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Capítulo 3

—Bem, Lara, por que uma reunião do clã dos C?

—Colette, para de me chamar assim, não é legal! É mais ridículo. —Carlos, sinto muito por você, como você aguenta ela?

—Quer falar sobre estar solteira? É você que está desesperada.

Começamos a rir como idiotas. Carlos está um pouco perdido, ou melhor, muito, mas tenta se acostumar.

—Bem, o que tá rolando?

—Eu… só queria ver vocês…

—Chega, Caca! —Estávamos muito preocupadas com você. Se é só para nos ver, podemos nos encontrar quando quisermos.

—Mas… mas… o Carlos mora agora em Lille e você vai se mudar para Bordeaux, Inès…

—Não chore! Vamos nos ver de vez em quando. Não é nada demais, e vamos conversar pelo FaceTime com frequência.

As duas me abraçam. Não consigo contar a vocês o que está acontecendo comigo. Não consigo.

—Agora que a senhora fez seu drama, podemos comer?

—Com ou sem o meu drama, você teria comido de qualquer jeito, Colette.

Carlos e eu nos levantamos para pedir e pegar nossas bandejas. Esperamos no balcão até o garçom terminar.

—Você vai me contar a verdade?

—O que te faz pensar que eu te menti?

—Eu te conheço bem, afinal a gente namorava...

—Shhh! Decidimos que não falaríamos mais sobre isso. Agora você está namorando a Noémie e eu não contei a ela que nós... Que éramos...

—Eu entendo. Mas pelo menos sei que estás a esconder-me alguma coisa. Quando estiveres pronta, conta-lhe. Mas, quanto mais tempo guardares esse segredo, mais difícil será confessá-lo. Vamos esperar, pelo menos eu vou esperar.

—Farias algo —indigno com alguém com quem não tens o direito de o fazer— para proteger a tua família de um segredo que poderia dividi-la para sempre?

Não acredito que contei meu problema pra ele, quando nem mesmo consegui falar sobre isso com as meninas. Espero ter conseguido resumir minha situação, que me parecia extremamente complexa. Mas acho que esse é um dos poderes ocultos que ele sempre teve: a capacidade de conquistar a confiança das pessoas pra que elas se abram com ele.

Se eu estivesse nessa situação, com certeza faria algo — mesmo que fosse indigno, porque a família é o mais importante e, se você a perde, perde tudo.

Pegamos nossas bandejas e nos dirigimos à nossa mesa. É verdade que ele não conhecia toda a história, mas tinha dissipado todas as minhas dúvidas. Agora sei o que vou fazer. Afinal, eu tinha outra opção?

É segunda-feira e hoje é o dia em que tenho que dar uma resposta ao senhor Kessler. É uma situação realmente assustadora e estressante. Ao sair do chuveiro, me olho nu no espelho e me pergunto o que o terá atraído em mim. É verdade que tenho um rosto bonito, mas nada mais. Tenho pouco peito, mas… Talvez minha bunda. Não vou mentir, herdei isso da minha mãe: um bumbum generoso e quadris largos, embora meu bumbum não seja enorme.

E, como a Noémie sempre me diz, eu deveria usar roupas mais justas do que meus jeans largos demais; isso faria as pessoas se virarem pra olhar. —Ah, Colette! Adoro essa garota. Continuo achando que o Carlos e eu fizemos bem em não te contar nada sobre a gente.

Não é mentira, até minha mãe me repreendia por isso antes, mas como viu que eu não dava ouvidos, parou de fazer isso. E, teimosa como sou, continuo comprando roupas quatro tamanhos maiores que o meu para esconder o volume que tenho nessa área. É uma das partes do meu corpo que mais me custa aceitar, para não dizer que acho muito difícil.

—Elise, você vai se atrasar, se apresse!

O grito da minha mãe me traz de volta à realidade. Me visto rapidamente: saia preta simples e rodada, meia-calça, camiseta vermelha, jaqueta preta e sapatos de salto pretos. Antes de descer para a cozinha, como vocês devem ter percebido, a saia é muito mais larga e comprida do que o meu tamanho. Pego rapidamente uma torrada.

—Você não vai comer?

—Não, não tenho tempo. Vou comprar um café no Starbucks que fica ao lado do IPESG. Nos vemos hoje à noite! Respondo enquanto saio correndo.

Corro para não perder o metrô. Hoje tenho matemática na última aula. Por que esse tipo de matéria é sempre à tarde? Se você está na minha situação, ou seja, se você é péssimo em matemática e não se dá bem com o professor, então vai entender perfeitamente como me sinto.

Chego a tempo, depois de uma corrida louca. O dia passa sem dificuldades. Mas, infelizmente, chega a hora da matemática. Sento-me em um banco do anfiteatro e espero em silêncio.

Ouvem-se passos e a sala fica em silêncio. Ele abre a porta e avança silenciosamente pela sala em direção à sua mesa. Todos os olhares se voltam para ele. Ele deixa a pasta sobre a mesa antes de percorrer a sala com o olhar. Tenho a impressão de que, quando me vê, ele sorri. Engoli em seco com dificuldade. Então começa a aula. Infelizmente, estou sentada ao lado da Linda.

—Você não acha que o professor tem uma bunda linda?

—Linda, um pouco de respeito. Afinal, ele é o professor.

Mas ela não está errada, e hoje ele estava usando um moletom que marcava perfeitamente a bela bunda dele.

—Pára de bancar a santinha. Sabemos muito bem que ele é o objeto das fantasias de todas as garotas e você não é exceção.

—Você tá enganada…

—Senhoritas Elise e Linda, se querem discutir, pelo menos façam isso com a turma toda —diz ele com voz gelada e irrevogável.

—A gente tá esperando por você. —Se você não disser nada, a aula não vai continuar, mas prometo um dever difícil pra próxima aula.

Fazendo jus às suas palavras, ele largou o marcador e se apoiou no quadro, esperando que alguma de nós falasse. Toda a atenção se concentrou em nós.

—A Elise dizia que ele tinha um traseiro maravilhoso e eu lembrei a ela que ele era nosso professor e que não podia falar assim dele…

—Isso não é verdade…

Um sorriso malicioso se desenha no rosto do Sr. Kessler.

—Obrigado, senhorita Linda. Senhorita Elise, teremos que esclarecer algumas coisas no final da aula.

Ele retoma a aula com calma e a aula passa muito rápido. Continuo sem acreditar no que ouço: como a Linda pôde mentir assim sobre mim?

O sinal toca e eu pego minhas coisas.

—Senhorita Elise, venha limpar o quadro enquanto todos saem, assim podemos ter nossa conversinha.

Levanto-me e aproximo-me do quadro. Todos saem e a sala fica vazia. Quando termino de limpá-lo, viro-me e ele me empurra violentamente contra ele.

—Então você gosta da minha bunda, minha pequena Elise?

—Não fui eu quem disse isso, foi a Linda.

—Vais me dizer que não pensas o mesmo?

—Bom, voltemos ao assunto. Qual é a tua resposta?

—Dizes isso como se eu tivesse tido apenas uma oportunidade de escolher.

—Não é mentira, mas gosto de mulheres inteligentes e com boas curvas como tu —diz ele, mordendo o lábio inferior.

Ele me solta e vai até a mesa para tirar da pasta um dossiê de quatro ou cinco folhas grampeadas. Ele pega uma da pilha.

—Senta!

Sento na cadeira dele e ele deixa sobre a mesa a folha que tirou antes.

—Lê! Te dou cinco minutos!

Vejo que é um contrato com o meu nome e o dele.

Contrato: este contrato vincula oficialmente e por lei a senhorita Sogna Elise ao senhor Kessler Adrien Kessler. Ao assinar este documento, a senhorita Elise se compromete a se tornar propriedade do senhor Adrien Kessler, sem coação e por sua própria vontade.

Assinatura de Adrien: XXXX

Assinatura de Elise Sogna:……………….

Fim do contrato.

—Por minha própria vontade? É muito irônico… Não há resposta. Parece muito com as práticas sadomasoquistas, não é?

—Não! É diferente. No BDSM, um casal evolui; o dominante ensina a submissa a desfrutar de sua condição, testa seus limites e ambos evoluem juntos sob certas restrições. No entanto, neste caso, eu possuo seu corpo sem limites. Posso fazer tudo contigo, tudo! Ao pronunciar essas últimas palavras, um olhar doentio se reflete em seus olhos.

—Você parece…

—Você?

—Desculpa. —Parece que você sabe muito sobre o assunto.

—Sim, no passado fui dominante em muitos relacionamentos BDSM. Mas não gostava de certas restrições desse tipo de relacionamento e acho que oferecia liberdade demais à submissa.

—Bom, vamos parar de falar e assina esse papel.

Ele se aproxima perigosamente de mim e fica atrás de mim. Sinto sua respiração quente na nuca. É tão excitante.

—Não me faça repetir! Não estou com disposição. Seu tom é cortante. Dou 30 segundos, depois vou ligar para sua mãe.

—Não faça isso, por favor. Vou assinar. Assino o maldito papel dele. Ele o pega e se afasta de mim.

—Por que você me magoa tanto? Você se diverte fazendo as pessoas sofrerem?

Começo a chorar. Ele se aproxima de mim, me faz levantar e sorri para mim.

—Lembre-se, Bella, que sou a única pessoa com o direito de fazer você chorar e sofrer. Agora você me pertence completamente. Vamos! De qualquer forma, você tem que voltar para casa. Me dá seu celular!

Eu te dou e ele pede a senha.

—Me dá!

Eu dou. Ele desbloqueia meu celular e salva o número dele.

—É melhor você não mudar a senha. Quero acesso total a tudo que é seu. Vou te mandar meu endereço. Você tem que ir lá. Se não estiver lá na hora certa, não vou te perdoar. Fui claro?

—Sim…

—Muito bem, até mais, gata.

Ele sai da sala e, alguns minutos depois, eu também saio. Vou rapidamente para casa. Ao chegar, vejo minha mãe.

—Você está bem, querida? Como foi o dia?

—Bem…

—Mas você chorou… —O que aconteceu? Me conta!

—Não, mãe. Me deixa em paz!

Subo correndo pro meu quarto sem deixar minha mãe dizer mais nada. Me tranco lá dentro e começo a chorar. Como eu pude arruinar minha vida assim? E agora tudo o que me pertence e faz de mim quem eu sou pertence a um pervertido pedófilo.

Desde aquele dia, a gente se ignora e, quando ele olha pra mim na aula, sinto que fico com as bochechas vermelhas. A noite de sexta-feira chega rápido demais pro meu gosto. Naquela mesma manhã, recebo uma mensagem com um endereço e algumas palavras: —Será que me deparei com um maníaco controlador? É verdade que ele me disse que tinha sido dominante em relações sadomasoquistas. Fico perdida nos meus pensamentos.

—Elise, chegou um pacote para você! Venha buscá-lo.

Saio do meu devaneio e percebo que estou atrasada. Me arrumo e coloco uma calça jeans básica, sapatilhas pretas, uma blusa branca e um moletom da mesma cor da calça.

Ele não esperava por isso.
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