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5. Somente minha

A sala de jantar da mansão brilhava sob a luz dourada dos candelabros suspensos, refletindo nos cristais e pratos cuidadosamente dispostos sobre a longa mesa de carvalho. O perfume de especiarias e vinho aquecia o ambiente, misturado às risadas ocasionais das mulheres que já estavam reunidas, conversando em pequenos grupos.

Quando a porta se abriu, todos os olhares se voltaram para Lyssaria. Seus cabelos negros e lisos, soltos como uma cascata, reluziam sob a luz, e o vestido vermelho acentuava sua pele pálida e seus olhos azuis faiscantes. Ela avançou pela sala em sua cadeira de rodas, erguendo o rosto com um sorriso doce.

— Boa noite a todas! — disse, a voz melodiosa ecoando pelo salão.

Um coro de vozes respondeu, algumas animadas, outras mais contidas. Lyssaria se posicionou entre Kaela e Miranda, que já a esperavam.

Kaela foi a primeira a se inclinar em direção a ela, os olhos azuis ardendo de interesse.

— Você está tentadoramente linda essa noite, Lyss. Sério, vermelho lhe cai muito bem. — murmurou, tocando de leve a mão de Lyssaria sobre a mesa.

Lyssaria corou levemente, mas manteve o sorriso.

— Obrigada, Kaela. Você também está muito bonita como sempre. — respondeu, e por um instante seus olhos se voltaram para Miranda.

A vampira de cabelos cor-de-rosa estava absorta em sua taça, mas ao sentir o olhar de Lyssaria, virou o rosto e bebeu um gole do vinho escuro.

— Você também está bonita, Miranda. — disse Lyssaria, tentando quebrar o gelo.

Miranda apoiou a taça com força sobre a mesa, o tom ríspido escapando como uma lâmina.

— Pare com isso. Eu não preciso que me bajule.

Lyssaria piscou, surpresa, a voz diminuindo.

— Me desculpe?

Kaela, no entanto, interveio de imediato, sua expressão indulgente voltada apenas para Lyssaria.

— Não ligue para ela, Lyss. — disse, ignorando Miranda. — Pedi que a empregada preparasse todos os seus pratos preferidos. Espero que goste, minha querida.

Lyssaria abriu um sorriso suave, enternecida.

— Obrigada, Kaela. Você sempre pensa em tudo.

Kaela ergueu a mão e tocou delicadamente o rosto dela.

— Tudo para agradar a minha noiva.

Antes que Lyssaria pudesse reagir, Kaela inclinou-se e tomou seus lábios num beijo seguro, que foi correspondido com doçura. O ambiente pareceu suspender o ar por um segundo, até o som de vidro se partindo interromper o momento.

CRASH!

Todas olharam ao redor. Miranda estava com a mão ensanguentada, os olhos vermelhos faiscando de raiva, os dedos ainda segurando os cacos de sua taça partida.

— Está tudo bem aí, Miranda? — perguntou Kaela com um sorriso provocador.

Lyssaria, preocupada, inclinou-se na cadeira.

— Você se machucou?

Miranda puxou lentamente um pedaço de vidro da palma da mão. O sangue escorreu por um segundo antes de a ferida cicatrizar sozinha, desaparecendo sob a pele alva.

— Foi só um acidente. Às vezes não consigo controlar minha força. — disse, com frieza.

— Sei... — respondeu Kaela, rindo baixinho.

O clima ficou mais denso, até que Adriele, que apenas observava, deixou escapar uma risada suave.

— Dividir é divino, Miranda.

A vampira virou-se, os olhos semicerrados.

— Você quer me dizer alguma coisa, marimanta?

Adriele riu alto, ajeitando o xale vermelho sobre os ombros.

— Para bom entendedor, meia palavra basta.

Miranda a encarou por alguns segundos, a tensão faiscando no ar, antes de responder em tom baixo e ameaçador:

— Melhor ficar na sua, se não quiser arrumar problema.

E piscou de forma ambígua.

O jantar prosseguiu, ainda que o clima fosse permeado por flertes, provocações e indiretas que se espalhavam pela mesa como faíscas prestes a incendiar. Os pratos eram servidos, taças se erguiam, mas os olhares diziam mais do que qualquer palavra.

Quando finalmente terminaram, todas seguiram para a sala de estar. O ambiente se encheu de música: Theodra sentou-se ao piano e fez os dedos deslizarem com suavidade pelas teclas, enquanto Kaela se levantou e começou a cantar, a voz quente preenchendo cada canto do salão.

As outras observavam, algumas batendo palmas discretas no ritmo da melodia. Lyssaria sorria, entretida, até sentir Adriele aproximar-se e esfregar suavemente o joelho contra o dela, inclinando-se para sussurrar algo em seu ouvido. A banshee riu baixinho, envergonhada, sem perceber os olhos ardentes que a observavam de um canto.

Miranda estava parada na sombra, imóvel, o corpo tenso. A cada risada de Lyssaria, a cada toque de Adriele, sua raiva crescia.

— Chega! Isso é ridículo. — murmurou para si mesma.

Num piscar de olhos, desapareceu, teletransportando-se para seu quarto. O vestido elegante foi deixado de lado, substituído por uma camisola vermelha de seda. Deitou-se na cama fria, o quarto mergulhado na escuridão, tentando sufocar o turbilhão de sentimentos que a consumia.

Mas, mesmo no escuro, era impossível não pensar em Lyssaria.

O quarto de Miranda estava mergulhado no escuro, apenas o luar filtrava-se pelas cortinas pesadas. A vampira, deitada com a camisola vermelha de seda, finalmente caiu no sono, mas seus sonhos não trouxeram descanso.

No sonho, ela estava sentada na beira da cama, os olhos vermelhos faiscando em aborrecimento. Ao seu lado, Lyssaria se levantava mas ali, no mundo onírico, a banshee conseguia andar com naturalidade. Seus pés descalços tocaram o chão frio, e ela começou a se vestir apressadamente, puxando o tecido de um vestido leve sobre os ombros.

— Por que não? — perguntou Miranda, a voz carregada de dor e incredulidade.

Lyssaria parou por um instante, virando-se para encará-la.

— Eu sei que não entende, mas eu não posso ficar somente com você. O que sinto pelas outras é muito forte. Sinto muito.

Miranda se levantou num movimento brusco, os olhos faiscando. Caminhou até ela e tomou-lhe o rosto entre as mãos.

— Mas nenhuma delas te ama como eu. Eu mataria e morreria por você. Me peça qualquer coisa, meu amor, e eu farei para demonstrar o quanto te amo.

Aproximou o rosto, sua voz agora quase um sussurro.

— Você não precisa delas. Só precisa de mim. Deixe-me marcá-la como minha e então seremos só você e eu para sempre.

Tentou beijá-la, mas Lyssaria virou o rosto e recuou, afastando-se com firmeza.

— Você sabia que seria assim quando escolheu ficar comigo. Ou aceita me dividir ou terminamos aqui. É você quem sabe. — disse, fria, caminhando em direção à porta.

Miranda estremeceu, tomada por uma mistura de mágoa e ódio. Seus olhos marejaram, mas a expressão endureceu. Em um instante, moveu-se com velocidade vampírica, atravessando a distância até Lyssaria. Sua mão perfurou o peito dela com brutalidade, e os dedos agarraram o coração pulsante.

— Me desculpe, mas prefiro vê-la morta que nos braços de outra. — sussurrou, as lágrimas escorrendo pelo rosto delicado.

Com um puxão violento, arrancou o coração de Lyssaria, que caiu de joelhos, os olhos azuis arregalados em dor e incredulidade. Por um segundo, antes de tombar, encarou Miranda como se perguntasse “por quê?”. O corpo caiu inerte ao chão, o vestido manchado de sangue.

Miranda ficou ali, imóvel, encarando o coração entre seus dedos. O silêncio pesava, e um suspiro escapou de seus lábios.

Foi então que o sonho se partiu como vidro.

Miranda acordou sobressaltada, sentando-se na cama, a respiração acelerada, o corpo trêmulo. Passou alguns segundos em silêncio, tentando se recompor, até levar as mãos ao rosto. Quando finalmente se ergueu, não pensou duas vezes: num clarão de energia sombria, se teleportou.

Em um piscar de olhos, estava no quarto de Lyssaria.

A banshee dormia tranquilamente, os cabelos negros espalhados sobre o travesseiro, o rosto sereno iluminado pela lua. Miranda se aproximou, levitando silenciosamente até pairar sobre ela. Seu rosto desceu próximo ao da jovem, tão perto que poderia roubar-lhe um beijo. O olhar de Miranda era uma mistura de devoção e possessividade doentia.

— Você é MINHA... — murmurou, num tom baixo, carregado de desejo e obsessão.

Num movimento rápido, desapareceu na escuridão, o perfume doce de seu corpo ficando para trás.

Lyssaria, ainda no torpor do sono, despertou de repente. Os olhos azuis se abriram, confusos, e ela respirou fundo. Sentiu aquele perfume inconfundível no ar, como se Miranda ainda estivesse ali, pairando sobre ela.

Olhou ao redor do quarto silencioso, sem encontrar nada. Depois de alguns instantes, suspirou, recostou-se novamente no travesseiro e fechou os olhos.

Logo, o sono a envolveu outra vez.

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