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CAPÍTULO 3.1

Estranho,

Como você não se identificou é assim que vou te chamar.

Nossa! Eu não sei bem o que dizer ou pensar confesso que fiquei horas meditando se deveria ou não te responder, no fim a curiosidade me venceu e a busca por respostas que eu não sei se terei me fez pegar a caneta.

Primeiro eu gostaria de te pedir desculpas por ignorar uma pessoa tão amável como você, mas você deve saber que eu não estava na minha melhor fase.

Infelizmente eu não tenho boas notícias, temo que você esteja se iludindo, pois eu não sou essa pessoa que você tem sonhado. Essa Ivy que você descreveu não sou eu. Tenho demônios ocultos que insistem em me assombrar.

A Ivy de verdade é uma que ninguém até hoje conheceu nem eu mesma.

Creio que será a última vez que vou ouvir falar de você então eu peço mais uma vez perdão por te desapontar e se puder me dar somente uma resposta para tantas perguntas que eu tenho, seria muito bom.

Quem é você estranho?

Ivy

Fiquei olhando para a folha durante vários minutos, se não horas. Depois de longos quatro dias aguardando ansioso por uma resposta, meio que ainda inseguro, por saber sua reação, e querendo muito ter estado ao seu lado quando ela abriu o envelope. Minha Ivy. Sei que pareço um tolo por pensar assim, mas é como a considero. Minha.

Não do tipo possessivo. De longe, eu sou alguém assim. Falo que ela é minha, por que a partir do momento em que coloquei meus olhos nela, logo soube que era ela. A garota que iria tirar o meu chão no instante que percebesse minha presença.

Mas ela não viu. Em nenhum momento seu olhar encontrou o meu. Não que eu não fosse bonito ou atraente. Em sua cabeça, eu era apenas o cara que ela conheceu em uma festa. O cara que não perdia tempo conversando. Eu sempre estava procurando diversão. E isso incluía garotas mimadas que estavam à procura de uma noite de loucura.

E ela era uma delas. Uma garota mimada que sempre estava em busca de aventura. Dava para sentir de longe o seu gosto por adrenalina. Foi em uma dessas festas que eu a conheci. Um play boy, assim como eu, que sempre gostou de se exibir com dinheiro dos pais, achou que seria legal dar uma festa antes do início das aulas.

Ele assim como eu gostava de ter a atenção e sempre estar em companhia de garotas fúteis. Eu não iria comparecer, mas Diogo me convenceu, dizendo que lá eu encontraria várias garotas dispostas a fazer tudo que eu quisesse. Minha mente logo viajou. Garotas fáceis, que eu poderia pegar sem ouvir reclamações depois.

Estava há horas na festa e nenhuma garota tinha me chamado a atenção, até ela entrar usando um macacão vermelho, onde deixava bem claro e evidente as suas curvas. Ela queria atenção sobre ela, e eu tive a certeza que ela conseguiria. Seus cabelos possuíam cachos bem definidos e com uma maquiagem pesada, deu para perceber que ela não tinha vindo apenas beber e cair na piscina. Ela estava preparada para caçar.

Por metade da noite fiquei observando-a, meu primeiro pensamento foi chegar e logo marcar território, mas consegui me controlar, ainda mais por que eu não era o único que a queria. Diogo tinha me confidenciado que ela seria a da vez. E quando ele escolhe sua presa, é melhor não ficar no seu caminho. Então eu fiz minha retirada, por que se meter com Diogo, era como ter sua sentença de morte decretada.

Diogo era possessivo, violento e totalmente egoísta. Por diversas vezes, quando Ivy estava ausente, eu aparecia com uma garota diferente. Isso me deixava furioso, por que apesar de Ivy sempre parecer uma garota moderna, no fundo eu conseguia ver que ela queria ser amada. Era quase como uma necessidade.

Nesse dia, eles apenas conversaram. Diogo estava fazendo o reconhecimento do território. Lembro-me ainda que ela foi embora mais cedo do que previsto. Alguns drinks depois e ela estava completamente bêbada. O que me causou algumas risadas escondidas atrás de uma garrafa de cerveja.

A segunda vez que a vi foi em uma festa no campus. Diogo resolveu dar uma festa de boas-vindas às aulas para seus amigos e convidados. Eu estava jogado no sofá segurando uma garrafa de cerveja e uma garota pendurada no meu pescoço, quando ela entrou acompanhada de uma garota morena, a novata, a mesma que esteve na festa do Kadu. Ela parecia deslocada e pouca a vontade em uma saia tão curta, que eu tinha certeza que não era dela.

Ivy não. Ela parecia que estava em casa. Falou com todo mundo e apresentou sua amiga, que no final descobri que se chamava Nanda. Conversaram um bom tempo com outro cara que me lembro de ter visto pelos corredores, até Diogo aparecer e roubar sua atenção.

Ele falou alguma coisa que deixou Nanda, sua amiga irritada. Não pude ouvir direito por causa do barulho, mas posso falar com sinceridade que se pudesse, a garota teria matado Diogo. Sorri para mim mesmo, tentando imaginar como ela faria isso.

Logo depois, vejo Ivy rindo de alguma coisa que Diogo falou, deixando sua amiga ainda mais irritada. Ela falou alguma coisa e segundos depois, os dois saíram do apartamento deixando Nanda sozinha.

Se eu fosse um cara legal, eu teria ido falar com ela, só para que ela não ficasse mais desconfortável do que já estava. Mas eu não era um cara legal, e muito menos me importava em ser. A única que merecia minha atenção era Ivy. E essa tinha saído de braços dados com Diogo.

Minha noite já tinha terminado antes mesmo de começar. Empurrei a garota que estava nas minhas pernas, me levantei e fui embora. Eu precisava me aliviar e me livrar da presença que Ivy causava quando estávamos no mesmo ambiente.

Agora olhando para sua carta, que quase pirei por sua demora, tudo que passei só serviu para aumentar a certeza que ainda podia ter uma chance. Mesmo lendo que ela não é mais a mesma. Parece que está perdida, procurando sua identidade. Apesar de afirmar que não é a garota que eu conheci, eu tenho certeza que ainda é ela, mais contida, mas ainda é ela.

Sei dos seus demônios, por que ela sabendo ou não, sempre estive por perto, só esperando a oportunidade para ajudar. Mas ela nunca pediu, nem mesmo quando tudo parecia quase insuportável.

Agora ela está em busca da Ivy de verdade, e eu quero muito poder estar por perto para apoiá-la. E não pretendo desistir assim tão fácil. Agora eu estou no jogo, e dessa vez entrei para vencer.

Leio mais uma vez, e deixo escapar um sorriso, quando ela menciona que sua curiosidade foi maior que o medo do desconhecido. Confesso que até eu ficaria com medo de responder a carta de um estranho que não quis se identificar.

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