Capitulo 04
Pyotr
Eu estava terminando de me arrumar para o trabalho. Dormi um pouco mais que o normal e perdi a hora, o que não era algo comum para mim. Peguei uma gravata preta no closet e segui apressado para a sala. Hoje seria um dia extremamente atarefado, era um péssimo dia para me atrasar.
Estava quase saindo de casa quando me lembrei dos textos que precisaria levar, com mil maldições correndo por minha mente, eu voltei ao quarto para pegá-los, colocando a gravata e minha pasta em cima do sofá. Assim que tinha tudo o que precisava, saí de casa torcendo para não ser um dos dias em que Mary decide se atrasar para se vingar pela ligação da madrugada.
Eu segui pelo trânsito de Manhattan, desejando, não pela primeira vez, morar mais perto da Editora. Aquela cidade era infernal!
Felizmente o trânsito não estava tão ruim quanto poderia estar e meia hora depois, eu estava estacionando em minha vaga na garagem da Navruz Publications.
Esperei pacientemente o elevador subir até o Vigésimo quinto andar, imaginando se Mary se atrasaria ou não.
Mary.
No começo eu me senti inseguro em contratá-la, mas não era como se eu pudesse negar esse favor ao Sr Navruz. No fim, isso foi uma boa decisão — por mais que não tenha sido minha decisão — Mary, apesar do que eu imaginava, não era preguiçosa ou mimada. Ela é inteligente, esforçada, impetuosa, selvagem. Sim, ela também era inexperiente e cometia muitos erros por conta disso, mas ela estava apenas no início de sua carreira e quem não comete erros nessas condições? O que importa é que ela sempre buscou consertá-los da melhor maneira possível.
— Bom dia — Eu cumprimentei a Srtª Dawson, que estava acomodada em seu posto de trabalho.
Ela se limitou a sorrir e me lançar um olhar divertido, como se soubesse o que me esperava.
Mary com certeza está planejando algo.
Os funcionários ainda estavam começando a chegar, dessa maneira o movimento no andar ainda era baixo. Eu cumprimentei algumas pessoas por onde eu passava até chegar em meu escritório. A mesa de Mary estava vazia, mas eu pude ouvir sua voz vinda de meu escritório
— They say I'm really sexy, The boys they wanna sex me. They always standing next to me, Always dancing next to me — Eu congelei na porta ao vê-la de costas para mim arrumando minha estante.
Ela usava um macacão branco que evidenciava cada curva de seu corpo. Eu tentei desviar o olhar, mas aquilo se tornou impossível, principalmente quando ela começou a se abaixar rebolando para pegar outro livro.
Marianne era uma bela mulher, dona de um corpo espetacular no qual eu sempre me esforcei para não reparar por se tratar da filha do meu chefe. Mas como eu poderia manter essa resolução ao notar a marca da pequena calcinha que ela parecia estar usando por baixo daquela roupa?
O que ela está fazendo comigo?!
— Trying to feel my hump, hump, looking at my lump, lump... — Eu me encostei no batente da porta, tentando empurrar os pensamentos impróprios sobre a minha assistente que vieram em minha mente para longe. Eu com certeza adoraria sentir seu rebolado.
Nesse momento ela se virou em minha direção retirando os fones e corando imediatamente. Ver Mary com vergonha não era algo rotineiro, na verdade ela parecia sempre estar à vontade com qualquer assunto e mesmo quando alguém claramente tentava constrangê-la ela reagia com naturalidade e desenvoltura.
Eu não resisti a provocá-la mais um pouco quando notei que ela não estava olhando nos meus olhos como sempre fazia. Não podia acreditar que ela estava constrangida. A prova disso foi como ela tratou de mudar de assunto e se esquivar assim que me aproximei.
Ela conseguiu me desnortear momentaneamente ao apontar a ausência de minha gravata. Eu me lembrava de tê-la apanhado pela manhã. E também me lembro bem de abandoná-la em cima do sofá. Talvez eu não tenha dormido tão bem quanto eu imaginava.
Mary tentou fugir, mas não pude me impedir de pegar no seu pé por causa do café. Eu tinha certeza que ela se vingaria de mim dessa maneira, porém não permitiria que ela continuasse me evitando. Aquela cena de momentos atrás provavelmente me assombraria mais tarde, mas por enquanto, era melhor mostrar a ela que não havia nada com o que se preocupar.
Ela ficou extremamente satisfeita ao me ouvir chamá-la pelo apelido. Eu sempre me policio para não chamá-la dessa maneira, tentando manter nosso relacionamento o mais profissional possível.
Desde o primeiro momento que a vi, sua beleza me pegou, seus longos cabelos negros emolduravam perfeitamente um rosto que esbanjava beleza. Sua boca bem desenhada, sempre destacada por um batom, um nariz delicado, olhos sedutores e uma pele amendoada completavam o conjunto.
Mas eu não podia encorajar esse tipo de admiração, não quando ela era a jovem filha do homem a quem eu devia todo o meu sucesso profissional e que provavelmente acabaria com ele em um piscar de olhos caso imaginasse o que se passava em minha mente.
Eu observei um envelope em cima da minha mesa, com a letra de minha assistente desenhada ali. O abri imediatamente, me ocupando em ler enquanto ela não voltava. Ela retornou antes do que eu esperava, e ao invés de me entregar a colher, ela mesmo retirou o chantilly do café.
— Pode deixar, eu faço isso — Eu pedi.
— Tarde demais — Mary me ofereceu um sorriso perigoso antes de levar o chantilly à boca.
Ótimo, mais uma imagem para me atormentar mais tarde.
Porque ela tem que dificultar tanto meu trabalho de não pensar nela dessa maneira?
— Você se sujou — eu apontei sua boca suja, tentando mudar o foco, Mary passou o dedo indicador no canto da boca tirando o chantilly acumulado ali.
— Não sei qual é o seu problema com isso — Ela colocou o dedo na boca, sorrindo em seguida.
Minha mente logo seguiu por um caminho não muito puro.
Ela pelo menos sabe o efeito que causa nos homens?
Eu estava prestes a comentar algo sobre o trabalho e mudar completamente de assunto quando Omar Navruz entrou na sala, nos pegando desprevenidos.
Seus olhos avaliaram rapidamente nossa situação, antes de se focar em sua filha. Ele não parecia satisfeito por encontrá-la ali e deixou claro sua opinião, fazendo com que ela saísse da sala antes de se virar em minha direção.
Espero que ele nunca saiba o tipo de pensamento que eu estava tendo sobre ela momentos atrás.
— Me diz Rozanov, como Marianne tem se saído? — Ele estreitou os olhos.
— Ela tem se saído bem, Sr Navruz — Eu coloquei minha máscara de negócios — Ela é uma boa garota.
— Ela tem feito seu trabalho corretamente? — Ele insistiu — Você sabe que você deve tratá-la como uma funcionária comum.
— Ela faz tudo o que eu necessito de forma eficiente — Eu garanti.
— E exatamente que tipo de coisa você pede para ela fazer? — O homem perguntou com um brilho perigoso no olhar.
— Cuidar da minha agenda, me acompanhar a reuniões, cuidar dos telefonemas — Eu respondi confuso — Esse tipo de coisa.
— Cuidar do seu café? — Ele me encarou.
— Não, aquilo...
— Sabe Rozanov, minha filha sempre foi uma garota animada. Era difícil vê-la em casa nos fins de semana — Ele caminhou até minha janela, observando a vista da cidade — Hoje em dia é difícil até para Allie conseguir tirá-la de casa. Você tem alguma ideia do motivo dessa mudança?
— Marianne está concentrada em sua carreira, acho que ela quer aprender o máximo que conseguir enquanto estiver nesse emprego.
Será que ele pensa que eu estou fazendo com que ela trabalhe demais? Ele mesmo acabou de me ordenar que a tratasse como qualquer outra funcionária.
— É isso que você acha que está acontecendo? Que tipo de coisa ela está aprendendo com você? — Ele se virou para mim com um olhar sagaz — Quanto tempo você acha que vai demorar até eu descobrir o que eu quero saber, Rozanov?
Eu o encarei sem saber exatamente o que responder. O que exatamente eu perdi? Porque certamente perdi alguma coisa.
O homem não ficou mais depois disso. Ao sair, lançou um olhar reprovador para a filha, fazendo-a corar.
Eu tentei animá-la um pouco, mas achei melhor dar um pouco de espaço a ela. Eu me tranquei no escritório pelo resto da manhã pensando naquela conversa estranha com o Sr Navruz. Ele não teria como saber que as vezes eu tenho pensamentos impuros sobre sua filha, teria?
