Capítulo 5 - Clima quente
A PRIMEIRA CHANCE DE NOS conhecermos melhor surgiu quando papai e mamãe se distraíram na cozinha preparando juntos o almoço e eu encontrei Ingrid do lado de fora de papo com o senhor Almeida diante do portão baixo de nossa casa. Joyce tinha se juntado às minhas irmãs no quarto para ver fotos nos álbuns antigos de família e o Diogo já tinha saído para bater perna com os colegas no bairro.
— Oi, Ique! — Me cumprimentou ela sorridente, arqueada com o corpo apoiado no portão de grades. — Tô aqui batendo um papo com o seu Almeida. Ele tava me contando que desde cedo você e o Heitor jogam bola pela rua e que sempre teve fé que você se tornaria um jogador profissional. É verdade?
O pai do meu melhor amigo estava debruçado sobre o seu Citroën prata enxaguando o veículo com uma mangueira do outro lado da calçada. Via de regra, ele costumava tirar o possante da garagem de casa para dar um trato aos finais de semana e o filho o ajudava. Aquela manhã, no entanto, o homem barrigudo de pele morena estava sozinho.
— Eu sempre gostei de futebol — respondi, agora a um palmo de distância de Ingrid. Ela se virou para mim e me ouviu atenta —, o seu Almeida já me deu carona em seu carro várias vezes até o centro de treinamento quando meus pais não podiam. Ele sempre apoiou a minha carreira e nunca deixou de me incentivar.
Ele assentiu do outro lado da rua. Deu dois tapas no capô do sedan e disse:
— Um dia vou ter o orgulho de dizer por aí que já carreguei pro treino uma estrela do futebol nacional a bordo do meu carango!
Eu ri e fiquei levemente envergonhado.
— Ainda falta muito pra eu ser uma estrela, seu Almeida.
Ele deu uma risada grossa e começou a enxaguar o para-brisa.
— Dedicação e talento você tem, Caíque. Vai depender de um pouco de sorte também.
Eu não achava que a minha colocação num time profissional de futebol fosse questão de sorte, mas não quis discutir aquela questão com o pai de meu amigo de infância. Ingrid ficou me encarando de um jeito enigmático assim que me viu balançar a cabeça em direção ao homem do outro lado da rua, depois, quando o assunto sobre futebol se encerrou, ela deu uma olhada para os limites que enxergava do bairro pelo portão prateado e me pediu para que eu a levasse para conhecer melhor a Vila Nodário. Assenti e não demorou para que estivéssemos andando lado a lado em direção oeste.
Eu havia crescido na Rua 23 daquele pacato bairro de Cotia e não havia em suas mediações um vizinho que eu não conhecesse. Aquele era um sábado ensolarado de temperatura agradável e conforme caminhava com minha prima, uma porção de pescoços se esticavam em nossa direção, todos curiosos para saber quem estava me acompanhando.
Da casa vizinha à nossa até o Bar do Alemão, estabelecimento que demarcava o fim da rua e que ficava na esquina com uma avenida mais movimentada a desembocar no centro de Cotia, eu apresentei Ingrid a um sem-número de pessoas que, por uma razão ou outra, não haviam estado no churrasco do dia anterior. Todas pareciam curiosamente interessadas em conhecer a menina vistosa de sorriso largo que se enturmava com facilidade. Educada, ela fazia questão de cumprimentar a todos de maneira bastante carismática e assim, fazendo pausas breves para dar um alô aos vizinhos, seguimos até a Praça Clóvis Telles, a uns cem metros do portão da minha casa. O lugar estava bem frequentado aquela manhã e além de uns moleques jogando bola no gramado, tinham muitos moradores passeando e se exercitando sob o ar livre da área verde.
— Eu adorei a Vila Nodário — disse Ingrid, assim que nos sentamos em um dos bancos embaixo das árvores frutíferas plantadas perfiladas —, é tudo tão calmo e as pessoas são tão simpáticas!
Ela estava agora de pernas cruzadas e o short curto deixava pouco a se imaginar das coxas torneadas. Quem passava em frente, nem conseguia disfarçar o interesse na linda garota, eu, muito menos.
— Aqui é muito bom sim. O lugar mais tranquilo que eu conheço e de gente muito decente.
A molecada jogando bola parava para encarar Ingrid de longe, mas ela parecia alheia aos olhares ao seu redor. A certo ponto da conversa, seus olhos se fixaram nos meus e ela foi direta em perguntar:
— A sua namorada não mora por aqui, mora?
Um sorriso mais capcioso lhe escapava dos lábios.
— Não, ela não mora.
Ela recostou-se no banco e continuou me medindo.
— Percebi. Se morasse nas redondezas, eu já a teria conhecido.
Cocei levemente a orelha e quis saber:
— Mas como soube da Glauce? Foram as minhas irmãs que te contaram sobre ela?
Ela fez que não.
— Tem uma foto na sua rede social em que aparece ao lado dela. Você a marcou e fiquei curiosa em saber quem era — a loirinha desviou o olhar um instante e logo em seguida, se voltou para mim novamente — Esqueceu que eu estava te stalkeando esse tempo todo?
Balancei a cabeça em negativa. Ingrid deu um risinho, olhou em direção aos meninos jogando futebol grosseiramente a uns oito metros de nós, depois disse:
— Mas não se preocupe. Eu não vou dizer nada sobre hoje cedo… fica entre nós.
Ela estava se referindo à troca de fotos íntimas e engoli em seco. A Glauce me mataria se soubesse que estou flertando com uma das minhas primas novinhas, pensei, em apuros.
— Ela faz o que da vida? Como a conheceu?
Eu realmente não queria falar sobre a minha namorada, mas respondi sem muita empolgação.
— Estuda medicina. Nós nos conhecemos durante o Ensino Médio. Éramos da mesma turma de um colégio chamado Paulo Dantas.
Houve alguns instantes de silêncio e então, ela disse:
— Ela é bem bonita. Cabelos castanhos claros, pele branquinha, ar de superioridade. Vocês formam um lindo casal.
Eu quase podia detectar um tom de inveja naquela fala, mas resolvi abstrair. Ingrid sabia tanto quanto eu que as provocações durante a madrugada iriam cobrar o seu preço e que nenhum de nós saberia como reagir quando essa hora chegasse. Apesar disso, os dois pareciam dispostos a pagar para ver.
— E ela aguenta todo esse seu… vigor?
Seus olhos se encaminharam para o meio das minhas pernas e eu fui obrigado a disfarçar uma ereção que logo estaria visível pelo tecido da bermuda que usava. Um chute mal dado fez com que a bola de capotão dos meninos rolasse até debaixo do banco em que estávamos sentados e eu me propus a mandá-la de volta com uma trivela. Os garotos ficaram impressionados com o efeito que eu tinha conseguido dar na trajetória da bola vagabunda e em seguida, agradeceram com um aceno. Eu tornei a me sentar, a olhei a meu lado e disse:
— Bem… ela nunca reclamou de nada.
Ingrid afastou os lábios levemente e ficou me encarando sem dizer nada. Um milhão de fantasias povoavam a minha mente naquele momento e eu podia jurar que a mesma coisa estava se passando por sua cabeça de menina travessa. Nós tínhamos nos dado muito bem desde o primeiro momento do nosso reencontro e havia uma aura de sedução quase palpável ao redor de nossos corpos. Aquele tipo de magnetismo era praticamente inexistente em relacionamentos iniciados há tão pouco tempo. Ela também sentia a nossa conexão e decidiu se expressar:
— Eu nunca me senti tão à vontade com nenhuma outra pessoa como eu tenho me sentido com você desde ontem, sabia, primo?
Eu não sabia o que dizer. Apoiei o braço no encosto de madeira do banco logo atrás de suas costas e a esperei continuar.
— É muito raro a gente se dar bem assim com alguém que mal conhecemos, mas parece que tem uma energia muito boa entre nós dois. Também está sentindo?
Fiz que sim com a cabeça.
— É assim que funciona também com a Glauce? Existe toda essa química entre vocês?
Eu estava frustrado em ouvir o nome da minha namorada bem no meio daquele discurso e então, fiz questão de ser direto:
— Você não quer mesmo falar da Glauce, quer?
Ingrid prontamente sacudiu a cabeça segurando um riso entre os lábios. Apenas um palmo nos separava no banco gradeado de madeira e ela reduziu a distância chegando o quadril para o lado e se comprimindo contra mim. Dava para sentir a pele macia de sua coxa tocando a minha perna e o ar quente que saía da sua boca em meu rosto.
— Vamos para outro lugar? Tô a fim de fazer uma loucura.
Eu sabia bem o que rolaria em seguida e a minha mente trabalhou rápido na escolha do local para onde eu me encaminharia dali com a minha prima de Minas Gerais. Tinha acontecido muito rápido, mas de repente, estávamos os dois ansiosos demais para esperar que o momento oportuno surgisse.
