CAPÍTULO 1
A PORTA DO JATINHO É ABERTA e eu desço do mesmo sentindo o vento balançar meus cabelos.
Sono tornato in Itália (Estou de volta a Itália)
A exatamente dez anos atrás eu fui mandada para um colégio interno na Inglaterra. Não era um colégio qualquer, lá estavam as filhas dos homens e mulheres mais importantes de todo o mundo. Havia filhas de governadores, presidentes, juízes e grandes mafiosos.
Lá fomos e ensinadas a usar todos os nossos encantos femininos. Mas também fomos ensinadas a nunca sermos submissas ou indefesas, tive aulas de defesa pessoal, e as mais variadas artes marciais. Basicamente, tive a melhor educação possível.
Quando completei meus dezoito anos entrei em uma faculdade e me formei em administração, já que cedo ou tarde assumiria os negócios da família. E o momento chegou, a uma semana atrás meu querido pai, Henrico Lázarri faleceu, vítima de um ataque cardíaco.
Eu como sua única herdeira, assumo a partir de hoje seu lugar na Máfia Italiana. Não poderia estar mais feliz com tal acontecimento.
Meu pai e eu nunca fomos próximos, diria até que nos odiávamos, ou melhor, que ele me odiava, pois, meu sentimento em relação a ele sempre foi a mais pura indiferença.
Sou a filha indesejada de Hérnico Lazazari com Melanie Velazquez. Minha mãe faleceu em meu parto, oque fez com que meu pai tivesse um certo ódio de mim, e me culpasse pela morte da mesma.
Enfim, hoje as 19:00 horas será anunciado oficialmente que assumirei o posto do meu querido papai. Meu pai era o diretor executivo da máfia italiana, que funciona da seguinte maneira:
A máfia tem sua hierarquia clara e centralizada em forma de pirâmide. No topo está o chefe (ou don), com um conselheiro e um subchefe abaixo. Os capi (chefes), uma espécie de tenentes, formam a terceira fileira da hierarquia. E abaixo deles vêm os soldados, responsáveis pelo trabalho sujo. Na base da pirâmide estão os "associados" - juízes, políticos, empresários, traficantes, gigolôs, assassinos de aluguel e todo tipo de parceiro que possa ser comprado para facilitar os negócios da máfia.
Meu pai tinha a segunda posição mais importante na pirâmide de Hierarquia. Acima do meu pai está o "chefão" Lucca Salvatore, ele era um amigo próximo do meu pai, e pelo que sei, está prestes a se aposentar, passando seu cargo ao seu filho mais velho.
O motorista me espera na entrada no aeroporto em frente ao carro. É uma Mercedes c180, era o carro favorito de meu pai. Oque me lembra que tenho que me livrar do mesmo o mais rápido possível.
Não quero nada que me lembre e meu pai, faço questão de mudar toda a decoração da casa e tirar de lá tudo que possa me remeter a ele.
[...]
O carro estaciona em frente a minha nova casa. Na verdade, a casa que passei a maior parte da minha vida, mas depois de dez anos é como se fosse nova. A dez eu saí daqui com a esperança de nunca mais voltar e ter que conviver com meu pai, hoje aos 25 anos de idade aqui estou eu, pelo menos meu pai não está aqui.
Di nuovo all'inferno ( De volta ao inferno)
Assim que adentro a casa vejo que quase nada mudou, ainda há na parede ao lado das enormes escadas o quadro de minha mãe. Ela era belíssima, seu cabelos pretos como os meus e belos olhos verdes, ela era perfeita.
Depois de alguns segundos estática no mesmo lugar sou tirada de meus pensamentos por Valentina. Eu sorrio ao ver a pessoa que mais amo na vida.
- Mia bella! - ela me envolve em um abraço acolhedor que a muito eu não sentia.
-Senti tanta sua falta - Digo a apertando mais.
-Quanto tempo, minha menina. Faz dois anos que não a vejo. - ela se distancia a distancia de um braço para me avaliar.
Valentina sempre tirava suas férias anuais para me visitar na Inglaterra, mas no último ano ela não pode me ver, graças a complicações em sua saúde.
-Você está tão magra! - ela me repreende.
-A senhora acha? - Sorrio.
-Sim, vou preparar um macarrão a carbonara para o jantar. Eu sei que é o seu favorito. - Ela acaricia minha bochecha
-Grazie. - agradeço e a mesma sorri e logo se retira.
Subo as escadas e passo por todos os cômodos vendo que nada mudou.
O grande corredor leva a todos os quartos da casa. Eu ando pelo mesmo observando os quadros na parede
Ao fim do corredor vejo meu antigo quarto. Nada mudou, a decoração ainda é a mesma, e ainda é adequada a uma mulher da minha idade.
Meu quarto é o segundo maior da casa, o primeiro era o do meu pai, o qual faço questão de nunca mais entrar. Abro a porta do closet e vejo que ainda há várias roupas minhas e vejo que terei que doar todas.
Tudo nesse closet foi escolhido por Valentina e eu, ela era como minha mãe, e ainda é, ela é a mãe que não tive a oportunidade de ter. Ele sempre me deu carinho incondicional e foi a única pessoa que demonstrou afeto por mim.
Vejo que até o banheiro está do mesmo jeito de quando eu fui embora. Meu pai sempre fez questão de manter tudo exatamente do mesmo jeito de quando minha mãe morreu, acho que era uma maneira de se lembrar dela.
Desço até o andar de baixo e vejo o escritório do meu pai, que agora é meu. Me sento em sua cadeira e é como se eu tivesse nascido para estar no comando.
Saio do escritório e vejo que em duas horas começa a reunião. Eu realmente não estou com coragem para nada, mas, valerá a pena ficar horas aguentado velhos chatos.
Me jogo no sofá da sala e encaro o teto por alguns segundos. Finalmente chegou o momento pelo qual me preparei a vida toda, vou ter a vida que sempre sonhei. No comando, sem meu pai e vivendo no mais puro luxo.
[...]
Dou última olhada no espelho e vejo que estou perfeita. O vestido evidencia bem minhas curvas e meu cabelo está com ondas perfeitas.
A porta é aberta e me deparo com Valentina me olhando com um belo sorriso no rosto.
-Está tão linda, Mia bella - eu a abraço e dou um beijo no topo de sua cabeça.
-Obrigada.
-Estão todos lhe esperando na sala de estar.
-Eu já vou descer. - a informo.
Alguns minutos depois saio do quarto e antes de descer as enormes escadas dou um longo suspiro.
E adesso (É agora)
Todos na sala direcionam seus olhares em mim. Há duas mulheres, uma aparenta ter em volta de seus quarenta anos e a outra não aparenta ter mais ou menos a mesma idade que eu. Há seis homens, todos vestidos de ternos muito bem cortados e de aparência elegante.
-Boa noite, senhorita Lázarri. - o primeiro me comprimenta e beija as costas de minha mão.
O mesmo se repete com os outros cinco. Um deles em especial me chama a atenção, quando seus lábios tocam as costas de minha mão sinto um arrepio e é como se eu tivesse esquecido como se respira.
Seus olhos verdes esmeralda prendem minha atenção. sua beleza pode ser comparada com a de um Deus grego.
-Boa noite. - ele dá um sorriso de lado e poderia jurar que há malícia em seu olhar.
Luca Salvatore é o primeiro a se pronunciar.
-Bom, senhorita Lázari esse é meu filho mais velho, Vicenzo. Como estou prestes a me aposentar ele assumirá meu lugar, então, qualquer assunto deverá ser discutido com o mesmo. - Eu continuo a encarar o belo homem a minha frente enquanto Luca apresenta os demais.
Faço um sinal positivo com a cabeça. Não vejo Luca Salvatore desde que fui embora para Inglaterra. Nunca tive muito empatia pelo mesmo, algo sempre me disse que ele não é confiável, na verdade, ninguém neste meio é, mas ele exala perigo.
-Esta é Ellora Ferrari, filha de um de nossos parceiros. - aperto a mão da mesma e se um olhar de ódio pudesse matar, eu com certeza não estaria viva.
Seus cabelos pretos desfiados estão soltos de maneira selvagem em corte curto, destacando seu belo rosto, a maquiagem é bem trabalhada e o preto nos olhos destaca suas belas írises verdes, seus corpo é esguio e perfeito. Ela exala elegância e maldade, ela mantém seus olhar analítico sobre mim e me avalia da cabeça aos pés - um gesto que eu particularmente odeio - e arqueia a sobrancelha.
Pelo que vejo, mal cheguei e já ganhei inimigos. A mesma alterna seu olhar de Vicenzo para mim, e eu dou um sorriso cínico.
Va bene... (Tudo bem)
Valentina adentra a sala anunciando que o jantar está pronto e nós a seguimos até a sala de jantar. A mesa está perfeitamente arrumada e decorada. Cada um se senta em seu respectivo lugar, eu tomo meu lugar na primeira cabeceira da mesa, e na oposta, Luca faz o mesmo. Ao lado esquerdo dele se senta Vicenzo e Ellora toma seu lugar ao lado do mesmo.
Segundos após o término do jantar um silêncio desconfortável preenche o ambiente e eu me pronuncio.
-Como todos já sabem, infelizmente meu pai veio a falecer a alguns dias - Digo de maneira fria, no fundo todos sabem que eu não me importo - e me deixou a responsabilidade e honra de substitui-lo em seu cargo, o segundo de maior importância na nossa hierarquia, ou seja, eu sou a nova subchefe. - solto um suspiro de vitória e todos brindam silenciosamente.
Meu cargo como diretora executiva (subchefe) é executar as ordens e decisões tomadas pelo Don (chefe), ou seja, é minha tarefa fazer com que os subordinados obedeçam as tarefas que lhe são delegadas.
Ellora continua a me encarar, o seu ódio é evidente e palpável, já não gostei da mesma, e na primeira oportunidade ela será carta fora do baralho. É óbvio que ela se sente ameaçada em relação a Vicenzo, sua insegurança é notável.
Em nenhum momento no jantar ela tirou os olhos do mesmo, e a cada oportunidade fazia questão de marcar território. O que me espanta é que nenhuma de suas demonstrações de afeito foram correspondidas.
Dou por encerrada a reunião e me despeço brevemente de todos. Ellora passa por mim e me oferece um sorriso amarelo o qual eu ignoro.
Vicenzo se aproxima e beija os nós dos meus dedos.
-Nós vemos em breve. Grazie pelo jantar. - faço quem sim com a cabeça e lhe desejo boa noite.
O relógio indica que são 00:23 e eu continuo a deixar meu olhar vagar pela cozinha.
-O que faz a essa hora acordada, Mia bella? - Valentina me tira de meus pensamentos.
-O que a senhora faz acordada a essa hora? - Refaço sua pergunta com um sorriso brincando entre os lábios.
-Eu perguntei primeiro. - ela rebate.
-Estou apenas sem sono. - Encaro meu copo d'água.
-Está pensado no moço bonito que estava aqui? - ela sorri.
-Não!
-Eu vi como ele te olhava, apesar da moça que o acompanhava tentar a todo custo ter um pouco de sua atenção, ele só tinha olhos para você. - dou uma risada nasal.
-A senhora está vendo coisas, Tina. - balanço a cabeça em negativo.
-Vai me dizer que não o achou bonito, não teve interesse nele? - ela insistiu.
-Não. - Abaixo o olhar.
-Eu te criei, menina. a conheço melhor do que qualquer pessoa no mundo, então não minta. - me repreende.
-Talvez eu tenha me sentindo um pouco atraída por ele, só talvez. Mas de qualquer maneira, ele aparentemente é comprometido.
-Ele não me pareceu interessado naquela moça. - comenta.
-Mesmo assim, não estou interessada em me relacionar com ninguém e muito menos um homem comprometido, não está em meus planos.
-Mas pode estar nos planos do destino.
