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Capítulo 1

—Acorda, Elise Van Aarden! —grita minha mãe da cozinha—. Vais chegar atrasada para a aula!

Acordo de repente e vou direto para o chuveiro. Droga! São 8h45 e minha primeira aula começa às 9. Não é um bom começo de ano letivo, principalmente porque corro o risco de chegar atrasada. Eu sabia que não deveria ter seguido a Noémie Laurent até a festa dela. Deveria ter ficado dormindo tranquilamente em casa.

Saio do chuveiro, me visto, penteio o cabelo rapidinho e faço um rabo de cavalo. Olho para o relógio: são 8h58. Pego minha mochila Adidas e desço as escadas. Ao chegar ao térreo — já que na minha casa todos os quartos e banheiros ficam lá em cima e o resto lá embaixo —, passo pela cozinha para dar um oi para minha mãe e meu padrasto.

Sim, eu não tinha contado, mas minha mãe se separou do meu pai e veio morar na Suíça com meu padrasto. Ela conheceu meu padrasto e agora eles estão casados. Fim da história. Não gosto de falar muito sobre esse assunto, isso me incomoda.

—Oi, mãe, bom dia, Hugo Delacour (meu padrasto).

Peguei uma torrada da mesa e passei geléia. Sei que esse verbo não existe. Mas estou sempre aperfeiçoando meu francês. Deveriam me contratar na Academia Suíça.

—Você não deveria ter saído com a Noémie ontem, Elise —minha mãe me repreende educadamente. Agora você vai se atrasar.

—Eu sei, mamãe, não vou fazer isso de novo. Você nem imagina como estou ansiosa para fazer 18 anos. Bom, vou indo, senão não vou chegar a tempo para a segunda aula.

Te dou um beijo e saio correndo como uma lebre.

—Eu te levo, vai ser mais rápido —diz Hugo.

É a única pessoa com quem eu não queria estar. Nossa relação é bem tensa. Ainda não consigo aceitá-lo na família. É como se ele fosse o responsável pelo divórcio dos meus pais.

—Que ótima ideia. Assim vocês podem conversar juntos —diz minha mãe alegremente.

Desisto. De qualquer forma, não é como se eu tivesse outra opção. Ainda tenho 18 anos, então ainda sou recém-maior de idade!

Hugo se levanta da mesa, dá um beijo na minha mãe e partimos para a minha escola. São 9h05. Moramos nos arredores de Genebra. Não muito longe do centro da cidade, a uns trinta minutos de carro, onde fica minha faculdade de arquitetura.

Eu queria ser designer de moda, mas as mães do Hugo e a minha não querem. Na nossa comunidade, se seus pais dizem “você tem que fazer isso”, você tem que fazer. Então, a faculdade de arquitetura era o que conciliava minha paixão pelo desenho e os desejos da minha mãe.

Durante o trajeto, coloquei os fones de ouvido e fingi dormir para evitar falar com o Hugo. Ao chegar na faculdade, saí do carro sem dizer nada e sem olhar para ele. Sei que não é educado. Bem, estou falando isso para você.

—Desculpa, estou um pouco tensa. Obrigada por me trazer, nos vemos hoje à noite. Vou voltar de metrô.

Ele parecia contente. Sei que preciso me esforçar; minha mãe e eu já conversamos sobre isso. Mas, por enquanto, é o melhor que posso fazer.

—Sim, claro. —Tenha um bom dia —diz ele com um sorriso nos lábios.

Dedico-lhe um breve sorriso antes de entrar na faculdade. Olho para o relógio. São 9h50. Droga, minha primeira aula já deve ter acabado. Eu deveria me apressar. Mas como não tenho senso de orientação, passo quinze minutos procurando a sala de aula. Quando finalmente alguém me indica, bato na porta antes de entrar.

Me vejo diante de umas trinta pessoas que me olham fixamente. Engoli em seco com dificuldade. Gostaria de me transformar em um rato, quando ouço uma voz grave me chamando por trás.

—Quando se chega atrasada, é preciso se apressar, moça. —Merda, isso cheira a problemas.

Eu me virei e esbarrei no peito de um homem. Como ele é duas cabeças mais alto do que eu, tenho que levantar o rosto para ver o rosto dele. É de morrer.

—Você pode parar de me olhar assim e se sentar?

Um tom frio e gélido me traz de volta à realidade. Claro, toda a turma começa a rir. Eu fico vermelha, bem, não totalmente. Mas mesmo assim me sinto envergonhada. Corro para me sentar em um lugar vazio na primeira fila. Ele sobe ao pódio. Que bonito ele é. Nunca tinha visto um professor tão bonito na minha vida. Ele tira uma folha da pasta e pega o marcador da mesa.

—Meu nome é Adrien Kessler. Ele escreve o nome no quadro. Tem um tom de voz cativante. Mas, claro, para vocês serei o professor Kessler. Serei seu professor de matemática durante o curso. Ele percorre a sala com o olhar e para em mim. —Uma última coisa: não aceitarei mais atrasos! Nenhum mais! Fui claro, senhorita?

Abaixo a cabeça e murmuro um “sim” bem baixo. “E isso vale para todos vocês também”, diz ele enquanto percorre a sala com seu olhar gélido. “Vamos começar com o programa do curso. E, se tivermos tempo, começaremos direto com a aula.”

A aula passa rápido; na verdade, já se passaram duas horas. Mal consigo ouvir o que ele diz, de tão envolvente que é a voz dele. O sinal toca. Todos pegam suas coisas e começam a sair. Eu também me preparo para sair quando ele me chama.

—Moça Elise, um momento, por favor. Guardo minhas coisas na mochila enquanto a sala fica vazia. Ele se coloca na minha frente, levanta meu queixo e nossos olhares se cruzam. Seu olhar gelado me incendeia. Engoli em seco com dificuldade. Então, ele sussurrou no meu ouvido: —Pedi que você ficasse para dizer que, da próxima vez que você chegar atrasada, eu mesmo vou cuidar do seu caso. Ele saiu da sala, me deixando parada ali como uma idiota.

Quase um mês depois do início do semestre, todas as meninas da turma esperam ansiosamente pela aula de matemática do professor Kessler. As palavras dele no final da primeira aula não param de rondar minha cabeça. É verdade que eu também espero ansiosamente por essa aula.

Não vou mentir, mas menos do que as outras, porque a matemática e eu estamos em guerra. Por isso, desde que o ano começou, não tirei nenhuma nota acima da média. Temo o pior. Meus pais, principalmente minha mãe, vão ficar muito bravos comigo.

As provas parciais estão chegando e eu preciso passar nessa matéria, que é fundamental para a minha carreira.

—Elise! Elise! A Noémie e a Inès Moreau estão aqui —grita minha mãe da sala.

Desço correndo e, de fato, quase tropeço em um degrau e caio.

—Oi, meninas —digo enquanto me jogo nos braços delas—. Vamos pro meu quarto?

—Sim, vamos —respondem em uníssono.

Subimos pro meu quarto. Tranco a porta e ligo meu alto-falante, o presente do Hugo pelo meu aniversário de 18 anos.

—Por que você ativou o código vermelho? —pergunta a Noémie.

Temos diferentes códigos de cores entre nós, dependendo da gravidade dos nossos problemas, e é raro chegar ao vermelho.

—Inès, preciso mesmo da tua ajuda. Conto-te tudo o que me aconteceu desde que o semestre começou. Preciso que me dês aulas de matemática para conseguir passar nas provas parciais.

—Concordo, mas da última vez que revisamos juntas acabamos discutindo.

Eu me lembro. Como não entendia nada, fiquei brava com o jeito que a Noémie ensinava. Eu me enganei completamente. É verdade que passei na prova, mas não estou muito orgulhosa de como fiz isso. E ainda não tive coragem de confessar para as minhas amigas que roubei as provas e procurei as respostas para passar.

—Bem, eu não posso te ajudar muito. A Noémie estuda numa escola de idiomas para ser diplomata e a Inès está se preparando para a prova de matemática. Mas você mencionou um garoto bonito na sua história, não foi? —Isso me interessa —disse a Noémie, jogando-se na minha cama.

—Sempre você e os garotos, Noémie —suspirou a Inès, desesperada.

Nós três caímos na gargalhada.

—É de morrer, Colette Dumas. Nunca vi ninguém mais sexy. Espera, vou te mostrar umas fotos.

Ligo o computador, porque, obviamente, logo depois da primeira aula, como o professor tinha virado um verdadeiro fenômeno, várias garotas tiraram fotos dele sem que ele soubesse e criaram uma conta no Instagram e um site pra ele. Passo a câmera pra ela.

—Nossa! Ele não pode ser tão bonito assim! —Espera, deixa eu ver também —exclama Inès, que se senta ao lado de Noémie—. Nossa Senhora!

—Se fosse por ele, eu passaria a vida toda na aula de matemática. Mas olha só que bunda firme!

—Noémie! —exclama Inès, indignada—. Vamos lá, se comporta! Afinal, ele é o professor da Elise.

—Não, não me incomoda nem um pouco.

Eu dou uma risada e a Noémie lança um sorriso triunfante para a Inès.

—Mas, Chéché, olha só isso! Não dá vontade de fazer coisas meio indecentes? Ele deve transar como um deus, como um Apolo!

—Então esse vai ser o novo apelido dele?

—Sim, acho que sim. Além disso, ele merece.

Passamos a tarde falando de tudo e de nada. Faltam dois meses para as provas parciais, então tenho tempo de sobra para me preparar e passar.

Hoje é dia de eleição para representante de turma. Estou muito animada porque me candidatei e espero ganhar. Consegui fazer uma pequena campanha com uma das minhas novas amigas da escola, a Anika Stein. Eu deveria apresentá-la à Colette e à Chéché. Tenho certeza de que elas se dariam muito bem.

Bem, vou enfrentar a Linda, uma garota de quem não gosto nem um pouco. A turma toda está sentada no anfiteatro. A porta se abre e alguém entra na sala. Será o professor Kessler? Não tenho aula de matemática. Mas é um verdadeiro prazer vê-lo. Ele continua tão bonito como sempre.

Bom, vamos logo! O professor Brook (que é meu professor de desenho, embora na verdade dê aulas de arte) está ocupado com alguns assuntos urgentes. Ele me pediu para supervisionar a tua eleição. Quem está inscrito?

Quatro ou cinco mãos se levantam na sala, entre elas, claro, a minha. O professor Kessler anota o nome de cada participante e chega a minha vez.

—A retardatária também, pelo que vejo! Todos caem na gargalhada. Estou morrendo de vergonha. Subimos ao palco um por um e fazemos um breve discurso; depois vão votar.

Ele se senta na cadeira e nos deixa fazer nossos discursos. A Linda vai antes de mim. Quando ela passa, vejo-a balançando o bumbum na frente de toda a sala. Evidentemente, o professor se acomoda e a olha sem pudor. Sempre os homens.

Mas o que apareceu depois mudou tudo.
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