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2 - CONHECER

Alice

Respirei fundo encarando a mesa a minha frente, eu estava novamente trancada dentro desta universidade, sem vida alguma, sem alma, indo a óbito, morrendo por dentro.

Tá, talvez eu estivesse sendo um pouco dramática, mas qual é? Estava um belo dia ensolarado lá fora e eu estava aqui, presa, estudando a mente humana, que na maioria das vezes está completando ferrada por culpa desse tipo de desgaste.

Curioso, né?

Nesse meio tempo em que eu passei aqui fiz duas amigas incrivelmente especiais, elas eram as únicas que podiam me tirar desse tédio.

Não que eu odiasse estudar mas hoje, especialmente hoje, não era o meu dia.

Sabe quando você acorda de mal humor e nada na sua vida faz sentido?

Anne e Mabel comentavam sem parar de um novato que havia sido transferido de um outro lugar para estudar aqui, eu não fazia ideia de como elas sabiam esse tipo de informação antes de todos, porém, elas sabiam.

Ninguém tinha descoberto ainda qual a história dele, do porque ele estava aqui, ou do porque ele resolveu mudar de Universidade no meio do ano, mas enfim, não importava, era só mais um no meio de tantos outros tentando conciliar a correria da vida com o fato de se formar.

As horas finalmente foram passando de forma mais rápida e fomos convocados para um debate, o que sinceramente eu achava desnecessário para o dia de hoje que estava insuportavelmente insuportável.

Fomos todos para o grande auditório da faculdade e só sabiam falar dele.

Do menino novo.

Me perguntei do porque isso ser tão interessante assim, era no mínimo estranho.

- Como será que ele é? - Anne perguntou um pouco pensativa.

Ela era a mais calma, uma menina imaginativa demais, doce e gentil, era como se ela vivesse à espera de um príncipe no cavalo branco.

- Eu espero que no mínimo ele seja bonito. Estou enjoada de todos os caras do campus, já provei a maioria. - Mabel soltou. - Figurinha repetida não dá.

A Mabel era realmente muito exibida, e uma das maiores pegadoras da Universidade, afinal, ela tinha atributos o suficiente para isso, era genuinamente linda. Ela já havia realmente conhecido várias pessoas, porém era muito grande o local e ela estava exagerando.

Eu me contentava em ficar calada, apenas observando a conversa estranha das duas, às vezes eu me obrigava a rir porque realmente era engraçado vê-las discutir sobre esse menino.

- E você Alice? O que está achando dessa história toda? - Mabel me cutucou me fazendo sair dos meus devaneios.

A empolgação delas não acabava nunca?

- Não me importo muito. É só mais uma pessoa que vai entrar e sair, como foi com todos os outros. - cruzo os braços. - Larguem de ser tão taradas.

- Você não tem nenhum pouco de curiosidade? Até parece... - Anne perguntou um pouco relaxada.

Não respondi, apenas neguei com a cabeça.

O professor passou pela porta, todos se calaram e ele foi direto para a mesa ajeitar suas coisas para começarmos a aula.

Um rapaz completamente estranho entrou logo em seguida, eu sabia que ele era o novato porque de repente todos começaram a cochichar e sussurrar coisas entre si. Eu me coloquei no lugar dele, e me imaginei como seria se fosse eu chegando e todos me encarando assim.

Me sentiria completamente deslocada em um lugar novo sendo o centro das atenções.

Ele caminhou entre os lugares até achar um que lhe agradasse, eu não consegui tirar os olhos dele desde o momento em que ele passou pela porta, assim como os outros.

Entrei num curto transe, ele era deslumbrante, qualquer uma ficaria atraída, era realmente charmoso o modo que seu cabelo caía sobre seus olhos castanhos. Me chamava atenção sua forma de andar, a maneira de como ele parecia educado, não que ele fosse, mas parecia ser.

Balancei a cabeça, mais que merda, no que eu estava pensando?

Me assustou a forma que me senti atraída, foi como uma eletricidade percorrendo por todo meu corpo. Era assustadora a forma que meus pensamentos ficaram fora de ordem. De repente eu não tinha mais controle sobre meu corpo, meu rosto estava queimando de êxtase misturado com a vergonha de estar no mesmo local que ele.

Eu parecia uma adolescente se derretendo por um estranho na rua.

No final, eu só estava conseguindo ouvir suspiros vindo do fundo do lugar, todas estavam se sentindo como eu? Ele era invejável.

- Você está quase babando, Alice. - Alguém estalou os dedos na frente dos meus olhos. - Para quem nem se importava, até que você parece interessada demais. - Mab falou cinicamente me tirando do meu devaneio.

- Me deixa, ok? Você anda muito sem graça ultimamente. Deixa as brincadeiras para depois. - eu falei meio nervosa.

Ela sorriu cínica.

O tempo passou voando, e o debate também, não tive tempo para olhar para o novato, eu estava empolgada com toda aquela aula, me sentia preparada para falar sobre horas sobre aquilo, porém o professor precisava sair mais cedo para resolver algo.

No final da aula todos resolveram ir falar com o cara novo, se insinuando, inclusive minhas amigas, que me deixaram sozinha, eu fiquei com vergonha e não tive coragem de ir até lá, não era falta de vontade porém eu sabia que era muita vergonha para se passar no débito assim, então eu simplesmente arrumei minhas coisas e sai correndo da sala, eu apenas queria me livrar de toda aquela tensão que eu mesma havia colocado em mim.

No fundo algo me dizia que ele não era grande coisa assim e eu havia dado importância demais, meu coração batia forte só de lembrar.

Quando eu estava saindo me senti um pouco observada, como se um par de olhos tivessem grudados em mim e não quisessem larga da minha pele, vendo e analisando cada maldito passo que eu dava.

Estranho.

Depois de alguns segundos andando eu já estava no câmpus, meu apartamento era incrivelmente perto e eu gostava de andar ao ar livre, então não demoraria menos de 10 minutos até lá e eu o escolhi justamente por isso, para não complicar meu transporte nos meus estudos na faculdade.

Parei por um instante para olhar meu relógio até que senti uma presença atrás de mim, me virei imediatamente, assustada e curiosa, nesse momento eu gelei, meu corpo estremeceu.

Levantei os olhos e parei de respirar por uns segundos, meus olhos foram de encontro com os deles, e de repente um sorriso tímido se abriu em sua face.

Eduardo

Era meu primeiro dia nesse lugar e não havia passado nem meia hora e me sentia sufocado, completamente inundado de atenção e isso me deixava perturbado.

Era muito desconfortável toda essa idolatria exagerada. Todos aqui eram tão fofoqueiros?

Enfim, havia sido muito fácil me achar por aqui, eu pensava que seria complicado mas a Universidade era realmente bem organizada.

Assim que cheguei sentei ao lado de um cara, ele me parecia bem amigável porém eu continuava me sentindo muito desconfortável.

Mas o problema não estava em ninguém, estava em mim.

- Ora, ora, seja bem vindo. - o cara ao lado me cumprimentou. - Sei que deve está sendo uma barra chegar no meio do ano, mas logo você se acostuma. - ele deu de ombros.

- É, um pouco complicado mas nada que eu não possa dá conta. - respondi em seguida e nós rimos.

Trocamos mais algumas palavras e ele realmente parecia ser um cara legal, mas realmente na minha cabeça passava-se mil coisas, pensamentos de todos os tipos e qualidades, enquanto eu olhava para todos da sala analisando um a um intercalando com as olhadas para o professor e tentando entender o que aquele menino falava. Ele tagarelava sem parar sobre a Universidade.

Continuei observando as pessoas até parar em uma menina um tanto diferente das outras, ela parecia estar nervosa com algo, suas bochechas estavam automaticamente corando por algo que eu não fazia ideia do que podia ser, ela estava rindo com as amigas e provavelmente era por isso, algo me chamava mais atenção ainda, aqueles belos olhos pretos e enormes.

Suspirei. Bonita, até.

- Eduardo, você está me ouvindo? - o menino me chamou atenção novamente.

- Claro, sim, estou! - eu estava mentindo descaradamente.

- Então, você está convidado. - falou animado.

Fiz uma careta, do que ele estava falando?

- Para onde? Pode repetir, por favor. - perguntei meio confuso.

- Vou repetir só mais uma vez...Vamos dar uma festa depois de amanhã, seria legal se você fosse, assim você pode conhecer todos. - um sorriso malicioso apareceu no seu rosto.

Umedeci os lábios respirando fundo, parecia ser uma boa ideia.

Olhei para menina novamente.

- Aquela garota vai estar lá? - apontei para a menina dos olhos negros.

- A Aly? Quero dizer, a Alice? Sim, provavelmente. - ele me lançou um olhar diferente. - Você se interessou por ela, não foi? - Ele era esperto.

- Nada de mais, é só uma dúvida. - respondi mais que pra mim do que para ele.

Quando a aula acabou eu iria embora mas várias pessoas se aproximaram de mim, queriam me comprimentar e etc, eu não gostava disso, pois sempre fui na minha, odiava chamar atenção, locais com pessoas ao meu redor sempre me incomodaram, até porque eu sempre soube que essas pessoas não passavam de estranhos com interesses próprios. Inclusive as outras duas meninas que estavam com Dakota estavam ao meu redor.

- Olá, me chamo Mabel ou Mab pros íntimos e está é Anne. - Elas até pareciam ser simpáticas mas eu não tinha muito interesse assim.

- E eu me chamo Eduardo - me forço a ser simpático.

- Bom, a gente podia se conhecer melhor qualquer dia. - Mabel falou com um riso malicioso.

Não gostava de meninas atiradas, era entediante.

- E você, Anne? Tudo bem? - perguntei ignorando Mabel completamente.

- Bom.. É tudo normal. - ela estava meio sem jeito.

Ficamos conversando por um bom tempo, e assim como eu havia pensado, Mabel era uma pessoa legal só meio forçada e quando percebeu que não gostei nenhum pouco de suas investidas ela mudou a tática para interagir sendo apenas uma pessoa normal. Anne era bem interessante, mas seu jeito tímido dificultava a interação.

Quando eu finalmente me livrei de todas as pessoas vi Alice sair praticamente correndo da sala, observei cada passo que ela dava então resolvi ir atrás dela pois havia sido a única que não tinha falado comigo, sai atrás dela por impulso e quando cheguei na escadaria da faculdade a avistei e continuei seguindo-a até alcançá-la.

- Oi? - falei segurando-a.

Eu me sentia corajoso. - Posso parecer um pouco atirado, não sei. Mas resolvi falar com você mesmo assim. Achei estranho, você foi a única que não falou comigo hoje - foi a única besteira que consegui falar. - Ah... a propósito, me chamo Eduardo.

- Então Eduardo, o mundo não gira ao seu redor. - ela falou seca. - Mas enfim, eu me chamo Alice, mas pode me chamar de Aly. - ela olhou pros lados. - Desculpa, eu não pensei que fosse tão importante assim falar com você. - disse por fim, ela estava claramente envergonhada.

Eu me senti patético.

- Eu... Não sei o que dizer agora. - me senti muito idiota.

Ela sorriu.

- Acho que eu que fui um pouco antipática demais. - ela disse olhando para o chão.

Suspirei.

- Posso te acompanhar? - pergunto apontando para rua e ela balança a cabeça confirmando. - Então vamos.

Fomos andando calados até chegarmos em frente a um prédio que eu acho que deveria ser sua casa, fica mais ou menos a um quarteirão da faculdade, bem prático como eu pensei, ela era uma pessoa incrível, e simples, percebi enquanto trocávamos algumas palavras para não ficar um silêncio tão desconfortável.

- Chegamos! Eu moro aqui. - disse apontando para o prédio.

- Eu estava pensando um pouco e como estou muito atrasado, queria pedir um favor. - falei como se fosse um tiro no escuro. - Você poderia me dá alguma ajuda? E...- era uma desculpa idiota pra poder manter contato. - Pode me ajudar com o conteúdo perdido?

Ela sorriu.

- Se você quiser, pode passar aqui amanhã. Te dou uma força. - ela me parecia inocente ao ponto de cair nisso.

- Combinado então, Alice. - falei eufórico, nem esperava o convite.

Mas deu certo.

- Moro no 13° andar. - ela disse olhando para cima.

- Me dá seu número? - pedi com calma.

Eu queria de mais e apesar de ser boba ela deveria pensar que eu era um louco.

Ela me disse o número e nós se despedimos, esperei ela entrar no prédio e comemorei a vitória com uma dancinha ridícula.

Quando eu queria algo, eu conseguia!

Voltei para faculdade, eu queria pegar meu carro que havia deixado no estacionamento do mesmo local, chegando lá eu não conseguia parar de rir que nem um bobo, pois tudo que sabia era que havia gostado dela, alguma coisa nela me chamou atenção, ela não era nenhum pouco igual as outras, previsível...

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