#####Capítulo 5 Comemoração
O dia que eu tanto esperava acabou se transformando em um pesadelo. Eu não queria conversar com ninguém, não queria sorrir como uma boboca, apenas queria entrar na segurança da minha nova sala e fazer meu trabalho em paz. Cinthia e todos os outros souberam do ocorrido e tentaram me consolar falsamente. Bem, tirando Cinthia, ela era sincera. Mas o que eu mais queria era poder ficar em paz, hoje eu fingiria que estava bem e que estava superando a morte do meu cachorro.
Meus olhos encheram-se de lágrimas quando peguei dois retratos em minha bolsa. Uma de November filhotinho deitado em meu travesseiro e a outra de nós dois abraçados quando ele já estava grande. Soltei um suspiro trêmulo e me sentei.
Tinha que fazer alguma coisa para me esquecer da dor. O trabalho era um ótimo remédio.
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Cinthia apareceu na minha sala somente duas vezes, mas em nenhum momento perguntou como eu estava. Na última vez ela disse que meu horário de trabalho já tinha mudado e eu poderia ir me arrumar para a festa. Aceitei de mau humor e sai da redação rapidamente, entrei em meu carro e fechei os olhos. Hoje eu teria que colocar uma máscara de felicidade, teria que fingir que estava animada com a noite que estava prestes a chegar. Respirei fundo, liguei o carro e dei partida.
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Tinha passado no hotel para pegar minhas coisas e voltar ao meu apartamento, eu não poderia deixar minha vida de lado e fingir que nada aconteceu. Eu estava colocando o meu vestido longo vermelho com um decote em V que ia até a metade de minha barriga, ele ficou lindo! Fiz um coque frouxo e deixei algumas mechas caírem pelo meu rosto, fiz uma maquiagem forte e coloquei meus saltos na cor nude. Já estava pronta, olhei para a cozinha enquanto me observava no espelho da sala e uma inundação de tristeza me invadiu. Soltei um suspiro baixo e peguei minha bolsa e chaves do carro.
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O salão do Plaza Hotel estava incrivelmente lindo com cores douradas e pratas, uma banda tocando no palco, mesas espalhadas e várias pessoas importantes.
Avistei Cinthia conversando com dois homens quando ela me chamou com um largo sorriso, ela estava linda, em seu vestido longo na cor verde musgo de uma alça só. Quando me aproximei, Cinthia me deu um abraço e me apresentou aos homens.
— Senhores, eu quero que conheçam Amélia McAdams. Amélia, esse é Davis Parker e esse é Jonas Mills. — Apertei a mão dos dois com um sorriso falso no rosto. — Eles são empresários e adoraram a sua audácia na entrevista. — Jonas, que era o mais alto e tinha cabelos loiros me deu um sorriso.
— Você é ótima Amélia! Ampliou o mundo mafioso junto com o nosso. — Eu agradeci a ele e começamos todos a conversar. Bem, eles estavam falando sem parar, eu apenas sorria e assentia. A noite foi toda assim. Risadas falsas, pessoas fingindo que nada tinha acontecido comigo na noite anterior, parabenizando uma entrevista mentirosa e me desejando sucesso e outras coisas.
Quando Jackson subiu ao palco para fazer uma homenagem ao meu trabalho, pensei que ele falaria gracinhas como sempre. Mas, apenas disse que sempre fui uma ótima jornalista, às vezes altruísta (fazendo todos rirem) e outras palavras que não dei ouvidos, quando ele me pediu para subir o meu coração bateu forte. Droga!
Agradeci a ele e fiquei parada de frente ao microfone e olhando aquelas pessoas.
— Quero agradecer a todos por estarem aqui nesta noite, isso significa muito para mim. Quero agradecer também a Nevada News por me acolher e principalmente a Cinthia Taylor e Jackson Gilbert. Vocês são os melhores chefes que alguém poderia ter. — Dei um sorriso somente a Cinthia, pois ela era uma ótima chefe. — E também a uma pessoa importante que fez meu sonho se realizar, Demétrio Gratteri. Obrigada por fazer os meus desejos se tornarem realidade. E obrigada mais uma vez a todos vocês. Boa noite! — Aplausos e assobios soaram no salão quando desci as escadas.
Eu não voltei à mesa, ao invés disso andei até as portas duplas. Eu precisava de ar naquele momento.
A brisa da noite fria me recebeu calorosamente, fechei meus olhos e respirei fundo o ar de Las Vegas. O jardim do hotel era muito receptivo.
— Belo discurso Srta. McAdams. — Abri meus olhos e congelei ao ouvir aquela voz. Olhei para trás rapidamente e vi que Vicentino estava caminhando em minha direção vestidocom um smoking preto e segurando uma taça de champanhe. Ele parou de frente para mim e me olhou de cima a baixo, seus olhos demoraram em meu decote longo. — A propósito, você está incrivelmente linda neste vestido. — Engoli em seco, e cruzei meus braços em cima do meu busto.
— Sr. Cavallaro, que surpresa agradável. Não sabia que viria. — Me assustei em ouvir minha voz calma e controlada. Vicentino deu um meio sorriso e passou a mão em seu cabelo castanho.
— Foi de última hora. Meu Capo não poderia vir e então pediu que eu viesse em seu lugar. — Murmurou, me encarando atentamente.
Demétrio iria vir?
Por que ninguém me disse que a máfia estaria presente? Pelo amor de Deus! Eu sou praticamente a estrela dessa noite, isso não conta?!
— Ah sim, claro! — Foi tudo o que consegui dizer. Aliás, por que ele estava ali? Depois daquela entrevista expondo a sociedade?
Vicentino me olhou por um tempo e chegou mais perto de mim, eu quase saí correndo, mas me mantive, dando um passo para trás.
— Você pode parar de fingir Amélia, eu sei que está na dúvida entre me socar ou fugir daqui. Posso ver em seus olhos. — Sussurrou as últimas palavras. Lambi meus lábios e continuei parada, observando Vicentino. Eu teria que me manter calma, não poderia demonstrar medo a esse idiota.
— Desculpe Sr. Cavallaro, mas não faço ideia do que está dizendo. Eu quero aproveitar essa situação e me desculpar pela mensagem ofensiva que lhe enviei. Eu só estava em choque.
Vicentino arqueou suas sobrancelhas e então seus dedos acariciaram meu queixo e pescoço. Fiquei parada igual uma pedra.
— Você sabe que não me engana Amélia, eu não sou nenhum idiota. Eu sei quando as pessoas mentem, e fique tranquila que quem mandou matar seu cachorrinho não foi eu e sim Demétrio. Ele sabe ser muito frio, então dirija esse ódio a ele. — Vicentino deu uma risada e se afastou. — Você realmente o irritou, e piorou ainda mais quando ele leu a sua mensagem de ameaça. Tome cuidado por onde anda. Boa noite, Srta. McAdams. — Esperei Vicentino desaparecer até que desmoronei, me encostando a uma estátua de anjo e chorei. Oh Deus! Eu estava ferrada.
Eles iriam me machucar, iriam acabar comigo e depois me matariam. Eu tinha que dizer a alguém, teria que ir à polícia, por que eles acreditariam em mim, certo? Limpei o meu rosto com as mãos e dei um suspiro trêmulo. Eu sabia que a situação só iria piorar, mas eu poderia pedir proteção à polícia de Las Vegas.
Como se isso fosse impedir que os MAFIOSOS me matem!
Seria um banho de sangue. Pessoas inocentes (policiais) e pessoas não inocentes (mafiosos) morreriam por uma simples neura minha. Que se dane! Eu iria à polícia, não ficaria me escondendo de ninguém.
Olhei para o salão e vi que todos estavam risonhos por causa da bebida e distraídos. Então era uma ótima oportunidade para a minha deixa.
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— Srta. McAdams essas acusações são verdadeiras? — perguntou o policial.
— Por que eu iria inventar tais acusações? Só porque fiz uma entrevista que acabou com a minha vida? São verdadeiras, eles me ameaçaram e mataram o meu cachorro.
— Tudo bem, vamos seguir com isso.
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Cheguei a minha casa com uma dor de cabeça horrível. Tudo o que eu queria naquele exato minuto era poder abraçar November e fazer seus pelos macios me esquentarem até eu poder dormir. Tirei meu vestido cuidadosamente, a calcinha, e fui até o banheiro, liguei o chuveiro no jato mais quente que meu corpo aguentaria. Eu tinha feito a coisa certa em denunciar Demétrio e Vicentino sobre as ameaças que sofri e o assassinato do meu cachorro? Não pense demais! É verdade, o que está feito, está feito eu não poderia ficar me lamentando por isso, se algo acontecesse comigo eu tenho certeza de que a polícia saberia que foram os mafiosos.
O bom disso tudo é que uma viatura estava parada em frente ao meu prédio e aquilo me deixou um pouco mais segura. Vesti minha camisola e sequei rapidamente meus cabelos quando meu celular apitou. Ah droga! Era Vicentino eu tinha certeza, ele tinha descoberto que fui à polícia. Peguei o celular um pouco nervosa, mas em questões de segundos me acalmei. Era a Cinthia.
DE: Cinthia.
AS: 22:12
“Amélia por que você foi embora sem avisar? Fiquei preocupada com você e, aliás, algumas pessoas importantes queriam te conhecer. O bom disso tudo é que eles passarão amanhã na redação! Te vejo amanhã? Boa noite gatinha”.
Joguei-me na cama extremamente aliviada e enviei uma mensagem a minha chefe/amiga:
PARA: Cinthia.
AS: 22:13
“Desculpe Cinthia, eu não estava me sentindo muito bem e resolvi voltar para casa. Agora estou bem e sabia que você daria conta! Você é a melhor! Te vejo amanhã, boa noite.”
Confesso que algumas coisas estavam sendo ótimas para mim, tirando a loucura toda da máfia, estava indo do jeito que sempre quis. Meus desejos estavam sendo realizados mesmo que coisas ruins estivessem acontecendo. Meu November. Fiquei olhando para o teto quando lágrimas inesperadas começaram a surgir, eu estava me sentindo tão sozinha naquela casa. Consideravelmente eu não tinha ninguém na cidade, meus pais mal prestavam a atenção em mim e eu não gostaria de estar junto a eles de qualquer jeito.
Eu queria poder perguntar a Demétrio o por quê? Por que matar um animalzinho? Para me ferir? Parabéns! Ele tinha conseguido e agora eu estava uma merda. Eu queria na verdade dar um chute na cara daquele desgraçado e dizer as palavras mais feias que eu já ouvi em toda a minha vida. De repente o medo e arrependimento se romperam dentro de mim. Se Demétrio queria me fazer algo, pois bem, que ele faça! Eu não ficaria me encolhendo e escondendo por causa daquele fodido de merda.
Ah! Mas não mesmo! Eu era uma mulher adulta e independente! E que se foda se tinha alguém comigo ou não.
Passei as minhas mãos geladas sobre o meu rosto e apaguei a luz, puxei os cobertores por cima do meu corpo e fechei meus olhos.
