Capítulo II - Dom
Clara olhava as paredes da sala com curiosidade. Era um lugar grande e muito bem arrumado. Viu vários quadros na parede com o rosto dos professores e diretores, no caso só tinha dois diretores e a placa dizia que essa diretora estava ali há mais de duzentos anos.
— Sente-se.
Clara obedeceu. A diretora era uma mulher alta e magra. Tinha cabelos escuros e olhos verdes.
— De onde você é?
— Eu não sei.
— Como chegou aqui?
— Encontrei um vampiro quando acordei e ele me mandou pra cá.
A diretora tinha os olhos arregalados na direção de Clara. Ela se sentiu uma barata com o olhar da mulher.
— Oh! Entendo... Essa é a sua última lembrança?
— Sim.
A mulher começou a bater os dedos uns nos outros. Clara notou seu nervosismo.
— Ele disse o nome dele?
— Sim. Disse que se chama Tom Morris.
— Você está brincando comigo?
— Não.
A mulher se levantou da cadeira com pressa.
— Venha comigo.
— Pra onde?
— Aqui nessa escola existe um teste para entrar.
— Teste?
— Sim. Você precisa passar por um dos professores para descobrir seu dom.
— Dom?
— Vamos que ele explica.
Clara franziu a testa, mas foi atrás da mulher. A diretora seguiu em frente sem olhar para trás e andava rápido, fazendo Clara ter que dar uma corridinha para acompanhá-la. Ao chegar na sala, ela ficou de boca aberta. Era enorme e tinha várias mesas e cadeiras ali-nhadas perfeitamente. Então era sério o papo de escola?
— Simon, essa aqui é a Clara. Ela diz que Tom Morris a mandou.
— Tom Morris?
— Sim.
— Você não acha que brincar com uma coisa assim é uma ousadia? — perguntou olhando diretamente para Clara. Seus olhos eram duros e cor de chocolate. A pele era mo-rena e ele tinha várias marcas no rosto.
— Eu não estou brincando. Acordei faz pouco tempo e tinha um homem comigo. Ele me disse que era um vampiro e que eu também era, por isso estava com tanta sede. Ele me deu sangue e me disse que eu tinha que vir pra cá.
Os dois trocaram olhares quando Clara falou. Ambos com expressões nervosas.
— O que está acontecendo? — Clara perguntou.
— Sente-se aqui. — O homem apontou para a cadeira.
— Pra que?
— Existe um teste para todos os alunos ou possíveis alunos poderem entrar nesse co-légio e eu quero fazer em você.
— Isso não vai dar certo. Eu não me lembro de nada. Como vou fazer um teste?
— Não precisa se lembrar. Vou ler sua mente.
Clara ficou em silêncio olhando o Simon. Como assim ler a mente dela? Achou que esse tipo de coisa não fosse possível.
— É só desse jeito que pode entrar na escola.
Clara mordeu o lábio e olhou para a diretora.
— Explique direito, Simon. Ela não sabe.
O homem suspirou, irritado.
— Todos os alunos passam por mim antes de entrar na escola. Porque o meu dom é de leitura de mentes. Dessa forma eu posso encontrar o seu dom e mandar direto ao pro-fessor que vai te ajudar com tudo que precisar para controlá-lo.
— Ah... Então cada vampiro tem um dom diferente?
— Sim, mas existem os que têm dois ou três ao mesmo tempo. Até mesmo mais de quatro, porém, são muito raros.
— Entendi... E quais são os dons?
Simon olhou para a diretora e ela fez um gesto para ele continuar explicando. O ho-mem revirou os olhos.
— Leitura de mentes, que é o meu. Velocidade acima do normal. Controle dos ele-mentos, pode ser somente de um, como dos quatro. Transformação. E também tem os que controlam mentes.
— Transformação de que?
— Morcego.
Clara ergueu as sobrancelhas.
— Existem muitos que controlam mentes?
— Não. Só existem dois até hoje.
— Quem?
— Conde Drácula e Tom Morris.
A sala ficou silenciosa depois do que o Simon disse. Clara olhava de um para o outro e os dois a encaravam com os rostos sérios.
Será que era coisa normal eles serem tão mal humorados?
— Posso agora?
— Sim.
— Então sente logo.
Clara sentou na cadeira em frente a dele. O homem se aproximou e a olhou nos olhos. Ele estava imóvel sentado na cadeira. Clara ficou olhando ele um pouco tensa. Será que dói? Pensou nervosa.
Os olhos de Simon ficaram de cor amarela e Clara arregalou os olhos. Tudo era novo para ela, mas pelo visto aquilo era mais do que normal para eles.
Por um longo momento eles ficaram em silêncio com Simon a encarando de olhos amarelos e sem se mover. Pareceu que foram horas enquanto ele ficava a encarando parali-sado. Sentia uma leve formicação na cabeça, mas nada que a deixasse preocupada ou que fizesse sair correndo daquela sala.
Simon piscou os olhos e eles voltaram a cor normal. Ele encarava Clara de um jeito que a deixou preocupada.
— Pode esperar do lado de fora um instante?
— Está tudo bem?
— Quero ter uma palavra com a diretora Tompson.
— Tá.
Clara levantou da cadeira e saiu da sala. Ela encostou na parede ao lado de fora e cruzou os braços. Não estava gostando nada da situação. Estavam lá dentro falando dela! Por que não podia ouvir?
— Olha o que temos aqui...
Clara olhou para o lado e viu o garoto que a levou até a diretoria. Ele tinha uma das mãos apoiadas na parede e um sorriso cínico no rosto. De primeira, quando o viu olhando para ela quando estava perdida, o achou lindo. Olhos verdes claros como de gato e cabe-los negros, era bem alto e musculoso. Mas depois que ele começou a falar, percebeu que era um completo otário.
— Está perdida de novo?
— Não. Só esperando.
— O que?
— Acabei de fazer o teste.
— E deu o que? Transformação?
— Não sei. Não me disseram ainda.
— Não? O resultado é dado na hora.
— Pois me pediram para esperar aqui.
— Hum...
— E transformação é tão ruim assim?
— É o dom mais ridículo de todos. Não tem utilidade alguma.
— Morcegos podem voar. Isso é uma utilidade.
Drake ficou pensativo e sorriu.
— É um animal muito pequeno, mas pra você isso não vai fazer diferença, não é?
— O que quer dizer com isso?
— Você já é miudinha como um morcego. Não vai fazer tanta diferença pra você.
Clara não respondeu o deboche. Só ficou encarando-o sem piscar. Drake tirou a mão da parede e ficou reto.
— O seu dom é de morcegos?
— É claro que não!
— Então qual? O de maior idiota da escola?
Drake a encarou com fúria, mas ela não se intimidou e encarou de volta. Ele se apro-ximou dela e abaixou um pouco para encará-la de perto. Clara tinha 1,52 de altura e Drake 1,89. Parada ao lado dele, a cabeça dela pegava em seu ombro.
— Melhor não mexer comigo, anãzinha. Não sabe onde está se metendo.
— Você que começou — disse, emburrada.
Drake sorriu mostrando dentes brancos e alinhados e se afastou um pouco dela. Por algum motivo, achou o biquinho dela uma graça e a raiva que sentiu pelo que ela disse, evaporou.
A porta da sala se abriu e Simon olhou de Drake para Clara.
— Entre.
Clara passou por Simon e entrou na sala. Drake acenou para Simon, mas ele só fe-chou a porta na cara do garoto, que riu e saiu dali, caminhando distraidamente.
— Então? Que dom eu tenho? — Clara perguntou ansiosa.
— Bem, você tem o dom da transformação.
Clara ficou passada com o que escutou. Logo esse? Agora que aquele garoto ia pertur-bá-la pelo resto do ano.
— Também tem o controle dos elementos.
— Todos eles?
— Todos eles.
Clara olhou os pés. Isso é uma notícia boa, não é?
— Escute, garota, o que vou te contar, não é bom contar a mais ninguém.
— Por quê?
— Vão ficar com raiva de você e até mesmo querer te fazer mal.
— Mas por que fariam isso?
Simon suspirou.
— Quando entrei na sua mente, encontrei coisas bem inusitadas. Vi esses dons que falei com clareza, mas acho que tem mais.
— Mais?
— Sim, bem mais.
— Como assim?
— Sua cabeça tem um bloqueio e eu não consegui entrar completamente. Mas tenho a sensação de que existem mais dons em você do que posso enxergar.
— E o que eu faço?
— Vou te mandar aos dois professores encarregados de seus dons e você começa a estudar.
— Mas eu nem sei como funciona essa escola...
Simon lançou um olhar cansado para a diretora. Pelo visto, ia passar um longo tempo com aquela menina.
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Drake entrou no quarto e encontrou o Bryan e o Bernard conversando.
— Sério, cara, era a coisa mais linda que eu já vi.
— Fala sério! Você sempre disse que nunca ia se amarrar em uma garota só.
— Mas eu posso mudar de ideia, não posso?
— Claro que pode. Estou doido pra ver essa garota. Pra você resolver ser fiel, deve ser uma coisa de outro mundo.
— Idiota! — Acertou o ombro dele com um soco.
— Você ainda está falando daquela baixinha? — Drake se aproximou deles.
— Sim.
— Ele está apaixonado — Bernard implicou e recebeu outro soco.
— Eu a vi a pouco. — Colocou as mãos no bolso.
— Sério? Onde?
— Tinha acabado de fazer o teste.
— E te disse que dom tem?
— Não.
— Tomara que tenha super velocidade. Assim ficamos na mesma turma.
Drake revirou os olhos. Gostava mais quando o Bryan só queria saber de se divertir e usar as garotas.
— Que foi, Drake? Está com ciúmes?
— Não. — Foi até sua cama e deitou. — Só quero meu amigo de volta.
