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Capítulo 3 - O Confronto.

Rosa finalmente avistou sua casinha, e um pequeno alívio tomou conta de seu coração. Era uma casa simples, feita de madeira, como aquelas de interior, mas na cidade. As paredes descascadas e a pintura desbotada mostravam o desgaste do tempo, porém o ambiente era sempre bem cuidado. O quintal era grande, com canteiros onde sua mãe plantava algumas hortaliças e flores, e uma pequena horta nos fundos. Ali cresciam alfaces, couves e algumas ervas.

Rosa desceu da bicicleta com cuidado, tentando não agravar os ferimentos, e empurrou a velha porta de madeira que rangeu ao abrir. O cheiro da comidinha que sua mãe havia feito, tomou conta de suas narinas. Sua mãe, mesmo doente, sempre fazia questão de deixar algo preparado.

Dentro da casa, tudo era muito simples. O piso era de tábuas gastas, as cortinas eram feitas à mão por sua mãe, e o pouco que tinham de móveis era antigo, mas tudo muito limpo e organizado. Na cozinha, tinha um fogão à lenha e uma mesa de madeira simples, já arrumada para o jantar. Ao lado, uma poltrona onde sua mãe costumava sentar, com uma colcha de retalhos por cima.

Ao entrar, Rosa ouviu o som da voz fraca de sua mãe, chamando com preocupação:

— Filha, é você?

Ela seguiu o som até o quarto, onde a mãe estava deitada na cama. Quando a viu, sua expressão mudou de preocupação para choque.

— Rosa, o que aconteceu? Você está machucada! — Os olhos da mãe se encheram de lágrimas, e ela tentou se levantar, mas Rosa foi mais rápida e a segurou.

— Não se levante, mãezinha. Foi só um tombo... — respondeu Rosa, tentando aliviar a situação, embora soubesse que o estado dela denunciava o contrário.

Sua mãe, dona Cida, tinha o rosto marcado pelo tempo e pela doença, mas o olhar ainda era cheio de amor e cuidado.

— Como assim só um tombo? Olha só você! — disse Cida, entre lágrimas. — Eu sabia que algo estava errado... O que aconteceu, minha filha?

Rosa queria muito abraçar a mãe e chorar até não ter mais forças. Contar tudo o que havia acontecido, desde a queda até o encontro com aquele homem arrogante. Mas sabia que, se fizesse isso, acabaria preocupando a mãe ainda mais.

— Mãe, não foi nada de mais, eu caí da bicicleta, me machuquei um pouco, mas já estou bem, de verdade — disse Rosa, segurando as lágrimas, tentando manter a voz firme. — Não quero te preocupar.

Dona Cida a olhou com desconfiança, mas não quis insistir. Sabia que a filha estava exausta, e forçar respostas não ajudaria em nada naquele momento.

— Vem, deixa eu te ajudar com isso — disse Rosa, tirando um pequeno prato com polenta do fogão à lenha. Era uma refeição simples, mas feita com tanto carinho que, naquele momento, parecia o melhor banquete do mundo.

Depois de servir as duas, Rosa sentou-se ao lado da mãe, e, mesmo com a dor no corpo e o cansaço, tentou arrancar um sorriso dela, contando alguma história engraçada do dia.

— Você acredita que, mesmo com todo o tombo e a confusão, ainda consegui trazer a bicicleta comigo? A ambulância teve que levar a coitada junto! — disse Rosa, soltando uma risadinha.

Dona Cida sorriu, apesar das lágrimas que ainda escorriam silenciosamente. A força da filha sempre a impressionava. Elas comeram em silêncio por alguns minutos, e, depois, Rosa ajudou sua mãe a tomar os remédios e a deitar confortavelmente na cama.

Quando a noite caiu completamente, Rosa se encontrou sozinha na cozinha, ascendeu algumas velas, pois ainda não tinha resolvido a conta de luz, lavou a pouca louça que haviam usado. Enquanto a água escorria pelos pratos, as lágrimas finalmente vieram. Ela estava no limite de suas forças, física e emocional. O peso de tudo, o acidente, a necessidade de sustentar a casa, a preocupação com a saúde da mãe, a esmagava.

Ali, de frente para a pia, Rosa fez uma oração, silenciosa, mas cheia de esperança:

— Senhor, eu sei que não sou a mais forte nem a mais sábia, mas me dê forças para seguir em frente. Cuida da minha mãe, que é tudo o que eu tenho, e me ajuda a encontrar um caminho, mesmo que eu não consiga ver a saída agora. Só quero poder dar a ela o que merece... um pouquinho de paz. Eu confio em Ti, mesmo nos dias mais difíceis. Amém.

Ela secou as lágrimas, respirou fundo e tentou acalmar o coração. Sabia que o próximo dia seria difícil, mas não tinha escolha. Precisava continuar.

[...]

No dia seguinte, Rosa acordou com o corpo dolorido, mas determinada. Por mais que seus machucados ainda incomodassem, ela não poderia se dar ao luxo de faltar no trabalho. Precisava do dinheiro, principalmente para os remédios da mãe.

Quando chegou na casa, tudo parecia normal, até que, ao entrar, ouviu a voz irritada da senhora Trajano.

— Rosa! Como você ousa aparecer assim? — a mulher disse assustada, apontando para os curativos visíveis.

— Eu só caí da bicicleta, mas já estou bem — respondeu Rosa, com a calma que sempre usava para lidar com as reclamações da patroa.

Rosa não deu bola e continuou a realizar suas tarefas normalmente. Lavou o chão, organizou os cômodos e se preparava para ouvir as habituais críticas da patroa. No entanto, enquanto limpava o corredor, ouviu passos firmes descendo as escadas. Ela se virou e viu, para sua surpresa, um homem alto, forte, muito bonito, cheiroso, com uma barba atraente e o ar de quem se achava dono do mundo. Seus olhos se arregalaram de surpresa.

— Você por aqui? — Ricardo Trajano, o mesmo homem que a humilhou na rua, estava agora parado na sua frente.

Rosa ficou boquiaberta.

— Não acredito que você… — começou a dizer, incrédula.

Ricardo cruzou os braços, olhando para ela com o mesmo ar de superioridade de antes.

— Ah, então é você, a famosa Rosa. A que atrapalha o trânsito, me faz perder tempo, e limpa a casa da minha mãe. — Ele sorriu, sarcástico. — Não acredito que você trabalha para a minha mãe.

Rosa bufou, tentando manter a calma.

— Isso mesmo. Sou eu. E não acredito que você é o filho dela — respondeu com ironia. — Agora tudo faz sentido.

Ricardo, obviamente ofendido pelo tom de Rosa, ergueu uma sobrancelha.

— Está insinuando o quê? — perguntou ele, irritado.

— Nada... — Rosa respondeu com um sorriso amargo. — Só estou dizendo que arrogância parece ser de família.

Era muito difícil Ricardo aparecer na casa da mãe, até porque Rosa nunca havia o visto lá. Ricardo não estava acostumado a ser enfrentado daquela maneira, especialmente por alguém como Rosa. Ele ficou visivelmente desconcertado, mas não demonstraria fraqueza.

— Você é uma peça, sabia? Mal agradecida e atrevida.

Rosa apenas sorriu, cansada demais para se importar.

— E você é… bem, deixa pra lá. Melhor eu continuar limpando antes que sua mãe apareça e reclame.

Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos, ainda tentando processar a audácia de Rosa. Aquela menina simples, com roupas gastas e um ar de cansaço, tinha mais coragem do que qualquer pessoa que ele já havia conhecido. Mesmo com todos os obstáculos em seu caminho, ela seguia em frente, sem se deixar abalar.

Ele não podia ignorar o fato de que, apesar de toda a simplicidade, Rosa era deslumbrante. Seu cabelo loiro, naturalmente liso, caía de forma perfeita emoldurando seu rosto delicado. A pele clara, quase de porcelana, e seus olhos claros, profundos e expressivos.

Com apenas 24 anos, Rosa tinha uma beleza única. Seu corpo era esbelto e bem proporcionado. Sua presença era marcante. Simples, mas espetacular. Ricardo fingia não se importar, mantendo sua pose de superioridade e desdém.

Ela o desarmava com aquela combinação de beleza, força e simplicidade. Ele soltou um último suspiro, tentando esconder a confusão de sentimentos que o dominava, e sem mais palavras, subiu as escadas, deixando Rosa continuar o trabalho.

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