Capítulo 11
O médico veio à minha mente.
Era um bom homem. Não ficou irritado comigo como a enfermeira que me tratou com repulsa. Foi gentil, perguntou meu nome e disse o dele com um sorriso caloroso. Estava realmente concentrado em mim e nos meus bebês.
Talvez ele possa me ajudar.
Mudei-me na cama, o rangido do colchão soou alto na madrugada tranquila. Parei e olhei para os meus bebês.
Eles dormiam profundamente, seus peitos pequenos subindo e descendo ao ritmo de sua respiração tranquila.
Meus anjos.
Inclinei-me sobre o berço improvisado e acariciei suavemente a bochecha da minha menina, afastando uma mecha de lã que lhe cobria o rosto.
“Desculpem, pequenas. Não esperava ter duas. Mas amo vocês. Amo vocês com cada parte quebrada de mim.”
Ernesto apareceu na minha mente.
As lágrimas ardiam nos meus olhos.
“Quem me dera que estivesses aqui. Connosco.”
“Gostaria que você entrasse por aquela porta para nos levar para casa.”
Mas ela sabia que ele não entraria. E mesmo que ele viesse, como ela explicaria que aqueles bebês provavelmente não eram dele?
Soltei um soluço silencioso.
Mas sequei as lágrimas com as costas da mão.
“Agora não, Gabriela. Não é hora de chorar. É hora de agir.”
Aproximei-me de uma enfermeira, que folheava um arquivo ao lado da cama de um paciente.
—Com licença... —disse em voz baixa.
Ele me olhou com desdém, de cima a baixo.
— O quê? — cuspiu ele.
—Preciso ir ao banheiro... por favor, você poderia cuidar dos meus bebês enquanto eu volto? —perguntei, sentindo minha voz tremer.
—Estou ocupada. Não está vendo? —disse ela, revirando os olhos.
—Por favor... — implorei.
—Vá embora! Pare de incomodar! —ele disse bruscamente.
Abaixei o olhar, contendo as lágrimas.
— Fique tranquila, querida. Eu cuidarei deles — disse uma senhora idosa da cama ao lado, com um sorriso doce.
Olhei para ela, agradecida.
— Obrigada, senhora — sussurrei.
Ela acenou com a cabeça.
Caminhei pelo corredor do hospital, procurando o consultório do médico.
Mas não sabia onde ficava.
Respirei fundo e me aproximei de outra enfermeira que passava por ali.
—Com licença... onde fica o consultório do Dr. Mark? —perguntei.
Ele me olhou com irritação.
—Por que você está procurando isso? —perguntou, mascando chiclete.
“O que eu digo? O que eu digo?”
—Ele... ele me pediu para falar com ele sobre minha saúde —improvisou.
Ele me analisou com o olhar.
—Terceira porta à direita — disse ele finalmente.
—Obrigado —disse eu, mas quando comecei a andar, ele me deteve.
—Por ali —apontou na direção oposta.
—Ah, obrigado —repiti, acelerando o passo.
Cheguei à porta e toquei suavemente.
—Sim? — respondeu a voz familiar.
Abri devagar e entrei.
O Dr. Mark sorriu para mim de sua mesa.
—Gabriela, que prazer em vê-la —disse ele, com cordialidade.
—Bom dia, doutor —disse eu, avançando em direção a ele.
—Que manhã bonita, mãe de dois anjinhos lindos —brincou ele, e eu não pude deixar de sorrir.
—Sente-se, por favor —ela me convidou.
Sentei-me na cadeira à sua frente, notando como seu pequeno consultório estava organizado.
—Como estão os pequenos? —ele perguntou.
—Estão bem, obrigado —respondi, com um nó na garganta.
—Que bom. Gêmeos são uma bênção —disse ela, com os olhos brilhando—. Espero ter um dia.
Sorri fracamente.
—Doutor... —comecei, mas minha voz falhou.
Ele franziu a testa, preocupado.
— Há algum problema, Gabriela?
Abaixei o olhar, apertando as mãos.
—Eu... não tenho para onde ir —confessei, com a voz embargada—. Vivi na rua durante toda a minha gravidez, mas não posso voltar para os meus bebês. Eles não sobreviverão lá.
O médico suspirou profundamente.
—O que você precisa que eu faça, Gabriela?
—Por favor... preciso de um lugar para ficar. Um quarto. Posso limpar, lavar, cuidar. O que for. Se pudesse trabalhar aqui para sustentar meus filhos, faria com todo o meu coração. Eu imploro, doutor —disse eu, com lágrimas nos olhos.
O Dr. Mark olhou para mim em silêncio, acenando lentamente com a cabeça.
—Gabriela, pensei na sua situação desde o momento em que você entrou aqui —disse ele—. Eu sabia que você vivia na rua, e voltar para lá com seus bebês seria um erro. Eles não sobreviveriam.
Minhas lágrimas começaram a cair, mas eu as contive.
— Falei com um dos patrocinadores do hospital, e eles concordaram em oferecer um quarto na área de alojamento das enfermeiras. Você e seus bebês poderão se mudar para lá quando receberem alta.
Levei as mãos à boca enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas de alívio.
—Meu Deus...! Obrigado, doutor, obrigado... —sussurei.
—Quanto ao trabalho... você já está contratada, Gabriela —acrescentou ele.
Olhei para ele, atônita.
—Você pode começar em duas semanas, quando estiver recuperada. Será assistente de limpeza aqui no hospital. Você ganhará o suficiente para alimentar seus filhos e ter um teto seguro.
Não consegui me conter mais.
Caí de joelhos, com as mãos trêmulas.
—Obrigado... obrigado... —chorei.
Ele se levantou, me ajudou a me levantar e me olhou nos olhos com gentileza.
—Você merece, Gabriela. Você merece uma segunda chance. E seus filhos também.
