Finalmente Livre
O cheiro de mudança ainda pairava no ar. Entre caixas de roupas e sacolas para doação, Hannah mal conseguia conter o alívio. Era como respirar fundo depois de anos vivendo em tensão. A escola havia terminado — e com ela, o último vínculo com uma cidade que nunca foi, de fato, sua.
— Finalmente livre da escola — murmurou, encarando a janela do pequeno apartamento onde viveram escondidas por tanto tempo. — Me atrasei um pouco por ter que mudar de cidade, mas agora... agora estou livre. E vou visitar o vovô. Sinto falta do ar puro.
Josy, sua mãe, levantou os olhos do armário onde dobrava as últimas peças. Sabia que esse dia chegaria. O coração apertava, sim, mas havia paz em saber que não precisavam mais fugir.
Tinham deixado Braluma, o país natal, às pressas — tudo por causa do ex-marido de Josy, um homem consumido por ciúmes e violência. As marcas no corpo e na alma levaram tempo para cicatrizar, mas o medo... esse demorou ainda mais a passar. Só quando souberam da morte dele é que Josy, enfim, respirou com alívio.
— Mãe, vamos levar só nossas roupas e deixar o resto — disse Hannah, com firmeza. — Não precisamos mais disso. O vovô disse que nossas coisas estão lá, do jeitinho que deixamos. Não precisamos mais ter medo. Ele morreu. Essas coisas aqui... a gente pode doar pra quem precisa. Eu quero voltar logo pra Braluma. Quero rever minha cidade, meus amigos...
Josy sorriu, enxugando uma lágrima disfarçada.
— Vamos sim, meu amor. Também tô com saudade do meu pai. E da Ana também... Quem diria... vocês já têm dezoito anos. O tempo voa.
— É... — respondeu Hannah, com um sorriso nostálgico.
— Guilherme deve estar enorme — disse Josy, rindo. — Lembro como ele implicava com vocês duas quando brincavam. Deve estar com uns vinte e quatro agora.
As duas seguiram conversando, embaladas pela expectativa do retorno, enquanto organizavam as últimas malas. Doaram o que já não servia, se despedindo do passado para abrir espaço para o novo. E na manhã seguinte, partiram ainda sob o céu escuro, rumo ao aeroporto.
A viagem foi longa. Horas de voo até Braluma e, depois, um ônibus empoeirado os levou ao interior do estado de Capurana, uma região no noroeste do país, próxima ao nordeste brasileiro. Ali, entre vales e montanhas suaves, ficava o povoado de Serra Clara — onde os dias amanhecem com cheiro de terra molhada e os pássaros fazem as vezes de despertador.
Quando o ônibus parou no ponto de terra batida, o coração de Hannah disparou.
Ali estava ele. O avô. Braços abertos, sorriso acolhedor, ainda que mais enrugado, o passo mais lento.
— Casa... — murmurou Hannah, descendo apressada os degraus. — Que bom estar aqui!
— Vovô! Que saudade!
— Minha pequena! — respondeu ele, a voz rouca e alegre. — Ou melhor dizendo... minha moça! Você cresceu tanto... Já não dá mais pra te carregar no colo! Hehehe.
— Esses tempos passaram, papai — disse Josy, abraçando o pai com força. — Mas é tão bom estar de volta...
O caminho até a fazenda foi preenchido com risadas, histórias e lembranças. A Fazenda Marindá parecia congelada no tempo. Os campos de girassóis dançavam com a brisa suave. O velho pomar ainda exalava o perfume doce das frutas maduras. Um riacho cortava a propriedade, espelhando o céu limpo de Capurana.
Hannah sentiu um nó na garganta ao cruzar o portão de madeira.
Tudo estava como lembrava: o rangido do piso sob os pés, as redes coloridas na varanda, o cheiro de alfazema que a avó espalhava pela casa — mesmo que ela já não estivesse mais ali.
— A Ana tá na cidade, né, vovô? — perguntou, enquanto caminhavam até a varanda.
— Tá sim. Estuda em Brisamar, mas chega amanhã pras férias. Vai adorar te ver.
Dez anos era tempo demais sem ver a melhor amiga. Hannah mal podia esperar para colocarem a conversa em dia.
Naquela noite, após um jantar simples e acolhedor — arroz de forno, farofa crocante e suco fresco de acerola — a casa foi se aquietando. Josy se recolheu primeiro, exausta da viagem.
Hannah foi para o antigo quarto. As paredes ainda tinham os adesivos de infância. O travesseiro guardava o mesmo cheiro familiar.
Abriu a janela. A lua brilhava sobre os girassóis. O ar era fresco, limpo. Sem sirenes, sem medo. Apenas grilos, cheiro de terra e a calma do interior.
— Boa noite, mãe. Boa noite, vô — disse baixinho.
— Boa noite, abelhinha... — respondeu o avô, do corredor, com a voz embargada.
— Boa noite, Hannah... — disse Josy, antes de apagar a luz.
Ali, sob o céu estrelado de Serra Clara e envolta no calor do lar, Hannah sentiu — no peito e na alma — que podia, enfim, começar de novo.
