Capítulo 2
O sangue ainda escorria pelo chão quando eu me levantei. Senti como se tivesse saído do próprio inferno, ou melhor, como se eu fosse o próprio diabo ressuscitado, cuspido direto do abismo pra cobrar com juros e crueldade. Meus olhos tavam vermelhos, injetados de ódio, secos de tanto chorar e queimando feito brasa viva. O peito? Já não doía. A dor tinha virado cinza. Só restava uma coisa: raiva. Uma raiva que fervia na alma, quente, espessa, que alimentava meus músculos, meu sangue, meu querer.
Montei na Medusa como um demônio montando seu cavalo de guerra. A moto rugiu, reconhecendo meu estado. A cada giro, a cada vibração, parecia que ela entendia que o homem ali não era mais um pai... era um monstro com uma missão.
Podia ouvir som das motos de Bruno e Felipe logo atras como dois cavaleiros negros, dispostos a lutar minhas lutas e a passar comigo por aquele tormento trazendo o inferno para o cupado daquilo.
Levei a Medusa até o Comando, o barracão no alto do morro onde a gente organiza as ações, os corres, as decisões. Entrei sem dizer nada. A galera abriu caminho. Ninguém ousou me olhar nos olhos. Sabiam o que eu era naquele momento: um vulcão prestes a explodir. Me joguei na cadeira de couro rasgado, jogando o corpo pra trás, tentando puxar um raciocínio de dentro do caos que era minha mente.
A dor tinha sumido. Era estranho. Nem conseguia sentir mais o luto... só um buraco. Uma ausência que parecia gritar em silêncio dentro de mim. Mas não era só isso. Não era só a cabeça da Serena, não era só o coração dela ali dentro daquela caixa maldita.
Foi quando uma coisa me atingiu como uma marretada no crânio: Maria Marta. Minha fiel. Minha parceira. A mãe da minha filha. Ela tava com a Serena. Tinha dito que ia fazer uma viagem de três dias, um passeio fora da cidade, pra espairecer, pra dar um tempo da tensão do morro. E agora, nada. Nenhum sinal. Nenhum pedaço. Nenhuma prova de que ela tava morta. Nada.
E isso... isso era pior.
Porque se ela não tava morta, então…
Ela tava viva.
Tava viva e nas mãos de quem mandou aquele recado.
Tava viva, sendo torturada, forçada a ver tudo.
Meu estômago virou. A cadeira quase voou quando me levantei de novo. O grito veio de dentro da garganta como um trovão, assustando até os mais velhos da quebrada:
– EU QUERO INFORMAÇÃO, CARALHO! QUALQUER COISA! QUAL FOI O FILHO DA PUTA QUE MANDOU A CAIXA?! QUEM VIU, QUEM RECEBEU, QUEM TOCOU NELA! EU VOU DESTRUIR TODO MUNDO ATÉ ACHAR ESSA PORRA!
Bruno e Felipe rugem como leões fazendo se cumprir minhas ordens
As paredes tremeram. Os vapores começaram a correr. Um pegou o rádio. Outro foi direto no beco onde os olheiros ficam. A quebrada entrou em modo de guerra. Gente vasculhando câmera, ouvindo boato, ligando pra contato em Bangu, na Pavuna, até na milícia. Quem ousasse errar, morreria. E todo mundo sabia disso. Ninguém queria virar alvo da minha fúria.
Felipe depois de um tempo se aproximou tremendo:
– Chefe... tem uns caras tentando puxar placa de motoca que fez entrega... tavam de capacete, mas a gente tem pista... calma que vamo chegar.
Eu só assenti, sem falar nada. Voltei pra sala. Fechei a porta. Escuridão.
Me joguei no sofá. A arma na mão, pesada. Meus dedos tremiam, não de medo, mas de necessidade. Uma urgência. Eu precisava agir. Fazer algo. Matar alguém. Gritar. Explodir. Mas nada disso traria minha filha de volta. Nada ia colar a cabeça da Serena de volta no corpo dela. Nada ia limpar aquela imagem da minha mente.
Mas Maria Marta... ela podia ser salva.
Se tão fazendo isso com ela agora, se tão mantendo viva pra me provocar, pra me quebrar mais... então eu ainda tenho tempo. Eu preciso ter. É minha missão agora. É a dívida que eu tenho com minha filha.
Eu fechei os olhos. E vi ela. Vi Maria Marta amarrada, gritando, assistindo a morte da filha. Talvez sendo forçada a escolher. A ver. A segurar o corpo. Meu Deus... ela devia estar destruída. E mesmo assim, viva.
Uma lágrima solitária escorreu. Mas eu enxuguei com raiva.
– Eu vou te tirar de lá, meu amor... eu juro... nem que eu destrua essa cidade inteira.
Foi então que o rádio estalou e Bruno falou:.
– Chefe... pegamo o entregador. Tamo trazendo ele pro Comando.
Minha espinha gelou.
A vingança ia começar agora.
Eu sabia para onde eles iam leva-lo para a sala do desenrolo, ali era o meu habitat natural , assim como o corpo precisa de ar, o meu espírito precisava derramar sangue. O sangue desse porco.
A sala ficava nos fundos de uma estrutura de alvenaria simples, camuflada entre os barracos do alto do morro. Por fora, era apenas uma porta de metal enferrujada com uma tranca reforçada, discreta o suficiente para passar despercebida por quem não sabia onde estava pisando. Mas, ao cruzar aquele limiar, o ar mudava.
Era um cômodo quadrado, de paredes de cimento grosso, sem reboco. O teto baixo e a ausência de janelas criavam uma sensação opressora, quase sufocante. A única iluminação vinha de uma lâmpada pendurada por um fio torto no centro do teto, cuja luz amarelada tremia de vez em quando, como se a própria energia tivesse medo daquele lugar.
No chão de concreto manchado, marcas escuras e secas contavam histórias silenciosas de sangue antigo. Um ralo enferrujado no canto, entupido por detritos e pedaços de tecido, era a única saída para os fluidos da violência ali cometida. O fedor era uma mistura ácida de suor, urina e ferrugem, impregnado nas paredes como mofo de sofrimento.
Encostada na parede do fundo havia uma cadeira de ferro, sem um dos braços, soldada a uma chapa de metal no chão — para impedir qualquer tentativa de fuga. Grilhões e correntes enferrujadas estavam fixados nos braços e nas pernas da cadeira, e uma tira de couro ressecado pendia do encosto, usada para prender a cabeça da vítima e forçá-la a olhar para frente.
Ao lado da cadeira, sobre uma bancada improvisada feita de blocos de concreto e uma porta velha, repousavam alguns instrumentos: alicates, martelos, cabos de vassoura quebrados, uma extensão elétrica com ganchos de cobre e fios descascados, todos manchados, usados e silenciosos como coveiros de carne. Havia ainda um balde metálico, sujo, com algo escuro e coagulado no fundo — talvez água, talvez sangue — difícil dizer.
Nas paredes, algumas pichações apagadas: nomes riscados, datas, símbolos de facção. E um espelho pequeno, trincado, preso com fita isolante. Um reflexo torto de quem entrava. Um lembrete cruel do que se tornava ali dentro.
