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Capítulo 1 - O Despertar de Serena

O sol brilhava intensamente naquele dia, atravessando as frestas do pequeno barraco onde Serena vivia. Ao abrir os olhos, ela ouviu o canto suave dos pássaros e sentiu o coração aquecido pelo cenário familiar. Lá fora, as árvores e as plantas ao redor de seu lar pareciam florescer como sempre, mas, em seu coração, havia uma sombra: seu avô, Joaquim, quem cuidou dela a vida inteira, havia partido seis meses atrás, deixando um vazio impossível de preencher.

Serena levantou-se devagar, inspirando o ar fresco da manhã enquanto espiava pelas frestas de madeira. A lembrança do avô ainda era dolorosa, e uma lágrima escorreu silenciosa em seu rosto. Mas ela logo se lembrou das palavras dele: "Nada de tristeza, minha menina. Segue firme e cuida de ti." Com um suspiro profundo, ela secou o rosto e foi até o chuveirão improvisado no quintal, onde a água fria, que seu avô tão habilidosamente havia instalado, a ajudava a despertar e revigorar-se para o novo dia.

Após o banho, Serena vestiu seu vestido branco, já surrado, que deixava seus ombros expostos, como uma cigana delicada e solta pelo vento. Seus cabelos castanhos caiam em ondas suaves e sua pele, de um tom saudável, combinava com o frescor da manhã. Pegou sua cesta para buscar frutas e legumes na fazenda dos Castellani, onde os patrões generosamente permitiam que ela colhesse alimentos.

Enquanto atravessava o caminho de terra batida, Serena se sentia em casa. Ela conhecia cada centímetro daqueles arredores, cada som e cada perfume das árvores e das flores. Contudo, não demorou muito até que uma voz rude interrompesse seu devaneio.

– Olha só quem tá aqui, a beleza selvagem da fazenda – comentou o capataz Silvino, com aquele sorriso que sempre a deixava desconfortável. – Já indo pedir esmola de novo, Serena?

Ela tentou manter a calma, respirando fundo antes de responder.

– Bom dia, Silvino. Não é esmola. Os patrões me permitem colher um pouco, e também venho para trabalhar. Eles são bons comigo – respondeu ela, com o tom mais firme que conseguiu.

Silvino a olhou com aquele mesmo olhar de sempre, cheio de insinuações, e deu alguns passos em sua direção.

– Ah, mas pra mim não deixa de ser esmola. Um rostinho como o seu merece mais do que uns restos de fazenda. Você sabe que eu posso cuidar de você... Ser minha mulher. Tá cada vez mais linda, Serena – ele completou, aproximando-se, estendendo a mão.

Serena sentiu o corpo enrijecer e o coração disparar. Com um passo rápido para trás, respondeu:

– Tenho que ir, estou atrasada – disse ela, virando-se de imediato, apressando o passo para longe de Silvino, sem sequer olhar para trás.

Assim que chegou à cozinha da fazenda, Serena encontrou a acolhedora dona Alzira, que lhe lançou um olhar curioso.

– Ora, menina, parece que viu um fantasma! E olha só, está descalça de novo. Essa menina não tem jeito mesmo!

Serena riu timidamente, sentindo o alívio de estar em um ambiente seguro.

– É que meus sapatos machucam. Já me acostumei a andar descalça, dona Alzira – respondeu, enquanto sentava-se na cozinha, absorvendo o aroma de café fresco e pães quentinhos que invadiam o ambiente.

Dona Alzira a serviu com uma xícara de café quente, e a manhã passou em um clima de tranquilidade. Mais tarde, Serena foi designada para levar o café ao senhor Inácio, o patriarca da família Castellani, que estava em seu escritório. Ao chegar, ela o encontrou com o semblante carregado e o olhar fixo na janela.

– Com licença, senhor Inácio... Aqui está seu café – disse Serena com a voz suave.

Inácio se virou, suavizando o olhar ao vê-la.

– Obrigado, Serena. E como você está, menina?

– Bem, senhor, obrigada – respondeu, inclinando a cabeça respeitosamente.

Logo, a senhora Eleonora entrou na sala. Serena a cumprimentou timidamente, mantendo-se no canto enquanto o casal discutia sobre o filho, Alessandro, que deveria chegar em breve.

– Alessandro vem, afinal? – perguntou Eleonora, visivelmente preocupada.

Inácio suspirou, contrariado.

– Sim, contra a vontade dele, mas vem. Já está na hora dele se responsabilizar pelo que é nosso.

Eleonora olhou para o marido com hesitação.

– Ele cuida bem das coisas na cidade, Inácio... Não acha que deveríamos dar mais tempo a ele?

Inácio balançou a cabeça, decidido.

– Já demos tempo demais. Agora ele precisa ver as coisas de perto. É hora de Alessandro agir como um verdadeiro Castellani.

Serena observava a conversa com interesse discreto. Eleonora, percebendo seu olhar atento, aproximou-se dela com um sorriso amável.

– E você, Serena? Já pensou sobre o que conversamos? Seria melhor você ficar na fazenda. Não é bom que fique distante sozinha – sugeriu a senhora, com um tom protetor.

Serena abaixou os olhos, hesitante.

– Sim, senhora. Estou me organizando, mas... o barraco guarda tantas lembranças do meu avô... – ela murmurou, engolindo em seco. – Mas eu prometo que, se houver qualquer problema, eu aviso.

Eleonora assentiu com um olhar carinhoso, e Serena retirou-se com uma sensação de alívio e conforto.

Mais tarde, de volta à cozinha, Serena conversava com dona Alzira enquanto descascava legumes.

– Menina, você precisa encontrar um bom homem para cuidar de você. Um que seja decente e te proteja – sugeriu Alzira.

Serena suspirou, refletindo sobre as palavras da senhora.

– Meu avô sempre conversava comigo sobre isso. Mas... não sinto que o meu amor esteja aqui.

Alzira sorriu compreensiva.

– Ah, mas e o Luiz Fernando? Ele parece gostar de você, e é um bom rapaz.

Serena riu, envergonhada.

– Luiz Fernando é gentil, mas... só o vejo como um amigo, dona Alzira.

Alzira suspirou, sacudindo a cabeça com um sorriso enquanto Serena voltava sua atenção aos legumes, tentando afastar os pensamentos confusos que sempre surgiam em relação ao futuro.

A tarde corria tranquila, mas Serena sentia uma agitação inexplicável em seu coração, como se uma tempestade se aproximasse silenciosa, mas inevitável. Enquanto olhava pela janela da cozinha para o horizonte distante, uma sensação de inquietude misturada a curiosidade a invadia.

Naquele mesmo instante, um carro de luxo adentrava o caminho da fazenda. Serena mal sabia que, em breve, sua vida tranquila estaria prestes a mudar, e que Alessandro Castellani traria consigo muito mais do que apenas novos negócios...

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