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1 Devaneios da Vida

Março de 2004. A família Galantis, uma pioneira no ramo da construção civil e da hotelaria e, uma das mais ricas famílias do país, havia tomado seu jatinho particular para passar o fim de semana numa fazenda pertencente a um grande amigo. No avião estavam o chefe da Família, Adriano Galantis, sua esposa Nicole e seus dois filhos, Adriano Galantis II, o mais velho e Maria Galantis, a mais nova. Além do piloto e do copiloto. Eles estavam contentes, pois iriam comemorar o nono aniversário de sua caçula com uma festa típica rural, mas o que aquelas pessoas não sabiam era que uma tragédia estava prestes a acontecer.

—O que está vendo, comandante? — o copiloto perguntou ansioso.

—Não sei dizer! Mas por algum motivo os controles parecem estar falhando. — respondeu com certa apreensão. — Avise aos passageiros que coloquem os cintos, acho que vamos ter que retornar para a cidade!

O copiloto assentiu e pegou o comunicador avisando à família que colocassem os cintos. Adriano se levantou e foi em direção da cabine a fim d saber do comandante o motivo de tal sugestão. O mesmo pediu ao chefe da família que retornasse, pois o avião começou a perder altitude e que por conta disso deveria retornar ao aeroporto. Adriano voltou para o seu lugar, mas não contou o ocorrido para sua família a punho de não os amedrontar, porém não conseguia esconder sua preocupação. Os pilotos então começaram a emitir o alerta de que teriam de retornar, eles avisaram a respeito dos problemas à torre de controle que deram sinal verde para que pudessem concluírem a manobra de retorno, mas o avião nunca chegou a fazê-lo.

Apesar de ser pequena, a família Galantis não era de tudo tão pequena assim. Isso por que Adriano tinha um irmão mais novo, Roberto Galantis e este se encontrava na piscina da sua casa de praia com a esposa Sabrina e a filha Soraia quando o empregado veio lhe trazer o telefone.

—Me desculpe, senhor Galantis, mas é urgente. —falou o jovem servente com o semblante triste.

—O que aconteceu? Foi algo com a empresa? — perguntou colocando o telefone no ouvido.

Roberto balançava a cabeça sinalizando entender o que estava sendo dito do outro lado da linha. Em seguida ele entrega o telefone ao rapaz que pergunta se estava tudo bem, mas o homem nada respondeu, ele apenas fechou os olhos, franziu os lábios e depois de vestir o roupão, entrou para dentro da mansão.

Roberto sempre foi o mais desajustado dos irmãos, ainda em vida, seu paia Paolo Galantis repartiu a rica herança da família entre os dois depois que sua esposa e mãe dos varões, Constanza Di Carmelo, faleceu. Roberto não soube muito bem lidar com o dinheiro e gastou quase tudo em viagens de luxo, caprichos de sua ainda jovem esposa e também na jogatina. Ele chegou a beirar a falência total não fosse o irmão mais velho o ter socorrido colocando-o como um dos diretores da matriz de sua Companhia. Ao chegar no interior foi direto para o quarto onde Sabrina escolhia um vestido para a festa de logo mais. Ela correu para junto do marido com um estiloso vestido azul de um estilista famoso, o azul, como sempre disse Roberto, combinava com os olhos da bela mulher. Ela que era dona de um corpo escultural, cabelos loiros e ligeiramente ondulados, lábios carnudos e olhos azuis. A mulher mostrou o vestido caríssimo com um sorriso de orelha a orelha. O que ela tinha de bonita, tinha de fútil.

—Gostou? É para a festa dos Andrade logo mais à noite! — falou dando uma volta em torno de si mesma como se estivesse dançando com o próprio vestido.

— É muito bonito e combina com você, mas nós não vamos na festa! — disse o homem com expressão séria.

—Como é? Eu me aprontei para esse evento desde que recebi o convite! E olha que tem um tempinho e você vem me dizer que não vamos?! Me dê só um motivo para eu não ir. Um só! — respondeu de forma histérica, aliás, essa era sua marca maior.

—Quer parar de pensar apenas nessas suas diversões fúteis, Sabrina?! — exclamou o marido. — Se eu digo que nós não vamos é por que tem um motivo grave. Adriano! — Roberto encheu o diafragma e depois completou. — O avião deles caiu quando tentava fazer uma manobra e retornar para a cidade depois de apresentar falhas. Toda família morreu!

Sabrina ficou paralisada diante da notícia e Roberto não aguentou segurar as lágrimas e desabou a chorar. Ele lamentava não ter estado com o irmão mais velho antes de sua partida e também se perguntava como iria dar a notícia ao seu velho pai. Sabrina o consolava do jeito que podia, mas o marido parecia não suportar tamanha dor. Eles arrumaram as coisas naquela mesma tarde e retornaram para o São Paulo.

Roberto cuidava para fazer o reconhecimento dos corpos de seus parentes, mas a liberação ainda não havia sido feita, pois, um membro da família ainda não tinha sido localizado, era a pequena Maria.

—Ela deve ter sido arremessada para fora do avião no momento do impacto. Não quero ser desagradável, senhor Galantis, mas o velório de todos eles deverão ser com os caixões lacrados. — Proferiu o chefe das buscas arrancando um suspiro de Roberto.

Enquanto os preparativos seguiam, um dos bombeiros que procurava o corpo da menina, já estava quase para retornar, pois o Sol estava quase se pondo. No escuro era mais difícil de se encontrar alguém naquele matagal, mas quando ele caminhava por uma trilha pouco utilizada ouviu algo como uma pessoa gemendo.

—O que será que tem ali? Seria um animal? — o rapaz se perguntava enquanto abria o mato com o auxílio de um facão. Seu coração acelerava à medida com que se aproximava do alvo.

Ele foi caminhando e a ansiedade já tomava conta de seu corpo e quando chegou no ponto exato, levou um susto.

—Meu Deus! Isso só pode ter sido um milagre!

Imediatamente o bombeiro pegou o rádio comunicador e reportou ao restante da equipe que havia encontrado um sobrevivente do desastre. Em uma questão de minutos o local estava repleto de homens do corpo de bombeiros e um helicóptero já sobrevoava a área para a remoção de Maria. A pesar da felicidade de encontrar um sobrevivente de um acidente tão horrível, a menina se encontrava bastante ferida e seu estado era considerado grave. Não demorou muito para que Roberto ficasse sabendo que a sobrinha havia sobrevivido, mas o advogado da família de Adriano estranhou o fato do o irmãos mais novo parecer não ter ficado muito contente com a notícia.

O enterro ocorreu no dia seguinte, Paolo chorou muito ao se despedir do filho, durante o discurso feito por ele, o patriarca falou da dor que sentia por ter que enterrar o próprio filho sendo que deveria ser o contrário. Muitos amigos compareceram, mas a pequena Maria não se fez presente já que teve de ser levada para a UTI por conta de seus graves ferimentos.

—Não sei se estou errado, mas é bom ficarmos de olho em Maria no hospital. — Baixinho comentou Marcelo Tavares, advogado de Adriano, com sua esposa Priscila.

—Por que? Acha que Roberto não está em condições de cuidar da sobrinha? — indagou Priscila sem entender.

—Não é isso! É que eu tive a leve impressão de que Roberto não gostou do fato da sobrinha ter sobrevivido.

Priscila advertiu a Marcelo que não comentasse aquilo nem de brincadeira, que devido o momento de tensão ele deva ter visto algo que não era o que parecia. O advogado deu um sorriso moderado e confirmou que a esposa tinha razão, mas em seus pensamentos a certeza era outra. “Eu quero estar enganado, mas vou prestar atenção em você, Roberto Galantis”! pensava Marcelo enquanto olhava para Roberto jogando flores nas covas.

Um ano se passou e Maria se recuperou do acidente. Mas ela sofreu bastante durante o processo de recuperação. Foram seis meses na cadeira de rodas devido ter quebrado um braço e uma perna, várias sessões de terapia para tratar o trauma psicológico, além de perder um ano letivo por causa da desmotivação e tristeza. Vendo a situação da neta, Paolo decidiu que ela iria morar com ele, já que Sabrina não quis se responsabilizar pela sobrinha. Roberto passou a administrar as empresas do irmão e ele faria isso até que Maria atingisse a maioridade e tomasse conta de sua herança. Mas aos exatos um ano desde o acidente que levou seus pais e irmãos, Maria sofreu mais um golpe da vida. Paolo faleceu devido a complicações de um câncer na próstata.

—O que eu vou fazer agora, babá? Eu estou sozinha! — lamentava a pobre menina nos braços da babá.

—Não, meu amor. Você não está sozinha, você tem a mim, minha flor! — a babá tentava consolar a garota sendo que ela mesma lutava com todas as forças para não chorar junto. —Você tem seu tio Roberto, sua prima e logo virá outro priminho!

—Mas eles não ligam pra mim, Betinha. — A menina falou olhando para a mulher. — A tia Sabrina me odeia e meu tio Roberto só pensa no dinheiro do meu pai. Eu só tenho você, Betinha, por favor, não me deixa!

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