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CAPÍTULO 1.2

Depois do café, fazemos uma reunião para compartilhar com todos como foi nosso dia. Parece chato, mas é bem legal. Trocamos ideias e fazemos planos para quando voltar par o convívio com a sociedade.

A melhor parte do dia é quando nos reunimos no pátio. Não chega a ser muito grande, mas tem o tamanho suficiente para fazer uma roda de amigos e cantar as músicas que todos gostamos. É como um luau sem a praia e sempre no final da tarde para agradecer por mais um dia de vitória.

Visto rapidamente uma bermuda jeans e camiseta roxa. Aqui não ligamos muito para a aparência, quer dizer, só um pouco. Não queremos parecer que ficamos relaxados só por que estamos enclausurados.

Um pouco de gloss e estou pronta.

Prendo meus cabelos que aderi ao liso, não por que era como Diogo gostava, mas por queria ver se eu me amaria assim. Depois de alguns dias internada, comecei a me olhar mais no espelho, procurando minha identidade de volta. No começo foi difícil, mas agora me aceito assim e até gosto do meu novo cabelo. Até fiz uma franja longa, mas está sempre presa com uma presilha.

Pego meu caderno de música, aderi à mania de ficar escrevendo as músicas que cantamos quando estamos em grupo. É um ótimo passatempo e viajo sempre que estou escrevendo.

Quando entro no refeitório, vejo que eu era a única que faltava. Roberta como sempre está guardando um lugar ao seu lado. Ela tem quase a minha idade, um ano mais velha e o corpo coberto de tatuagem. É uma morena espetacular, diga-se de passagem. Não a considero grande amiga, mas é sempre legal comigo e nunca a vi triste.

─ Ei. – Ela acena quando me vê passar pela porta.

─ Oi. – Eu devolvo o aceno e me encaminho para a mesa. – O que temos para o café? – Pergunto quando me jogo no banco.

O barulho está ensurdecedor hoje. Somos no total de cem pessoas. Parece pouco, mas imagine todos falando ao mesmo tempo? É de tirar o juízo de qualquer um.

Gustavo, o garoto mais lindo daqui, está falando como um tagarela, e tem a atenção de todos. Tem longos cabelos castanhos e lisos q passa um pouco dos ombros, e estão sempre presos com um elástico.

Trocamos um sorriso, mas é só. Sei que ele tenta se aproximar às vezes, mas no momento estou correndo de relacionamentos e de homens. Foi por causa de um cara que vim parar aqui.

─ Sobre o que Gustavo está falando agora? – Pergunto para Roberta enquanto fujo do olhar dele.

─ Nada em especial, apenas contando mais uma de suas histórias de pescador. – Fala rindo.

─ Pessoal, silêncio, por favor! – Gustavo fica de pé sobre o banco e fala quase gritando.

Demora alguns segundos, mas aos poucos, o silêncio começa a tomar conta do ambiente. Quando tem total atenção, Gustavo desce do banco e começa a falar.

─ Pessoal, amanhã um de nós estará partindo. Bianca finalmente vai voltar para casa, e como uma família que somos, André e sua equipe concordaram que fizéssemos uma festa de despedida...

Todos começam a falar ao mesmo tempo, e é preciso que Gustavo assovie para ter a atenção novamente...

─ Pessoal, não é uma festa como a que estamos acostumados... Apenas um pouco de música e bebidas sem álcool...

Um sono “Ahhhh” ecoa pelo refeitório.

─ É isso ou nada. Lembrem-se o motivo de estarmos aqui. Vamos dançar um pouco, cantar e tocar violão. – Disse por fim.

Ficamos discutindo como iríamos decorar o auditório por mais meia hora e depois seguimos para nossa primeira reunião. Seria a primeira de cinco ao longo do dia.

Ao final da última reunião, volto para o meu quarto. Roberta está tão entretida com seus fones de ouvido que não me ouve falar.

A maioria assim como eu, prefere ficar um tempo sozinho para pensar em tudo o que compartilhamos em grupo. Eu gosto de me deitar na minha cama e ficar olhando para o teto. É meio coisa de maluca, mas fazendo isso, consigo pensar no que eu quero para o dia seguinte.

Eu quero ser uma Ivy melhor.

Estou me aproximando da porta do quarto quando vejo André vindo em minha direção. Abro um largo sorriso, já que passei o dia sem vê-lo.

─ Oi André, por onde esteve o dia todo? – Pergunto quando estamos próximos o bastante para conversar sem alterar a voz.

─ Estava cuidando da papelada da saída da Bianca. Ela vai embora amanhã.

─ Estou sabendo. Gustavo falou que você permitiu uma festa de despedida.

─ Está mais para uma reunião do que festa. Vocês sabem como as ordens aqui são rigorosas... – Alertou.

─ Eu sei. Vamos fazer o que fazemos todos os dias no final da tarde, a diferença é que teremos uma ou duas horas a mais para isso.

─ Trouxe isso para você. – Disse me entregando um envelope pardo.

─ O que é isso?

─ Uma carta, eu deduzo.

─ Uma carta? – Pergunto quando ele não fala mais nada. – Quem me mandaria uma carta?

─ Não sei. Não tem nome do remetente. – Diz me entregando o envelope.

─ Tem certeza que é pra mim?

─ Está endereçada para você.

Eu pego o envelope e dou uma analisada rápida. André tem razão, o nome do remetente está em branco. Não reconheço a letra, é um pouco arredondada, mas nada parecida com a caligrafia dos meus amigos.

Quem mais saberia a onde eu estou além da minha família e dos meus amigos?

─ Se não quiser a carta, posso jogar fora... – André começa a falar.

─ Não... Eu vou ficar com ela. Estou curiosa para saber quem me escreveu. Desde que a internet ficou avançada, as cartas perderam a vez. Obrigada André, vou ler em meu quarto.

André me dar um sorriso e depois segue em frente em direção a sua sala onde fica com o restante dos enfermeiros.

Entro no quarto, ligo a luz, já que está escurecendo e vou me sentar na minha cama. Dou uma última olhada do envelope antes de rasgar e retirar uma folha A4 de dentro. Ela está dobrada em três partes, como se fosse outro envelope.

Abro delicadamente, curiosa e temendo o que está escrito. Surpreendo-me quando a primeira coisa que me chama a atenção é a pergunta.

Ivy

Como você tem passado?

Sei que não deve estar tão fácil assim para você depois de tudo o que passou nas mãos do Diogo, mas saiba que se dependesse do meu amor você logo estaria vivendo sua vida como era antes.

Você há essa hora pode estar se perguntando de quem se trata, mas me chame de covarde ou do que for, porém, prefiro não me identificar, não agora, quero ser pra você exatamente o que precisar, se for um amigo estou aqui, se um confidente, tem meus ouvidos... A única coisa que não posso te dar agora é o meu corpo para te cobrir nas noites frias que todos nós temos.

Eu já tentei te esquecer tantas vezes, já quis deixar pra lá esse salto que meu coração dá quando lembro de seus olhos cor de avelã que outrora me olhavam mas não me viam.

Já te procurei em tantas outras almas, mas só a sua me completa e o por muito tempo tive que aceitar este vazio só que agora resolvi fazer diferente. Por isso estou escrevendo está carta para que você saiba que tem um coração que é seu.

Eu continuarei enviando cartas a você, se isso não lhe incomodar e sei que posso estar pedindo demais, mas quero sonhar em receber uma em resposta, apenas isso já me faria o homem mais realizado do mundo. Mas se preferir apenas receber as minhas eu fico mais do que feliz em saber que habito em seus pensamentos.

Ao fim deixo a você um beijo que te aqueça nas noites sombrias e marque seu coração com todo calor da minha paixão.

Seu para sempre...

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