9. De volta ao seu coração
Katia ligou para Daniele e avisou que passaria aquela noite na casa de Nina.
— É melhor ficar uns dias por aí… Pelo menos até a raiva dele passar. — Falou Daniele. — E a Elizaveta? Sabe se ela está bem?
— Não sei, mas a nossa irmã sabe se cuidar, melhor que nós. Não se preocupe com ela. — Disse Katia. — Talvez fosse melhor você também não ficar aí. Não pode ir pra casa do Stefan ou…
— Não. Eu não quero mais falar nem com o Stefan nem com o Abel. — Daniele disse.
— Por quê? — Perguntou Katia.
— Eu te conto pessoalmente, quando nos encontrarmos. Tá bem? Agora, tenho de desligar. Elizaveta acabou de chegar. — Mentira. Elizaveta não tinha chegado, mas Daniele não queria mais falar sobre aquilo com Katia.
A menina não sabia nem a metade do que realmente acontecera, e era melhor continuar assim.
— Você não devia me tratar como uma criança! Eu sei que tem mais do que fala… Por que não confia em mim? Eu sempre te contei tudo, não? — Katia suspirou.
— Melhor deixar as coisas como estão. Falta pouco para nos libertamos, mas você tem de confiar em mim, fazer o que digo e não ser enxerida. — Daniele desligou o celular antes de cair no choro.
† † †
Katia colocou o telefone no gancho e voltou para o quarto de Nina. Sua amiga havia pego um pijama para ela e estava arrumando a cama de cima do beliche. Katya dormia tanto na casa de Nina, que Nina decidiu comprar um beliche para elas não dormirem espremidas.
— E aí, falou com a sua irmã?
Katia fez que sim com a cabeça e pegou o pijama.
— Levei a maior bronca e estou de castigo por um mês, mas… — Nina sorriu, com ar travesso. — Conhecendo meus pais, em menos de três dias, o castigo já era.
Nina era filha única e seus pais não conseguiam lhe dar um tapa sem lhe dar dois beijos e um abraço em seguida. Sempre assim. Katia queria que os pais de Nina fossem os SEUS pais porque eles eram legais. Se Dmitry fosse, pelo menos, um pouquinho como eles…
— Eu trouxe um lanchinho… — Disse Lacey Săvescu, a mãe de Nina entrando com uma bandeja com dois copos de leite e um prato cheio de cookies.
— Oba! — Falou Nina e como uma garotinha que era, foi correndo atacar os cookies.
— Dívida com a Katia, sua gulosa! — Falou Lacey dando um tapinha na mão de Nina.
— Ai, tá bom! — Falou Nina, fazendo biquinho.
† † †
Bonnibelle, Abel, Veronica, Stefan e Dmitry foram colocados juntos em uma cela e estavam todos se segurando para não brigarem novamente.
— Sabe? É melhor vocês sentarem porque isso vai demorar um pouco… — Disse o policial e saiu.
Dmitry sentou em um lado da sala, Stefan e Bonnibelle do outro, e Abel e Veronica de frente com as grades.
Stefan viu Veronica mexendo no celular e perguntou a ela como ela conseguira escondê-lo dos policiais.
— Gato, eu tenho os meus truques. — Ela disse e se aproximou das grades, fez uma pose sexy e tirou uma selfie. Encarou a tela e leu em voz alta o que digitou a seguir — Status: Presa com… Vou marcar vocês. Stefan Cernat, Abel Di Mărușanu e… Um filho da puta.
Dmitry deu de ombros.
— Ok… — Veronica encarou Bonibelle que estava emburrada, como se não a conhecesse. — Pena que não tenha ela na minha lista de amigos. Como é mesmo o nome dela?
— Sei lá… Qual seu nome, estranha? — Perguntou Abel.
— Bonibelle Conea. — Respondeu.
— Mandar solicitação para você… — Disse Veronica digitando o nome dela no campo de pesquisa. — Espero que tenha um perfil.
Abel riu como um demente.
— Esse está chapado. — Stefan revirou os olhos, bravo. Só queria voltar pra sua casa, tomar um banho e ir para cama.
Veronica ouviu passos e escondeu o celular em sua cintura, cruzou os braços e fez cara de paisagem. Até assobiou para completar a cena. Um dos policiais destrancou a cela.
— Veronica Roșescu está liberada. Pagaram sua fiança!
— Agora, sim, vou tomar uma surra da minha mãe. Ainda bem que tirei uma selfie antes. — Veronica brincou e se voltou a Abel e Stefan. — Se comportem e não se peguem justo agora que estou indo, suas delícias.
— Dá um beijinho aqui, Stefan? — Brincou Abel se aproximando dele.
— Vai se ferrar! — Stefan o empurrou.
O policial acompanhou Veronica e voltou, poucos minutos depois. Dessa vez, chamou por Bonnibelle.
— Ah, graças a Deus! Pensei que fosse mofar aqui. — Disse ela, se levantando rapidamente.
Antes de serem liberadas, Veronica e Bonnibelle foram ouvidas pelo chefe de polícia e contaram que tentaram ajudar Katia, e Veronica fora agredida por Dmitry, os outros só a defenderam. Tanto o chefe de polícia quanto o policial não pareceram acreditar na versão delas, mas bastou um telefonema e o advogado da família Roșescu veio imediatamente e conseguiu liberar Veronica. Ela pediu a seu advogado que ajudasse seus amigos, e ele, assim, o fez.
— Aí, fico te devendo essa. — Falou Abel agradecido.
— Pode ter certeza que vou cobrar e com juros. — Brincou Veronica.
— Se um dia precisar de qualquer coisa, pode contar comigo. — Stefan disse a Veronica.
— Não vou me esquecer disso. — Veronica bateu nas costas dele, sorrindo.
Dmitry não conseguiu falar com seu tutor e teve de passar a noite atrás das grades. Só na manhã seguinte que ele conseguiu falar com Kubrik, mas ele estava do outro lado do país em uma conferência e demoraria a chegar.
Daniele fez das tripas coração, e atendeu o pedido de seu tutor, indo até a delegacia e levando algumas coisas para Dmitry. Ele parecia tranquilo quando ela o viu, mas ela o conhecia bem e sabia que quando ele ficava calado e pensativo, estava tramando alguma coisa.
— Falei com nosso tutor e ele vai tentar contatar um advogado antes de voltar. Não vai ficar aqui por muito tempo. — INFELIZMENTE, pensou.
Ele a encarou por um tempo e ela sentiu-se desconfortável. “Hora de encerrar a visita”, pensou, “minha parte, eu fiz… De resto, lavo minhas mãos”.
— Obrigado. — Ele tocou a mão dela. — Só por estar aqui, já prova que se importa comigo.
Daniele não respondeu, mas sua vontade era de dizer que por ela, ele poderia apodrecer ali, já que não faria falta a ninguém, mas conteve-se. Só o venceria se jogasse o jogo doentio dele.
— Mesmo que a gente não se dê bem, somos irmãos. Nada pode mudar isso. — Daniele disse.
— Sim, tem razão. — Dmitry beijou a mão dela.
— Eu tenho que ir agora. Não posso deixar Katia sozinha. — Falou Daniele, ansiosa pra se ver livre dele.
— Ela não foi ao colégio? — Dmitry apertou as grades.
— Não. — Mentiu Daniele. — Pobrezinha! Não para de chorar desde ontem e dizer que a culpa é dela. Ninguém imaginou que as coisas fossem tomar essas proporções.
— Sei… — Dmitry recuou, cansado.
— Então… Até mais. — Daniele disse.
— Até mais. — Dmitry respondeu.
Assim que se afastou do bloco de celas, Daniele limpou a mão que Dmitry beijara, na barra de sua saia, com nojo.
Daniele não quis ir ao colégio, mas acabou se entediando em casa e decidiu aparecer no terceiro tempo. Esperou até a hora do intervalo e foi procurar por Damir. No caminho, encontrou Veronica e se aproximou dela.
— Com licença… — Disse Daniele sem jeito.
— Oi? — Veronica disse.
— Eu… Só quero agradecer por ter ajudado minha irmãzinha na noite passada. Obrigada. — Falou Daniele e virou-se nervosa, pronta pra ir embora. Veronica tocou o ombro dela e ela virou-se devagar.
— Aí, sei que não nos damos bem, mas… Não deixe aquele cara tratar sua irmã ou você daquela forma. Nenhuma garota merece isso. — Veronica disse.
Pela forma como Veronica olhou e falou com ela, Daniele sentiu-se pequena, insignificante e fraca. Mas Veronica estava certa. Nenhuma garota merecia ser tratada daquela forma.
Veronica pegou uma sacola em seu armário, o fechou e antes de se afastar, disse a Daniele:
— A gente se esbarra por aí.
Daniele levou algum tempo para se recompor e ir atrás de Damir. O encontrou na biblioteca, folheando um livro sobre História Da Arte.
— Damir… Precisamos conversar. — Ela disse.
— Eu acho que já falamos tudo o que tínhamos para falar. — Disse Damir, magoado.
— Não! Você falou, mas não me ouviu! — Disse ela sentando-se ao lado dele e tirando o livro das mãos dele. — Por favor, me escuta?
— Tá… Fala. — Disse Damir, desejando que ela o convencesse porque ele a amava tanto que estava disposto a perdoá-la.
— Eu não quero falar do meu passado porque quando olho para trás, me sinto horrível. — Falou Daniele chorando. — Minha vida nunca foi um mar de rosas e eu nunca soube o que era ser verdadeiramente amada até te conhecer. Sei que não sou perfeita e que fiz várias coisas erradas, mas juro que se me perdoar, não vai se arrepender. Vou ser perfeita para você, eu juro. Só me dê outra chance?
— Eu só não quero que brinque comigo. — Falou Damir.
— Não vou brincar, eu juro. — Disse Daniele.
— Tá. — Damir apertou a mão dela.
Ela levantou-se e o abraçou forte.
