CAPÍTULO 7
Eva
Espero que você leve uma vida da qual se orgulhe, ou que tenha força para começar tudo de novo.
(O curioso caso de Benjamim Buttom)
Tempo atual
Acredito que nunca havia tremido tanto, como agora.
Fazia exatamente quinze minutos que estava no meu carro segurando o volante com tanta força que meus dedos estavam pálidos.
— Vamos lá Eva, você consegue, você é mais forte do que pensa — recitei meu mantra que havia treinado meses atrás quando voltei para casa.
Após conversar com Bianca, gradualmente fui tentando voltar para minha vida. Minha mãe havia mudado sua rotina para ficar mais tempo em casa, boa parte para ficar de olho em mim. Meu pai com a sua reeleição, seus horários estavam cada vez mais complicados.
Continuei com minha rotina, indo à clínica, ao cinema e livrarias. Às vezes minha mãe me acompanhava e fazíamos nosso dia ser único.
Realizava caminhadas no final da tarde, via séries ou lia um livro e aos poucos meu apetite foi voltando. Ainda tinha momentos críticos, mas recorria a Bianca e ela conseguia me acalmar.
Foi ideia dela de iniciar a faculdade. Ter contato com pessoas da minha idade. Fui relutante no início, porque ainda não me sentia segura, mas Bianca conseguia ser irritantemente chata quando queria.
Meus pais conseguiram alugar um apartamento à quatro quadras da faculdade porque já passara o prazo de solicitação de dormitórios no campus. Nem reclamei, afinal, seria ótimo não ter que dividir o quarto com alguém.
Mas esse mimo não saiu de graça. Eles deixaram bem claro que eu deveria continuar com os medicamentos e minha visita semanal ao meu novo psicólogo. E ligasse para casa diariamente.
— Está tudo bem aí?
Assustei-me com a batida no vidro do carro. Apertei o botão e baixei o vidro.
— Oi! Desculpa se te assustei, é que você está parada aqui a um tempão. Supus que estivesse com algum problema.
— Nem percebi que passou tanto tempo assim — fui simpática.
— Novata?
— Está tão na cara assim?
— Como um pisca-pisca. Se quiser, posso te dizer onde você pode estacionar.
Antes mesmo que eu pudesse responder, a garota deu a volta no meu carro, abriu a porta do passageiro e se sentou.
— E a propósito, me chamo Mia — a garota estendeu a mão em minha direção.
Demorei alguns segundos para responder ao seu cumprimento.
— Eva — respondi.
Ela era uma morena clara, cabelos cacheados. Usava uma blusa branca de renda, com um casaco preto, com as mangas levantadas até metade dos braços, e calça jeans.
Senti-me simples até demais perto dela. Havia colocado jeans com lavagem escura, blusa branca de mangas compridas a fim de esconder as cicatrizes.
Nada de maquiagem ou acessórios. Meus cabelos estavam presos em coque folgado, como se eu não tivesse tido tempo para arrumá-los.
— Ali parece ser um bom lugar. Você não terá problema em sair, poucos estacionam por aqui — Mia apontou para um lugar onde havia quatro vagas.
— Por quê? — perguntei curiosa.
— Porque é um pouco longe da entrada, e também porque aqui é a área da turma de luta clandestina.
— Luta clandestina?
— Está tudo bem. Os garotos não vão mexer com você e nem com o seu carro.
Ela falou isso como se estivesse falando que os "garotos" eram jogadores de futebol.
— E você não tem carro? — perguntei.
— Quem aqui não tem carro?
— Você?
Ela riu.
— Tenho carro, mas estou sem ele temporariamente.
— Por quê?
— Emprestei para um amigo e ele arrebentou meu carro todo.
— Seu amigo bateu com o seu carro?
Mia saltou do carro quando realizei a manobra e estacionei.
— Ele não é bem meu amigo, é alguém com quem estou ficando. Se meus pais descobrirem, vão me matar. Ainda temos tempo para um café, está a fim? — perguntou Mia olhando para a hora no celular.
— Não tomo café.
Bianca tinha me proibido de tomar qualquer coisa que me deixasse agitada.
— Um suco então?
Já havia percebido que não seria fácil me livrar dela.
O lugar ainda estava vazio, e o caminho até a entrada principal estava tranquilo. Não deixei de notar que Mia conhecia bastante gente.
Chegamos à lanchonete para descobrir o real motivo do pátio estar vazio, todos estavam tentando comprar seu café. Mia saiu cortando caminho até chegar ao balcão, deixando pessoas furiosas na fila.
— Oi Alana, obrigada por guardar meu café. Você pode incluir um suco de... — Mia olhou em minha direção e entendi estar falando comigo.
— Laranja com acerola — falei.
— Isso, laranja com acerola e dois pães na chapa.
— Saindo um café com leite, um suco de laranja com acerola e dois pães na chapa.
— Obrigada, gata.
Mia piscou para a atendente e me arrastou para a única mesa vazia.
— Você percebeu que passou na frente de todo mundo?
— Sei, mas não posso perder tanto tempo na fila. E então, de onde você é?
— Sou de Curitiba.
— Uau! Seus pais devem ter mudado seus planos para te acompanhar.
— Vim sozinha.
— Garota de sorte. Eu ainda moro com meus.
— Não foi ideia minha, mas estou bem com isso.
Mia soltou uma risada alta e atraiu os olhares de algumas pessoas.
— Então está me dizendo ser antissocial?
— Gostar de ficar sozinha não é ser antissocial.
— Com certeza é, mas mudaremos isso.
Outra atendente chegou com nossos pedidos, colocando o suco e o pão na chapa na minha frente.
— Eu não estou com fome.
— Sem problema, eu como por você.
Mia pegou meu pão e colocou do seu lado. Para uma garota em forma como ela, não estava se preocupando muito com dieta.
— Qual é o seu curso? — Mia perguntou enquanto dava a primeira mordida.
— Cinema, e você?
— Medicina.
— Medicina?
— Todos na minha família são médicos, então consequentemente devo seguir o mesmo caminho.
— Mais você quer isso?
— Com a família que tenho, opinião própria não é uma opção.
— Você não falou com eles?
— Só se eu quiser causar a Terceira Guerra Mundial. Meu pai me deserdaria e meus irmãos quebrariam todos os meus ossos.
Ela riu como se fosse a piada mais engraçada do mundo.
— Já sabe onde será sua primeira aula?
— Sala 302D.
— Poxa! Uma pena não estarmos no mesmo andar. Mas se você quiser, podemos nos encontrar aqui depois da aula. Posso te apresentar o lugar.
Essa não, ela já queria se tornar minha nova amiga. Eu não queria e não precisava de uma amiga agora.
— Sabe o que acontece, é que cheguei ontem no Rio, ainda nem desfiz as malas e nem desempacotei as caixas.
— Mudança é mesmo um saco. Eu até poderia me oferecer para te ajudar, mas tenho ioga a tarde. Podemos nos encontrar aqui na lanchonete nesse mesmo horário amanhã. Agora preciso voar, porque o senhor Rodriguez não suporta atrasos, principalmente os meus. Boa sorte no seu primeiro dia — Mia pegou seu café, comeu o último pedaço do seu pão e pegou o meu — e não se perca.
Fiquei vendo Mia desaparecer no aglomerado de pessoas. Terminei meu suco e então percebi que ela deixara a conta para eu pagar.
Além de intrometida, ainda era folgada.
