01
Eva pensara que casamentos arranjados era coisa do século passado, e realmente era, no entanto, sua mãe, Ruthie, parecia ainda estar vivendo lá após ter conseguido manipulá-la a aceitar o convite do filho do pastor de sua igreja para sair.
O rapaz que se chamava Bruce, estava procurando uma jovem para se casar, ela deveria vir com alguns requisitos, ser virgem e totalmente submissa, desses dois ela só possuía um, a virgindade, mas por amar demais sua mãe, acabou aceitando ir aos encontros, já que Bruce era de uma família rica e a sua não tinha nenhuma fortuna. No entanto, a garota sabia que jamais se submeteria a isso se não fosse por motivos maiores.
Sua mãe havia descoberto um câncer de mama recentemente e o tratamento era muito caro, e lhe contou que pediu ajuda a igreja em uma reunião com o pastor Mason e o mesmo teve a brilhante ideia de juntar suas famílias como condição para pagar o tratamento.
De alguma forma, Teddy Turner e sua esposa Ruby Turner precisavam desesperadamente casar Bruce com uma jovem perfeita aos olhos da sociedade da igreja e Eva estava conseguindo desempenhar esse papel nos últimos dois meses.
Estava se saindo uma ótima atriz em público, mas quando estava sozinha, chorava até sua cabeça doer com os soluços, nunca havia contado para ninguém as coisas que Bruce falava para ela, como queria que ela emagrecesse dez quilos antes do casamento, como a proibiu de usar salto e saias acima do joelho ou vestidos sem manga comprida.
Queria até mesmo controlar seu tom de voz e o que comia.
Eva vivia em uma angústia sem fim ao pensar no maldito casamento, que quando acontecesse, sofreria mais a humilhação de ter Bruce tocando-a, sentia nojo dele e de si mesma por aguentar tudo aquilo. Pensou em desistir várias vezes, mas seu salário de caixa de supermercado não dava para pagar o tratamento, tentou até pegar um empréstimo mas foi negado e outro dia viu sua mãe vomitando sangue.
Tinha vontade de dizer tantas coisas para a família Turner, coisas nada boas, entretanto não faria pois até mesmo ser obrigada a assinar um documento que lhe impedia de romper com Bruce por pelo menos cinco anos, ela foi. Caso contrário, sua mãe deveria devolver todo o dinheiro do tratamento ou ir para a cadeia. Ela amava Ruthie mais do que qualquer coisa, apesar de muitas vezes se questionar se uma mãe que ama a filha a deixaria se submeter a isso e ser a maior apoiadora de toda a merda.
Ela fechou os olhos por alguns segundos e os abriu novamente, tentando ser forte. Por algum motivo também, eles precisavam ser vistos juntos constantemente e deveriam parecer apaixonados. Ela forçou um sorriso quando olhou o rapaz gordo a sua frente, ele comida feito um porco, rasgando o pedaço de costela nos dentes, quando em seu prato havia apenas uma salada intocada.
— Você não está com fome? — ele perguntou, mastigando.
— Estou. — ela respondeu seca.
— Então por que não come? Seu prato está cheio, não quero pagar por algo que você nem tocou.
— Eu já disse que odeio salada, não vou comer se não gosto.
Bruce queria uma jovem submissa, mas nem sempre Eva conseguia suportar calada todas as suas provocações, ainda mais depois do que descobriu há poucos dias.
— Você sempre comeu nos outros restaurantes. — o homem a olhou com raiva.
— Jogava fora quando não estava olhando. — admitiu.
Há poucos dias havia descoberto, ouvindo uma conversa sem querer, que Bruce também não tinha outras opções de pretendentes, a única maluca que aceitou a proposta fora ela, por desespero, por manipulação e por amor a mãe. E desde então, já não aguentava mais tanta coisa calada como no início.
— O que?! — ele bateu forte na mesa, derrubando os talheres no processo — Me fez jogar dinheiro no lixo? Terá que me pagar! — exclamou com indignação.
Ela olhou em volta e algumas pessoas os encararam com cenhos franzidos.
— Está dando vexame. — ela reprimiu uma risada — Devemos ser apaixonados e carinhosos em público. — sussurrou.
— Foda-se! Você me paga depois, sua idiota. — ameaçou.
— Vai me bater? Eu te pago todos os pratos que joguei fora quando receber, acho que calculei o valor mentalmente. — disse, fria.
— Você não tem dinheiro para isso. — desdenhou.
— Deixarei de pagar a conta de telefone e comprar o gás de cozinha, passo a cozinhar no quintal, na lenha. Acho que isso cobre a comida, não é como se tivéssemos comido em restaurantes caros. — Bruce a olhou com o rosto vermelho de raiva.
— Quando eu me casar com você, me pagará por todas essas desobediências.
— O que irá fazer? — ela deu de ombros.
— Irei machucar você, não serei nenhum pouco carinhoso quando foder você pela primeira vez.
— Uau, está dizendo que vai me estuprar. Primeira vez que vejo um caso parecido, do estuprador avisando a vítima com antecedência, pode deixar, irei me preparar para isso, não sendo mais virgem. — implicou.
— Não brinque comigo, Eva! O que deu em você para me desafiar assim? Você não se atreveria. — o cara estava furioso.
— Você disse que vai me estuprar, acha isso legal?! — ela disse entre dentes, lutando para não se alterar.
— Será minha esposa, virgem, farei o que quiser com você.
— Por que a virgindade é tão importante para você em uma mulher?
— Todos os meus amigos foram os primeiros de suas mulheres e se gabam por isso, minha noiva não poderia ser diferente, serei o único homem dela.
— E você é virgem?
— Eu? Não! — falou na defensiva.
— Então por que eu deveria me casar com você? Quero ser a única mulher do meu noivo. — disse ela com provocação.
— Mulheres não podem ter esse direito de escolha, apenas os homens. Mulheres não devem ser fodidas por vários paus antes do seu marido.
Ela fechou os olhos novamente, queria derrubar aquela maldita mesa e estapear o imbecil do Bruce, pegar uma faca de serra e enfiar no olho dele de tamanha fúria que subiu em seu sangue.
De maneira nenhuma este desgraçado vai tirar minha virgindade! Nem que eu durma com um qualquer só para tirar isso dele, eu o farei.
Eva jurou.
— Eu estou indo embora. — ela se levantou lentamente e forçou mais um sorriso.
— Sente-se agora, só se levantará para sair, após mim.
— Eu estou indo agora. Tchau, Bruce. Tenha uma ótima noite. — repetiu.
— Fique aí, sua idiota. Você não tem como ir embora, esqueceu que sua casa é longe daqui?
Ele tinha razão e Eva odiava isso. Teria que ir andando por uma longa estrada deserta, tinha medo do escuro e não tinha dinheiro para um táxi ou ônibus, ela teria que esperar Bruce.
Voltou a se sentar, ganhando um sorriso vitorioso de seu noivo. Minutos depois, após ele terminar toda sua comida, ele pagou a conta e se levantou, lançando-lhe um olhar de aprovação para que se levantasse, ela o fez e ele se aproximou de seu ouvido.
— Abaixe essa saia e não vá comer nenhum lanchinho depois daqui, ainda falta muito para seu corpo estar como eu desejo.
Lágrimas encheram seus olhos mas ela as piscou de volta, se recusaria a chorar qualquer vez em frente ao maldito. A raiva que sentia de Bruce só aumentava a cada dia que passava, o odiava com todas as suas forças por todas as vezes que a humilhava e se odiava também por ser capaz de aceitar o que achou que jamais aceitaria.
Tudo por sua mãe.
Esperava que após terem pago o tratamento dela, pudesse estar livre para se divorciar, mas isso apenas depois de malditos cinco anos.
Ele pegou a mão dela e apenas o simples toque dele em sua pele lhe causava ânsia de vômito. Saíram juntos do restaurante por volta de oito da noite, ele entrou no carro primeiro e em seguida ela entrou.
No instante em que ela bateu a porta, ele agarrou seu pescoço e apertou até que ela engasgasse sem ar e então soltou.
— Desgraçado! Por que fez isso? — tossiu, colocando as mãos onde ele apertou.
— Nunca mais me desafie ou fale comigo daquela forma. Você é para ser submissa, me entendeu?
Ela ficou em silêncio, tentando recuperar o fôlego.
— Me entendeu? — ele repetiu e a raiva inchou ainda mais dentro dela.
— Vai se foder. — gritou — Estou cansada de você, vai para o inferno!
Ela gritou quando sentiu a mão pesada de Bruce ir de encontro ao seu rosto, se afastou um pouco colocando a mão em cima de onde ele bateu.
— Nojento! Eu te odeio! Nunca mais tocará em mim! — ela começou a bater nele também, mas a massa corporal, apesar de na maior parte ser gordura, conseguiu imobilizá-la.
Ele segurou forte seus pulsos, causando dor.
— Eu poderia cancelar nosso maldito casamento, mas eu terei o prazer de me casar com você só para fazer de sua vida um inferno, eu sei que você precisa disso para sua mãe, não tem outra opção e assinou um contrato. Bem vida ao inferno por cinco anos. — ele sussurrou bem próximo ao rosto dela, liberando seu mal hálito corriqueiro.
Eva engoliu a crise de choro que queria atacar, engoliu até sua garganta doer e se afastou dele no banco, arrancando seus pulsos das mãos gordas.
O odiava com todas as suas forças e ele pagaria por isso.
