Capítulo 6.
Afinal de contas, esta era a casa dele e ele não se importava de jantar com convidados. Pelo que sabia, podia estar escondido lá em cima, como o idiota que era. Pelo menos, descobri que ele tem apenas 25 anos e, a julgar pela aparência do irmão, deve ser bastante decente.
Olhei para o Kaden, com quem tinha gostado de conversar naquela noite. Ele tinha o cabelo escuro, comprido até às orelhas, penteado para trás, embora com o tempo estivesse a ficar mais despenteado. Tinha um queixo pronunciado e estava bem barbeado. As suas sobrancelhas e olhos escuros tinham um certo charme juvenil. Kaden parecia sorrir muito e isso ficava-lhe muito bem.
— O meu irmão não é uma má pessoa, mas por vezes pode ser um idiota. Peço desculpa em seu nome — disse Kaden, enquanto tomava um gole de vinho. Sorri diante da sua sinceridade. — Estou decepcionado por ele nem sequer ter vindo jantar. — Lambi os lábios, sentindo-me menos ansiosa.
— Vou encontrá-lo e fazê-lo redimir-se. Porque tu, Analucia, serás a melhor coisa que lhe poderá acontecer. Ele assentiu, satisfeito. Sorri com presunção. — Sabes como fazer uma rapariga corar. Diga-me, tem namorada? — esposa? — perguntei eu.
Ele sorriu preguiçosamente, limpou a boca com um guardanapo e respondeu: — Infelizmente, nenhuma. Deixei cair o garfo ao inclinar a cabeça para ele. — Por que não? — perguntei. Ele parecia um jovem muito agradável. Seria uma tolice deixá-lo escapar.
Ele deu uma risadinha e a Grace virou-se para nos olhar com uma expressão carrancuda.
Depois, virou-se. Não sei qual era o problema daquela mulher, mas ela tinha um comigo. — Não consigo encontrar a mulher especial para mim. Tenho a certeza de que vais gostar do Ace. Vocês têm muito em comum. Ele sorriu.
Eu reprimi um bocejo, cobrindo a boca com a mão. — Como? — perguntei. Ele sorriu, com os olhos escuros a brilhar. — Você vai ver... Lembra-te da Analucia. Se ele se comportar como um idiota, avise-me e eu trato dele.
— Acha que não consigo lidar com isso? — ri eu baixinho. Ele cantarolou. — Acho que sim. Mas gostaria de resolver a situação de qualquer maneira.
Ao terminar o jantar, o meu pai saiu para tomar um copo com o Tony e a Grace, numa reunião bastante privada. Para a qual não fui convidada. Mas não me importei.
Em vez disso, saí para dar um passeio tranquilo sob a luz da lua. A KC acompanhou-me, ficando ao meu lado.
Os meus saltos faziam barulho na trilha de cascalho enquanto caminhava. — Os pais pareciam simpáticos e o filho... — KC conversou. — Havia algo de estranho neles. O Kaden era genuíno, mas não compreendo os pais. — disse eu, enquanto o KC cantarolava em sinal de concordância. Sempre havia algo.
Sentei-me num banco em frente a uma bela fonte. Observei a água a escorrer das bocas dos pássaros para um lago. A água brilhava de branco e refletia a lua cheia. Olhei sem rumo, absorto nos meus pensamentos.
Tinha muito trabalho a fazer. E eis-me aqui, a perder tempo. O Ace nem apareceu. Talvez ele sentisse o mesmo que eu. Claro que sim.
Nesse momento, uma voz rouca rompeu o silêncio. — Vim ver o meu noivo. — Que cretino! Saí do meu estado de choque e virei-me para ver o KC com a arma apontada a um homem. — Não se preocupe — disse eu e KC abaixou a arma.
Um homem alto e corpulento aproximou-se e sentou-se ao meu lado. Assim que se sentou, senti o aroma almiscarado da sua loção pós-barba, misturado com o cheiro a tabaco. Olhei rapidamente para ele. Ele era a personificação da altura, da pele morena e da beleza. O seu cabelo escuro estava penteado, mas rebelde, com algumas mechas soltas. Perguntei-me se seria macio ao toque. As suas mandíbulas afiadas estavam cobertas por uma barba incipiente e eu podia perder-me nos seus olhos escuros. E naqueles lábios beijáveis.
Caramba, controla-te, Analucia!
— Sou o Ace Hernández. Peço desculpa por não ter comparecido ao jantar, princesa — disse ele, olhando fixamente para mim. Fiquei rígida e respirei lentamente.
— Não me chame assim — respondi, apertando a mandíbula. O seu olhar desviou-se para outro lado e voltou a pousar em mim. — E como é que eu deveria chamá-la? — perguntou ele, enfiando a mão no bolso e tirando um cigarro. Acendeu-o e começou a fumar. Agora compreendo. Como ele se comporta, como fala. É um chefe da máfia como poucos. — Sou a Analucia — disse com um ar sério.
— Analucia... Ele provou o meu nome com a língua. A luz da lua incidia sobre os seus olhos, fazendo-os brilhar ainda mais. Inclinou-se ligeiramente na minha direção. — Que nome tão bonito para uma mulher tão linda — sussurrou junto ao meu ouvido. Senti o seu hálito quente a acariciar a minha pele, arrepiando-me os pelos da nuca. Qualquer outra rapariga acharia isso sedutor, mas eu não.
— Queres um? — perguntou ele, estendendo-me o cigarro, que estava cheio de fumo e cinzas. Balancei a cabeça negativamente. — Não.
Ele riu entre dentes e o som causou-me um formigueiro no estômago. — És uma rapariga virtuosa? — perguntou ele. Que raio?
— Que diabos?! Vamos esclarecer uma coisa. Não cheguei onde estou por ter sido uma boa menina. Este casamento não passa de uma aliança no papel. Não espere que eu seja uma dona de casa. E vou responder, sem hesitar, se agir indecentemente. — rosnei baixinho, com o rosto impassível.
Ele soprou o fumo do cigarro entre os lábios e apagou-o, atirando-o para o chão. Não pareceu importar-se com o que eu disse, ou pelo menos não demonstrou. Virou-se para mim, olhando apenas para o meu rosto, e cantarolou: "Gosto de ti".
Franzi a testa. O que se pode dizer a isso? Que merda! Ele estendeu a mão e tentou colocá-la na minha coxa. Digo "tentou" porque agarrei a mão dele com força. Tinha-a dobrada para trás, um movimento que aprendi quando era criança.
Ele mal se mexeu e não demonstrou qualquer sinal de dor. Em vez disso, sorriu com presunção. Aquele idiota sorriu com presunção. E, meu Deus, ele estava tão bonito! Soltei a mão dele, afastando a sensação de formigueiro que senti quando as nossas mãos se tocaram.
Observei-o enquanto ele passava a mão pelo cabelo. Sem dúvida, ele conhecia os seus limites. E isso não é uma desgraça. — Desculpe. Só queria ver como reagias — desculpou-se ele, indiferente. Eu estreitei os olhos enquanto afastava o cabelo da cara, que balançava com a brisa suave. — A minha reação? — zombei eu. — Eu teria cortado a tua mão.