpresa se manifesta claramente no meu rosto. Annie coloca gentilmente a mão nos meus ombros, como um gesto de conforto.
— Você está bem? — ela pergunta, preocupação nos seus olhos enquanto me vira para encará-la.
— Você não achou isso estranho? Primeiro ele estava tão amigável, e depois, quando você mencionou o Sr. D'Artagnan, ele agiu de forma tão diferente.
Annie solta um risinho suave, como se estivesse tentando dissipar as minhas suspeitas.
— Oh, Penélope, acho que você está lendo demais nas entrelinhas. Já sabe como o nome do Sr. D'Artagnan pode ser intimidante para algumas pessoas.
— Talvez você... tenha razão — pondero, mas minha atenção continua focada na direção em que Marcus se afastou. Annie me orienta a seguir para o passeio na floresta, e embora eu siga as suas palavras, ainda me sinto intrigada pelo encontro anterior.
Caminhamos lado a lado, a trilha serpenteando por entre as árvores altas e frondosas. A atmosfera é serena, embora a minha mente esteja repleta de perguntas. O encontro com Marcus ecoa na minha mente, e eu não posso deixar de sentir que algo mais estava acontecendo sob a superfície.
Annie percebe a minha inquietação e tenta desviar a conversa para um território mais tranquilo.
— Você está gostando do nosso pequeno refúgio aqui? — ela pergunta, lançando-me um sorriso amigável. — Acho que esse é o lugar perfeito para desabafar, não é? — ela sugeriu.
— Sim, é realmente um lugar encantador. Obrigada por me encontrar aqui, Annie — falei com sinceridade.
Ela fez um gesto amigável, incentivando-me a prosseguir.
— Você mencionou pesadelos mais cedo, mas tenho a sensação de que há mais por trás disso. Se quiser compartilhar, estou aqui para ouvir.
Respirando fundo, reuni coragem para abrir o meu coração.
— Você está certa, Annie. A mudança não é a única coisa que tem me afetado. É o Sr. D'Artagnan... ele intimida-me de alguma forma, e isso tem me distraído em sala de aula. Sinto que preciso provar o meu valor para ele, mas a pressão é avassaladora. Nunca senti que as minhas notas e a minha dedicação fossem tão criticadas como são agora.
— O Sr. D'Artagnan é rigoroso, sem dúvida, mas acredite em mim, há mais nele do que apenas a fachada autoritária.
— Sim, talvez você tenha razão.
……
O relógio marca oito da noite, sinalizando um horário para eu descer as escadas para jantar com o Sr. D'Artagnan. À medida que a noite se instala, lançando os seus suaves tons escuros por toda a propriedade, sinto uma mistura de expectativa e apreensão sobre a nossa iminente conversa no jantar.
Repito a cena da aula do Sr. Parker na minha mente, a minha distração que atraiu a sua repreensão. Talvez seja isso que o Sr. D'Artagnan queira discutir. Não posso deixar de me perguntar se devo preparar-me para a palestra iminente, talvez até mesmo pedir desculpas pela minha desatenção. Parece apenas prudente estar pronto para quaisquer perguntas sobre o meu comportamento distraído.
"Vou simplesmente pedir desculpas", tranquilizo-me, uma centelha determinada acendendo-se dentro de mim. "E se ele questionar para onde os meus pensamentos vagaram, darei a mesma explicação que dei a Annie."
Preciso esforçar-me para parecer convincente.
O meu olhar se volta para o espelho ornamentado em cima da penteadeira, onde o meu reflexo encara-me com um misto de incerteza e determinação. A escova de cabelo que coloquei na vaidade faz um baque mais forte do que o pretendido. A frustração borbulha momentaneamente, mas eu rapidamente a abafo.
— Ora, Penélope, ele não deve ser excessivamente duro. Na pior das hipóteses, será uma palestra.
Eu espero.
Aguardo, os meus pensamentos girando uma teia de especulações. Annie volta para o meu quarto, batendo suavemente na porta.
— Ainda preocupada com a aproximação do Sr. Parker com o Sr. D'Artagnan e do que ele tenha dito. — Comentei, e visualizei Annie com os olhos cheios de um entendimento que beira a diversão. — Suponho sobre a sua propensão à dramatização pode não estar muito longe do alvo.
— Lamento em dizer que a tua suposição talvez esteja certa — Os olhos de Annie gritam nos cantos enquanto ela abafa uma gargalhada — Mas aconselho que mantenhas a calma, explica com calma o motivo e tudo se resolverá.
— Pois, não sei o que esperar. — O seu conselho é um bálsamo calmante para meus nervos. Respiro fundo, me firmando para a conversa que vem pela frente. Juntos, Annie e eu estamos diante da imponente porta de madeira que separa o meu espaço pessoal do mundo além. É nessa conjuntura que percebo que estou sozinha para o que vem a seguir.
Um suspiro pesado escapa dos meus lábios, traindo a minha apreensão persistente. Com um aceno determinado, agarro a maçaneta e lentamente abro a porta. A visão que me saúda é o Sr. D'Artagnan, de pé, com um ar de autoridade relaxada. Na sua mão, como costuma acontecer a esta hora, repousa um copo contendo um líquido âmbar dourado.
Eu não sei exatamente dizer o que me deixou especada no meio da entrada.
Talvez tenha sido a transformação avassaladora que encontrei diante dos meus olhos: o homem que agora se apresentava à minha visão era irresistivelmente mais sedutor, seus cabelos morenos meticulosamente arranjados, lábios carnudos envolvendo um charuto com uma confiança intrigante. Ou talvez tenha sido a iminência do tão aguardado, e, ao mesmo tempo, temido, sermão que estava por vir. Poderia até ser o ressurgir súbito das memórias daquela madrugada, invadindo o meu consciente com uma intensidade avassaladora.
Tomei fôlego rapidamente enquanto os seus olhos enigmáticos ainda recaem sobre mim.
Com uma decisão impetuosa, virei-me para fechar a porta atrás de mim. Esse gesto simples foi um pretexto para compor-me, para reunir a minha coragem, pronta para qualquer coisa, girei os calcanhares na sua direção e o cumprimentei.
— Boa noite, Sr. D'Artagnan — a minha voz soou, embora a minha consciência registrasse a proximidade crescente entre nós, levantei o rosto e o mesmo já esteja mais próximo, não o bastante para invadir o meu espaço pessoal, mas ainda assim próximo.
— Boa noite, Penélope — reconhece com um aceno de cabeça, a sua voz um timbre rico que chama a atenção, tomou a sua bebida sem desviar por algum segundo o olhar sobre mim. — Vejo que se atrasou e imagino que seja por um motivo incómodo para explicar a sua tamanha euforia.
Ele não sabe do sucedido de mais cedo?
— Perdoe-me, milorde — franzi o sobrolho. — O senhor não tem nada para me dizer? — perguntei confusa.
— Há algo que queira ouvir? — diz de forma simples e eu arregalo brevemente os olhos.
Então o Sr. Parker nada disse...
Um sorriso inconsciente delineou os meus lábios, mas rapidamente faço questão de o desfazer.
— Não, senhor — indireto a postura e caminho adjunto a ele até a mesa.
O primeiro prato que nos é servido é sopa de abóbora com especiarias que é uma divindade.
Enquanto desfrutamos da refeição em um silêncio que já se tornou habitual, eu sinto uma oportunidade se desenhando, uma chance que eu não posso deixar escapar entre os meus dedos.
Há perguntas que anseio por fazer, e tenho consciência de que não posso deixar essa oportunidade escapar.
— Senhor Sr. D'Artagnan, se me permite, eu gostaria sim de ouvir algumas coisas — coloco os talheres delicadamente no prato, observando-o enquanto ele limpa os seus lábios com um guardanapo de tecido com uma elegância distinta.
— O que deseja saber? — Os olhos esverdeados dele examinam-me, carregados de análise, aguardando pacientemente as minhas indagações.
Os pratos principais chegam, e hoje, por algum motivo especial, temos um prato japonês à nossa frente: Zaru Soba Noodles, dispostos com um toque artístico.
Pego o copo de suco de laranja e tomo um gole, deixando o frescor cítrico dançar na minha língua antes de prosseguir.
— O senhor disse ser amigo do meu pai, imagino que de longa data, portanto poderia explicar-me por que a mudança de plano — Ele leva um gole do vinho tinto enquanto os seus olhos permanecem fixos nos meus.
— Não tem explicação, Penélope — a resposta dele é dada de forma direta, e os meus olhos se arregalam em genuína surpresa.
— Como assim não tem explicação? O meu pai deixou bem explícito para mim que eu poderia apenas sair do I.T.I após completar vinte e um anos, Sr. D'Artagnan, mas o senhor me tirou de lá mais cedo desrespeitando o último desejo do meu pai, mas se ele mudou de plano tenho ao menos o direito de saber por quê.
— Penélope, quando é que você vai perceber que agora você é minha? — Ele coloca o copo com um gesto calculado sobre a mesa. Embora sentados em extremidades opostas de uma mesa espaçosa, o seu olhar perfurante atinge-me como uma lâmina afiada.
— Como assim? — A minha determinação permanece intacta, mesmo que a suas palavras tenham lançado um turbilhão de confusão.
— Basta! — A sua voz aumenta em intensidade, mantendo, no entanto, o autocontrole que lhe é característico. — Fez a sua pergunta e eu respondi-a, agora coma.
— O senhor...
— Basta, Penélope! — ele deposita uma forte pancada na mesa, me repreendendo, e a única coisa que posso fazer é-me encolher e começar a refeição.
Nada do que aconteceu até agora será capaz de me fazer desistir da busca pelos porquês que guardei silenciosamente durante esses longos doze anos.
Coniffer não era aparentemente o único a manter segredos de mim. Agora, já não sou a menina que era, mas sim uma mulher, e por isso não vou mais permitir que verdades sobre a minha própria vida sejam ocultadas.
Nesta noite, a atmosfera na sala de jantar era tensa, como se as palavras não ditas pairassem no ar. Sentados em lados opostos da ampla mesa, trocávamos olhares fugazes enquanto cada garfada parecia uma distração temporária de uma verdade incômoda.
— Amanhã iremos a uma festa — declarou de repente. O vejo levantar e partir da sala, evidentemente nem tocou na sua refeição principal.
A saída dele da sala foi marcada por um movimento rítmico de levantar-se da cadeira, rompendo o círculo da refeição que permaneceu praticamente intocada à sua frente. Os seus passos ecoaram pelo ambiente, uma trilha sonora silenciosa da sua partida. Era evidente que algo pairava no ar, uma tensão invisível que aumentava gradativamente, uma consciência mútua de que o jogo das aparências estava se tornando insustentável.
O que quer de mim, Sr. D'Artagnan?
