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CAPÍTULO 1.1

Mais um dia.

Na verdade é uma pintura que fiz na minha primeira semana aqui na clínica. Confesso que achei ridículo tirar o dia para pintar, como se eu estivesse com dez anos novamente.

Fomos induzidos a pintar algo que nos transmitisse segurança. Como não sou boa com pinturas, resolvi escrever. Fiz a frase de uma maneira que pudesse deixar colorida como um arco-íris.

Eu sei que você deve estar pensando agora o quanto estou parecendo patética, mas sempre gostei do arco-íris. Sempre tive a ilusão que encontraria um tesouro no final dele.

Lembro que quando tinha nove anos escrevi uma poesia falando como seria chegar do outro lado. Sempre adorei escrever, mas com o passar dos anos, acabei deixando um pouco de lado. Logo por que Belinda e Jessye estavam sempre comigo me induzindo a trocar a caneta por um batom e rímel.

Minhas melhores amigas desde sempre. Não lembro como nos tornamos amigas, mas quem se importa em lembrar? Eu as amo.

Essa era eu quando não estava sendo submissa dos meus pais que desde que nasci ditaram todos os meus passos. Para eles eu tinha que ser perfeita, e nunca, jamais tirar notas baixas. Se isso acontecesse, pode ter certeza que aconteceria a terceira guerra mundial.

A Ivy verdadeira só aparecia quando conseguia fugir da marcação deles, nem que fosse apenas por uma hora. Isso sempre acontecia quando Belinda inventava uma tarefa extra da escola e eu fugia para sua casa.

Passávamos cada minuto planejando como nossas vidas mudariam quando entrássemos para a mesa faculdade. No final, saiu exatamente como combinado. Foi difícil convencer meus pais a me deixarem morar longe deles, mas como eu sempre podia contar com minhas amigas, elas apresentaram uma defesa tão bem planejada que até eu mesma acreditei.

Nosso primeiro ano foi maravilhoso. Logo na primeira semana, fomos apresentadas às festas, bebidas, garotos e tudo que acompanhava a vida de uma universitária que estava curtindo sua liberdade longe dos pais.

Lembro-me que fiquei com um veterano que fazia engenharia e que estava sendo disputado por metade das garotas da faculdade. Senti-me como a Rainha da Inglaterra. Pena que durou menos do que eu esperava. Na semana seguinte ele me deu um pé na bunda e me trocou por uma estudante de bioquímica.

Foi minha primeira fossa que curei com mais festas, bebidas e mais garotos. Foi em uma dessas festas que perdi minha virgindade. Nossa, agora nem consigo lembrar seu nome. Como pode tantas coisas mudar em um ano?

Agora sou outra pessoa. Perdi a minha inocência de criança. Perdi o medo do escuro e do bicho papão. Sou uma adulta, com algumas cicatrizes e lições que aprendi da maneira mais difícil.

Eu busquei atenção, amor e dedicação. E encontrei tudo de uma só vez. Mas encontrei na pessoa errada. Agora percebo meu erro. Achei que o que eu estava vivendo era amor.

Mas agora, depois de dois meses, eu percebo que tudo o que eu consegui foi me perder ainda mais. Eu me deixei levar por um sentimento que me tirou meu amor próprio. Apeguei-me a alguém esperando que ela fosse meu bote salva-vidas. No final, ela foi minha destruição.

Não quis enxergar o que estava na minha cara o tempo todo, ele me tinha, mas eu não o tinha. Eu era apenas usada como um troféu e que a qualquer momento perderia espaço na prateleira.

Diogo foi minha ruína. Mesmo nas vezes em que ele me machucava, sempre em lugares onde ninguém veria, eu não tinha forças para deixá-lo, por que acreditava cegamente que ele era o único que me amava.

Só percebi quando foi tarde demais. Mas acho que devo agradecer a Deus todos os dias por ter amigos que nunca me deixaram cair sozinha. Por muita insistência de Belinda e pela perspicácia de Nanda, eu não tive um fim como o de Diogo.

Quando soube de sua morte, confesso que senti um pouco de alívio. De certa forma, eu teria minha liberdade de novo. E quando penso que por causa dele, Nick quase morreu...

Nem quero pensar em como eu sentiria se isso tivesse acontecido. Um terço da culpa seria minha, se não a metade. Nanda, com certeza me odiaria... Eu me odiaria.

Sou arrancada dos meus pensamentos por uma batida leve na porta.

─ Ivy? Está acordada?

É André, um dos enfermeiros, nem sei se essa é a definição correta, que faz com que os meus dias aqui sejam menos solitários.

─ Estou sim, pode entrar.

─ Temos uma reunião em meia hora. Seus amigos estão no refeitório tomando café. Por que não se junta com eles? – Disse assim que entrou, deixando a porta entreaberta.

André fala que tem idade para ser meu pai, mas duvido muito disso. Parece ser bem mais novo do que aparenta. Chuto uns trinta e cinco, no máximo. Está sempre de bom humor, e sempre consegue roubar um doce depois do horário de refeição. É ótimo conversar com ele, parece que encontro uma figura paterna nele, apesar de gostar muito do meu pai.

─ Eu já ia fazer isso. Estava aqui...

─ Olhando para sua obra prima na porta?

─ Como sabe?

─ Até parece que não te conheço. – Ele ri. – Sei que adora a sua arte. E insisto em dizer que você deveria voltar a escrever.

Uma vez confessei para ele que gostava de escrever poemas, nada parecido com Carlos Drummond, mas eu rabisco alguma coisa. Não cheguei a comentar com minhas amigas, parecia meio patético na época.

─ Eu não sei André.

─ Pelo menos deveria fazer um diário...

─ Um diário André? É sério? – Falei me levantando da cama. – Não acha que já passei da idade para isso?

─ Já vi muitos adultos escrevendo diários. Nele você pode contar seus segredos mais obscuros, como onde escondeu aquele pedaço de torta de banana tão rápido quando ouviu os passos da Vanessa...

Eu ri.

─... Ou quando misteriosamente meu bloco de anotações foi parar debaixo do seu colchão.

Caímos na gargalhada.

Foi depois desse minha proeza que nos tornamos grandes amigos. Isso aconteceu na primeira semana, eu estava louca para saber o que ele tanto escrevia ao meu respeito. No final, ele só falou o que eu já sabia, eu estava com meu psicológico abatido e que só precisava conversar, se abrir com alguém.

─ Vou sair para que possa trocar de roupa. Não demore muito, ouviu?

─ Sou uma garota, impossível me arrumar tão rápido. - Falo revirando os olhos enquanto corro para o banheiro.

Olhando de fora, parece que deve ser horrível ficar aqui "trancada", mesmo ficando afastada das pessoas que eu amo, gosto daqui. Meus dias são bem movimentados. Acordo um pouco depois das oito, um pouco cedo demais, mas até que já me acostumei.

Tomamos café todos juntos no refeitório. Rimos como loucos, por que sempre tem um exibido que adora ser o centro das atenções.

Convivo com pessoas de todas as idades, todos os graus de dependências. Sou a novata, como eles gostam de me chamar. Quando cheguei, me senti sozinha e completamente perdida, mas logo fui me enturmando e quando me dei conta, já nem sentia tanta falta de casa.

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