capítulo 4
A visita a Kensani no hospital sempre deixava Cookie com um nó na garganta. Ver a irmã pálida e frágil na cama a fazia sentir um misto de amor e desespero.
Naquele dia, em particular, Kensani exibia um pouco de vitalidade, um brilho suave nos olhos cansados, um sorriso fraco que iluminava seu rosto pálido. A razão para essa mudança era simples: sua melhor amiga, Laís, tinha decidido visitá-la.
Cookie, assim que entrou no quarto, viu o rosto lindo de Laís, sempre sorridente, irradiando uma energia contagiante. Laís abraçou Cookie com força, transmitindo carinho e apoio. "Cookie, como está?" perguntou, com a voz vibrante.
"Eu tenho que estar bem," Cookie respondeu, tentando mostrar firmeza, mas a voz tremia levemente, denunciando a fragilidade que sentia.
A visita de Laís foi bem-vinda, um bálsamo para as irmãs. Ela sempre foi uma pessoa energizada, capaz de trazer boas vibrações e consolar aqueles que precisavam. Sua presença era um lembrete de que, mesmo nos momentos mais sombrios, havia luz e esperança.
Laís sentou-se na beira da cama de Kensani, segurando sua mão. "Eu trouxe algumas revistas e uns jogos," disse, abrindo uma sacola colorida, revelando o conteúdo cuidadosamente escolhido. "E também preparei um lanche especial, com as suas frutas preferidas."
Kensani sorriu, com os olhos marejados. "Você é a melhor amiga do mundo, Laís," disse, com a voz embargada pela emoção.
Elas puderam finalmente encontrar um momento de alívio em meio ao caos que as envolvia. Por algumas horas, conseguiram se esquecer das preocupações que lhes afligiam e se permitiram sorrir e rir como antes.
Então Laís despediu-se de Kensani e Cookie foi acompanhá-la até a saída. Quando estavam fora do alcance dos ouvidos de Kensani, Laís parou e olhou nos olhos de Cookie.
"Sabia que existem clínicas que fazem transplantes clandestinos?"
Cookie arregalou os olhos, surpresa. "Clínicas clandestinas?" ela perguntou, incrédula. "Mas isso é ilegal, não é?"
Laís assentiu, com um olhar cauteloso. "Sim, é ilegal. Mas em casos extremos, algumas pessoas recorrem a elas. Eu ouvi falar de uma clínica que tem uma boa reputação, apesar de ser clandestina. Se você estiver realmente desesperada, posso te dar o contato."
Cookie hesitou, pesando os riscos e as recompensas. A ideia de recorrer a uma clínica clandestina a assustava, mas a possibilidade de salvar Kensani a impulsionava. "Por favor, me dê o contato," ela disse, com a voz trêmula.
"Meu tio recorreu à mesma e foi bem-sucedido," disse Laís, encorajando. "Eu entendo que é uma decisão difícil, mas às vezes precisamos fazer sacrifícios para salvar aqueles que amamos."
Cookie assentiu lentamente, ainda incerta, mas determinada. "Obrigada, Laís. Eu vou pensar nisso."
Laís sorriu, compreensiva. "Cuide-se, Cookie. E lembre-se, estou aqui para o que precisar."
As duas se despediram com um abraço, e Cookie ficou observando enquanto Laís se afastava. O peso da decisão pendia sobre seus ombros, mas a esperança de salvar Kensani deu-lhe uma nova força. Com o contato em mãos, Cookie sabia que, independentemente do que acontecesse, ela faria tudo ao seu alcance para proteger quem amava.
Cookie, com o coração acelerado, seguiu as indicações do papel até um prédio abandonado na periferia da cidade. A fachada decadente escondia um interior frio e esterilizado, onde o cheiro de desinfetante se misturava com um ar de mistério.
Ao entrar, Cookie encontrou um homem de aparência sombria, sentado atrás de uma mesa de metal. "Clínica de Transplantes Horizonte," ele disse, com uma voz fria e profissional. "Em que posso ajudar?"
Cookie engoliu em seco, tentando controlar o nervosismo. "Eu... eu gostaria de saber sobre transplantes de rim," ela disse, com a voz hesitante. "Minha irmã precisa de um."
O homem a observou com um olhar avaliador. "Nós podemos te ajudar," ele disse, após um breve silêncio. "Mas nossos serviços são confidenciais e exigem um pagamento adiantado."
Cookie sentiu um frio na espinha. "Quanto?" ela perguntou, com a voz trêmula.
"Cem mil," o homem respondeu, sem hesitar.
Cem mil. Um número exorbitante, uma quantia que Cookie jamais conseguiria juntar. Mas o homem continuou, oferecendo uma esperança sombria.
"Se você não tiver o dinheiro, podemos oferecer outras opções," ele disse, com um tom sinistro. "Opções que podem te ajudar a conseguir o que precisa."
Cookie sentiu um nó na garganta, mas a imagem de Kensani na cama do hospital a impulsionava. "Que tipo de opções?" ela perguntou, com a voz determinada.
O homem sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos, frio e calculista. "Excelente. Temos algumas opções para você. A primeira envolve um trabalho de entrega. Nada complicado, apenas transportar um pacote de um lugar para outro. O pagamento é bom, e você pode conseguir o dinheiro necessário em pouco tempo."
Cookie franziu a testa, desconfiada. "Que tipo de pacote?" ela perguntou, com a voz cautelosa.
"Não se preocupe com os detalhes," o homem respondeu, com um gesto de desdém. "Apenas faça o que for pedido, e o dinheiro será seu."
Cookie parou por um momento, só de lembrar que seu pai morreu por causa de tráfico de drogas e foi muito difícil de superar a dor, decidiu que não faria. "Eu não farei. Acharei outra maneira de vir aqui para pagar pelo rim." Respondeu Cookie convencida.
O homem gargalhou, um som seco e amargo. "Boa sorte, garota. Você vai precisar,"
[...]
Cookie voltou para casa, exausta e desanimada. A busca pelos 100 mil parecia uma missão impossível, e cada tentativa falhada só aumentava seu desespero. Sentou-se no sofá, olhando fixamente para as paredes, tentando encontrar uma solução. Foi então que lembrou da conversa desagradável que tivera com Carlos. Ele era a última pessoa a quem gostaria de pedir ajuda, mas as circunstâncias não lhe deixavam outra escolha.
Determinada a enfrentar a situação, Cookie começou a se preparar. Vestiu roupas largas, na esperança de esconder suas belas curvas e evitar qualquer atenção indesejada. Precisava focar no objetivo, e a última coisa que queria era lidar com comentários inconvenientes de Carlos.
Ao sair de casa, respirou fundo, tentando acalmar os nervos. Cada passo parecia pesar mais que o anterior, mas ela sabia que não podia desistir agora. O encontro com Carlos seria difícil, mas era a única chance que tinha de conseguir o dinheiro.
Ao chegar à porta de Carlos, hesitou por um momento, respirando fundo antes de bater.
Carlos abriu a porta com um sorriso cínico no rosto. "Cookie, que surpresa," disse ele, com uma voz que fazia seu estômago revirar. "O que te traz aqui?"
Ela manteve a compostura, embora a vontade de fugir fosse enorme. "Preciso de sua ajuda, Carlos," respondeu, tentando manter a voz firme.
"Eu não contava que pudesses vir, achei que fosse orgulhosa demais, acho que me enganei". Disse carlos.
"Se eu tivesse outra saida não estaria aqui". Disse cookie se humilhando.
"Me siga apenas". Ordenou Carlos.
A escuridão da noite engolia a cidade, e Cookie, com o coração acelerado, seguiu Carlos até um armazém abandonado na periferia. Lá dentro, um grupo de homens jogava cartas, e o ar estava carregado de fumaça e tensão.
Carlos a apresentou a um homem alto e magro, com um olhar frio e calculista. "Boss, eu gostava de lhe apresentar a Cookie, para aquele trabalho que falamos da outra vez." Declarou Carlos.
O homem olhou para Cookie de cima a baixo, demorando-se em apreciar a mulher em todos os ângulos. Seus olhos percorreram cada detalhe, desde as roupas largas que ela usava até a expressão determinada em seu rosto. Ele esboçou um sorriso ligeiramente cínico, quase divertido, mas seus olhos mantinham-se frios e avaliadores.
"Por que quer trabalhar conosco?" indagou Marco Aurélio, recostando-se na cadeira. Sua postura indicava que estava acostumado a entrevistas como aquela, mas a intensidade em seu olhar mostrava que ele não se deixava enganar facilmente.
"Eu preciso de cem mil para o transplante da minha irmã," Cookie respondeu sem hesitar, sua voz firme e resoluta. Seus olhos permaneciam fixos nele, transmitindo uma mistura de determinação e coragem. Não havia medo ou dúvida em sua expressão; ela estava ali para lutar pelo que acreditava.
Marco Aurélio levantou uma sobrancelha, interessado. "E está disposta a fazer o que for preciso para conseguir esse dinheiro?" A pergunta foi feita num tom calculado, desafiador.
Cookie inclinou-se ligeiramente para frente, não permitindo que ele tivesse qualquer vantagem sobre ela. "Sim, estou disposta a trabalhar duro e a provar meu valor. Não estou aqui para favores, estou aqui para uma oportunidade."
O silêncio que se seguiu foi tenso, mas Cookie manteve seu olhar firme. Marco Aurélio observou-a por mais alguns segundos antes de sorrir novamente, desta vez com um toque de respeito.
"Você precisa de dinheiro, e nós precisamos de pessoas com habilidades." Disse ele e fez uma pausa."Cem mil é uma quantia insignificante," disse marco Aurélio respondeu, com um sorriso cruel. "Mas você terá que provar que é digna desse dinheiro. Nosso negócio é simples: atraímos homens ricos, seduzimos eles, os drogamos e roubamos tudo o que têm."
Cookie arregalou os olhos, surpresa e horrorizada. "Eu não sei se posso fazer isso," ela disse, com a voz trêmula.
"Você não tem escolha," ele respondeu, com um tom frio e ameaçador. "A vida da sua irmã depende disso. E para provar que você é capaz, vamos começar com um teste." Marco Aurélio, não tinha tempo a perder, a levou para uma boate decadente, frequentada por homens comuns, longe do luxo e da riqueza que ele buscava.
"Aqui, você vai testar suas habilidades," ele disse, com um sorriso cruel. "Atraia um desses homens, faça-o beber a bebida adulterada e traga-o para um quarto privado."
Cookie entendeu o esquema, e com suas roupas largas dificilmente atrairia alguém, então fez um nó na bulsa de tal maneira que seu umbigo ficasse a vista, e o desenho perfeito da sua cintura delgada. Soltou seus cabelos cacheados.
Cookie, com o coração pulsando forte, observou os homens na boate. Eles não eram ricos, não eram influentes, mas eram presas fáceis. Ela se aproximou de um homem solitário, com um sorriso sedutor. "Olá," ela disse, com a voz suave. "Você está sozinho?"
O homem sorriu, surpreso e lisonjeado. "Estou agora," ele respondeu, com um olhar faminto.
Cookie o guiou até o bar, pedindo duas bebidas. Enquanto o homem se distraía com o garçom, ela discretamente adicionou a droga à bebida dele. Em pouco tempo, o homem começou a se sentir tonto e desorientado.
"Eu acho que preciso de um pouco de ar fresco," Cookie disse, com um sorriso sedutor. "Vamos para um lugar mais tranquilo."
Ela o levou para um quarto privado nos fundos da boate, onde Dante e seus homens esperavam. O homem, completamente drogado, caiu na cama, inconsciente.
Então mandou uma mensagem para Marco Aurélio, a dizer que o trabalho estava feito, então ele foi ao quarto na companhia de seus homens
"Bom trabalho, efectuado em um bom tempo," disse Marco Aurélio, com um sorriso cruel que fazia seus olhos brilharem de satisfação. "Você provou que é capaz. Está contratada, garota." Sua voz era fria, quase indiferente, como se contratar pessoas para trabalhos duvidosos fosse uma rotina para ele.
Sem perder tempo, ele estendeu a mão e entregou algumas notas para Cookie. Ela arregalou os olhos, surpresa com o valor. Nunca esperou receber uma quantia tão alta, especialmente porque era equivalente ao que fazia em dois meses vendendo comida. As notas pareciam pesar em sua mão, cada uma um lembrete da linha que havia cruzado.
Ela apenas abanou a cabeça, perdida em seus próprios pensamentos. Não sabia se deveria agradecer ou lamentar o que havia acabado de fazer. A consciência pesava-lhe, tornando difícil encontrar palavras. Nunca imaginou que um dia chegaria a roubar, mas ali estava ela, com o dinheiro sujo entre os dedos e uma sensação de vazio no peito.
Cookie saiu do prédio, respirando fundo o ar da noite. Cada passo parecia mais difícil que o anterior, a culpa arrastando-se por sua mente como uma sombra persistente. Precisava do dinheiro para salvar sua irmã, mas a que custo? A pergunta ecoava em sua cabeça enquanto se afastava, tentando encontrar alguma forma de justificar suas ações.
Entretanto, retornou a sua casa, a noite estava fria e silenciosa . A luz fraca da rua mal iluminava o interior, e a atmosfera pesada parecia sufocá-la. Entrou em casa Ela se jogou no sofá, exausta e atormentada pela culpa.
As imagens da boate, do homem drogado e dos olhares cruéis de Marco Aurélio e seus homens assombravam sua mente. Ela havia cruzado uma linha, entrado em um mundo de crimes e violência que a repugnava.
A promessa feita a Kensani ecoava em sua mente, um lembrete doloroso de sua missão. Mas a cada passo que dava, ela se afastava mais da pessoa que queria ser.
Lágrimas quentes escorreram por seu rosto, manchando o tecido do sofá. Ela se sentia suja, corrompida, como se tivesse perdido sua alma.
"O que eu estou fazendo?" ela sussurrou para si mesma, a voz embargada pela emoção. "Eu não sou uma criminosa. Eu só quero salvar minha irmã."
Mas a realidade era cruel.
Ela precisava do dinheiro, e Marco Aurélio era sua única esperança. Ela estava presa em um dilema, dividida entre o amor pela irmã e a repulsa pelo crime.
A noite parecia interminável, e Cookie se revirava no sofá, incapaz de encontrar paz. A culpa a consumia, corroendo sua consciência. Ela se sentia perdida, sem saber para onde ir ou o que fazer.