Capítulo 4
Vou até a cozinha e deixo a manga e o maço de cigarros no balcão. Remexendo nos bolsos, tiro o que comprei na loja de bebidas. Vamos contar... os cigarros que consegui. Adivinha quem vai ficar bêbado hoje à noite. Isso mesmo, eu.
Minhas mãos começam a tremer levemente antes que eu as alcance. É algo que aconteceu comigo ao longo do tempo. Agora, cada vez que tomo meu primeiro copo, aquele primeiro gole delicioso, um tremor de antecipação percorre meu corpo. Abro cinco copos e, sem pensar duas vezes, bebo todos, um após o outro. O calor é como amor líquido deslizando pelo meu esôfago até as profundezas da minha alma.
Abro o armário, pego um copo e me sirvo de um bom uísque. Só uísque. Sem gelo. Sem liquidificador. Puro, só isso.
Droga, preciso fazer xixi.
Depois de urinar no banheiro, eu lavo as mãos. Sempre me surpreendo com a quantidade de homens que não lavam as mãos depois de urinar. Posso ser um idiota, mas pelo menos não sou tão nojento.
Lavo o rosto com água e seco-o com uma toalha. Quando me olho no espelho, vejo o rosto que faz as coxas das mulheres tremerem só de olhar. Sinceramente, não as culpo. Eu parecia pronto para transar.
Meu cabelo curto, preto como pólvora, sempre tem aquele aspecto característico de alguém que passa a mão nele o tempo todo, como se tivesse acabado de transar. Provavelmente porque sou uma vadia, mas enfim. Meus olhos são orbes verde-fogo com pintinhas amarelas felinas no centro. De onde veio essa cor, eu nunca vou saber. Os olhos da minha mãe são castanhos e os do meu pai, azuis. É a mesma cor da minha pele. De onde diabos veio isso? Eu tenho pele morena. Eu me bronzeio facilmente, enquanto meus pais não. Juro que minha mãe estava transando com o carteiro. Ele provavelmente é o filho bastardo do Serviço Postal dos Estados Unidos.
Pelo menos, se sou um bastardo, sou um bastardo atraente. O carteiro devia ser alto e musculoso também, porque a forma como herdei meu físico também é uma anomalia. Não tenho outros irmãos com quem me comparar, já que meu irmão mais velho morreu no parto. Acho que tenho sorte de estar vivo.
Coloco as duas mãos na pia e observo a tinta girando no meu braço direito. Se você me conhece — e ninguém jamais me conhecerá —, saberá que cada um desses desenhos pretos é permeado pela minha própria curiosidade mórbida. Tenho uma manga comprida que chega até o meu peito, o que faz com que a maioria das calcinhas femininas escorregue só de olhar para ela.
As pessoas se excitam com a minha dor, ha. Mas essa é a minha maldita existência. Literalmente. Dor por prazer, como dizem.
Levanto-me da bancada do banheiro sem sentir sequer um pingo de euforia. A verdade é que não sinto absolutamente nada. Sou a personificação da indisponibilidade emocional. Saúde! Penso enquanto vou até a cozinha e viro os últimos cinco shots para celebrar meu transtorno de desapego.
A bebida desce mais suavemente do que antes, deixando uma leve ardência na garganta. Pego meu maço de cigarros, um isqueiro, meu copo de uísque quase cheio e saio. Eu poderia fumar no meu apartamento se quisesse, mas não. Droga. Obrigado. Odeio o cheiro de cigarro velho em casa porque me lembra da minha infância horrível.
Que vergonha. Sim, é melhor não seguirmos por esse caminho.
Dou um gole no meu copo enquanto saio do prédio. Sentando-me nos degraus, coloco o copo quase vazio de lado e acendo um cigarro. Trago profundamente e espero alguns instantes antes de dar várias tragadas longas.
Ah! Aí está ela, a bela neblina.
Acolho a névoa sutil que lentamente penetra meu crânio hiperativo. Esfregando o queixo vigorosamente, sinto a quantidade de barba por fazer. Não é muita. Apenas o suficiente para fazer a maioria das mulheres salivar. Sinto um leve formigamento nos lábios ao levantar o copo e terminar a bebida.
Eu me inclino para a frente, apoiando-me nos joelhos, olhando ao redor, meus olhos parecendo um pouco mais pesados do que uma hora atrás. Mas não era o suficiente. Nunca seria o suficiente quando sempre havia mais para consumir. Começo a me levantar, pronto para ridicularizar a atuação de Denzel Washington em Flight, quando ouço uma série de gritos abafados vindos do estacionamento.
Que diabos é tudo isso?
Apago o cigarro e solto a última baforada de fumaça antes de descer correndo as escadas. Dou uma olhada ao redor do estacionamento para ver de onde vem o barulho quando vejo Monica chorando, encostada no carro. Ela está me olhando, com a maquiagem borrada no rosto. Mesmo chorando, Monica continua tão linda.
"Mônica?" "Sim, seu idiota, esse é o nome dela. Ela não me avisa quando se joga nos meus braços e me agarra com toda a força."
Que se dane a minha vida...
Droga. Não. Por favor, não. Ele não vai me tocar assim. Infelizmente para mim, ele vai.
Mônica se agarra a mim como a uma tábua de salvação, mas estou paralisado, sem saber o que fazer. Reprimo a vontade de estremecer de nojo, assim como a vontade de afastá-la. Demonstrações de afeto me parecem estranhas, e dizer que me deixam extremamente desconfortável é um eufemismo. Não sei como retribuir esse tipo de troca.
Tremo levemente sob seu aperto firme. Ele precisa de um abraço, o idiota. Droga, sei lá, só porque sim. Mas não posso e não vou.
Mesmo que meu tormento interior grite por socorro, eu o faço mesmo assim. E preciso de todo o meu ser para abraçar essa beleza dilacerante. Graças a Deus, a névoa do uísque se espalhou pelas minhas veias, porque a intimidade desperta os demônios das profundezas mais escuras do meu inferno interior.
Odeio ser tocada. E odeio ainda mais quando tocada assim. Detesto. Detesto mesmo. Mas aqui estou eu, deixando que me toquem. Nunca permiti isso antes, nem mesmo com meus próprios familiares. O contato físico se manifestava de uma forma muito diferente dentro da minha própria família.