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CAPÍTULO 3.2

Estranho.

Foi assim que ela me chamou. Meu Deus, se ela soubesse, que de longe, sou estranho. Sou apenas alguém, como ela mesma falou, que não conseguiu enxergar. Sinto uma pontada de tristeza em saber que nunca passei por seus pensamentos.

Mas ainda que ela esteja desistindo assim tão fácil, sem querer deixou uma brecha para que eu possa responder sua carta e conseguir convencê-la a continuar me escrevendo, pelo menos por enquanto, até eu me sentir seguro para me apresentar pessoalmente.

Sei que o momento é de recuperação e descoberta, e eu me contentaria em apenas estar do seu lado em sua caminhada.

Ouço uma batida na porta e escondo a carta debaixo do meu colchão. Olho para a porta onde um homem de aparentemente trinta anos me encara com olhos interrogatórios.

- O que está fazendo aqui Vinny? – Ele pergunta quando estou me recuperando da euforia por ter recebido a carta de Ivy.

- Nada, estava apenas descansando... – Tentei pensando em uma resposta rápida.

- Mas ainda é tão cedo. Passam um pouco depois das quatro. – Disse olhando para o relógio.

- Na verdade, eu só precisava respirar um pouco. Sair um pouco daquele ambiente fechado. – Eu falo, o que não deixa de ser verdade.

- Entendo... Raquel disse que você recebeu uma carta... – Ele soltou.

Garota fofoqueira. Não sabe ficar com sua língua dentro da boca. Eu forço um sorriso e olho para qualquer lugar procurando alguma justificativa.

- Apenas uma carta... De uma amiga... Quer dizer...

- Nossa Vinny, é a primeira vez desde que chegou aqui que o vejo gaguejar. – Ele esboçou um sorriso. – Ela deve ser bem... Importante... – Disse estreitando o olhar.

- Não é ninguém importante Paulo, apenas alguém que deseja saber se eu estou me adaptando. – Menti.

Ivy, com certeza não se classifica como ninguém importante. É por ela que decidi ser melhor, para poder merecê-la e dar a ela a segurança de que precisa. Quero ser aquele a quem pode correr quando seus pesadelos se tornarem insuportáveis.

Paulo me olhou por mais alguns instantes, e depois resolveu esquecer o assunto.

- As crianças estão perguntando por que seu professor preferido está demorando tanto para voltar.

- Eu já estou indo... Só preciso de mais alguns minutos.

- Está bem, vou tentar inventar alguma brincadeira para entretê-las enquanto você não volta. – Disse saindo e fechando a porta.

Solto um suspiro e puxo a carta de volta do colchão. Coloco dentro do envelope e vou procurar um local para escondê-la. Escondo atrás de um porta-retratos preso na parede. Raquel é curiosa por natureza e se eu me descuidar, ela encontrará e após ler, me encherá de perguntas.

Ela é apenas uma adolescente de dezesseis anos muito curiosa que adora ficar no meu pé o dia inteiro. Não sei por que milagre de Deus, ela ainda não invadiu meu quarto, onde divido com mais três pessoas, não muito diferente da faculdade.

Saio do pequeno alojamento e quando chego à pequena sala de aula improvisada, vários pares de olhos me encaram, e logo começa a gritaria. É estranho em como me sinto confortável com suas demonstrações de carinho. Até parece que não sou eu quem está nesse corpo.

- Tio Vinny, por que demorou tanto? O senhor estava apertado e por isso saiu correndo para fazer xixi? – Pergunta uma menina morena de cabelos negros e lisos que chegam à metade de sua cintura.

- Paloma, você não pode sair por aí perguntando se seu professor precisava ir ao banheiro. – Paulo fala logo atrás dela.

- Só perguntei por que eu faço a mesma coisa. Não sabia que perguntar era feio... – Ela mostra um bico e juro que vai chorar a qualquer momento.

Eu me agacho para poder ficar do seu tamanho e poder conversar olhando em seus olhos.

- Não há nada de errado em perguntar Paloma. O tio apenas precisou de um tempo, ok?

Vejo-a desmanchar o bico e abrir um longo sorriso.

- Então agora está na hora de brincar? – Pergunta começando a pular como um canguru.

Não consigo conter um sorriso ao ver suas mãos se mexendo como se fosse asas.

- Sim. Está na hora de brincar. Vamos lá para fora... Mas formem filas.

Sem precisar falar duas vezes, todos correm para uma fila indiana de frente para a porta dos fundos da sala. Há um pequeno parque, na verdade, apenas um escorregador e dois balanços, onde eles se revezam para brincar.

Quando cheguei aqui, fugindo de mim mesmo, esperava encontrar um lugar onde ninguém me incomodaria. Onde eu passaria despercebido. Mas como em uma cidade pequena, isso é impossível, logo surgiram comentários querendo saber quem era o estranho na cidade.

Eu tive que me enturmar, arranjar um emprego até descobrir o que faria logo em seguida. Foi quando apareceu a vaga de faxineiro nessa escola, que não é nada mais que um grande galpão dividido em quatro salas de aulas. Que vai da primeira à quarta série.

Nem sei como acabei professor, um dia estava limpando o chão e no outro estava contando histórias para as crianças. No início foi bem difícil, já que elas são curiosas por natureza e fazem de tudo para chamar a atenção dos adultos.

Uma semana depois, eu era seu mais novo professor, amigo e contador de história. Para elas é muito importante ter alguém que se importe. Moro em uma comunidade carente esquecida pelo governo. As famílias sobrevivem do que conseguem produzir, seja comida ou artesanato.

Isso me faz lembrar o tempo em que eu tinha tudo, mas não dava valor. É engraçado como o destino encontra uma maneira de te dar uma lição. Agora estou aqui, sem ter dinheiro, e ainda assim, estou feliz, como nunca estive antes. Estou quase completo, falta apenas uma pessoa... Ivy. Minha Ivy.

Com esse pensamento, sigo para o parque entreter as crianças enquanto seus pais estão trabalhando para colocar comida na mesa.

Não vejo a hora de voltar para meu quarto e reler pela quinquagésima vez a carta de Ivy. Não me conterei e logo escreverei uma resposta para sua pergunta, ainda que não saiba se devo revelar minha verdadeira identidade.

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