Capitulo 1: Chuva de Janeiro
Eu caminhava lentamente pelas ruas, pensando na nossa recente e nada tranquila discussão com Logan Striker, meu, agora oficialmente, ex-namorado. Ele disse, com todas as letras, que não poderíamos ficar juntos, além de mencionar algo sobre o “seu maldito sangue”, como se isso explicasse alguma coisa. Ele é um babaca, especialmente após termos feito tantos planos juntos. Mas sei que a responsabilidade é mais minha do que dele; eu me iludi sozinha. Faz meses que mantemos nosso relacionamento escondido, e eu me sentia como uma amante.
Respirei fundo o ar gélido de janeiro, decidida a esquecer Logan, mas sabia que era mais fácil falar do que fazer. Ainda mais quando era ele que me aquecia durante as madrugadas. Esse homem havia marcado não só meu corpo, mas também minha mente e alma.
— Liv!
Pude escutar meu apelido sendo chamado, mas eu realmente estava fugindo de todos no momento. Sentia que ia desabar e só queria chorar e sofrer em paz, de preferência em casa, debaixo da coberta. Mas, antes que pudesse cruzar a rua, senti uma aproximação repentina. Olhei para o lado e vi o rapaz sorrir abertamente. Carter nunca escondeu que tinha interesse em mim, mas ele tinha interesse em metade das garotas da cidade. Comigo, era especial, porque ele tinha uma rivalidade sem igual com Logan.
— Oi, Carter.
Cumprimentei-o educadamente, embora honestamente não quisesse conversar. Minha mãe sempre me ensinou a ser educada. O sinal ficou verde e comecei a caminhar pela faixa, notando que Carter me seguia.
— Posso te acompanhar até em casa?
Pensei um pouco. Poderia apenas o dispensar, mas que diferença faria? Pelo menos teria companhia até em casa. Assenti com a cabeça. Não poderia evitar as pessoas apenas devido a Logan, que afinal não queria nada comigo.
— Você parece um pouco triste.
Ele comentou, enquanto eu ficava em silêncio. Nunca fui do tipo que fala dos próprios problemas com os outros. Sou reservada quanto a isso, especialmente quando se trata de Logan. Por que agora as palavras querem sair da minha boca?
— Eu e o Logan… as coisas estão muito estressantes. Quer dizer, agora não tem mais estresse, porque acho que dessa vez não tem mais volta.
Confessei, vendo os olhos claros de Carter me analisarem. Ele suspirou audivelmente e eu o olhei de soslaio. Carter era o tipo de cara que qualquer um teria prazer em conhecer. Bonito e inteligente, mas, bem, apenas se você não tivesse um Logan na vida.
Porque ele era o tipo de homem que fazia sua calcinha molhar só de olhar.
— Por quê?
Olhei para um lado e para o outro para poder atravessar a rua. Por ser um dia frio e chuvoso, poucas pessoas se arriscam nas ruas molhadas durante a noite, o que deixava o trânsito quase inexistente.
— Acho que ele está me escondendo algo. Eu não devo ser boa o suficiente para ele confiar.
Pude ouvi-lo rir. Encarei-o, vendo sua risada morrer lentamente, substituída por uma tosse forçada.
— Você não acredita nisso? Ele só pode estar louco! Você é mais do que suficiente para qualquer homem.
— Acho que não para ele.
Disse desanimada, mas de repente uma estranha sensação se apossou de mim. Era como se cada passo meu estivesse sendo vigiado. Um frio percorreu minha espinha, me deixando nervosa.
Olhei para Carter, que falava algo que eu sequer escutava. Estava ocupada com minha própria paranoia, e tudo ficou ainda pior quando o movimento da rua desapareceu, um movimento que já era quase inexistente.
— Olivia?
Carter parou. Ele me chamou com incerteza na voz. Não demorei a me virar para ele, admirando-o em silêncio. Seu rosto era marcado por traços fortes, o cabelo castanho preso em um rabo de cavalo mal feito. Ele era lindo, mas Logan, Deus, era um nível tão diferente.
— Já que você e o Logan não têm mais nada, que tal sairmos para curtir um pouco?
Eu queria ser do tipo que se entrega ao primeiro que surge após um término, ainda mais sendo tão belo assim, mas eu não poderia estar mais triste. Logan sempre foi minha paixão, o homem que amei desde a infância, e em algum momento ele me correspondeu. Mas não é mais o mesmo, mas mesmo que as coisas terminem assim, eu ainda amo mais do que qualquer coisa.
Aconteceu alguma coisa com sua família, algo que o fez se afastar e mudar comigo. Ele me evitava ao máximo, sumia, e agora simplesmente me dispensou, mas eu sabia como a família dele era complicada, mas que isso era completamente abusivo.
E o que eu poderia fazer? Nunca fui do tipo que machuca os sentimentos dos outros por birra. Mesmo sabendo como Logan e Carter se odeiam, não poderia colocar Carter em uma situação difícil, ainda sabendo como o Striker lida com a raiva.
— Eu não estou muito a fim de sair, mas você poderia me acompanhar até meu apartamento.
Sorri, tentando não soar arrogante ou grosseira. Eu gostava de Carter, mas apenas como o bom amigo que era. Ele retribuiu o sorriso em silêncio, embora eu soubesse que logo ele voltaria aos seus maus hábitos.
— Eu não sou muito fã de chuva.
Comentou. Eu podia sentir as gotículas de água caírem sobre meu casaco. Eu não podia dizer o mesmo; amava chuva e frio.
— Eu gosto. Acho mais agradável do que o sol torrando minha pele.
Quando adentramos o pequeno bosque, as luzes dos postes já não alcançaram as árvores. O caminho era escuro, mas a lua iluminava um pouco da trilha à frente. Era o cenário perfeito para uma história de terror.
Andávamos tranquilamente pela trilha, mas não podia dizer que algo ali parecia normal. Estava incrivelmente silencioso, nada habitual, devido aos sons de animais que sempre estavam presentes. Era algo que eu gostava de admirar. Já estava acostumada com aquele lugar; tudo nele me agradava, mas hoje havia algo estranho, quase sinistro.
E eu não fui a única a notar. Carter parecia desconfiado, seus passos aceleraram, e sua mão veio até meu braço, segurando com certa força enquanto me puxava.
— Escutou isso, Olivia?
Perguntou. O rapaz parou repentinamente, seus olhos avaliando tudo ao redor. Eu apenas tentava ouvir algo, qualquer som que fosse suspeito, o bosque era como um parque ecológico, mas era bastante usado por muitas pessoas, sempre tinha um como uma intenção ruim.
— O que foi isso, Carter?
Observei em um canto escuro, um brilho vermelho saindo do meio dos arbustos, era como grandes olhos, eu senti o ar deixar meu corpo. O vulto negro pulou por cima de mim. Só pude observar ele aterrissar no chão, indo em direção a Carter. Um grito parou em minha garganta.
— Corre, Olivia.
Carter gritou, sendo arrastado pelo que quer que fosse aquilo. Pude ouvir algo bater, parecia o bater das pesadas mandíbulas uma contra a outra, mas de repente o silêncio voltou a reinar. Dessa vez, quem seria a caça seria eu. Com esse pensamento, corri o mais rápido que consegui, tentando ao menos chegar em casa. Mas não foi suficiente. Quando dei por mim, ele estava à minha frente. Seus olhos vermelhos eram hipnotizantes, seus dentes brilhavam com a saliva fluorescente misturada ao sangue. Sangue que eu temia ser do meu amigo.
Parei, sentindo meus pulmões pedirem por ar. A verdade é que eu não era fã de esportes; uma sedentária nata.
Sempre fui o tipo que acredita no que a ciência mostra. Nunca acreditei em contos de fadas; coisas sem explicações lógicas não eram plausíveis para mim. Porém, aquilo não poderia ser encontrado em uma seção sobre animais habituais; aquilo parecia que eu encontraria na seção de contos infantis. Aquilo parecia um lobisomem.
Ele parecia calmo, apenas me encarando enquanto eu planejava uma maneira de fugir. Meu coração saltou no peito quando ele deu um passo à frente. Isso claramente me assustou, pois caí para trás sem motivo, sentando-me na grama úmida e desconfortável.
Ele pareceu interpretar isso como uma tentativa de fuga, já que antes estava em pé sobre as patas traseiras, mas agora correu sobre as quatro patas, avançando sobre mim e me derrubando na grama. Seus olhos vermelhos me analisavam novamente. Eu tinha certeza de que teria um ataque do coração, pois meu batimento era audível. Fechei os olhos, esperando que seus dentes me rasgassem.
