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1

O corpo de Luciano jamais seria encontrado e ninguém poderia explicar o que havia acontecido.

Só ela sabia.

Como ele a havia destruído.

Ele havia removido a cabeça de um homem. Tinha rasgado carne, tendões, ossos, músculos, nervos. Ele correu para o banheiro para vomitar sucos gástricos, porque não havia mais nada em seu estômago.

Após cerca de um mês, a situação ainda era a mesma.

Naquela noite Damiano havia feito uma sopa de legumes da melhor maneira possível. Deve haver um cheiro bom na casa, mas ela só podia sentir o cheiro de sangue e carne.

"Coma alguma coisa", pediu Damiano, enquanto colocava a tigela de sopa fumegante na frente dela.

Os grãos flutuantes pareciam pequenos pulmões. Os pedaços de tomate, pedaços de carne e sangue. Grão de bico do cérebro.

Ela sufocou um vômito e empurrou seu prato para longe.

Já não estava tão frio. A primavera estava chegando, as árvores estavam florescendo. No entanto, ela se sentia tão malditamente fria.

Damiano devolveu o prato e, em tom mais áspero, ordenou: "Coma". -

Altea virou-se para olhá-lo.

Foi bonito. Tão bonito. A mandíbula parecia esculpida em mármore, os lábios tinham uma linha sinuosa, carnuda e rosada. Os olhos estavam cercados por cílios profundos, negros como a noite. Como sua alma despedaçada. O cabelo tinha crescido um pouco e o corte agora era mais linear. Maçãs do rosto não muito proeminentes, não muito afundadas.

Por um momento ela pensou que se lembrava do toque de seus lábios, a sensação de seu corpo poderoso pressionado contra o dela.

Ele olhou para seu pescoço macio. A garganta. Sim... foi aí que começou a cortar.

"Você tem que comer", ele sussurrou.

Altea apoiou as solas dos pés no assento da cadeira e a cabeça nos joelhos. Era tão magro que se encaixava perfeitamente.

Embora ela não estivesse olhando para ele, ela sentiu o ar ao seu redor rarear, como se alguém estivesse consumindo todo o oxigênio. Ele quase engasgou, e ele não se importou.

Ele sabia que, se olhasse para cima, atingiria seus objetivos. A essa altura, ele reconhecia o aumento inexorável de seu poder, mesmo que nunca tivesse tido a chance de vê-lo, como se estivesse dormindo.

Um som áspero, talvez um rosnado, mas ela não tinha certeza, ecoou por sua pequena cozinha bagunçada.

Um golpe a fez pular, mas ela não se moveu. O som de madeira se estilhaçando, pratos quebrando, talheres caindo.

"Altea", ele implorou.

Somente quando ele a agarrou pelos ombros e a levantou da cadeira, Altea prendeu seu olhar no dele.

- Altea, você tem que lutar com ela. -

Altea franziu a testa, a primeira expressão em dias.

"A dor que você tem aqui", disse ele, colocando a mão no peito, dedos ásperos contra a pele. - Você tem que vivê-lo, passar por isso, alimentar-se e depois deixá-lo ir. Siga em frente. Se você o mantiver dentro de você, ele o consumirá. -

Suas palavras saíram duras, mas tinham todo o ar de uma oração silenciosa.

Quando ele a soltou, seu olhar foi de mãos dadas com mais força.

- Você deveria ter esperado por mim. -

Era a primeira vez que ele dizia isso. Altea sabia que ele estava com raiva porque ela havia tomado decisões sem confrontá-lo. Escolhas sobre assuntos sobre os quais você não sabia nada, movidos apenas pelo instinto, como um animal cuja vida deve ser salva. Ela tinha sido imprudente, tola. Ele tinha jogado exatamente o jogo dela, e ela sabia disso bem. Ela tinha permitido que ele a aniquilasse.

"VOCÊ DEVE ESPERAR POR MIM," ele gritou, andando como um lobo enjaulado.

Altea podia ver toda a culpa o consumindo por dentro. Culpa por não estar lá com ela, por não poder impedi-la de fazer tudo isso, de tomar aquelas decisões estúpidas.

- Ele poderia ter matado você! Eu teria... - ele continuou gritando, e então parou.

Ele agarrou seus ombros novamente. "Por favor", ele implorou. - Por favor me fale. -

Mas Altea não conseguia falar.

- Talvez eu deva ir. Devemos fingir que nunca nos conhecemos. Eu tenho pensado muito sobre isso esses dias, sabe? ele explicou em um tom áspero. - Mas Dante continuaria te torturando e me devolvendo a você, porque ele sabe que faria qualquer coisa para te proteger. -

Ele caiu no chão, de costas contra a parede, a cabeça apoiada em uma mão. Ele fechou os olhos.

"É minha culpa", ele sussurrou. - Estou destinado a destruir tudo o que toco. -

Minutos se passaram. talvez horas.

Num piscar de olhos, Damiano sentou-se e desapareceu no quarto. Ele saiu usando sapatos e uma jaqueta. Ele vestiu Altea às pressas e pela primeira vez ela pareceu olhar para ele com curiosidade.

Sem explicar nada, ele pegou e de repente Altea não viu nada além de uma série de raios de luz ao seu redor. Parecia-lhe que navegava pelo universo, entre milhares de estrelas amarelas, brancas, vermelhas, laranjas. O vento açoitava seu rosto, seu cabelo.

No espaço de alguns segundos, tudo ficou imóvel, imóvel. Mas seus pés não tocaram o chão.

Abaixo dela o rio corria furiosamente e só a mão de Damián a impedia de cair no vazio.

Algo explodiu em sua cabeça, algo que estava adormecido por muito tempo, e Altea, com um grito que poderia derrubar montanhas, agarrou-se ao antebraço de Damiano que, da beira da Ponte do Suicídio, a segurava com uma das mãos.

Quando Altea soltou aquele grito, Damiano pareceu aliviado.

Ele imediatamente a pegou e a pressionou contra seu peito, sem descer da borda.

Altea tentou lutar contra o medo e o terror, e se mover o mínimo possível para não correr o risco de cair. Damiano a abraçou com força e quando seus olhos se encontraram, os de Damiano estavam pretos novamente.

- Olá menina. -

Algo naquelas palavras pareceu aquecer seu coração. Aquele coração que parecia ter ficado frio por dias e lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto.

Damiano sorriu enquanto chorava. Ele recolheu todas as lágrimas dela com o polegar, em carícias suaves que pareciam marcar sua pele com fogo. Quando ela finalmente começou a soluçar e liberar sua dor, Damiano saltou do parapeito e a pressionou com força contra seu peito.

Altea estava literalmente presa aos espasmos e aos choques de seu choro, de seus gritos que se perdiam no céu, entre as estrelas, na escuridão.

"Então," ele sussurrou em seu ouvido enquanto acariciava sua cabeça. - Volte a mim. -

Altea não sabia dizer quanto tempo eles estavam lá em cima, mas ela sabia que os braços de Damiano se tornaram uma âncora para se agarrar. O mar tempestuoso que era sua mente parecia incapaz de arrastá-la ainda mais para o esquecimento. Uma luz, em vez disso, pareceu atraí-la, oferecendo-lhe oxigênio e conforto. Ela absorveu tudo, avidamente, não se importando com ninguém além de sua dor, e Damiano se permitiu ser consumido, drenado de todo o calor e amor que tinha.

Então eles estavam apenas abraçados, em silêncio, balançando levemente, como se estivessem dançando um pouco. Só então Altea quebrou o silêncio.

"Sinto a pressão da carne ceder sob o bisturi", ele sussurrou.

Damiano simplesmente a evitou, tempo suficiente para encontrar seus olhos. E Altea se agarrou a ele como havia se agarrado a seu corpo pouco antes.

- Eu sinto os ossos quebrarem. O cheiro da morte. Sangue. Eu ouço a batida na porta. Eu sempre os escuto. Eles martelam meu cérebro. -

Mais lágrimas rolaram por suas bochechas.

- Fiz exatamente o que ele queria. Eu... – ela mordeu o lábio que estava começando a tremer. - Eu deixei minhas emoções me dominarem. Eu não passava de... uma marionete – concluiu ela entre soluços.

Dam enxugou suas lágrimas uma e outra vez.

- Você foi muito corajoso. Você tem sido corajoso. Alta. -

- Eu não... eu... -

- Você tentou salvar as pessoas que ama, Altea. Talvez Dante tivesse tudo planejado, mas a decisão de salvar seus amigos era sua. Encontrar coragem para sair de casa e enfrentar uma pessoa como Dante, com risco de vida, não era algo que ele pudesse ter planejado. Nasceu de você. da sua força -

"Eu era ingênua", ela admitiu.

Damien assentiu. - Sim. Você estava. Mas estou orgulhoso de como você se comportou. Não deixe que uma pessoa como Dante te destrua. Não os deixe. -

Por um longo momento, ela e Damiano pareciam se comunicar apenas pelos olhos, como se estivessem tendo uma conversa secreta que ninguém mais podia ouvir.

Altea tentou acessar toda a sua dor e medo, e como ela tinha dentro daquelas masmorras, ela tentou usar isso como combustível para sua raiva.

A solidez de Damiano parecia ter reconstituído um pedacinho daquele quebra-cabeça que se tornara sua alma. E quanto mais eu olhava, mais algumas peças se juntavam. Mas Altea não se deixou enganar. Sua alma nunca estaria bem, e talvez estivesse tudo bem.

- O que você faz quando você quebra? -

Damiano pareceu pensar um pouco. - Acho que continuamos. -

Seus olhos brilharam, suas mãos agarrando-a como se temesse que ela pudesse fugir a qualquer momento.

- Como você lidou com as dores de sua vida? Aquelas dores que te despedaçaram, fazendo você se sentir quebrado? -

Damiano afastou uma mecha de cabelo de seu rosto e a olhou gentilmente.

- Você aprende a viver com isso. Há partes de mim que ainda estão quebradas e nunca mais estarão juntas, e tudo bem. Depois de um tempo, você aprende a se perdoar. Seja tolerante consigo mesmo e siga em frente e quando você olhar para o seu lado sombrio... você o reconhecerá. Você o acolhe. E você não tem mais medo. -

Altea suspirou e descansou a testa no peito dele. - Vamos continuar. -

Damien assentiu. - Sim. Vamos seguir em frente. -

Depois de mais alguns minutos abraçados com força, Damiano levantou Altea do chão novamente.

- Vamos para casa. -

Vamos para casa.

Altea continuou repetindo essa frase em sua cabeça, enquanto aqueles raios de luz começaram a fluir ao seu redor como meteoritos.

Chegando perto de sua casa, Damiano a colocou na base da escada e a empurrou para trás dele, alarmado.

"Há alguém na casa", ele deixou escapar.

Um carro estava estacionado atrás deles.

"É o Luigi", Altea explicou, fungando, sua voz ainda um pouco quebrada pelo choro de um tempo antes.

Eles subiram as escadas juntos e Damiano parou na frente dela antes de abrir a porta. Músculos tensos como se estivessem prontos para pular.

- Droga... -

"Shhh," ele insistiu.

Altea não entendeu. Se fosse Luigi, qual poderia ser o problema?

Damiano havia se tornado uma rocha e, apesar dos esforços de Altea, não havia como tirá-lo de lá.

Altea ainda não sabia, mas exatamente do outro lado da porta, Luigi estava de pé, com as pernas ligeiramente afastadas, a postura ereta, os braços levantados que, com extrema destreza, seguravam um rifle apontado exatamente para o coração de Damiano. .

Altea não estava muito claro sobre o que diabos estava acontecendo. Mas de uma forma ou de outra ela conseguiu entrar na casa com Damiano.

Luigi parecia determinado o suficiente para puxar o gatilho. Altea olhou para ele e não o reconheceu. Ele ainda era Luigi, o cara legal, mas também era uma pessoa diferente. Seu olhar nunca tinha sido tão determinado e ameaçador, seu corpo duro, tenso, pronto para explodir. Havia uma certa consciência em seus olhos de que, quando ela abriu a porta, ela a atingiu como ar quente.

Damiano não se escondeu dele como costumava fazer.

Os dois, que naquele momento estavam na cozinha, separados apenas pelo espaço vazio onde ficava a mesa, agora virada do outro lado da sala, se entreolharam, mas como se se conhecessem.

- Você pode me explicar o que diabos está acontecendo? Altea estalou.

Luigi estava vestindo calças cor de areia apertadas com grandes bolsos laterais, um cinto marrom com o que parecia ser uma adaga pendurada de um lado e do outro... estacas?

Ele ainda segurava o rifle em suas mãos, mas estava apontado para a mira.

Além disso, usava uma camiseta branca que deixava o peito um pouco à mostra e nos ombros uma espécie de cinto que Damiano lhe disse que se chamava coldre de axila.

Bem, desse coldre pendiam duas pistolas, uma de cada lado.

- Luís? gritou Althea.

- Está bem? ele perguntou, sem tirar os olhos de Damiano.

- Sim, estou bem. Você pode me explicar tudo isso? – ele perguntou apontando com um movimento das mãos por todo o corpo coberto de armas.

"Luigi é um caçador", explicou Damiano.

Quando ele disse isso, os dois trocaram um olhar cheio de ódio e algo mais que Altea não conseguiu decifrar.

- Um caçador? você vai caçar? -

Luís assentiu.

"Mmh", disse Altea, enquanto olhava de um para o outro. - E por que você está na minha casa com todas essas armas? -

Por um momento, ela pensou que talvez quisesse convidá-lo para caçar com ela, mesmo que fosse... Ela olhou para o relógio.

Quatro da manhã.

O silêncio que caracterizava Luigi era a única coisa que Altea podia reconhecer nele.

"Ele é um caçador de vampiros", disse Damiano.

Só então Luigi se permitiu desviar o olhar do vampiro e pousá-lo no de Altea, como se para avaliar sua reação.

- Caçador de Vampiros? ela sussurrou. - Que queres dizer? -

"No sentido de que seu amigo mata gente como nós", Damiano rosnou, seus olhos brancos como a névoa.

Luigi olhou para sua presa, seu olhar cheio de ódio que Altea não conseguia reconhecer.

- Eu caço assassinos. Vampiros, lobisomens ou bruxas, não importa o gênero. - .

Sua voz era baixa, gutural, quase subindo pelas paredes e envolvendo seus tornozelos, pronto para arrastá-la para algum buraco negro.

- Lobisomens e bruxas? Altea perguntou, olhando para Damiano.

- Por que eu nunca senti você? - pergunto ao último, ignorando-a.

Luigi deu um sorriso torto. - Um caçador nunca revela seus segredos. -

- Por que está aqui? -

Luigi olhou para Altea.

"Eu não quero machucá-la", disse Damiano então, atraindo o olhar de Luigi de volta para ele, respondendo a uma pergunta que ninguém havia feito.

- Você não teria tempo. -

Damião riu. - Estou com ela há meses. -

Os olhos de Luigi brilharam. - E você acha que eu não sei? -

Os dois se olharam.

- É o suficiente! - Altea retrucou, ficando entre os dois. Então olhando para Luigi ele ordenou: - Diga-me o que diabos isso significa? E você pode guardar a espingarda, por favor? -

No final, Luigi deixou a arma no armário da cozinha, talvez porque vendo Altea tão confortável na frente de Damiano, entendeu que não havia perigo.

Luigi cruzou os braços sobre o peito e relaxou contra o armário de parede, encostado nele.

- Alguns meses atrás, no início do inverno, eu trouxe lenha para você, lembra? Foi a primeira vez. -

Altea assentiu, um pouco intimidada pela confiança que escorria de seu corpo. Foi um pouco como assistir à metamorfose do Signor Marconi para Dante.

"Eu coloquei lá embaixo no armário e trouxe alguns troncos para você aqui", disse ele, empurrando o queixo em direção à lareira. Então ele estendeu a mão e tirou uma garrafa de um dos bolsos laterais de sua calça.

- Eu espalhei um pouco disso. É um pó particular que revela a presença de traços mágicos fazendo pequenas faíscas. Quando espalhei na sua cozinha começou a brilhar, e foi aí que entendi – acrescentou, olhando para Damiano.

- E o que fez você jogar esse pó? - perguntou Altea curiosa e confusa.

- Naquela tarde na pousada, quando Luciano se fez de bobo e ele - disse desdenhosamente, gesticulando para Damiano - estava sentado em um canto, escondido. Eu estava lá também. Então ele olhou diretamente para seu inimigo. - Um minuto você estava lá e no próximo você simplesmente sumiu. Logo depois que Altea saiu da pousada. -

Ao nome de Luciano Altea deu um pulo, mas tentou reprimir a náusea.

- Comecei a prestar atenção, a notar que você desaparecia à noite, que não saía mais com a Matilde e os outros. Quando vim jantar contigo, confirmaram-me. -

"Apaguei a memória de todas as pessoas da pousada", interrompeu Damiano. Luigi sorriu desafiadoramente. - Então, como você cancelou quando veio buscá-lo na Suicide Bridge e me trouxe para casa? -

Damiano estava quieto, aquela quietude que ele assumia quando estava com raiva ou preocupado.

- Como isso é possível? Eu pergunto .

Luigi deu de ombros e respondeu arrogantemente: "Truques do ofício". -

Altea começou a andar nervosamente de um lado para o outro.

- Há quanto tempo você é caçador? Ela perguntou a ele .

"Desde o nascimento," ele respondeu secamente.

- Que queres dizer? -

- Todos os membros de sua família são - Damiano respondeu por ele.

- Seu pai e seu irmão? -

Ele assentiu.

- Sua mãe também? -

Luigi olhou para Damiano e ele respondeu a uma pergunta que Altea, mais uma vez, não tinha ouvido.

- É você quem mata gente como nós, não o contrário. -

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