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Capítulo 2

DIAS ATRÁS

Havia uma nova coleção que precisava ser lançada então tive que ficar a manhã toda no meu escritório empenhada em terminar todos os desenhos a tempo e quando terminei resolvi chamar Ester para almoçar, eu estava com tanta fome que poderia comer qualquer coisa que estivesse na minha frente.

Fomos para um restaurante simples no subúrbio de Nova York, era realmente bem agradável, não só pelo lugar mas pela companhia de Ester, ela era uma das poucas pessoas que me entendiam e se importava de verdade.

Ester sempre foi cabeça dura em relação a minha vida amorosa, ela não podia acreditar que mesmo depois de tanto tempo eu ainda gostava de Isac, aconselhava a me impor a ele, mas no fundo, eu preferia apenas relevar para não causar conflitos. Entendia o fato da preocupação, ela era da minha família e só queria o meu bem, mas o que ela não entendia era que meu bem dependia disso, e eu não estava pronta para deixa-lo, ainda não. Nenhum sofrimento era eterno e eu esperava que o meu acabasse logo. Era preciso sentir, porém também saber como deixa de sentir, e era aí que eu errava. Sempre!

Quando o almoço acabou, um buraco dentro de mim cresceu por ter que voltar ao trabalho e bater na mesma tecla de sempre.

Peguei os esboços da coleção para mostrar ao Nick, eu precisava da sua opinião antes de lançar e ele era o único que podia expressar alguma crítica, então fui até sua sala.

Bati na porta e entrei com cuidado, com medo de incomodar. Ele estava focado em alguns papéis mas assim que me viu abriu um sorriso gentil.

- Ah, é você? Eu estou tão atolado. - ele jogou os papéis na mesa. - Entra, vem. - ele me chamou com as mãos.

Era engraçado a diferença de carisma entre ele e Isac, eram como se fosse água e vinho. Completamente diferentes.

Caminhei até sua mesa, sentando-me de frente para ele.

- Esses são os esboços. Preciso de uma opinião. - disse os entregando para ele.

Senti uma peso em minhas costas, eu tinha medo do que poderia vir a seguir. Me imaginar tendo que refazer todos aqueles rabiscos me deixava em pânico.

- Você está adiantada, eu iria te ver mais tarde. - ele analisou calmamente os desenhos.

Sua cara era inexpressiva, mas eu tinha talento e estava confiante. - É profissionalismo... - comentei baixo e Nick riu de lado. Isso me fascinava, eu tinha muito respeito por ele.

Houve um silêncio assombroso, ele julgava com os olhos os desenhos e então finalmente decidiu falar.

- Estão ótimos. - ele continuava olhando atento os papéis. Eu relaxei meu corpo na cadeira.

- A tua expressão neutra é boa, confunde qualquer um. Eu estava me sentindo apreensiva. - era gratificante ser boa no que eu fazia. O problema na verdade nunca era passar pelo Nick, mas sim agradar as pessoas que iriam consumir a roupa.

Pra mim era importante ter outra opinião sobre meu trabalho.

- Touché! Você é sempre boa no que faz, não precisa da minha opinião para mandar seus gráficos para as costureiras. - ele esticou os esboços para mim.

Ergui as mãos e me inclinei um pouco sobre a mesa enquanto eu pegava os esboços.

A porta se abriu sem aviso, revelando um homem de porte elegante que passava pela porta com a cara fechada.

Isac.

- Quem é boa no que faz? - seus olhos percorreram a sala toda até pousar mim. - A Chloe? - perguntou num tom sarcástico.

Isac pegou os papéis da minha mão sem permissão, de forma bruta, os olhando de forma desleixada.

Eu suspirei e joguei um olhar frustrado para Nick que me pedia desculpas com os olhos.

- Essas cores são mortas, me lembram um pouco... Acho que... você. - a ironia escorregou envenenada dos seus lábios. - Sem vida. - ele balançou as mãos.

Isac poderia ser insuportável quando queria.

- Se você acha que entende de alguma coisa, porque não faz você? - eu retruquei.

Estava cansada de ser submissa.

Ele me encarou, pude ver minha alma escura no reflexo dos seus olhos quase castanhos.

Ele não podia ser simpático uma vez que fosse, apenas para variar?

Eu encolhi meus ombros, não deveria ter dito aquilo. Suspirei pesadamente pegando os papéis da mão dele. Isac era difícil, e quanto mais eu respondesse de forma grosseira as coisas só iriam piorar entre a gente, e eu não queria isso.

- O que houve, Chloe? - Isac perguntou curioso enquanto me observava surpreso.

Não esperava essa pergunta dele, especialmente hoje ele estava mais estranho que nunca.

- Não é nada, se eu soubesse que você viria para essa sala eu teria esperado Nick ir até mim. - ele olhou rapidamente para Nick que se mantia estabilizado.

Isac mordeu o lábios inferior.

- A verdade é que eu sei, todo mundo sabe, você não se cansa de me ver. Admite, vai? - Ele soou exibido e arrogante como sempre, sua prepotência estava pior. E a infantilidade, nem se fala.

Revirei os olhos e botei as mãos na cintura.

Não, ele não podia usar o meu sentimento por ele para me atingir. Era perverso.

- Não me venha com isso agora, Isac. - tentei dá as costas para poder sair.

Ele me fez parar e olha-lo novamente. Não consegui recuar, sua mão tocou a minha pele com firmeza fazendo uma descarga elétrica invadir o meu corpo de uma forma alarmante.

- O que foi? Está com vergonha? O Nick já sabe, quem não sabe, aliás? - ele passou o dedo indicador na minha bochecha. - Faz anos, e você é péssima em esconder mentiras. E sabe de uma coisa, não tente fazer charminho com essa tua raiva.

Ele era descarado. Porque falar disso aqui? O ego dele era tóxico.

- Isac, já chega. Esse clima ruim entre vocês não é legal. - Nick disse se levantando. - Vocês são adultos, se tratem como tal.

Eu me afastei mais ainda de Isac.

- Não acredito que você quer falar disso para mim, Nick? - eu fechei os olhos por frações de segundos. - Eu sempre odiei tudo isso. - me virei para Isac. - E você. - apontei pra ele. - Se eu pudesse fazer você sumir, eu faria sem dúvidas, gostar de você é o pior erro que alguém poderia cometer.

Ele sorriu. Cínico.

- Inevitável, não? Quem não gosta? - ele balançou a cabeça levemente. - Eu estou de saco cheio de você, não suporto mais as mesmas coisas, só me fala o que eu tenho que fazer pra você entender que eu nunca vou poder da bola para alguém como você? Sei lá, vai embora, eu dou a quantia que você quiser pra me vender sua parte da NYD. Me pergunto como você pode ser a cara dessa empresa. Puta merda, se olha no espelho. Ter o meu nome associado ao teu é ruim para a reputação, e você não tem ideia de quantas fofocas correm nesse lugar, e a culpa é sua, não podia gostar de alguém em segredo, não é? Tinha que ser justo de mim? É ridículo. - eu ouvi toda aquela declaração paralisada.

Isac nunca havia sido tão direto. Ele nunca havia sido tão cruel. E se ele tivesse esperado mais dois dias eu teria saído daqui por minha conta própria. Por não aguentar mais esse lugar. Mas ouvir todas essas palavras saindo da sua boca, de um homem por quem eu sinto algo inexplicável, era de destruir. Eu fui tão pisada na vida, que dessa vez eu não deixaria passar como todas as milhares de outras vezes.

Eu era bem melhor que ele, e mesmo me sentindo destruída eu podia ser bem mais orgulhosa que qualquer um, eu não daria esse gostinho de vitória para Isac.

Que todos sabiam que ele era um escroto ninguém tinha dúvidas, mas de uma vez por todas eu deveria me bastar, e o meu erro foi ter deixado as pessoas e ele terem descoberto o que eu sentia, por ser frágil demais, idiota demais. Só que hoje não.

Eu me sentia impulsionada por algo bem pior que a dor que estava alojada no meu peito nesse exato momento, parecia que eu iria entrar em colapso a qualquer momento e minha garganta ardia de uma forma desesperadora.

Eu me segurei para não chorar, como eu me segurei, e a primeira lágrima que caiu eu limpei rapidamente.

Ele era egoísta. Um filho da mãe egoísta. Eu havia feito tanto por ele, e se não fosse por mim, ele seria um fodido pro resto da vida.

- Sabe de uma coisa? Você é um idiota. Vai com calma, eu também sei estragar a vida de alguém, sei muito bem, também sou egoísta, não se engane comigo, também consigo maltratar, também sei fazer com que precise de mim, pode não parecer, mas eu consigo me torna tudo que eu mais desprezo em você, sou feita de carne mais tenho que viver como se eu fosse de ferro perto de você, porque você é nojento. - não consegui me controlar e explodi.

Isac ouvia atento, sem nem piscar. Olhar sua cara me deixava enjoada, eu comecei a estapear seu corpo mas Nick se levantou rapidamente e saiu me puxando.

- Agora eu entendo aquele ditado que diz que pessoas boas sofrem até se tornarem más. E sabe Isac, eu tenho pena de você. Ontem eu suportei você me falar esse tipo de merda na frente da coleção de vadias que você tem, me humilhou na frente de todos apenas para se exibir e esfregar na minha cara que nunca chegaria aos seus pés e eu aguentei calada. - empurrei Nick de perto de mim. - Talvez você que não chegue aos meus pés.

Eu lembro da cena, eu me senti novamente rebaixada, eu havia deixado ele fazer aquilo comigo, mas não suportaria mais. De novo não.

- Que você vá para o inferno. E se pensa mesmo que eu vou abandonar essa empresa, está muito enganado! Eu dou a minha parte pra qualquer um, mas pode ter certeza que esse gostinho você não

vai ter e vai me ver muito por aqui ainda, eu faço questão de ferrar totalmente com tudo. E a quem você quer enganar? Vocês precisam de mim mais do que ninguém pra fazer tudo isso funcionar, porque querendo ou não, eu sou dona dessa merda também. - terminei querendo desmoronar.

Eu corri daquela sala, eu não esperava nenhuma reação, mais vê aquele último olhar me deixava um gosto amargo na boca, eu bati a porta com toda a força que eu tinha. Meu coração doía, eu me sentia sem chão, meu fôlego havia sido evaporado e eu mal podia raciocinar. Quando dei por mim, eu estava chorando no meio do corredor e sabia que não devia, eu cai sobre o chão frio. Eu sempre esperei que ele mudasse, que enxergasse a pessoa horrível que ele era e entendesse que as coisas não eram daquele jeito, só que ele sempre foi vazio e frio.

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