5. Prazer? Eu sou encrenca
No intervalo entre as aulas, Talya encontrou com Raisa Dumitrescu e Vania Romanescu enquanto pegava seus livros no armário e as três foram caminhando e conversando.
— Nina disse que ia falar com o tio dela para conseguir que a gente toque no pub. O que acha? — Perguntou Vania.
— Ah, legal. — Falou Talya e deu de ombros.
— A Yulia também está pensando em distribuir CDs da banda na saída do evento. Não é maneiro? Cherry Plum vai decolar! — Falou Vania, animada.
— Sim, é legal. — Disse Talya, absorta em pensamentos.
— Algum problema? Você está tão área. — Raisa deu uma cotovelada de leve em Talya.
— Não é nada. Só estou cansada. Não dormi bem noite passada. — Falou Talya.
— Também, ao lado do Artemy… Acho que nem eu dormiria. — Vania sorriu, maliciosa.
— Eu nem vi o Artemy ontem. Esqueceu que ele está fora da cidade e só volta amanhã ou depois? — Disse Talya irritada.
— Ah, é? Não, não sabia. Ou sabia? — Disse Vania confusa. — Eu nem sei, viu? O clima lá em casa anda tão tenso que nem tenho mais cabeça para nada, a não ser para a banda, que é minha fuga da realidade. A gente bem podia ficar famosa, assim, eu viveria viajando… Odeio minha família!
— O seu pai continua maltratando vocês? — Falou Raisa.
— Eu mentiria se dissesse que não. — Falou Vania, chateada.
— Por que a sua mãe não denuncia esse infeliz para a polícia? — Perguntou Raisa.
Vania riu, amarga, e disse:
— Esqueceu que ele é da polícia? Por isso, acha que pode fazer o que quiser.
— Então, nesse caso, ela deveria pegar seus irmãos e você e fugir para longe. — Falou Raisa.
— Minha mãe é uma conformada. — Falou Vania.
— Eu sinto muito, amiga. Mas como dizem, não há mal eterno. Cedo ou tarde, sua mãe reagirá. — Falou Talya.
— E vocês vão à festa do Abel? — Perguntou Raisa, mudando de assunto.
— Não… Não sei. — Disse Talya. — Não sei se Abel vai me querer lá. Faz um tempo que ele vem me dando um gelo, e com razão, eu sei. Eu me afastei dele primeiro. Mas somos irmãos e eu sinto a falta dele.
— O Abel é um cara difícil. — Falou Vania.
— Nem me fale… — Raisa revirou os olhos. — Mas se você quer mesmo se reaproximar dele, Talya, não vá com tanta sede ao pote. Tente reconquistar o carinho dele aos poucos.
As três seguiram o corredor à direita e deram de cara com Mikhail Moscovici e Anjelica. Os dois vinham conversando juntos, ou melhor, Mikhail vinha conversando… Falava rápido, animado e quase sem vírgulas sobre os lugares onde aconteciam as festas mais maneiras e que levaria a amiga em cada um desses lugares se ela o permitisse. Talya não fazia ideia que Anjelica havia voltado e se surpreendeu ao revê-la.
— Anjelica?
— Talya… — Anjelica virou o rosto, sem jeito. A última pessoa no mundo, depois de Abel, que ela não queria encontrar naquele momento era Talya.
— Quando voltou? Por que não me ligou? — Perguntou Talya.
— Serei bem direta com você… — Anjelica a encarou, ressentida. — Quero distância do Abel e de você. Já me prejudicaram bastante. Graças a vocês, estou estigmatizada para sempre.
— Eu… Sinto muito por tudo… De verdade. — Falou Talya, sinceramente.
— Sim, sei que sente, mas isso não é o bastante. Seu arrependimento não vai te fazer voltar no tempo nem consertar as coisas. Eu confiava em você, era como uma irmã para mim, mas me traiu de uma forma que não esperava. Não tem noção do quanto isso doeu. Por favor? Se esqueça de mim como me esqueci de você. — Anjelica se afastou dela.
Mikhail a seguiu.
— Eu mereço isso porque fui uma péssima prima e, também, uma péssima irmã. — Falou Talya se segurando para não chorar e se apressou para ir para a sala de aula. Precisava ocupar sua mente com algo, imediatamente.
† † †
Branka pensava em uma forma de fugir do interrogatório de Yulia enquanto pegava seus livros no armário do colégio.
— Sinceramente… Não entendo porque o Dmitry e você terminaram, se formavam um casal tão lindo. O que aconteceu? Não vai mesmo me contar? Sou sua melhor amiga.
— Não aconteceu nada, Yulia. Só percebi que ele não faz o meu tipo, é… “Certinho” demais. — Branka sentiu vontade de gritar a verdade sobre Dmitry, mas quando se lembrava da maior prejudicada naquela história, se sentia frustrada. Ela não podia fazer nada, não sem provas.
— Talvez, prefira alguém como o Abel… Ele continua solteiro. — Yulia disse.
Branka pegou seus livros e fechou seu armário com uma batida. Se virou e encarou Yulia, furiosa.
— Pare de tentar arrumar um homem para mim! Eu não preciso! Estou bem melhor sozinha! — Branka disse.
— E que tal a Veronika? — Yulia disse, sorrindo.
Branka revirou os olhos e bufou, se controlando para não brigar com Yulia.
— Ao contrário do que você pensa, nem todos os romenos são homofóbicos. Eu, por exemplo, não tenho nada contra relacionamentos homoafetivos. — Yulia disse.
— O dia em que eu precisar de alguém para dar sentido a minha vida, sentirei pena de mim mesma porque me tornarei patética. — Branka se afastou de Yulia, rapidamente.
Yulia ia atrás dela, mas Stefan se aproximou, exibindo o seu melhor sorriso.
— O que você quer? Vá direto ao ponto porque não estou com paciência para rodeios. — Yulia disse.
— Você quer vir à festa do Abel comigo? — Perguntou Stefan.
— Para você me trocar pela Daniele no instante em que ela aparecer? — Yulia disse, cruzando os braços e virando o rosto.
— Me desculpe? Eu não deveria ter te deixado sem nenhuma explicação. Foi grosseiro da minha parte. — O albino disse, sem graça e passou a mão por seu cabelo branco.
— Eu sei que não devo esperar nada de você, mas, ao menos, enquanto estivermos juntos, gostaria de ter sua atenção voltada somente para mim. Pode ser? — Yulia disse.
— É justo. — Stefan disse.
— Eu não devia perguntar, mas… Fez esse convite, primeiro a ela? — Perguntou Yulia, o encarando.
— Não. Estou convidando você e somente você. — Stefan segurou gentilmente o queixo dela e lhe deu um selinho. — Por favor, não fique brava comigo? Aprecio muito a sua companhia.
— Eu não estou brava. — Yulia disse, recuando. — Tenho de ir, agora. Estou atrasada.
— Nos vemos. — Stefan acenou para ela e a observou se afastar.
