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Olivia
1 semana antes do casamento.
O som da porcelana contra o pires ecoava no pequeno salão, tornando o silêncio ainda mais pesado. O cheiro adocicado do chá de jasmim parecia sufocar o ar entre nós três.
Minha mãe, Amélia, estava sentada com a postura ereta, o sorriso típico que não mostrava um pingo de nervosismo. Já eu, sentia cada músculo do meu corpo tenso, como se estivesse prestes a enfrentar um tribunal.
Helena, a mãe de Evan, também não parecia desconfortável. Muito pelo contrário, ocupava seu espaço como se fosse uma rainha concedendo audiência. Seus olhos calculistas varreram a sala antes de pousarem em mim. Quando ela abriu a boca, sua voz saiu firme, envolta em uma camada de frieza deliberada.
— Quero que largue seu trabalho e foque completamente no casamento. — Sua xícara pousou no pires com um movimento calculado.
Minha mãe sequer hesitou. Sem perder o sorriso, assentiu como se aquilo fosse uma exigência razoável.
— Claro, sem problema algum. Na verdade, já estava pensando nela se demitir. — O tom dela era quase casual, como se isso fosse um detalhe pequeno e insignificante. — Na verdade, Olivia nem deveria ter começado a trabalhar.
O olhar de Helena cravou em mim como uma lâmina.
— Seu nome e rosto não podem aparecer. Saia do seu emprego. — Ela fez uma pausa, talvez para se certificar de que suas palavras tinham peso. — E outra coisa, o seu mudismo não está melhorando, não é?
Minha mãe levou a xícara aos lábios, indiferente à tensão crescente no ar.
— Mas será que tem a necessidade de melhorar? — murmurou, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa.
Helena inspirou profundamente, como se estivesse reunindo paciência.
— Acho que ela poderia muito bem continuar calada. — Sua decisão final foi acompanhada de um movimento brusco. Pegou a bolsa e se levantou, o movimento fazendo sua cadeira ranger.
Instintivamente, minha mãe e eu a acompanhamos. Helena caminhou até a porta, sua presença autoritária consumindo o ambiente.
— Não se preocupe, ela não vai atrapalhar em nada… — minha mãe começou, mas Helena nem esperou que terminasse. A porta se fechou com um estrondo que ecoou como um soco na minha mente.
O silêncio seguinte era quase ensurdecedor. Revirei os olhos e voltei a me sentar, pegando minha xícara de chá. O líquido ainda estava morno, mas sua doçura me causava enjoo.
— Não aguento essa vadia. — As palavras escaparam de sua boca quase como se não pensasse, o tom baixo, mas carregado de frustração. — Acho que vou precisar dar uma lição nessa mulher.
Minha mãe suspirou, sentando-se ao meu lado. Sua presença, que normalmente me trazia um conforto amargo, hoje parecia mais um peso.
— Tudo isso, obviamente, é culpa sua. — Sua voz era cortante, e suas palavras me atingiram como um tapa.
Ela tirou a xícara da minha mão com um movimento brusco e a colocou de volta no pires, o som ecoando pelo ambiente.
— Já que decidiu roubar o homem de outra, o mínimo que deveria fazer é conquistá-lo. Você precisa reagir e tomar uma atitude, Olivia. Você não puxou nada da sua mãe. — Ela balançou a cabeça em desgosto. — Você é a filha mais nova do Sr. Donovan e a futura nora do presidente. Comporte-se como tal.
Evitei seu olhar. Minha mente vagava para Sophia, minha irmã. Se ela não tivesse sido tão egoísta, não estaríamos nessa situação. Tudo isso deveria ser dela. Este casamento, esta família, este peso esmagador… Era dela, não meu.
— Não vou pedir de novo. — A voz da minha mãe trouxe minha atenção de volta. Seus olhos brilhavam com algo entre frustração e desgosto. — Comece a se comportar como a esposa de Evan. Ou você acha que ele vai tolerar essa passividade por muito tempo?
Ele mal fala comigo. Escrevo.
Minha mãe bufou, cruzando os braços.
— Porque ele está esperando que você mostre que é digna dele. Evan não é homem de se contentar com menos do que perfeição, Olivia. Você precisa entender isso.
Eu queria responder, dizer algo que mostrasse como eu me sentia presa, sufocada, mas as palavras pareciam presas na minha garganta, exatamente como sempre.
Mais tarde, sozinha no meu quarto, me permiti desmoronar. Sentei na beirada da cama, o vestido apertado demais para que conseguisse respirar direito. Minhas mãos tremiam enquanto eu arrancava os sapatos, jogando-os para o canto do quarto.
Olhei para o espelho. A mulher que me encarava de volta parecia uma estranha. O rosto pálido, os olhos cercados de olheiras. Eu parecia… frágil. Uma boneca quebrada colocada em um pedestal que nunca pedi.
“Você precisa reagir.” A voz da minha mãe ecoava na minha mente.
Mas como? Como eu deveria reagir quando cada movimento meu era vigiado, cada palavra medida e cada escolha feita por outra pessoa? Minha vida inteira parecia um teatro, com outras pessoas decidindo meu papel.
Pensei em Sophia. Ela era tudo que eu não era: carismática, determinada, uma força da natureza. Ela tinha fugido, deixando-me aqui para lidar com as consequências de suas escolhas.
“Se você tivesse tomado as rédeas de sua própria vida, não estaria nessa situação,” pensei, ecoando as palavras que minha mãe certamente diria se pudesse ouvir meus pensamentos.
Fechei os olhos, inspirando profundamente. Uma pequena voz dentro de mim sussurrou que talvez, apenas talvez, houvesse uma forma de recuperar algum controle. Eu não sabia como, mas sabia que não poderia continuar assim.
O casamento estava se aproximando, e com ele, a promessa de uma vida que não era minha. Mas se eu iria me tornar a esposa de Evan, então eu precisaria encontrar um jeito de ser mais do que uma substituta.
