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Capítulo 5 - No limite da Submissão

Lorena segurava a bandeja com força suficiente para os dedos começarem a doer.

O silêncio da sala de jantar parecia maior naquela noite.

Desde a ligação com o tio, algo havia mudado.

Não de uma vez.

Não dramaticamente.

Mas como rachaduras surgindo devagar em vidro.

Ela começava a entender.

Não iria embora.

Talvez por muito tempo.

Talvez nunca.

E aquela percepção arrancara alguma coisa dentro dela.

Esperança.

Ou parte dela.

Então restava sobreviver.

Evitar erros.

Evitar Zara.

Evitar irritar Rashid.

Mesmo que isso significasse engolir humilhações até esquecer o próprio gosto.

Lorena aproximou-se da mesa com cuidado.

Rashid jantava sozinho.

À frente dele, documentos espalhados dividiam espaço com uma taça parcialmente cheia. A iluminação baixa projetava sombras pelo rosto sério, endurecendo ainda mais seus traços.

Ele parecia pertencer àquele silêncio.

Ao poder.

Ao controle.

— Seu jantar, meu senhor… — disse ela baixinho.

A voz saiu quase tímida.

Rashid ergueu os olhos apenas o suficiente para observá-la.

Uma fração de segundo.

Mas percebeu.

Ela estava diferente.

Mais silenciosa.

Os movimentos mais calculados.

Como alguém que aprendera rápido demais o preço do erro.

Aquilo deveria agradá-lo.

Então por que causava irritação?

Lorena posicionou os pratos cuidadosamente.

Prestando atenção em tudo.

Desesperada para não falhar.

Mas a tensão aumentava perto dele.

Sempre aumentava.

O cheiro amadeirado do perfume.

O som discreto do relógio na parede.

A sensação constante de estar sendo observada.

Ela respirou fundo enquanto servia a bebida.

Então o copo escapou.

O líquido espalhou-se sobre a mesa.

Escorreu pelos documentos.

Pingou lentamente na madeira escura.

O silêncio seguinte pareceu pior que um grito.

Lorena empalideceu.

— Me desculpe… eu…

As palavras morreram.

Rashid levantou os olhos.

Devagar.

Sem alterar a expressão.

E foi isso que fez o estômago dela afundar.

— Você é sempre distraída assim? — perguntou.

A voz saiu baixa.

Controlada.

Lorena abaixou os olhos imediatamente.

— Foi acidente…

— Acidentes custam caro.

Ele fechou os documentos molhados sem desviar dela.

Depois levantou-se.

Sem pressa.

Lorena deu meio passo para trás antes de perceber.

Instinto.

Rashid notou.

Claro que notou.

Os olhos dele permaneceram nela alguns segundos além do necessário.

No leve tremor das mãos.

Na respiração presa.

No esforço absurdo para parecer menor.

Menos incômoda.

Menos visível.

Aquilo irritava.

Porque medo demais lembrava fragilidade.

E fragilidade exigia escolhas.

Rashid odiava escolhas.

— Olhe para mim quando falo com você.

Lorena hesitou.

Depois ergueu os olhos.

Erro.

Ela percebeu tarde.

Porque alguma coisa mudou no instante em que o olhar dos dois se encontrou.

Talvez tensão acumulada.

Talvez raiva.

Talvez algo pior.

O ambiente pareceu pequeno demais.

Silencioso demais.

Rashid segurou o queixo dela.

Firme.

Obrigando-a sustentar o olhar.

Lorena prendeu a respiração.

O toque queimou.

Não pela delicadeza.

Pela autoridade.

— Você treme toda vez que chego perto — murmurou ele.

Ela engoliu seco.

A resposta escapou antes de pensar:

— Porque tenho medo de você.

Os dedos dele ficaram imóveis.

Só por um segundo.

Pequeno demais.

Mas aconteceu.

O maxilar endureceu discretamente.

Algo atravessou o olhar dele rápido.

Incômodo.

Ou outra coisa.

Lorena não soube.

Então Rashid inclinou-se.

E o beijo aconteceu.

Impulsivo.

Brusco.

Como uma decisão errada tomada tarde demais.

Lorena congelou.

O choque atravessou seu corpo inteiro antes do calor chegar.

Confuso.

Desorientador.

Ela deveria afastá-lo imediatamente.

Mas a mente demorou.

Porque não esperava.

Porque o medo nunca tinha parecido aquilo.

Quando finalmente tentou recuar, Rashid já havia parado.

Os dois ficaram imóveis.

A respiração irregular.

O silêncio quase agressivo entre eles.

Lorena levou alguns segundos para entender.

Os dedos tocaram os próprios lábios.

Atordoada.

Rashid a encarava.

Como se também odiasse o que acabara de fazer.

O rosto voltou a endurecer primeiro.

Sempre primeiro.

— Limpe isso — disse, olhando para a mesa molhada.

Frio outra vez.

Como se nada tivesse acontecido.

Então saiu.

Deixando Lorena parada.

Com o coração acelerado.

E perguntas demais.

---

A viagem durou dois dias.

Dois dias em que Rashid mergulhou em reuniões, contratos e negociações.

Funcionou.

Até deixar de funcionar.

Porque bastavam alguns segundos de silêncio.

E lembrava.

Os olhos assustados.

O tremor.

A frase:

"Porque tenho medo de você."

Aquilo voltava.

Incomodava.

Persistia.

Lorena era um problema.

E problemas precisavam ser controlados.

---

Quando voltou ao palácio, já era noite.

Lorena organizava roupas nos aposentos quando ouviu a porta abrir.

O corpo inteiro enrijeceu antes mesmo de olhar.

Rashid entrou.

Sem anunciar presença.

Os olhos dele percorreram o quarto.

Depois pararam nela. Longamente.

Lorena apertou o tecido entre os dedos.

— O senhor precisava de algo?

Rashid demorou um instante antes de responder.

— Você anda mais silenciosa.

O coração dela acelerou.

— Eu só estou tentando não errar.

Algo quase imperceptível passou pela expressão dele. Sumiu rápido.

— Então aprendeu mais rápido do que imaginei.

Lorena abaixou os olhos imediatamente.

Sem entender por que aquilo incomodou.

Ela recuou um passo.

Pequeno.

Mas suficiente.

O olhar dele acompanhou.

Sempre acompanhava.

— Rashid…

O nome saiu baixo.

Nervoso.

Sem perceber.

Os olhos dele permaneceram nela um instante.

Depois desceram para a boca dela.

Rápido.

Breve.

Mas aconteceu.

— Você vai começar a cumprir funções diferentes aqui.

Ela entendeu imediatamente.

O sangue abandonou o rosto.

— Não…

Quase um sussurro.

Rashid segurou o queixo dela.

— Não me obrigue repetir.

Os olhos começaram a arder.

Lorena negou com a cabeça.

Uma vez.

Outra.

Desesperada.

Até os joelhos cederem.

Não teatralmente.

Não para manipular.

Porque medo também tinha peso.

E às vezes derrubava.

— Por favor…

A voz falhou.

— Não faz isso comigo…

Rashid observou.

Imóvel.

Ela parecia apavorada de verdade.

Não hesitante.

Não provocando.

Assustada.

Como alguém diante de condenação.

— Você me pertence, Lorena.

As lágrimas escorreram imediatamente.

Ela fechou os olhos.

— Eu não quero…

Silêncio.

Respiração irregular.

Então, quase sem som:

— Eu nunca fiquei com ninguém.

Rashid franziu o cenho.

Ela continuou antes de perder coragem.

Humilhada.

— Eu sou virgem.

A palavra caiu no quarto.

Crua.

Pesada.

Rashid permaneceu olhando para ela por alguns segundos.

Sem surpresa.

Sem choque.

Depois soltou uma pequena risada sem humor.

— Não use isso comigo.

Lorena ergueu os olhos depressa.

— É verdade…

— Não me importa se é verdade.

A resposta veio baixa.

Dura.

— Mulheres aprendem cedo demais a dizer o que homens querem ouvir quando precisam sobreviver.

O peito dela apertou imediatamente.

Porque não era estratégia.

Não era manipulação.

E, ainda assim…

Ele olhava como se já tivesse decidido quem ela era.

Rashid afastou a mão do rosto dela.

— Durma.

Ela piscou, confusa.

Ainda tremendo.

Ele abriu a porta sem olhar para trás.

— Quando eu decidir o que fazer com você… será avisada.

Então saiu.

Sem hesitação.

Sem conforto.

Deixando Lorena sozinha com a vergonha de ter dito uma verdade… que ninguém acreditou.

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