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1

Lucas

Seria meu primeiro dia como infiltrado e estava muito nervoso. Não só por ser o mais jovem a entrar na equipe, mas como também seria comparado ao meu pai. Sempre haveria alguém que me comparasse a ele. Meu pai tinha sido um grande homem até ser tirado da família tão precoce. Até ser assassinado.

E eu faria de tudo para que a facção do homem mais procurado do Rio de Janeiro fosse pego e preso. Prometi diante do seu túmulo que eu pegaria o responsável por sua morte.

— Dou a minha palavra que eu pegarei Falcão e o levarei a julgamento pelos seus crimes — falei enquanto olhava para a lápide do meu pai.

Falcão, a máquina de matar, como era conhecido pela polícia, tinha assumido o lugar do seu irmão Buda, morto em confronto no ano passado. Meu pai tinha sido enviado para descobrir quem eram "os grandes" que estavam facilitando a entrada e saída de drogas do estado, mas sua identidade foi revelada e ele acabou sendo levado ao conhecimento do Falcão que na época era seu braço direito.

Meu pai foi torturado e queimado vivo, seu corpo sendo deixado na frente no 26º quartel como prova que polícia não era bem vindo ao Morro da Vitória. Eu tinha apenas 13 anos e precisei crescer antes do tempo para dar suporte à minha mãe e a minha irmã que na época tinha apenas um ano de idade.

— Lucas, vamos logo, todos estão te procurando — disse uma voz familiar atrás de mim.

Era Lídia. Minha amiga desde o meu primeiro dia no quartel. Loira dos olhos azuis, ela era motivo de muitas conversas quando eu estava de plantão. Dona de um corpo maravilhoso e de uma mente brilhante, Lídia fazia por merecer seu cargo. Aos 25 anos, ela já era responsável por missões de risco, inclusive a minha. Tinha sido ela a me escolher para fazer parte desse novo plano, sabendo da minha vontade de entrar para a equipe.

Claro que eu nunca contei o real motivo para entrar para a polícia. Se ela soubesse, jamais deixaria, por que saberia que meu motivo era pessoal para entrar. Eu queria a cabeça do homem que tirou a vida do meu pai, e nada me impediria de ter êxito nessa missão.

Levantei-me do chão, retirando a grama grudada em minha calça, coloquei minha boina e olhei para Lídia sorrindo.

— Como sabia que eu estava aqui?

— É muito óbvio. Quando você resolve sumir e não atender o rádio, só tem um lugar onde pode estar. Vamos logo, o comandante nos aguarda.

Lídia, assim como eu estava uniformizada. Seu cabelo sempre preso em um coque apertado e escondido pela boina. Camisa, calça e colete a prova de balas, disfarçava muito bem sua curvas.

Hoje seria o grande dia. O dia em que eu deixaria de ser o Sargento Derossi e passaria a ser somente Lucas. A partir do momento em que eu entrasse na favela, eu seria um deles.

A minha equipe já me aguardava no galpão quando cheguei. Comandante Mota, o responsável pelo meu treinamento estava explicando algo para os soldados que estavam em sua volta. Quando ele me viu, parou de falar e olhou para minha direção. Eu fiz meu cumprimento de respeito e depois aguardei sua ordem.

— Pode descansar Sargento Derossi.

— Obrigado senhor.

— Estou muito orgulhoso de ver que você chegou tão alto. Seus dias de exercícios duros e noites acordadas tornaram possíveis a sua entrada nessa equipe.

— Estou muito honrado em fazer parte dessa missão, comandante.

— Alegro-me em saber. Aproxime-se, estava explicando o plano. Preciso que vocês entendam como tudo acontece. Não quero nenhum dos meus homens feridos nessa missão.

O Comandante explicou toda a estratégia. Onde todos ficariam e quais seriam suas funções. Por motivo de segurança, apenas eu me infiltraria na organização criminosa. Por ser o melhor da turma e o mais aplicado, eu tinha ganhado o direito de estar na linha de frente. Eu havia recebido o prazo de cinco meses para fazer uma avaliação e traçar um plano para desmontar a quadrilha.

— Nessa pasta está tudo o que você precisa saber. Todos que fazem parte da quadrilha, desde os olheiros até o braço direito do Falcão — o Comandante falava enquanto observava minha reação.

— Compreendo senhor.

— É de suma importância que você seja o mais discreto possível. Não tente chamar a atenção para você. Falcão é um homem vivido e desconfiado. Qualquer motivo que ele tiver, não vai pensar duas vezes em se livrar do problema, entendeu?

— Sim senhor. Recebi um relatório resumido de todos os participantes, e garanto que o senhor não tem com que se preocupar. Eu saberei ser discreto.

— Assim espero Sargento.

Recebi a pasta de suas mãos e ficamos por mais duas horas repassando nosso plano. Eu mal podia me conter de ansiedade para entrar logo em ação. Ao final, recebi abraços e encorajamento dos amigos que conquistei ao longo dos anos de academia.

— Como sua mãe está conseguindo reagir com sua decisão? — Lídia perguntou assim que saímos do quartel.

— Ainda está se acostumando com a ideia. Tenho que levar em consideração que ela perdeu o marido em uma missão com essa — falei enquanto manobrava o carro para a pista da esquerda.

— Posso imaginar como ela deve estar se sentindo.

— Sei que é difícil para ela me ver seguir os mesmos passos do meu pai, mas eu sonho com isso desde que entrei na academia.

— E eu não sei? Você não parava de falar nisso o tempo todo.

— É verdade.

Nós dois rimos.

Quando chegamos em frente à casa de Lídia, eu desliguei o carro e olhei para ela.

— Por que está me olhando desse jeito? — perguntei.

— Desse jeito como?

— Como se eu estivesse indo para a morte.

— Sabemos muito bem que a vida que levamos é perigosa.

— Eu sei. Já entrei sabendo disso.

— E você não está com medo?

— É claro que estou. Mas é a nossa missão.

Lídia soltou um grande suspiro antes de falar.

— Prometa que vai tomar cuidado. O Falcão não é conhecido por sua piedade...

Peguei a mão dela e segurei entre as minhas e dei um leve beijo.

— Prometo que vou tomar cuidado, e quando a missão acabar, vamos sair para comemorar, ok?

— Acho bom mesmo cumprir sua palavra Sargento Derossi.

Ela riu.

— A partir de amanhã serei apenas Lucas — sorri de volta.

Lídia saltou do carro e antes de seguir para seu apartamento, apoiou suas mãos na porta do carro e olhou para mim.

— Não esqueça, a cada quinze dias teremos um encontro para você passar o relatório. Cuidado para não mencionar quem era seu pai, ou falar algo que comprometa a missão.

— Lídia, você quer relaxar? Estou pronto para isso a mais tempo do que você imagina.

— Espero mesmo Lucas. — disse se afastando.

Quando cheguei em casa, minha mãe estava na cozinha, como sempre. Ela adorava cozinhar.

— Senti o cheiro do bolo de milho lá da rua — falei enquanto seguia direto para o bolo coberto em cima da mesa.

— Não toque nele ainda. Não vê que está quente? — ela falou me dando um tapa na mão.

Eu ri, fingindo sentir dor.

— Isso dói, sabia?

— Não dói nada. Um homem desse tamanho bancando o garoto arteiro. Parece sua irmã.

— E por falar na minha irmã, onde está a Letícia?

— Chegou agora a pouco. Deve estar no computador. Essa geração de hoje não faz outra coisa a não ser ficar na internet.

— Vou lá ver o que ela anda acessando — falei dando-lhe um beijo na testa e saindo da cozinha.

Letícia estava vendo vídeos quando entrei no quarto.

— Não bate mais na porta não? — ela perguntou.

— Sou seu irmão mais velho, não preciso disso.

— Lembrando que isso é invasão de privacidade. Eu poderia estar sem roupa...

— Eu troquei suas fraudas, então eu iria ver nada demais.

— Eu era uma criança, agora já estou grande e exijo que você bata na porta antes de entrar.

Eu ri por que ela sempre falava a mesma frase quando eu entrava sem bater.

— Grande é uma pessoa que tem pelo menos um metro e sessenta. Quanto você mede, um metro e meio?

— Eu tenho um metro e cinquenta e cinco, Lucas. Sou bastante grande para minha idade — disse cruzando os braços em volta do peito e fazendo uma cara de zangada.

— Nossa! Que diferença enorme — debochei.

— Fala logo o que você quer e depois mete o pé.

— Ei, olha como fala com seu irmão mais velho — tentei falar sério, mas acabei rindo.

No fim, estávamos nós dois rindo a toa. Sentei na sua cama e fiquei olhando para um quadro de fotos que tinha de frente para ela. Tinha fotos suas desde o primeiro ano até agora.

— Mamãe me falou que você vai ficar fora por alguns meses.

— Verdade.

— E você vai para onde?

— Não posso falar. É segredo — falei baixinho, mas estava brincando.

— Sou boa em guardar segredos, pode me contar. Prometo não contar para ninguém.

— Nem mesmo para sua melhor amiga?

— Nem mesmo para a Ana. Dou minha palavra — disse levantando sua mão para o alto.

— Ok, vou falar, mas não pode contar a ninguém...

— Eu juro.

Letícia sentou ao meu lado e ficou esperando.

— Vou sair em uma missão.

— Tipo 007?

— Mais ou menos isso.

— E quando volta?

— Não devo demorar muito, talvez cinco meses ou menos.

— Isso tudo? E eu e a mamãe?

— Não se preocupe, vou pedir para que alguém cuide de vocês até eu voltar.

— E esse alguém se chama Lídia?

— Como sabe que é ela? — perguntei.

— Eu apenas sei. Acho até que foi ela quem se ofereceu para cuidar de nós duas.

— Por que acha isso?

— Por que Lídia está apaixonada por você e faria qualquer coisa para te agradar.

— Lídia não está apaixonada por mim. Somos grandes amigos...

— Vocês homens só enxergam o que querem — Letícia falou revirando os olhos — até mamãe já percebeu isso.

Letícia se levantou da cama e voltou a sentar de frente para o computador.

— Se isso fosse verdade, ela já teria falado alguma coisa. Lídia não é de guardar segredos comigo.

— Mas dessa vez ela está.

— Eu tenho outras coisas para me preocupar ao invés de ficar questionando os sentimentos da Lídia. Vê se não fica muito tempo na internet e não se esquece de estudar.

— Sou inteligente por natureza. Não preciso estudar quando estou em casa.

— Se eu souber que tirou nota baixa, vou vender seu computador — falei saindo do quarto.

— Duvido que a mamãe vá deixar você fazer isso...

— Eu não confiaria muito nisso.

Ela gritou algo, mas eu já estava entrando no meu quarto e fechando a porta. Coloquei a pasta que recebi do Comandante em cima da minha mesa de estudo e fui me livrar da minha roupa. Tomei um banho e ainda enrolado na toalha, comecei a analisar os documentos.

As primeiras páginas falavam das áreas vigiadas pelo Falcão. Logo em seguida o perfil de cada integrante e suas funções. Seria fácil entrar no grupo. Um informante que já estava a muito tempo envolvidos com eles, iria me apresentar com um amigo que estava querendo participar do grupo.

Para isso, eu tive que escurecer um pouco meus cabelos e esconder meus olhos azuis. Comprei lentes de contato castanho e teria que usar até o fim da minha missão. Teria que esconder qualquer semelhança com o meu pai. Falcão era também conhecido por nunca esquecer um rosto e eu não poderia arriscar.

— Estou chegando Falcão e prepare-se para o seu fim — falei enquanto olhava uma foto sua estampada em uma das folhas de papel.

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