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#####Capítulo 4 Promoção e Luto

Dois dias se passaram desde a fatídica entrevista, e a festa no Plaza Hotel aconteceria amanhã, e eu estava mais que ansiosa, tinha comprado um vestido maravilhoso para aquela noite especial. Vicentino não entrou mais em contato, o que foi um imenso alívio.

Durante a tarde enquanto eu fazia uma matéria sobre a crise nos Países Baixos, Cinthia me enviou um e-mail solicitando minha presença em sua sala.

Bloqueei a tela do computador e rapidamente corri para atender ao seu chamado. Quando entrei na sua sala, além de Cinthia, Jackson também estava lá.

Ah droga. O que foi agora?

— Me chamou, Cinthia? — Perguntei desconfiada. Cinthia deu um pequeno sorriso.

— Sim, Jackson quer te falar uma coisa. — Olhei para ele que sorria como sempre. Sentei-me na cadeira enquanto os dois estavam de pé, perto de mim. Aquilo estava me incomodando, eu não gostava de surpresas, por isso escolhi trabalhar com jornalismo! Aqui não tinha nada disso, era tudo dito e feito na hora.

Jackson se sentou na borda da mesa e suspirou. — Amélia, há algo em que eu, Cinthia e os demais achamos melhor fazer. — Ah não! Eles iam me demitir, eu tinha conseguido deixar o jornal mais reconhecido e agora eles me colocariam na rua. Assenti para ele, incapaz de pronunciar qualquer palavra.

— Bem, acontece que nos dois anos em que você trabalha na Nevada, Cinthia sempre passou um ótimo feedback referente a você. Agora você mostrou que é uma verdadeira jornalista depois da incrível entrevista com Demétrio Gratteri. — Jackson e Cinthia deram largos sorrisos quando ele finalmente disse:

— Parabéns Amélia, o cargo de supervisora chefe é seu.

******

Minha alegria estava incontrolável, eu fiquei minutos agarrada em Cinthia enquanto ria sem parar. Eu tinha realmente conseguido aquela promoção!

— Cinthia, eu estou tão feliz! — Disse a ela quando me afastei. Cinthia deu uma risada e segurou meus ombros para me fazer parar de pular.

— Eu sabia que conseguiria Amélia, está há tanto tempo querendo esse cargo. Você merece! — Disse-me com um sorriso doce. Sei que é egoísmo da minha parte, mas eu merecia mesmo.

Sentei-me na poltrona quando ela continuou.

— O bom é que agora você terá sua própria sala de escritório, duas horas de almoço e sairá uma hora mais cedo. Sem contar no aumento de porcentagem sobre seu salário. Não é maravilhoso? — Perguntou animadamente.

— É perfeito! Estou tão feliz que acho que vou ter uma parada cardíaca. — Ofeguei com a mão no coração. Cinthia deu uma gargalhada e revirou seus olhos teatralmente.

— Nem pense nisso! Você tem uma equipe para comandar amanhã supervisora McAdams. — Rimos juntas e olhei para as janelas. Finalmente eu consegui o que buscava.

Naquele dia fui ver a minha própria sala, era perfeita com uma linda vista da cidade. Ah! como minha vida estava maravilhosa!

******

Joguei-me na cama e observei o teto do meu quarto. O que não poderia ser melhor? Essa semana estava maravilhosamente perfeita. Se meus pais estivessem nos Estados Unidos eu correria agora até eles, mas infelizmente a Inglaterra é melhor que eu, e eles não eram o tipo de pais interessados. Principalmente a minha mãe. November se jogou em cima de mim e fiquei acariciando-o quando um barulho dentro da minha casa chamou a minha atenção.

Sentei-me rapidamente e fiquei parada para ouvir melhor. November começou a rosnar e correu para fora do quarto.

— November. — Sibilei em um sussurro.

Fiquei ainda ali parada, eu estava com medo de que fosse algum rato novamente. Eu tinha nojo só de pensar. Levantei-me da cama e saí pelo corredor andando na ponta dos pés.

— November. — Sussurrei. Escutei um rosnado baixo do meu cachorro quando então ele soltou um gemido com choro alto. Corri desesperadamente até a sala.

Meu coração batia fortemente e não o encontrei lá. Outro barulho alto se fez e olhei a porta da cozinha. Corri lá e paralisei quando uma figura vestida toda de preto saia pela janela e quando me viu correu pelas escadas de incêndio. Ah Deus! Quando iria chegar até a janela para trancá-la pisei em algo melado que estava no chão e escorreguei caindo de lado. Olhei para o chão e um líquido meio grosso da cor escarlate estava escorrendo pelo chão de madeira.

Eu estava ofegando tão alto que quando olhei para o meu lado, meu mundo caiu. Dei um grito apavorado vendo November com o pescoço rasgado.

— NOVEMBER! — gritei chorando e me ajoelhando. Peguei meu cachorro e coloquei-o no colo, sua cabeça estava quase fora do corpo. — MEU DEUS! NOVEMBER NÃO! NÃO! — Gritei chorando e balançando meu único amorzinho.

Meu bebê que me protegeu desde meus dezoito anos. Meu amorzinho que dormia ao meu lado. Meu cachorro! Meu cachorro!

— NÃO! — Eu gritava sem parar quando ouvi a porta do meu apartamento se abrir em um baque forte. Minha vizinha Susan, seu marido Chester e sua filha Bianca estavam ali com olhares assustados. Susan acendeu a luz e gritou assustada.

— OH MEU DEUS!

— Vou chamar a polícia. — Disse Chester.

Olhei November e era ainda pior na luz. Seus olhinhos estavam desfocados e a língua caída para fora. Gritei com o mais puro ódio e me balançava descontroladamente, minha camisa branca estava cheia de sangue. O sangue do meu cachorro, Susan e Bianca correram até mim e tentaram me afastar de November.

— NÃO, NÃO! EU QUERO FICAR AQUI! — Gritei me debatendo.

— Mãe, nós não podemos deixá-la assim. — Disse Bianca, assustada.

Depois de poucos minutos, ouvimos vários passos que vinham em direção à cozinha, mas eu sequer olhei, eu queria November. Por que eu o deixei sair do quarto? Por quê? Várias vozes começaram a me chamar e perguntar como isso aconteceu, mas eu não ouvi. Quem fez isso com um animal indefeso? Um animal! O que ele faz de mal?! Apertei o corpo sem vida de November e deitei minha cabeça na sua.

— Eu te amo meu bebê, a mamãe te ama muito! Nunca vou te esquecer. — E não iria mesmo. Eu tinha November há cinco anos em minha vida, as fotos dele sozinho ou junto comigo estavam espalhadas pela casa. Seus cobertores e brinquedos bagunçados na sala. Quem tinha feito aquela atrocidade com o ele sabia que eu era apegada ao meu cachorro, sabia que meu amor era imenso.

Senti mãos me levantarem do chão em meio ao sangue de November, meus olhos estavam inchados, meus ouvidos zumbiam e minha maquiagem estava borrada. E o cheiro de sangue incrustadoem minha roupa e pele. Dei uma última olhada em November ali morto. Uma vida indefesa, uma parte da minha vida.

******

— Srta. McAdams, seus vizinhos disseram para dormir no apartamento deles. — Disse o detetive Stewart, já na delegacia. Depois que prestei depoimento, e de ser interrogada por mais de duas horas e meia, eu pude finalmente acalmar minha mente. Eles perguntaram tudo até mesmo chegaram a achar que eu que matei meu cachorro.

Meus olhos estavam observando para o nada, eu queria apenas dormir.

— Srta. McAdams? — Olhei para ele e balancei minha cabeça em negativa. Eu não dormiria na casa de ninguém, mas também não queria voltar ao meu apartamento.

— Eu vou para algum hotel. — Murmurei. O detetive juntou suas sobrancelhas escuras.

— Tem certeza disso? — Perguntou preocupado. Apenas assenti para ele. — Tudo bem, eu vou levá-la ao seu apartamento para pegar algumas roupas limpas. — Me levantei da cadeira junto com ele e fomos para fora da delegacia, entramos em seu carro e encostei minha testa no vidro do carro.

******

Escolhi um hotel perto do trabalho. Tomei um banho de meia hora, chorando incontrolavelmente. Eu não tinha ideia de quem invadiu a minha casa, não tinha ideia do porque fizeram aquilo. A polícia concluiu que pelo meu trabalho eu conseguiria muitos inimigos. Mas que inimigos? As prostitutas que são vistas aos tapas quando algum cara rico aparece? Os bêbados que não pagam as fichas de pôquer?

Pelo amor de Deus!

Essas pessoas mal sabem da minha existência, com exceção dos mafiosos que ofendi com a entrevista deturpada do Capo ao jornal. Pisquei algumas vezes ainda sentada na cama olhando para o nada depois do banho. Será que foram eles? Com raiva da entrevista meio falsa no jornal? Depois que entrevistei Demétrio algumas pessoas se tornaram fãs enlouquecidas da Cosa Nostra e principalmente do Capo. Já outras se sentiram ameaçadas com a presença deles.

Com certeza isso deixaria um homem assassino e poderoso muito puto. De repente uma raiva entrou no meu corpo.

Peguei o meu celular e enviei uma mensagem antes de desconectar minha localização.

De: Amélia McAdams

Assunto: Morte de November.

Data: 21/09/2010 as: 01:34

Para: Vicentino Cavallaro

“Espero que estejam rindo do que fizeram seus fodidos de MERDA! Eu sei que mataram meu cachorro e farei de tudo para a polícia bater na porta de vocês, só que dessa vez todos irão para o xadrez!!!”

Não foi o certo a se fazer! Ameaçar um mafioso era praticamente cavar sua própria sepultura. Mas pelo meu November valeria a pena! No momento em que meu celular apitou indicando uma nova mensagem meu coração pulou. Abri a mensagem de Vicentino.

De: Vicentino Cavallaro

Assunto: Morte do vira-lata.

Data: 21/09/2010 as: 01:42

Para: Amélia McAdams

“Ah Srta. McAdams, acho que a senhorita não conhece MEU temperamento referente às mulheres, principalmente as que acham que podem me ameaçar. Se eu fosse você teria mais cuidado com o que fala, seu cachorro vira-lata não foi nada!”

Foi ele! Tinha se entregado no e-mail, aquele verme desgraçado!

Joguei meu celular longe, com um grito e comecei a chorar, o que November tinha com aquela situação?! Eu estava quase indo na mansão do fodido do Gratteri e matá-lo com uma sacola na sua cara. Mas me contive. Vicentino me ameaçou e aquilo seria ótimo para a polícia. Mas para o juiz não, aposto.

Soltei um suspiro trêmulo e me deitei na cama.

Eu deveria deixar isso para lá. Eu era apenas uma mulher sozinha nessa cidade, sem amigos e familiares. Então seria melhor eu manter minha boca fechada daquela vez, e deixaria November descansar em paz.

Enfiei meu rosto no travesseiro e chorei mais, eu tinha ódio daqueles homens, tinha ódio por eles existirem. E tudo isso foi culpa de Jackson por deixar a entrevista mais emocionante! Agora foi meu cachorro que pagou o preço. Respirei profundamente e apaguei a luz do quarto, me encolhi como uma bola no meio da imensa cama do hotel e chorei baixinho.

Sozinha.

Sem ninguém.

Sem November.

Estou sozinha em uma cidade grande!

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