capítulo 1
"Senhor Governador, o que podemos esperar de Grandes Lagos nesse novo mandato?" A voz da jornalista, afiada como uma lâmina, cortou o murmúrio da multidão, um mar de rostos curiosos e câmeras cintilantes. O protocolo, um grupo de homens de terno impecável, tentava em vão conter o avanço da imprensa, mas Kevin, sentindo a determinação da mulher, acenou com a cabeça, permitindo a pergunta.
"Obrigado pela pergunta," começou ele, a voz ressoando clara e confiante.
"Prometo resolver o problema do corredor de Antilhas," declarou Kevin, sua voz ressoando com confiança, cada palavra um golpe calculado.
"Conseguimos reduzir o índice de criminalidade no passado, agora vamos reforçar e acabar com a rota dos cartéis de droga." Suas palavras, transmitidas ao vivo para todas as televisões, ecoaram por todo o país, um desafio aberto aos poderosos que se escondiam nas sombras.
No gabinete do Primeiro-Ministro, a declaração de Kevin reverberou como um trovão. Seus olhos, gélidos como o aço, fixaram-se na tela da televisão, e um sorriso tenso curvou seus lábios.
Aquela promessa ousada era uma declaração de guerra, uma ameaça direta aos seus negócios obscuros.
"Prestel, venha agora à minha sala," ordenou o Primeiro-Ministro, a voz carregada de fúria contida. Segurou o auscultador do telefone com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, antes de arremessá-lo contra a mesa de mogno. O objeto ricocheteou com um som seco, ecoando pela sala luxuosamente decorada, um santuário de poder e segredos.
Prestel, seu assessor, adentrou o gabinete com um semblante preocupado. A vistoria minuciosa que antecedia a entrada no escritório do Primeiro-Ministro era uma rotina, um lembrete constante do perigo que os cercava. Ele sabia que algo perturbava profundamente seu chefe, e como seu conselheiro, precisava estar pronto para apagar qualquer incêndio.
Ao entrar, Prestel encontrou o Primeiro-Ministro sentado à sua mesa, os olhos fixos em um ponto indefinido à sua frente, as sobrancelhas franzidas em uma expressão de tensão. Sem hesitar, ele se aproximou e entregou uma pasta de documentos, esperando que aquela interrupção suavizasse, de alguma forma, o clima pesado que pairava no ambiente.
"Prestel, espero que tenha uma ideia de como acabar com aquele intrometido," disse o Primeiro-Ministro, afrouxando a gravata de seda com um gesto impaciente. Seus olhos, como duas pedras de gelo, fixaram-se em Prestel, exigindo uma resposta.
"Bom... obtive a informação de que a secretária dele vai se reformar," declarou Prestel, a voz trêmula, escolhendo cuidadosamente cada palavra. "Essa pode ser a oportunidade para colocarmos alguém de nossa confiança."
O Primeiro-Ministro levantou-se, andando de um lado para o outro, sua irritação evidente em cada passo pesado. "Não é a primeira vez que fazemos algo do gênero. Daquela vez foi uma babá, depois o guarda-costas. O que te faz pensar que agora será diferente?" Sua voz, carregada de sarcasmo, ecoou pela sala.
"Desta vez farei uma boa escolha. Eu garanto, farei questão de selecionar a pessoa com o máximo cuidado," disse Prestel, tentando reunir toda a confiança que lhe restava.
"Eu quero ver esse elefante branco, quero ter a oportunidade de conhecê-lo após você selecionar. Corra, quero uma resposta o mais rápido possível, Prestel," declarou o Primeiro-Ministro, sua voz firme como aço.
Prestel fez uma reverência, um "Sim, sua excelência," escapando de seus lábios antes de sair da sala, sua mente já trabalhando em um plano.
Ao sair do gabinete, Prestel viu-se refletindo sobre a melhor forma de proteger seu chefe e garantir que os interesses do gabinete do Primeiro-Ministro fossem preservados. Ele precisava pensar em estratégias inovadoras, traçar alianças imprevistas e, sobretudo, estar um passo à frente de qualquer ameaça que pudesse surgir.
Prestel também acompanhou minuciosamente as declarações do governador e estava ciente de que esta nova era que se iniciava poderia ser a mais trabalhosa e provavelmente sangrenta. Ele sabia que o caminho à frente seria tortuoso, cheio de desafios inesperados e confrontos iminentes.
[...]
Kevin entrou em seu gabinete, seguido de perto por Derek, seu conselheiro, cuja ansiedade era palpável. A brisa fria da manhã entrava pela janela aberta, trazendo consigo o som distante da cidade despertando.Kevin caminhou até a janela, deixando a brisa fria acariciar seu rosto enquanto seus olhos percorriam a cidade lá fora. Ele podia ver o movimento nas ruas, o despertar da vida urbana, e sentiu uma mistura de determinação e tensão crescer dentro de si.Ele sabia que aquele dia seria crucial.
"Acho que o discurso poderia ter sido mais cauteloso, sem revelar seus planos. Prevenção nunca é demais," ponderou Derek, a voz carregada de preocupação.
"Eu sei o que estou fazendo. Não temo o Primeiro-Ministro nem seu assessor. Principalmente agora, com a confirmação de que eles estão por trás de tudo. Vamos expô-los," respondeu Kevin, com firmeza, seus olhos azuis refletindo determinação.
"Não duvido de sua estratégia, mas lembre-se, o poder do Primeiro-Ministro é vasto. Nosso alcance termina na fronteira de Antilhas. E a iminente reforma da Sra.
Gertrudes só complica as coisas," alertou Derek, referindo-se à necessidade urgente de uma nova secretária.
"Ainda não me acostumei com a ideia de contratar outra secretária. Eles farão de tudo para infiltrar um espião aqui dentro," disse Kevin, passando a mão pelos cabelos castanhos, a frustração evidente em seu gesto.
A senhora Gertrudes acompanhou o início da sua carreira, e parte do seu sucesso deve-se ao bom empenho e sabedoria daquela mulher. Ele estava consciente de que jamais encontraria alguém como Gertrudes. A mulher, com sua paciência infinita e seus conselhos precisos, era uma mentora e amiga, guiando-o nos momentos mais difíceis e celebrando suas vitórias com um sorriso sereno.
Gertrudes possuía uma aura de sabedoria acumulada ao longo dos anos, uma compreensão profunda da vida que lhe permitia enxergar além das aparências. Seus olhos, marcados pelo tempo, brilhavam com uma vitalidade que desafiava sua idade. Cada palavra que proferia era carregada de significado e ensinamento.
Ele lembrava-se das noites em que ambos ficavam até tarde conversando sobre estratégias e planos, com Gertrudes compartilhando suas histórias de vida e oferecendo conselhos valiosos. "Lembre-se sempre de ser íntegro," ela dizia. "O sucesso sem integridade é vazio."
Com o tempo, ele percebeu o quanto aquela mulher tinha moldado sua carreira e sua visão de mundo. Era grato por cada ensinamento, por cada momento compartilhado. No entanto, ao ver os sinais de envelhecimento em Gertrudes, um sentimento de melancolia o acometia. Ele sabia que o tempo era implacável e que, um dia, teria que se despedir daquela figura tão querida.
Foi naquele momento, enquanto refletia sobre a importância de Gertrudes em sua vida, que ele desejou encontrar uma fonte de rejuvenescimento. Não para si mesmo, mas para ela. Queria que Gertrudes pudesse continuar ao seu lado, compartilhando sua sabedoria e seu apoio inabalável. A ideia de perdê-la era insuportável.
"Deixe o processo de seleção conosco. Maxon e eu cuidaremos disso," assegurou Derek, com convicção, tirando kevin de seus devaneios.
"Espero que sim. Agora, preciso analisar o plano econômico. Quero instalar uma barreira de segurança, como vi em alguns estados americanos.Quero ver como o Primeiro-Ministro fará para escoar suas mercadorias," disse Kevin, com um sorriso calculado, antecipando a reação de seus adversários.
"Tem outra coisa que também precisa de sua atenção. Sei que não vai gostar disso, mas deve começar a pensar numa data para o seu casamento," disse Derek, com um olhar preocupado.
"AAH. Era só o que faltava. Esse noivado não foi suficiente?!" exclamou Kevin, frustrado, jogando-se na cadeira de couro do seu escritório.
"Sua Excelência, Governador de Grandes Lagos, a sociedade espera vê-lo como um exemplo a seguir. Um noivado de dois anos é, no mínimo, duvidoso," disse Derek, com sinceridade.
Kevin suspirou profundamente. "Eu prometo que vou pensar nesse assunto. Quem sabe no final do ano, vemos uma cerimônia de casamento básica," respondeu Kevin, sem nenhuma empolgação. Embora sua noiva fosse de boa família e uma mulher muito dedicada, a sombra de sua falecida esposa ainda pairava sobre ele.
Clemência foi o amor de sua vida. Quando ela fora diagnosticada com câncer, foi como se as portas do inferno tivessem sido abertas. A notícia abalou seu mundo, fazendo-o enfrentar uma realidade que jamais havia imaginado. A sua perda até hoje ainda lhe pesava, como uma cicatriz invisível, mas profunda, no coração.
Mas ele tinha que ser forte. Clemência deixou-lhe duas meninas que eram o espelho da mãe. Cada sorriso, cada gesto, lembrava-lhe de Clemência e do amor que eles compartilhavam. Suas filhas eram um constante lembrete da felicidade que um dia viveram juntos, e ele sabia que precisava ser a âncora que elas tanto necessitavam.
Aos poucos, a dor foi dando lugar a uma nova determinação. Ele dedicou-se ao trabalho com mais fervor, buscando realizar os ideais que tanto valorizava e que Clemência sempre apoiara. Suas filhas tornaram-se sua força motriz, a razão pela qual ele continuava a levantar-se todas as manhãs e enfrentar os desafios da vida política.
Seguiu os conselhos da senhora Gertrudes na altura, que como um político em ascensão precisava mostrar estabilidade encontrando uma mulher de valores.
Derek assentiu, compreensivo. "Eu sei que não é um passo fácil. Mas, pelo menos, as meninas já a aceitam," completou, tentando trazer um pouco de otimismo para a conversa.
"Eu vou pensar nisso com mais cautela," disse Kevin, esfregando o rosto cansado com as mãos. "Agora, por favor, cuide do assunto da nova secretária com total discrição. Não podemos ter espiões entre nós."
"Pode deixar, Excelência," respondeu Derek, firme. "Maxon e eu vamos garantir que o processo de seleção seja impecável e livre de qualquer infiltração."
Kevin assentiu, sentindo-se um pouco mais aliviado. "Assim espero. Temos muito em jogo," murmurou, olhando pela janela para a cidade que tanto amava.
Seu sonho era entregar a Cidade de Grandes Lagos, ao fim do mandato, totalmente diferente: uma cidade mais segura e com o índice de desemprego mais baixo do país. Ele trabalhava incansavelmente para transformar essa visão em realidade, guiado por um profundo senso de dever e compromisso com os cidadãos.
Cada projeto que implementava era cuidadosamente planejado e executado. Desde a criação de programas de capacitação profissional até o fortalecimento das forças de segurança, cada passo visava construir um futuro melhor para a Cidade de Grandes Lagos. Ele sabia que a confiança dos moradores dependia de suas ações e, por isso, dedicava-se com afinco a cada iniciativa.
Não era por acaso que o presidente da República renovou-lhe o mandato. Sua boa reputação e popularidade cresceram graças aos feitos significativos que agregaram valor à cidade nos últimos anos. Sob sua liderança, escolas foram reformadas, parques revitalizados e novas empresas atraídas para a região, gerando empregos e oportunidades para todos.
[...]
Cookie fritava os bolinhos que garantiam seu sustento, e o de sua irmã. Juntas, formavam uma dupla imbatível, vendendo doces e refeições em seu carro adaptado. O cheiro doce dos bolinhos se misturava com o aroma do café fresco, atraindo clientes famintos.
Naquela manhã em particular, Kensani ajudava Cookie a terminar de fritar os bolinhos, o cansaço visível em seus olhos. A noite anterior havia sido longa, devido à alta demanda de refeições no domingo.
Embora o cansaço acumulado fosse evidente em seus rostos, as irmãs estavam radiantes de felicidade. Tinham sido bem-sucedidas em sua última empreitada, e isso enchia seus corações de alegria. O sonho das irmãs sempre fora abrir um restaurante, um lugar onde pudessem compartilhar sua paixão pela culinária com o mundo.
Já tinham até identificado um local perfeito em Vulcano, uma pequena cidade conhecida por sua beleza e tranquilidade. O lugar que escolheram era encantador, com uma vista deslumbrante para o mar e um jardim acolhedor onde poderiam cultivar ervas frescas e flores que decorariam as mesas.
"Tenho certeza de que essa quantidade será suficiente," disse Cookie, virando os bolinhos dourados na frigideira.
"Ok, estou terminando aqui...", respondeu Kensani, com a voz fraca, antes de tombar no chão.
Cookie, assustada, largou a espátula, que caiu com um estrondo metálico, e correu para socorrer a irmã. Kensani estava pálida e inconsciente, seus lábios azulados. O medo invadiu Cookie, que gritou por ajuda, enquanto tentava desesperadamente acordar a irmã.