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9 - Belinda

Quando consegui me livrar do abraço de Kadu, procurei à superfície buscando ar para os meus pulmões. O lugar estava parecendo o Piscinão de Ramos, abarrotado de pessoas brincando de jogar água um nos outros como se eles tivessem cinco anos e tivessem na primeira aula de natação.

Tentei sair, mas foi praticamente impossível. Eu estava zangada, na verdade, mais do que isso, eu queria matar o Kadu, fazê-lo beber toda a água da piscina. Fiz isso mentalmente, pensando nas maneiras mais cruéis de torturá-lo.

Nem mesmo consegui chegar à borda da piscina quando senti alguém me puxando de volta para onde estava a muvuca.

– Aonde pensa que vai com tanta pressa Belinda?

– Kadu, se você tem amor pela sua vida é melhor soltar o meu braço.

– Uau! Que menina zangada. – ele riu – Pensei que um pouco de água fria esfriaria a sua temperatura.

– Você é um grande idiota.

– Já percebeu que você adora me chamar assim? Acho melhor trocar de apelido, estou começando a gostar disso.

Eu queria socar a cara de Kadu e fazer sumir o sorriso debochado que ele estava segurando.

– Sabe Kadu, às vezes duvido da sua mentalidade.

– Sério? – ele ergueu uma das sobrancelhas.

– Quantos anos você tem? Não pensa que já passou da idade de criança há muito tempo?

– Qual é Belinda, está zangada só por que te joguei na piscina? Foi pelo seu cabelo? Se foi esse o caso, tem secador na minha suíte.

– Estou pouco me lixando para os meus cabelos, Kadu... Eu... Esquece ok? Foi uma péssima ideia ter vindo... Eu ainda não sei por que perco meu precioso tempo vindo a festas idiotas como essa.

– E mais uma vez você está usando a palavra idiota. Seu vocabulário não é muito extenso. Para quem se julga jornalista, você tem pouco conhecimento dos sinônimos.

– Seu grande imbecil, cala essa maldita boca antes que eu te afogue nessa piscina imunda.

– Estou louco para saber como você fará isso. – disse rindo abertamente.

O sangue subiu pela cabeça, e quando me dei conta, eu estava tentando afogar Kadu, mas sem grande sucesso, já que ele parecia ter o dobro da minha força.

Ele se livrou das minhas mãos e me segurou pelos meus ombros e me forçando a encará-lo.

– Já chega Belinda, cansei dessa brincadeira. Onde está a criança que existe em você? Essa festa é para se divertir.

– A minha criança já está dormindo há muito tempo, assim como a adulta aqui deveria estar fazendo o mesmo. – falei me soltando e indo novamente para a borda da piscina.

– Belinda...

Já desistira de tentar sair quando vi uma mão erguida na minha frente. Olhei para cima e vi Marcelo.

– Quer uma ajuda aí para sair? – perguntou sorrindo.

– Quero sim, obrigado. Esse lugar está lotado de idiotas. – falei quando ele me puxou para cima.

– Espero estar fora dessa lista.

– Que lista?

– Essa que você acabou de mencionar.

– Ah... É claro. Vou te poupar por que me ajudou a sair.

– Parece que você não ficou muito feliz com a brincadeira do seu amigo.

– Kadu é um idio... – e eu já ia repetir a palavra idiota de novo. – Ele é um imbecil. Às vezes penso que Kadu tem dez anos ao invés de vinte e um.

– Falando de mim para caras estranhos meu bem? – ouvi a voz de Kadu logo atrás de mim.

– Primeiro, eu não sou seu bem... Segundo, Marcelo foi o único que me livrou de me afogar... – falei me virando para ele.

– Nossa, conversou com ele menos de dez minutos e já sabe o nome dele? Estou impressionado?

– Encontrei alguém que não age como um...

– Idiota. Eu sei... – ele me olhou sorrindo e depois encarou Marcelo. – Agora que você já salvou a dama em perigo, por que não volta para o bar? Aposto que tem muitos drinks para preparar até o final da festa.

Os dois se encararam por longos segundos, até Marcelo quebrar o contato e me olhar oferecendo aquele sorriso que conseguiria alcançar estrelas.

– Foi um prazer salvar a dama em perigo, mas agora preciso voltar para o meu trabalho. Aconselho colocar algo por cima do vestido.

– O que tem meu vestido?

Só então olhei para o que eu estava vestindo e vi que ele estava totalmente transparente, com exceção da parte do decote, o resto estava livre como se eu estivesse vestindo uma camisola hospitalar.

Joguei meus braços na frente do meu corpo, como se isso fosse o bastante para me proteger dos olhares que eu começava a ver virando em minha direção.

– Tentei te avisar, mas o herói a tirou da piscina antes que eu me aproximasse. – falou colocando um casaco sobre meus ombros.

Dei um tapa em suas mãos, recusando a sua ajuda.

– Para começo de conversa, a culpa é toda sua por ter me jogado na piscina. E tira suas mãos de cima de mim, não quero a porcaria do seu casaco.

– Ok, você é quem sabe, mas devo salientar que essa calcinha que está usando não está escondendo muita coisa. E temo não ser o único com esse pensamento.

Olhei ao redor, e todos que estavam na piscina, estavam agora me olhando. Senti meu rosto queimar como brasa. Eu queria que um buraco se abrisse e me engolisse.

– Tem certeza de que não quer aceitar minha oferta? – perguntou Kadu estendendo a mão com o casaco novamente.

Eu não queria ceder, mas não tinha opção. Ou pegava o maldito casado, ou pagava calcinha para todos os presentes na festa. Vencida pela vergonha, tomei o casaco e vesti.

– Viu? Doeu aceitar minha ajuda?

– Isso não ficará assim. Terá volta Ka… – quando ia terminar a frase, soltei um espirro.

– Parece que temos alguém resfriada aqui. – ele brincou.

– A culpa é sua por ter me jogado na água fria.

– Qual é Belinda, por acaso você é feita de açúcar? Que garota cheia de dengo, deve ter sido por isso que levou um pé na bunda do meu irmão duas vezes.

– Cala a bo... – espirrei novamente.

– Acho melhor tirar esse vestido molhado e tomar um banho quente.

– Nossa, estou até emocionada com sua preocupação agora.

– Estou falando sério. Na minha suíte tem chuveiro com água quente.

– Você está louco para me levar para sua suíte, não é mesmo Kadu? Mas não vai rolar.

– Estou sendo cavalheiro.

– Você cavalheiro? – eu ri – Nem se a sua vida dependesse disso.

– Você me julga sem me conhecer Belinda.

– Eu te conheço muito bem Kadu. Eu não cairei na sua novamente.

– Cair na minha novamente? Se você está se referindo àquela fatídica noite, devo lembrar quem teve a iniciativa primeiro?

– Ei, o que está acontecendo aqui? Belinda, por que você está toda molhada? – Jessye apareceu no exato momento em que estava pensando em uma maneira de me livrar da pergunta de Kadu.

– Adivinha? Caí na piscina.

– O quê? Por que não me esperou?

– Não foi por vontade própria, eu fui jogada.

– Jogada por quem?

– Por esse...

Antes que eu terminasse a minha frase, Kadu tomou a dianteira da conversa.

– Eu a joguei.

– Por que você fez isso Kadu? – Jessye lançou o olhar para ele.

– Todos estavam fazendo isso.

– Eu não sou todo mundo. – falei me segurando para não pular no seu pescoço.

– Estou bem ciente agora. Também quis apagar um pouco o fogo que estava te dominando.

– Que fogo? Que domínio? Do que você está falando?

– Agora quem é que está bancando a criança? Estou falando do clima que estava rolando entre você e o barman.

– Você me jogou na piscina por que eu estava conversando com o Marcelo? – falei sem acreditar.

– Não parecia estar só conversando... – disse dando de ombro.

– Você é inacreditável – voltei a espirrar.

– Vai negar que se eu tivesse deixado vocês conversarem, agora estariam em algum lugar dando uns amassos?

– Você me conhece tão mau Kadu. Diferente de você, eu não fico com alguém que acabei de conhecer.

– É verdade, nisso tenho que concordar com você. O nosso lance só aconteceu por que você já me conhecia.

– Lance? Espera aí, do que vocês estão falando?

– Você não falou sobre nós dois para sua amiga Belinda? Estou impressionado.

– Cala a boca Kadu! – eu quase gritei.

– Belinda, quando isso aconteceu? E quando pretendia me contar?

– Jessye, você vai acreditar no Kadu? – tentei escapar da pergunta com outra pergunta.

– Por que eu inventaria uma coisa dessas? É incrível que quando se trata da sua vida, você consegue esconder os segredos.

Kadu estava querendo me deixar em uma saia justa. Maldito filho da mãe. Olhei para ele fuzilando com o meu olhar, enquanto Jessye me encarava sem conseguir entender o que estava acontecendo.

– Ainda estou aguardando uma resposta. Como você esqueceu de contar esse detalhe importante?

– Kadu, vou aceitar a sua oferta de um banho quente, agora fala para a Jessye que você está brincando e só fez isso para me irritar.

Kadu soltou um grande sorriso para Jessye e depois voltou a me olhar.

– Eu estava brincando Jessye. Belinda e eu juntos é uma coisa que você nunca verá. Ela não faz o meu tipo. – disse sem desviar o olhar.

Filho da mãe me deixa em uma saia justa e ainda sai contando vantagem. Eu queria quebrar o seu nariz, mas isso só faria com que ele voltasse com sua resposta.

– Fique você sabendo que também não faz o meu tipo Kadu. Prefiro a inteligência ao invés de músculos.

Kadu pareceu se divertir mais ainda com minha resposta.

– Ainda bem que sou burro o bastante para não querer alguém como você.

Ele estava testando minha paciência. Ele queria que eu estourasse, mas eu mostraria que posso jogar o mesmo jogo.

– Podemos ir para o seu quarto agora, ou vamos esperar eu pegar uma pneumonia primeira?

Ele riu e depois fez sinal para o interior da casa.

– Eu nunca permitiria que tal coisa acontecesse com você.

Ofereci um sorriso debochado enquanto segui para a casa. Jessye me seguiu, olhando-nos dois com aquele olhar de interrogação, querendo pegar algo no ar.

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