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A Babá Perfeita

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Rebecca Santiago
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Resumo

Tem alguma coisa acontecendo na mansão Lancaster. O dono é um sexy e enigmático viúvo, que ignora a existência das filhas desde a morte da sua falecida esposa. Sua filha mais nova, doce e amorosa, não fala uma única palavra desde que sofreu um misterioso acidente de carro. A mais velha? Com certeza, sabe mais do que está contando. Já a governanta gentil e dedicada foi capaz de proteger um enorme segredo por anos. E existe uma babá... Determinada a descobrir o que está por trás de tudo isso.

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Um Erro Imperdoável

- Como assim, meu carro? Eu não posso deixar meu carro aqui, cara. Você ficou maluco?

O cara enorme e tatuado à minha esquerda chama-se Dixie. Sei disso porque é o que está escrito em seu peito de um lado a outro, acessível pelo decote da camiseta preta. Seus dedos estão cobertos por anéis e o pescoço exibe um largo cordão de ouro, brilhante do tipo que não dá para passar despercebido.

Eu teria medo de um cara como esse de qualquer jeito. Porém, na situação em que eu me encontro agora, parece mais apropriado dizer que estou me borrando.

Estou em uma roda de pôquer. Do tipo onde se aposta por dinheiro. E, acreditem em mim quando eu digo, que quando eu aposto é para valer. O que significa que quando perco, bom, vocês mesmos podem fazer a correlação. 

A sala tem tamanho médio. O chão é revestido em madeira, as paredes feitas de pedra e tudo ali, absolutamente tudo, cheira a mofo. A única mesa é redonda e desgastada, e fica no canto mais afastado da porta. Assim evita-se que os jogadores  possam querer dar uma ida ao banheiro em um momento crucial do jogo.

Olho para minha melhor amiga suplicando sua ajuda. Mallory está no seu melhor estilo vagabunda, usando um microvestido vermelho tão colado ao seu corpo que, de qualquer forma que ela sente, torna-se possível ver sua calcinha. Os olhos estão vermelhos e injetados, denunciando que acabou de usar alguma substância ilícita no quartinho dos fundos da sala de jogos.

Respiro fundo. Eu deveria saber que não posso contar com Mallory. Lembro das palavras da minha mãe, umas das suas últimas antes de morrer. Numa circunstância que parece impossível, a única pessoa com quem você pode contar é você mesma.

Quando chegamos a boate, não sabíamos exatamente o que iríamos encontrar. James, o primo de Mallory, indicou nossos nomes para a rodada de pôquer que corre toda noite de sexta na parte de trás da casa, onde só entra quem tem o nome na lista. Achei que fôssemos nos deparar com um bando de filhinhos de papai bêbados e sem experiência. Achei que venceríamos fácil fácil. Bom, o que posso dizer? Eu estava enganada. 

Todos os homens na sala são maduros, na faixa dos cinquenta anos e jogam profissionalmente. Estão muito bem vestidos, a maioria fumando charutos cubanos e bebendo uísque ou gim tanqueray. Poderiam passar muito bem por homens de negócios. 

Exceto um. O grandalhão ao meu lado para o qual acabo de perder dez mil dólares.

- Chloe - Mallory murmura, com a voz pastosa, e eu tenho vontade de quebrar sua cara de merda. - Entrega o carro para ele.

O sangue circula pelas minhas veias, fervilhando. É claro. Por que eu achei que teria algum apoio aqui? Mallory está morrendo de medo, tanto quanto eu. A única coisa que nos diferencia é que eu tenho alguma coisa a perder e ela só quer ir embora para casa logo.

- Meu pai acabou de me dar esse carro- eu grunho, arrependida da maldita hora em que coloquei os pés ali dentro.

Dixie me encara sob longas pestanas escuras. Seu olhar diz alto e claro que ele não dá a mínima.

- Me dá um prazo - eu peço, a voz rouca quando as palavras saem desesperadas, arranhando minha garganta. - Eu posso conseguir esse dinheiro em um mês- arrisco, vendo ele me olhar com irritação crescente. - Uma semana? Pelo amor de Deus!

Dixie me encara longamente. Então balança a cabeça em uma negativa que faz o meu estômago se contrair. Minha cabeça gira, eu me sinto mais do que levemente tonta. Estou sufocada. O ar se esvai dos meus pulmões, enquanto o chão desaparece debaixo dos meus pés.

Que porra. Que porra. Que... porra.

Minha mente tenta fazer hora extra para extrair alguma ideia brilhante dos seus recônditos mais profundos, mas aparentemente esvaziei todo o meu estoque de grandes ideias nas minhas merdas anteriores e tudo o que consigo pensar sai da minha boca, no instante seguinte, em um jorro de palavras aflitas.

- Pede outra coisa. Qualquer coisa, por favor. Eu sou capaz de fazer o que você quiser, qualquer coisa!

Dixie me olha, uma ruga surgindo exatamente no meio da sua testa morena. Então suspira, dando uma longa tragada no  cigarro. Ele coça o queixo coberto por um cavanhaque bem desenhado e baixa os olhos devagar para o decote da minha camiseta preta, que nem é assim tão profundo.

Perto de Mallory, eu sou a própria encarnação da Virgem Maria.

Meu estômago se contrai de desgosto. Eu faço uma careta.

- Certo. Qualquer coisa que esteja dentro da lei.

Ele ergue as sobrancelhas, com um sorriso perverso.

- Fala sério, princesa. Sei que você é maior de idade, ou então não estaria aqui hoje.

Ele tem razão. Sou mesmo maior de idade. Mas a julgar pelas minhas escolhas recentes, algumas crianças na pré escola poderiam se gabar de um nível de maturidade mais avançado.

- Muito bem - eu digo, respirando fundo. Penso no meu pai e em toda a infelicidade que estou prestes a causar a ele.  - Essa é minha única outra opção, não é?

Dixie abre um sorriso asqueroso, enquanto equilibra o cigarro no canto da boca.

Eu sempre tive nojo de cigarros. Mas, acima de tudo, tenho nojo de vermes como ele.

- Vamos dizer que você é uma garota de sorte. Eu não costumo misturar negócios e prazer, mas estou disposto a abrir uma excessão se você for boazinha e pedir com jeitinho  - debocha, estendendo a mão na minha direção e tocando meu rosto com seus dedos que fedem a nicotina, os olhos brilhantes e astutos. - E aí, como vai ser? Vamos ali para trás, o que você acha? Então você vai poder se ajoelhar e implorar a vontade com o meu pau dentro da sua boca.

Olho ao redor, para todos os homens sentados em volta da grande mesa redonda de madeira. Estranhamente, Mallory e eu somos as únicas mulheres presentes. Tanto na mesa quanto na sala repleta de fumaça e cartas de baralho.

Peço ajuda com os olhos, mas a ajuda não vem. Eles fingem estar alheios ao que está acontecendo, mas a verdade é que não se importam.

Que ótimo. Não se fazem mais cavalheiros como antigamente.

Dixie continua me encarando, a espera de uma resposta. A cicatriz sob o seu olho esquerdo parece o lembrete de alguma briga antiga. Talvez uma envolvendo facas. Ou, quem sabe, seja só a minha imaginação.

O fato é que ele ficaria surpreso se eu dissesse que, embora tenha feito vinte e um anos recentemente, frequento lugares como este faz muito  tempo. Mas o que faria ele cair para trás, provavelmente, seria descobrir que, apesar de não ser exatamente um exemplo de pureza, eu ainda sou virgem.

Não estou procurando o amor verdadeiro, nem esperando pelo príncipe encantado. Não é nada disso. As pessoas têm uma expectativa errada quando ouvem o termo virgem. Não sou exatamente alguém que sonha em se casar de véu ou grinalda, tampouco uma celibatária. O certo é que ainda não rolou. Além disso, sexo nunca foi uma obsessão na minha vida. Acho que quando acontecer precisa ser natural, e não algo forçado só para eu me sentir aceita.

- Eu prometo que vai ser rapidinho - Dixie sussurra, inclinando a cabeça para o lado com um ar ameaçador. - É só você cooperar, gatinha.

Um arrepio sobe pela minha espinha só de pensar na proposta asquerosa. Onde eu fui me enfiar? Quando Mallory disse que aquela era uma das dicas quentes do James, eu deveria ter corrido. Mas o gosto pelas apostas e a sede de adrenalina tinham me atraído para o perigo outra  vez. E eu não posso culpar só a Mallory por tudo. Ela é uma doida, mas eu também não tenho juízo.

Olho para ela, do meu lado direito, com sua bolsinha atravessada no ombro tão apertada contra o corpo que a qualquer momento vão se fundir em uma única coisa.

- Mallory? - sussurro, odiando o medo na minha voz.

Ela se inclina para mim e eu sinto o álcool exalar enquanto fala.

- Vamos pensar, amiga. Você está devendo alguns milhares de dólares para ele. Quais são suas opções?

Eu suspiro, com raiva demais para responder a pergunta.

Penso no meu carrinho novo, um Honda zero que o meu pai não chegou nem na metade das prestações, apesar de estar pagando há quase um ano. E o meu pai? Ele vai ficar tão triste, tão desapontado. Ultimamente eu venho dando tanta dor de cabeça que não consigo suportar a ideia de fazer isso de novo.

Olho para o meu cobrador de novo. Jovem, uns vinte e cinco anos. O cabelo preto raspado e a pele morena acentuam a forte descendência latina. Ele não é exatamente feio, mas de jeito nenhum vou fazer isso comigo mesma. Nem morta. 

Sem dizer absolutamente nada, enfio a mão no bolso de trás da calça e tiro a chave do meu precioso carro, deprimida com o tilintar que faz ao ser jogada sobre a mesa. Os homens na sala me olham sem oferecer nenhum conforto. Bando de babacas.

Antes que o grandão mude de ideia e resolva levar o meu hímen intacto de brinde, eu puxo Mallory pela mão para fora daquele chiqueiro.

Lá fora, no ar frio da noite, enquanto aqueço as mãos uma contra a outra, prometo a mim mesma que nunca mais vou cometer uma idiotice dessa.

Dentro do ônibus, com Mallory desacordada ao meu lado, eu penso de novo em minha mãe e no quanto gostaria que estivesse aqui comigo. Não aqui nesse ônibus, nem mesmo nessa merda de noite, mas aqui na minha vida, impedindo que porras como essa acontecessem comigo. 

Minha mãe sempre teve o dom de acalmar as minhas ânsias. Mas, desde que ela foi, tudo tem ficado tão pior. Estou sempre a beira de desmoronar. Meu pai é a melhor pessoa que conheço, mas ele não consegue entender. Simplesmente não consegue. Eu valorizo o esforço que faz, mas quando fala comigo, é como se enxergasse a criança de dez anos que um dia habitou esse corpo e que, agora, não existe mais. Ela foi levada por aí, tragada, abduzida, deixando em seu lugar, uma adolescente furiosa que, depois, deu espaço ao meu eu atual. Uma jovem adulta que adora balançar na corda bamba há dezenas de metros no chão.

O celular vibra no bolso da minha calça. Eu o tiro de lá e o nome que aparece na tela faz meu coração se afundar dentro do meu peito.

É o meu pai.

Desligo, incapaz de dizer qualquer coisa. Sei que mais uma vez não serei capaz de explicar por que fiz o que fiz. Honestamente, nem eu mesma sei dizer.

Só sei que, cada vez que eu ajo impulsivamente, colocando minha vida e meu bem estar em risco, eu me sinto em uma espécie de torpor misericordioso. Como se nada nem ninguém fosse capaz de me afetar além do que eu permitisse, além do que já é conhecido. Todo medo, toda a dor desaparecem, substituído por outros.

De repente, eu esqueço de tudo. A doença da minha mãe, seu sofrimento, sua aparência deplorável nas últimas semanas. Por um momento, mesmo que ínfimo, eu posso me concentrar em mim. É isso. Quando eu perco o controle é quando finalmente consigo retomar as rédeas sobre quem sou e os meus sentimentos. Parece estranho, mas... é tudo o que eu tenho agora.

O telefone toca outra vez. Dessa, não me dou nem ao trabalho de conferir a tela do aparelho. Quero adiar ao máximo o confronto com o meu pai.

Só espero que,  mais uma vez, o amor que ele sente por mim possa fazê-lo capaz de, mesmo sem me entender, perdoar.