Capítulo 08
Sarah
Caminho até o restaurante com a barriga clamando por um pouco de comida, mas assim que entro no restaurante e vejo a minha tia, a fome some, e só penso em uma coisa: tenho que sair daqui.
Logo eu dou meia volta tentando sair antes que ela me visse, mas já era tarde demais.
— Oh, Sarah? — ela me vê e parece surpresa, mas não tão surpresa.
Ela vem até a porta do restaurante, onde eu ainda estava.
— Tia Safira — dou um meio sorriso tentando parecer surpresa em vê-la ali. Na verdade eu e até que estava surpresa, mas uma parte de
mim que mais cedo ou mais tarde esse encontro iria acontecer.
— Não faz essa cara comigo — ela diz e revira os olhos. — Você me lembra tanto a sua mãe, vem cá — diz ela me puxando para um abraço, ignorando totalmente o quão estranho era nos ver depois de tantos anos.
A tia Safira sempre foi muito próxima da família, ela era irmã da minha mãe e depois que nossa mãe faleceu, a tia Safira se tornou o exemplo mais próximo de mulher para mim.
— Por que não parece surpresa em me ver na cidade? — pergunto após nos afastar.
— Eu atendi a ligação quando os seus chefes ligaram para contar ao seu pai que você estava por aqui — ela explica rapidamente. Sabia que eles riram contar. Me imagino revirar os olhos, mas não o faço.
— Então ele não sabe? — pergunto e ela nega com a cabeça.
Respiro aliviada.
— Não acha que está na hora de voltar para casa? — ela pergunta percebendo minha reação.
— A senhora sabe o que aconteceu — digo a cortando. Não gosto de falar do assunto é muito menos que me pesam para voltar atrás na minha decisão de me afastar da família.
— Sim, mas eles se arrependem tanto e querem você de volta — ela segura a minha mão e da uma leve apertada, como se quisesse dizer que vai ficar tudo bem.
— Tia, eu os vi uma vez, depois que sai de casa, eles pareciam ótimos, uma família perfeita e feliz.
— Oh Sarah — ela fala.
— Se veio aqui me convencer peço que nem continue — digo séria. Quando a tia Safira começa, ela não para até convencer a pessoa.
— Só vim almoçar, você está aqui é um bônus.
Sorri para ela.
— Quer almoçar comigo? — sorri e sento com ela numa mesa, quê suponho que seja a mesma que ela estava sentada agora a pouco.
Ela chama o garçom e fazemos nossos pedidos. Logo ele pede licença e sai por onde veio.
Estou com tanta fome que posso facilmente comer uma manada, mas infelizmente não teria condições para isso, já sabendo que é um exagero da minha parte. Pedi um prato simples de entrada, o mesmo que a minha tia.
Enquanto esperava, aproveito para olhar melhor para o restaurante, e é muito bonito por sinal. Tem um estilo meio clássico, mas sofisticado.
Volto a minha atenção a minha tia que falará alguma coisa que não ouvi.
Passamos um tempo falando sobre algumas das coisas que me rodeia, como o trabalho, e contei a ela sobre o Anthony, a Samara e a Paulinha, ela falou um pouco da sua vida.
Minha família é bem sucedido e isso faz com que sejamos populares aqui na cidade. Nunca gostei muito disso, assim como a minha mãe também não gostava. Eu e a minha irmã vivemos por muito tempo em uma bolha, não sabíamos muito do mundo. Mas depois que a minha mãe se foi eu comecei a me descobrir de novo.
Foi como se eu tivesse que reaprender tudo sobre mim mesma, e foi assim que fui parar em Sergipe. Eu descobrir que o trabalho é muito bom para quem está com a mente vazia, e surgiu no momento certo.
Minha tia fala me tirando dos meus devaneios momentâneos.
— Escuta — ela fala assim que trazem nosso almoço. O cheio estava ótimo. — Estava pensando, o que me diz de passar o Natal conosco esse ano?
— O Natal é só daqui a uns seis meses — ri negando com a cabeça enquanto pegava um dos talheres que estavam na mesa.
— Eu sei, só queria convidar você antes que outra pessoa convide.
— Ninguém vai me convidar e agradeço o convite, mas a senhora sabe a resposta — digo calma. Só quero poder comer um pouco, é pedir muito?
— Por favor Sarah, será um ótimo presente para todos, a sua irmã vai ficar tão feliz.
— Vai mesmo? Ela também me pareceu feliz há uns anos atrás quando fui embora — digo perdendo a paciência.
— Mas você também não facilitou — ela fala e logo em seguida ergue as mãos levando até a boca, a tapando. Ela percebe o que falou, mas já é tarde demais.
Ela a defende mais uma vez, assim como o papai fazia, e como a Savana defendia o papai, porque foi sempre assim e não acredito que me deixei levar nesse almoço.
Me levanto e retiro uma quantia da carteira, era suficiente para pagar o almoço.
— Lembrei que tenho que ir fazer umas coisas — digo vestindo o casaco e pegando a bolsa.
— Que? — diz de repente. — Mas é sábado — ela diz percebendo que não estava brincando ela completa. — Não foge Sarah — ela fala percebendo que não irei voltar atrás.
— Eu te amo, tia Safira, foi bom te ver — digo.
Saio o mais rápido dali, sem ao menos ter comido um pedaço daquele delicioso almoço.
Minha barriga está me matando, mas minha cabeça está a todo vapor. O universo com certeza não gosta de mim.
Primeiro ter a "coincidência" de vim trabalhar aqui, na mesma cidade que jurei nunca mais pisar. No primeiro dia de trabalho fazer uma amiga, o que é o ponto positivo, mas também conhecer pessoas desagradáveis e ser odiada por 99% dos funcionários. Conhecer um gaúcho grosseiro e atrevido que facilmente conquistou o meu ódio, e agora descobrir que ele é o meu vizinho, tio da menina mais fofa de todas, além da minha afilhada, e ter uma irmã que me parece que irá me tornar uma verdadeira amiga. Sou uma piada para o universo. Se isso for um sinal, eu juro que não sei qual o intuito, estou perdida.
Com esses pensamentos confusos eu volto para casa.
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Passar a tarde com o Philip foi surpreendente bom, até que ele não é o gaúcho grosseiro que pensei, é até adorável. Acho até que ficar com meus vizinhos hoje foi o ponto alto do meu dia.
Volto para casa assim que a Mônica volta, ela não parecia muito bem e não quero me entreter na vida deles. Assim que consigo sair, venho para o meu apartamento.
Olho ao redor e entristeço em perceber que estou sozinha de novo.
Ligo a TV e nada está passando na TV aberta, nenhuma programação me interessa. Pego um livro para lê, mas passa um mosquito e logo me perco nos pensamentos de novo.
Resolvo ligar para ó Antony, falar com eles sempre é a melhor opção a se fazer.
Ligação on.
— Lembrou que tem família? — fala Antony ao atender o telefone.
— E você lembra de mim quando? — questiono ao perceber que ele pouco me liga.
— Vocês dois são uns desnaturados. Se não sou eu para ligar, a gente nunca se fala — Sami entra na conversa.
— Oi Sami.
— Oi Sarah, me conta as novidades do seu amigo bonitão do trabalho.
— Sami! — a repreendo no mesmo instante, pois não havia comentado nada com o Antony.
— Como que é? — ele pergunta fingindo ciúmes.
— Bobagens que sua esposa diz, sabe como ela é.
— Ei — ela protesta.
— Se você não contar eu vou fazer a Samara contar, e sabe como ela a Samara grávida costuma aumentar as coisas.
— Eu conto — me dou por vencida.
— Sou todo ouvidos — ele fala convencido.
— Um dos meus novos colegas de trabalho é o Philip, um cara grosso que me detesta, na verdade, isso era o que eu achava.
— Essa informação é nova para mim — Sami fala me interrompendo.
— Quando eu vim para o meu novo apartamento depois do trabalho, nós nos encontramos no elevador.
— Vocês e esses elevadores — Sami fala.
— E então? — Antony pergunta impaciente.
— Brigamos de novo, mas ele me ajudou com as sacolas, o que foi gentil, aí hoje eu fiquei com as sobrinhas dele, mas não sabia que eram sobrinhas, achei que ele era o pai delas, mas tudo foi esclarecido — falo ocultando várias partes. Ele não precisa saber que senti uma atração por Philip e que quase nós beijamos.
— Só isso? — Antony pergunta desapontado.
— É, só isso — Sami não fala mais nada, acho que até ela percebeu que essa era a curta versão da história.
— E de onde a minha adorável esposa tirou que ele é bonito? — Antony pergunta se lembrando do jeito que Sami falou. — Bonitão na verdade.
— Imaginação fértil da sua esposa. Nunca admitir que ele era bonito.
Ele começa a ri e só aí percebo que eu disse.
— Não, espera.
— Tarde demais — Antony diz. — Saiba que se ele te machucar eu não respondo por mim.
— Eu sei, e não se preocupe, não pretendo me apaixonar.
Falamos mais um pouco e depois com minha afilhada. Logo nos despedimos.
Ligação off.
Depois de ligar para Sami e falar com eles, aproveito o resto do dia para trabalhar, e é exatamente o que eu planejo fazer o resto do fim de semana e pelos próximos dois fins de semanas seguidos, pelo menos.
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O tempo passou quase quê voando. Fiz conforme meus planos, a trabalhei até nos dias de folgas.
Vai fazer um mês que estou de volta, só encontrei a tia Safira uma vez e ninguém mais da família, o que é ótimo.
No trabalho as coisas melhoraram, não como esperava, mas pelo menos não me chamam mais pelo apelido ridículo e não me tratam como intrusa, quer dizer, quase todos.
A Britany continua sendo meu maior desafio.
Sei que muitos aí estão curiosos para saber do Philip, e bem, ele virou um grande amigo e me ajudou na adaptação. Acho que toda empresa tem um funcionário que é amigo de todo mundo e que acaba virando o líder deles, esse é o Philip, e foi assim que os demais aceitaram fácil a minha chegada.
Hoje é mais uma sexta feira, a última do mês e estou terminando o relatório da semana.
— Olá — Philip diz ao bater na porta e logo adentrar entrar na sala.
— Oi — dou um sorriso. — Posso ajudar?
— Na verdade pode — ele diz. — Um passarinho azul me contou que você ainda não almoçou, o que me diz de ir almoçar comigo e com o pessoal?
Ele pergunta e logo vejo três cabeças aparecerem na porta. A Dani, a Rebeca e o Jonathan.
— Me convenceram — digo rindo e fechando o notebook.
Saio da sala acompanhada deles e vamos para o restaurante mais próximo.
— Vocês sempre vem aqui? — pergunto quando chegamos.
O restaurante era fechado, como a maioria por aqui, mas tinha uma parte aberta no final do restaurante, e era lindo.
— É lindo demais aqui — digo olhando tudo ao redor. — Como nunca vim aqui? — me pergunto.
— Isso já não sei, mas posso te confirmar que está perdendo uma comida magnífica — Jonathan diz enquanto puxa a cadeira para Dani sentar.
Depois ele faz o mesmo com a Rebeca, e o Phil comigo.
— Não é o restaurante que sempre vamos, na verdade, só viemos aqui em ocasiões especiais — Phil explica.
— E qual a ocasião desta vez? — pergunto curiosa.
— Você! — Dani diz empolgada.
Arregalo os olhos levemente para eles sem entender nada.
Antes de perguntar, o garçom vem nos servir com água e entregar os cardápios. Assim que fazemos os pedidos ele sai, e retorno a falar.
— Mas não é o meu aniversário nem nada — digo confusa. — Não entendo.
— Você está fazendo um mês no Rio Grande do Sul e isso merece comemoração, afinal, não é todo mundo que sobrevive — Rebeca diz e provoca risadas em todos.
— Viva a melhor chefe que tivemos — Jonathan puxa o brinde com os copos de água.
Brindamos e bebemos, conforme a tradição dos brindes. Ri com aquilo e a leveza que esse momento me trouxe.
— Não se animem tanto, não vou ficar mais que três meses aqui, devo voltar antes do Natal, se tudo correr como planejado.
— Então não tá aqui para ficar? — Dani pergunta dessa vez.
— Não, não sei na verdade, os planos eram voltar depois de três meses, se completasse minha missão aqui, mas não imaginei que iria fazer amizades — digo me referindo a todos na mesa. — Essa cidade me traz muitas lembranças, nunca quis voltar para cá, mas vocês me fizeram pensar diferente.
Sorri para eles em agradecimento.
Eles sorriem e logo mudamos o assunto.
Ficamos ali até o final do nosso horário de almoço, logo depois, voltamos ao trabalho, o que deixou o tempo passar bem mais depressa, e enfim casa.
Continua...
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Beijos, Larissa.
