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Capítulo 4

Disney ao entardecer e um chefe que aparece como destino

— Voltem todos ao trabalho — ordena Luke. E, num instante, todas as pessoas que estavam reunidas dispersam-se e voltam às suas tarefas, como se alguém tivesse estalado os dedos.

Sorrindo, desligo o telefone e levanto os braços para o céu, feliz da vida, embora note que muitos olhares ainda se voltam para mim com curiosidade.

Fingindo não dar por isso, cruzo os braços e volto a fixar o olhar no computador, com as risadas de Jim ao fundo e o ambiente típico de uma segunda-feira de manhã.

— Mais um dia passou! — grito, eufórica, ao apertar o botão para desligar o ecrã. Eu não aguentava mais.

Sem dúvida, a segunda-feira é o pior dia: pedidos que chegam sem parar, novas tarifas para calcular e negociar, reuniões para organizar... É exaustivo.

— Que tal tomarmos algo juntos? — sugere Jime, apontando com a cabeça para um grupo de colegas reunidos em frente à porta de vidro do nosso escritório.

— Francamente, não. Obrigada — respondo, recusando o convite.

Levanto-me e coloco a mala ao ombro.

— Não, obrigada, Jime. A minha colega de apartamento está à minha espera; hoje à noite é noite Disney.

O meu colega olha para mim como se eu tivesse dito a maior parvoíce do século passado, mas é verdade.

A Eva e eu somos fãs de desenhos animados e reservamos uma noite por semana para os vermos. Não abriria mão disso por nada neste mundo.

— Não vou dizer nada... é melhor assim — diz ele. Penteia o cabelo para trás e dirige-se ao pequeno grupo que, claramente, o estava à espera.

Antes de sair, vira-se por um instante, faz um gesto de despedida e lança-me um último olhar de soslaio. Depois, sorri para mim, como sempre.

Paro um momento para contemplar o escritório vazio e silencioso.

Uau. É outra coisa.

Encolho os ombros, dirijo-me para o elevador e agradeço que, por sorte, não haja ninguém à espera dele. Odeio partilhá-lo; prefiro ter este espaço só para mim e não ter de suportar conversas forçadas ou tentativas de "socializar" depois de um dia inteiro.

Depois de passar horas a falar ao telefone em quatro idiomas diferentes, a única coisa de que preciso é de silêncio.

Ao chegar ao saguão, cumprimentei a secretária, a Stella, uma rapariga bastante desajeitada que acabou de se formar. Compreendo-a: também passei por isso. Um mundo novo, muitas responsabilidades...

— Boa noite, Stella — digo.

Ela sorri para mim e deseja-me o mesmo.

Empurro as portas de saída e o ar quente da cidade invade-me por completo.

O sol está a pôr-se, mas a temperatura continua alta, agradável; não preciso de cobrir os ombros.

Quando estou prestes a sair, um carro para em frente à entrada do prédio e chama a minha atenção.

Fico um momento a olhar para ele. Não reconheço a marca — não percebo nada de carros — mas, pelo que consigo deduzir, trata-se de um modelo caro. O carro brilha tanto que quase me obriga a apertar os olhos.

Um homem com cerca de trinta anos sai do carro. Tem o cabelo castanho levemente ondulado e uma barba curta que emoldura o rosto. Veste um terno elegante e usa óculos de sol. Pela forma como se posiciona junto à porta, diria que é motorista de alguém.

E talvez até saiba de quem.

Antes de pensar melhor, escondo-me numa rua secundária a alguns metros. A curiosidade vence-me. Sempre.

— Boa noite, senhor Montenegro — diz o homem.

E, como por magia, aparece o meu novo chefe.

Na verdade, não o tinha observado bem nos nossos breves encontros, mas ele tem um corpo praticamente perfeito; aposto que não tem nem um grama de gordura.

Tenho de admitir que ele se move com uma segurança... quase irritante.

— Jaime, quantas vezes tenho de te dizer para me chamas Damián? — Ele dá-lhe um tapinha nas costas, sorrindo como uma criança.

O motorista retribui o sorriso, embora mantenha a postura discreta de quem está habituado a passar despercebido.

— Sabes que me habituei ao teu pai — ouço-o murmurar, e depois Damián desaparece no interior do carro luxuoso.

Não sei porquê, mas tenho a sensação de que com este novo chefe virão muitas coisas boas.

Com um sorriso bobo no rosto, sem saber muito bem porquê, sigo em frente para a minha maratona Disney.

As duas semanas seguintes passaram a voar. Estive ocupada cada minuto de cada dia, a resolver problemas que surgiam por toda a parte. Adoro estes períodos: há tanto trabalho que não há tempo para perder. Sim, sou hiperativa neste sentido.

Como eu já imaginava, não vimos nenhum sinal do nosso novo chefe. O chefe muda, mas no final nada muda: continua no seu escritório a fazer não se sabe o quê o dia todo.

E não é que eu esteja a queixar-me. Desde o nosso último encontro, continuo um pouco desconcertada e a pergunta "Então, não me reconhece?" ainda ecoa na minha cabeça durante os intervalos, como uma pedra incómoda no sapato. — Ei... — Desde que mudámos de chefe, não tivemos muitas vendas? — pergunta Jime, enquanto me olha à espera de uma resposta, e eu massageio o ombro por ter passado horas encurvada sobre o teclado.

Sinto-me toda rígida.

Concordo.

Não tinha pensado nisso, mas é verdade: tivemos picos altíssimos de pedidos e surgiram novos clientes do nada.

Será obra do novo chefe?

— Temos de comemorar em grande estilo — diz Jime. — Somos o departamento com os melhores resultados deste mês!

Vejo vários colegas animados com a ideia e sorrio com eles. Também preciso de me divertir um pouco, senão acabarei como uma velha decrépita, como a Eva me chama "carinhosamente".

No entanto, de repente, um silêncio quase surrealista toma conta de todo o departamento, como se alguém tivesse reduzido o volume do mundo com um comando.

Levanto um pouco os olhos da mesa e percebo logo o motivo.

Damián Montenegro, em todo o seu esplendor, acaba de entrar, à procura de algo... ou de alguém.

Ele veste um fato cinzento claro que lhe assenta na perfeição.

Não suporto pessoas que estão sempre impecáveis, perfeitas, não importa o que vistam.

Quando os nossos olhares se cruzam, um arrepio estranho percorre-me a espinha.

Ele continua a olhar para mim fixamente, com os olhos mais verdes do que a relva recém-cortada.

Sou a primeira a desviar o olhar. Estava a ser demais para mim.

De repente, sinto o Jim a cutucar-me e a sussurrar-me ao ouvido:

— Ele estava a devorar-te com os olhos, miúda.

Fico sem palavras.

— Impossível.

— Ah, aqui está o homem que eu procurava — ouvi-a dizer quando viu Luke sair do escritório e dirigir-se a ele a passos largos.

No departamento, ninguém perde detalhes.

— Bom dia, senhor Montenegro. Não me disseram que o senhor me procurava; eu próprio teria ido ao seu gabinete — diz Luke, muito nervoso, a ajeitar a gravata, que está um pouco frouxa.

— Prefiro caminhar e observar a minha empresa — responde Damián. — Odeio ficar sentado o dia todo.

Luke convida-o a entrar no seu escritório, longe de olhares indiscretos.

— Sinceramente, espero vê-lo com mais frequência — sussurra Jim, sem pudor. Ele é o protótipo do homem sensual e malicioso. Reparou nos braços dele? Aposto que vai ao ginásio todos os dias.

Mordo o lábio para que a minha imaginação não vá por onde não deve.

Ou seja, em direção ao meu novo chefe, de torso nu e suado, a levantar pesos como se o mundo inteiro fosse dele.

— Droga! — suspiro. Tenho de me controlar. Não posso também cair nas garras dos encantos desse homem.

Finjo não ter ouvido o Jim e levanto-me para ir buscar uma chávena de café.

A esta hora da tarde, é um remédio milagroso.
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