CAPÍTULO 6. O que é correto?
Tentei fazer meu engasgo o mais silencioso possível e abri a água da pia para tentar esconder o barulho, mas a sensação no fundo da minha garganta me fez não apenas arquear sobre o vaso sanitário, mas também tossir e lacrimejar. .olhos. Algumas náuseas depois, quando meu estômago entendeu que não tinha nada para expelir, senti— me seguro o suficiente para me levantar do chão onde estava ajoelhado, lavei o rosto e enxaguei a boca.
Grávida.
Seria realmente possível que ela estivesse grávida? Toquei minha barriga, como se pudesse sentir o que estava acontecendo dentro dela. E ela não sentia nada, nem cócegas, muito menos sexto sentido, definitivamente não tinha esse sentido maternal.
E eu não sabia se queria tê— lo.
Me olhei no espelho, me esforçando para me imaginar com a barriga saliente e tudo que isso implicava, mas não consegui, também não queria ter aquela imagem na cabeça.
Saí do banheiro tentando agir normalmente, mas Ramsés estava me esperando parado ao lado da porta, ele estava preocupado, notei em seus olhos e em seus ombros caídos, e isso me confortou, afinal se descobrisse que eu estava grávida, queria saber que estávamos na mesma página, que pensávamos e sentíamos o mesmo.
Mas se havia alguma diferença, Ramsés não era a única pessoa que me observava com preocupação. Hayden me observou da cama enquanto a enfermeira terminava de ajustar sua medicação.
— Vamos esperar lá fora— , anunciei.
— Não mova um pé, Amelia,— Hayden disse, e eu me senti pega em alguma travessura, mas eu não me mexi, eu permaneci imóvel.
E Ramsés sabia de alguma coisa porque estava tentando não rir. Como ele poderia rir em um momento como este?
— Você disse a ele?— Eu sussurrei.
O francês negou: — Ele é médico— e deu de ombros.
A enfermeira finalmente saiu do quarto e Hayden me pediu para vir, o que eu fiz, minhas pernas tremendo como geleia.
— Gostou da comida?— ele perguntou e eu neguei, não podia mentir para ele, ele iria me descobrir, se toda a expressão do meu corpo já não tivesse me traído. Vomitou alguma coisa há pouco?—Neguei—. Só náusea então. Tontura? Cansado?— Eu acenei com a cabeça para tudo e Hayden respirou fundo, me examinando com seu olhar. Quando foi a data da sua última menstruação? Eu não sabia, então neguei. Provavelmente mais de três semanas, porque se não, você se lembraria. Eles estão se cuidando? Esqueceu— se de algum comprimido?
— Alguns— , eu menti e quando ele ergueu a sobrancelha, eu tinha que ser honesto, — quase todos eles.—
— Vou presumir pela sua cara apavorada e pela de Ramsés que você terá pulado as pílulas, mas não a sobremesa...
— Não é pequeno— almoço, almoço, jantar, lanche...— Ramsés acrescentou, mas Hayden levantou— se da cama e olhou para Ramsés, o que o fez calar a boca e o seu sorriso desapareceu imediatamente.
Hayden atravessou a sala, seus passos furiosos ecoando nas paredes. Ele estava vivo, mais do que nunca, energizado pela raiva que viu nos olhos dela.
— Você engravidou Amelia?— , ele finalmente gritou, — eles engravidaram?!—
— Não fique chateado, é prejudicial— , respondeu o francês.
— Ramsés! Não te metas comigo. A proteção é responsabilidade de ambos. Droga, eu disse a você! Já te disse mil vezes, sem gravidez prematura, sem doenças venéreas, sem drogas. Dois de três? Eu não estou nada feliz. diabos eu tenho que cortar seu pênis?
— O importante aqui, padrinho, é que você está bem para querer cortar meu pênis.
— Bem, talvez se eu tivesse cortado alguns anos atrás, você não teria engravidado Amelia.— Eu deveria ter feito uma vasectomia— , ela lamentou, — mas estou na hora com Gabriel.
— Pelo amor de Deus, deixe— me dar a notícia.—
Ramsés não levava nada a sério, estava brincando, mas eu tremia de nervoso.
— Vou cortar só para apagar a piada da sua cara. Amelia, você fez o teste?—ele me perguntou e eu mal murmurei um não, porque não queria ter que explicar a ele que não fiz o teste porque ele estava morrendo em uma ambulância para o hospital e que o mínimo que eu queria era confirmar que enquanto a vida dele se esvaía, em mim nascia uma.
Era uma superstição, mas com a vida de Hayden ele não queria correr nenhum risco.
Hayden procurou seu telefone e percorreu o diretório até encontrar o número que procurava.
— Preciso da sua ajuda imediatamente, mas é muito importante que ninguém saiba, especialmente Ameth. Eu espero você aqui.
Joseph chegou depois de 5 minutos, não estava com o mesmo sorriso de sempre, acho que a ligação de Hayden o assustou.
— Eu preciso que você faça um teste de gravidez em Amelia.
Os olhos de Joseph se arregalaram e ele entendeu a urgência e a discrição necessárias. Ele me pediu para ir com ele e eu não tive escolha, Hayden tinha um olhar assassino que estava muito perto de explodir em uma grande raiva, então eu saí correndo. Assim que fechei a porta ouvi o grito de Hayden.
O exame era rápido, e o resultado sairia em poucos minutos, solicitou José com urgência. Voltei para o quarto, entrei com medo, uma bronca monumental me esperava.
Doeu?, perguntou— me Ramsés assim que me viu.
Não, e você? — perguntei porque vi seu rosto pálido e um tanto assustado.
E ele não me respondeu. Isso me deixou muito mais preocupada.
Ramsés me pegou pela mão e nos sentamos em um dos móveis esperando Hayden sair do banheiro.
Assim que ele me viu começou a me xingar, me contando tudo que eu imaginava que ele iria me contar. Ele não estava gritando comigo, mas não era necessário saber que ele estava com raiva.
— Sinto muito, mas não posso cobrir isso para você.— Fizemos uma promessa e não vou quebrar, muito menos depois de tudo que passamos.
Hayden pegou o telefone e notei seu nervosismo ao discar o número de Fernando, e ele ficou aliviado quando atendeu. Eu tinha certeza que seu nervosismo não era pelo que teria a dizer a eles, mas porque achava que não iriam atender. dele.
Quantas vezes você ligou sem ser atendido? Essa pergunta me encheu de tristeza por ele.
— Ei! Mike e você devem ir ao quarto com urgência. Só você. Não, estou bem, mas eles devem vir. Sim, eles estão aqui comigo. Não, eu não os peguei em lugar nenhum. Vem e vai.
Primeiro chegou a enfermeira com um envelope branco com meus resultados e alguns passos atrás vieram Fernando e Mike.
— O que aconteceu?— foi a primeira coisa que Fernando perguntou.
— Quanto vai nos custar?.
— Você não fechou o fundo dos meninos?— Hayden perguntou.
— Desligue isso?— Você está louco? O problema era com você, não com eles, se eu fechar estaríamos arruinados — ele brincou, mas sei que havia alguma verdade em suas palavras.
— Bem?— Ferdinand insistiu.
— Bem...— Hayden entregou— lhes o envelope, ele ainda nem o havia aberto.
Fernando abriu e tirou o papel, Mike se inclinou e Hayden nem quis vê— lo, acho que o médico sabia muito bem o que se falava ali.
Eles ficaram em silêncio e não piscaram. Foi bastante assustador.
Mike queria desamarrar a gravata, mas não tinha nem uma. Ele estava sufocando, sua respiração era quase imperceptível e eu vi como seu rosto começou a mudar de cor aos poucos.
Fernando caminhou até a janela do quarto sem dizer uma palavra.
Eu esperava que você não tentasse pular
— Graças a Deus estamos em uma clínica. Peça ajuda Hayd, peça — Mike começou a se deitar na cama e Hayden começou a ver como ele estava.
— Você não tem nada, não é um ataque cardíaco, nem mesmo um ataque de pânico. Respirar.
— Eu sei que não é isso!— É a raiva tão grande que eu tenho. Peça ajuda, eles vão precisar para me conter, porque vou matá— lo. VOCÊ A ENGRAVIDOU! RAMSES O'PHERER VOCÊ A ENGRAVIDOU!
E assim começaram os gritos que senti que podiam ser ouvidos até no último andar da clínica.
— Não posso acreditar nisso. Nós conversamos tanto sobre isso! Tantas vezes. Deus te abençoe— , acrescentou Fernando. ELES NÃO TEM DINHEIRO PARA CONDOMÍNIOS? COMPRIMIDOS? GINECOLOGISTA?.
— Não fomos claros o suficiente?— Gráficos! Lembro que fizemos gráficos para eles sobre como não engravidar alguém. Passei a porra de uma noite inteira fazendo um slide de power point. Fizemos um exame. Louve o Senhor!. Como isso aconteceu?!— Mike perguntou.
— Bem...— Ramsés começou a responder.
— Cuide bem de sua boca, querido, porque eu não me importaria de reorganizar seus dentes se você inventar uma piada agora— , Hayden o advertiu.
E Ramsés mordeu a língua.
Eu não conseguia dizer nada, estava à beira das lágrimas e, acima de tudo, estava com medo.
Os gritos continuaram e em algum momento Fernando começou a gritar em vários idiomas, Hayden nos repreendeu em venezuelano e cara, eu me lembrei dos meus avós. Mike começou a pegar muitas contas, muitas!. Não entendi quantos números ele estava calculando, mas acho que ele até considerou preços de fraldas no atacado. Suas contas também começaram a me dar dores de cabeça.
E então tudo piorou.
— Eu deixei meu carregador aqui?— Porque se não, eu perdi – Gabriel entrou na sala, verificando os conectores, alheio a tudo o que estava acontecendo. Quando ninguém respondeu, ele ergueu o rosto. Beleza ? _ O que aconteceu? Você está bem? Gabriel se agachou na minha frente, apertando meus joelhos gentilmente. Olho para Ramsés quando não respondi. Que ocorre?.
Ele não sabia o que responder, ninguém sabia, e aí o francês abriu a boca grande.
— Tu vas être oncle - Você vai ser tio .
O queixo de Gabriel caiu com o peso, ele olhou para nós várias vezes, esperando que alguém dissesse a ele que era uma piada. Então, entreguei a ele o papel que indicava meu positivo irreversível, em algum momento no meio dos gritos que ele havia tirado.
— Eu serei tio ! Je serai oncle ! — Eu vou ser tio ,— ele repetiu várias vezes enquanto um sorriso começava a aparecer em seu rosto.
Primeiro abraçou o irmão com força e o francês até sorriu para ele, espero que tenha se contagiado com seu humor, pois a situação não era nada engraçada.
E então foi a minha vez. Ele me abraçou forte e depois se desculpou como se tivesse me machucado. Olhei para ele consternado. Ele perdeu a cabeça?
— Serei o tio e o padrinho. Eu já disse, se você se atrever a postar outra pessoa, nunca mais falarei com você na minha vida.
Eu queria calar a boca dele, eu queria dizer a ele que isso não era engraçado, que não era engraçado. Eu queria dizer a ele que eu... que eu não estava feliz. Mas ele esvoaçou pela sala parabenizando a todos, tentando espalhar sua alegria para eles. Os adultos fingiam sorrisos e erguiam levemente os cantos dos lábios, como quem tenta sorrir sem querer.
Isso não era o que ele havia imaginado. Grávida na minha idade. E a Universidade? Minha carreira? Meus planos?. O que isso significava para Ramsés e para mim? Sou uma estupida. Estúpido. Estúpido. Como pude esquecer a pílula? Quão?. Por que não me injetei? Tantos métodos contraceptivos e preferi confiar na minha memória.
E então eu comecei a chorar.
A voz de Gabriel calou— se imediatamente e os braços de Ramsés envolveram— me tão rapidamente que engasguei.
— Querida, vamos ficar bem. Estará bem. Não é tão ruim.
— Não me diga que não é sério! Sua carreira, minha carreira. Isto é uma loucura. Eu sou tão estúpido— , lamentei entre soluços.
— Calma Amélia. Não vai adiantar nada— , Hayden me disse. Sim, erros foram definitivamente cometidos, mas temos que seguir em frente, encontrar uma maneira de fazer dar certo. Há muito tempo pela frente.
— Nós podemos fazer isso. Posso conseguir um emprego de meio período, vou diminuir a carga horária e não importa se me formar um pouco mais tarde — Ramsés sussurrou para mim e eu não consegui articular uma palavra, só chorar.
— Claro, Amelia, a julgar pelo que você me contou sobre sua última ausência, você provavelmente está na terceira ou quinta semana.— É tempo suficiente para nos prepararmos para receber o bebê, para nos organizarmos.
E comecei a negar antes mesmo de as palavras saírem da minha boca.
— Não... eu não... eu não posso... não... eu...— gaguejei e Ramsés me soltou para ver meu rosto.
— O que você não pode? O que você não sabe?—ele me perguntou confuso.
— Não sei se posso, não sei se quero.
E novamente aquele maldito silêncio, desta vez mais intenso do que nunca.
— Saiam todos— , ordenou Fernando.
— Não vou— , responderam os irmãos em uníssono, com tanta firmeza que Fernando teve que repetir a ordem.
— Ela é minha namorada e tem meu filho ou filha em seu ventre. Não vou, pai — a firmeza da voz de Ramsés me impressionou, mas também me machucou.
Em poucos minutos ele está pronto para dar tudo, e eu nem sei se conseguiria.
Fernando olhou para Mike e Hayden em busca de apoio, mas ambos balançaram a cabeça. Eles não seriam capazes de tirar os irmãos de lá. Ele respirou fundo e se agachou na minha frente, onde Gabriel estivera minutos antes.
— Você tem o direito de decidir o que quer fazer, o que lhe peço, imploro, é que pense bem e não tome uma decisão precipitada.
— Você tem tempo suficiente para dizer o que quer fazer, Amelia.— Hayden estava mais calmo.
Senti como o peito de Ramsés inflava lentamente e desinflava rapidamente.
— Faremos o que você quiser. Se você quiser começar uma família eu estarei pronto, se você não estiver pronto eu vou respeitar. Eu vou no seu ritmo, querida.
— E se você decidir que está pronto, nós o apoiaremos. Para ambos. Eles continuarão estudando, terminarão seus estudos no prazo e ninguém trabalhará meio período até que se formem. Acho que os fundos de emergência do Ramsés e do Gabriel cobrem a gravidez.
— Claro que cobre— , disse Mike, aproximando— se, — você ficaria surpreso com o que esse fundo de emergência cobre.— Não queremos que você se preocupe se pelo menos essas despesas serão cobertas.
Suas palavras me deram algum alívio, mas minhas dúvidas ainda estavam lá. Esses planos pareciam ótimos, mas eu estava grávida . Quem ficaria vários meses sem poder ir para a aula seria eu, quem teria que cuidar de um bebê recém— nascido seria eu. Na melhor das hipóteses, eu ficava pelo menos 8 meses sem ir às aulas, o que significava perder um ano inteiro. Embora eu descobrisse naquele momento que faltar às aulas não doía tanto quanto antes, doía mais saber que o resto da minha vida mudaria irremediavelmente.
Um bebê, um segundo bebê, porque além do que já tenho no ventre, tem o da minha mãe. Dois bebés. Dois.
Eu não poderia imaginar voltar para a aula assim que eles dissessem. Eu não imaginava o Fernando saindo de uma reunião na embaixada porque eu tinha um exame de Contabilidade. Nem Hayden mantido acordado por um guarda, cuidando dele enquanto eu estava na aula, nem Mike me acompanhando para levá— lo ao médico porque Ramsés está na universidade.
Não era uma responsabilidade que recairia sobre eles, era só minha e mesmo que eles ajudassem, era eu quem tinha que assumir. Bem, Ramsés e eu. Enquanto o dinheiro não seria um problema, o tempo era.
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Enquanto todos dormiam, eu olhava para o teto do quarto, preocupada com uma chuva de pensamentos que me deixavam tonta. Tirei do estômago o braço com que Ramsés me abraçava e levantei— me devagar para não acordar ninguém no quarto.
A luz forte do corredor da clínica me cegou por um momento antes de eu caminhar até a pequena sala de espera do andar onde eu estava.
Sentei no móvel frio, levantei as pernas para me aquecer e olhei para a tela do meu celular, precisava falar com alguém, um amigo que pudesse ser honesto e objetivo. Nunca fui uma pessoa de ter muitos amigos, tive poucos mas os melhores. Marypaz foi minha primeira melhor amiga e apesar de tudo que passamos encontramos uma forma de continuar nossa amizade; Mikaela tinha sido minha aquisição mais recente, eu adorava aquela garota, e em relação a Sara e Isabel, elas haviam deixado de ser minhas amigas e agora se eu pudesse chamá— las de colegas de faculdade. Eles haviam mudado tanto que não chegamos a um ponto em que pudéssemos nos encaixar novamente, o espaço cresceu tanto entre nós que nos cumprimentamos na universidade enquanto eles caminhavam com seus novos amigos, longe de mim.
A minha amizade com a Sara e a Isabel não sobreviveu com apenas algumas mudanças na minha vida, o que perderia eu se fosse uma mudança tão grande como ter um filho? Eu não podia ir aos fins de semana da faculdade, porque não podia deixar um bebê sozinho por um fim de semana; até mesmo uma simples festa de final de semestre pode ser uma logística exaustiva. Nenhum plano improvisado nem mesmo para ter algo diferente para o almoço.
Por que ele estava pensando isso agora? Talvez porque fizesse parte das muitas coisas que mudariam com uma criança. Festas, reuniões e até conversas, tudo isso desaparecia e ela ainda não estava preparada para isso.
Liguei para minhas amigas, Marypaz e Mikaela. Eu não estava pronta para que minha amizade com eles mudasse, também tinha medo de perdê— los quando minhas responsabilidades de mãe se interpunham entre nós. Liguei porque precisava falar com meninas como eu, alunas, que talvez pudessem me entender ou me dar um ponto de vista diferente, que pudessem realmente entender o que me faltaria se eu fosse mãe nessa idade.
Pacita me atendeu bem rápido, ela estava sentada na escrivaninha de seu dormitório universitário, me cumprimentou calorosamente e me mostrou que apesar da hora ainda estava estudando para uma prova que teria no dia seguinte. Mika demorou um pouco mais, estava completamente sonolenta e embora eu tenha me oferecido para ligar para ela outra hora, ela se sentou em sua cama e nos mostrou que uma loira dormia pesadamente ao lado dela.
— Deixa pra lá, Mia, você não ligaria tão tarde a não ser que tivesse alguma boa fofoca para nos contar.— Pacita se jogou na cama, se preparando para a notícia.
— Em que encrenca os meninos se meteram desta vez?— Ryan foi chamado hoje por Mike sobre o O'Pherer Crisis and Disaster Reserve Fund. Ele ficou um pouco traumatizado com tudo o que viu ali — a morena caçoava enquanto acariciava os cabelos loiros do namorado —, mas não soube me dizer nada, obrigaram— no a assinar um termo de confidencialidade.
— Estou grávida.
Marypaz começou a engasgar com as batatas fritas que estava comendo, Mikaela congelou completamente, tanto que pensei que era falha de conexão.
Marypaz tossiu e tossiu tanto que pensei que deveria desligar e ligar para o 911 para pedir ajuda e Mikaela começou a reagir, abrindo a boca aos poucos até que pude ver suas amígdalas.
— Você tem certeza?— Marypaz me perguntou com sua voz rouca e enquanto se servia de um copo de água.
Ela estava suada e vermelha. Sua respiração era difícil. Acho que quase a matei.
— Sim— , eu confirmei e comecei a contar— lhes tudo desde o primeiro dia. Sobre como acordei naquele dia com vômitos, mas pensei que era por causa do leite estragado que bebi.
— Leite estragado é o que você bebeu — Mikaela interrompeu, nos fazendo rir.
Continuei minha história contando a eles como não conseguia mais pensar nisso porque me concentrei em Hayden e sua tentativa de suicídio, mas que ele havia revelado os sintomas para mim e que eu não podia esconder ou mentir. E que depois de um teste de gravidez quase forçado, minha gravidez foi confirmada.
— Oh meu Deus!— , exclamaram em uníssono.
— O que os papais sensuais disseram?— Mikaela havia saído da cama e a observava caminhar pelo corredor de sua casa.
— O que Ramsés disse?— Que fazia? Ele estava tendo um ataque cardíaco? Marypaz andava como um rato trancado em seu quarto, fazendo perguntas que eu não conseguia ouvir e até respondendo algumas delas ela mesma.
— Primeiro eles gritaram com a gente como loucos e depois ofereceram seu apoio e ajuda para terminarmos a universidade. E Ramsés, bem, eu não sei. Não posso dizer que estava feliz, mas definitivamente não estava com raiva...
— Espere... — Marypaz me interrompeu — você quer?
— Claro que vai!— Mika respondeu. E eu serei a madrinha, certo Mia?
Mika ficou animada e começou a falar sobre nomes de bebês, roupas, trajes. E ainda disse que não importa o sexo, já sabia quem seria sua parceira: Mini TayTay.
— O que quer dizer com “claro”? Ela tem que pensar muito bem sobre isso. Você não pode tomar uma decisão levianamente. Ter um bebê nesta época definitivamente mudará o curso de sua vida.
— Sua vida seguirá seu curso normal. Você acha que algum dos pais ricos vai permitir isso? Claro que não.
— Sim, aha, não vai mudar— , disse Marypaz ironicamente. Porque a vida de Taylor é exatamente o que ele planejou. Nem mesmo a de Nicole e que ela...
—Obviamente haverá mudanças—Mika não a deixou continuar—, mas ela poderá se formar, talvez não ao mesmo tempo. Mas dinheiro não vai faltar e isso é uma grande ajuda com um bebê pequeno.
— É uma decisão importante e você terá que ponderá— la. O que quer que ela decida, vou apoiá— la, mas ela não pode aceitar a resposta levianamente. Não pode ser uma decisão romântica, deve ser considerada fria.
E era exatamente nisso que eu acreditava.
para pensar sobre isso.
— Você não está pensando em… um aborto, está?— E eu não sabia o que responder Mikaela, mas acho que meu silêncio disse muito mais do que qualquer palavra.
Um pouco depois voltei para o quarto e deitei— me ao lado de Ramsés. O francês voltou a se aconchegar nas minhas costas, como se eu não tivesse saído por uma hora e embora fechasse os olhos para tentar dormir, não conseguia, então vi quando o quarto se iluminou aos poucos com o nascer do sol. Mike se levantou até o banheiro e deu bom dia para Hayden, Fernando anunciou que iria buscar café para todos e Gabriel murmurou “bom dia linda” para a namorada no telefone.
Todos saíram da sala, alguns iam tomar café, outros comer, quando eu estava sozinho com Hayden eu levantei, hoje não tive sintomas matinais, e estava gostando disso.
— Você descansou um pouco?— Hayden murmurou para mim de sua cama.
Respirei fundo: — Acho que não, não mesmo.
— Você ainda tem tempo, Mia.
— Quanto tempo?
— Você tem até a 12ª semana de gravidez para tomar a decisão de interromper ou não a gravidez. E até o momento do nascimento para decidir se fica com ele ou dá para adoção.
Suas palavras eram doces, apesar da verdade cruel que acabara de transmitir. Ela estava disposta a abortar aquele bebê? Para tê— lo? Para entregá— lo para adoção? Como a família me veria se eu o fizesse? Eles aceitariam minha decisão?
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Hayden não estava errado e Joseph manteve sua palavra, naquela tarde ele recebeu alta do hospital e a primeira coisa que ele fez foi me levar ao consultório médico de um amigo ginecologista. Recusei, queria tempo para assimilar melhor a notícia, mas não foi possível convencer ninguém disso, nem mesmo Ramsés me apoiou na ideia de voltar outro dia.
Era um pequeno consultório particular e considerando que éramos uma família de 7 pessoas, era muito pequeno para nós, então alguns tiveram que esperar do lado de fora do consultório, nas escadas do pequeno prédio. Algumas grávidas com seus acompanhantes esperavam na pequena sala, seus rostos estavam felizes, alegres, muito diferentes do meu, apavorados.
A secretária anunciou que era a próxima e quando me levantei da cadeira, Ramsés imediatamente se posicionou ao meu lado, mas coloquei meu controlador em seu peito, impedindo seu avanço determinado para dentro do escritório.
— Por que você não quer que eu entre?— , insistiu o francês, começando a se irritar.
— Porque eu não quero, Ramsés, por favor.— O francês estava de braços cruzados e não me deixava ir ao escritório, por mais que eu não o deixasse.
— Porque não?.
Ela não podia contar a verdade, mas também não queria mentir para ele.
— Porque eu não quero que você ouça o que o médico vai me dizer.— Não quero que você ouça... nada... Baixei os olhos, rezando silenciosamente para que ele não me perguntasse mais nada.
— Filho, deixa ela ir sozinha — Fernando pôs a mão no ombro de Ramsés e o empurrou para fora do meu caminho.
Avancei sem olhar para ele, sem dizer nada, e finalmente entrei no escritório.
Quando o médico me deu as boas— vindas, pedi à enfermeira para trancar a porta, não confiava que o Ramsés não tentasse entrar apesar de tudo.
— Oi Amelia, sou o Dr. Montgomery, Hayden já me contou o que aconteceu, então estou aqui para examiná— la e tirar todas as suas dúvidas. O que você me conta, o que eu te respondo, o que falamos aqui, vai ficar aqui.
Isso me deu uma certa tranquilidade, pois desde que souberam do meu estado, me senti completamente invadida em minha privacidade. Exposto, sem privacidade. Eu concordei e comecei a contar à médica o que havia acontecido, o desconforto que sentia, mas acima de tudo disse a ela que ainda não tinha uma decisão sobre o assunto. Eu não sabia se poderia continuar com a gravidez, se poderia ser mãe.
Ela apenas balançou a cabeça, explicou cada sintoma e me contou o que eu estaria sentindo nos próximos dias e semanas. E finalmente ele me falou sobre minhas opções, que eram as mesmas que Hayden havia me falado, mas agora, vindo de uma pessoa completamente neutra e objetiva, pude entender e processar melhor.
O médico me pediu para trocar de roupa por uma bata de papel com a abertura para a frente, expondo todo o meu estômago. Subi na maca e com a ajuda dele coloquei as pernas nas tipoias da mesa. Era uma das posições mais vulneráveis em que uma mulher deveria ser examinada, mas não foi meu primeiro eco. Por estar grávida não pude fazer eco transvaginal, aquele em que introduzem um aparelho nas minhas partes íntimas. Eles faziam um eco pélvico, o que eu preferia, porque eles verificavam rolando um pequeno aparelho na minha barriga.
O gel, que eles sempre usaram, estava gelado, mas eu estava tão nervoso que pulei quando ele entrou em contato comigo. A médica pediu para eu me acalmar enquanto ela ligava o monitor onde eu veria as primeiras imagens daquele ser que crescia dentro de mim.
Ele mexeu habilmente o aparelho na minha barriga, fazendo medições no computador, me explicando o que via na tela e as dimensões, como se pudesse entender tudo o que dizia.
— É um embrião saudável pelo que vejo. Você está grávida de 4 semanas. Ainda não conseguimos ouvir os batimentos cardíacos, para isso é muito cedo. A partir da sexta semana, se pudermos tentar, se você quiser, posso agendar a consulta para você de uma vez.
Deixei escapar todo o ar que tinha em meus pulmões, aliviada com sua resposta.
Aliviada por estar tudo bem, mas principalmente aliviada por não conseguir ouvir os batimentos cardíacos ainda, era algo para o qual ela não estava pronta. Um pouco mais de tempo ajudaria.
Ele havia passado por muitas notícias e eventos em muito pouco tempo.
Tempo, era exatamente o que eu precisava.
— Foi por isso que você não o deixou entrar?— O médico deve ter notado minha expressão confusa, certamente um reflexo de tudo o que estava passando pela minha cabeça. Sua mão apertou delicadamente a minha, enquanto a outra limpava o excesso de gel da minha barriga. Você não queria que eu ouvisse o batimento cardíaco, porque você não sabe se vai ter ou se vai ficar com ele.
Eu balancei a cabeça enxugando minhas lágrimas.
—Ok Amelia, você não tem uma decisão tomada, isso não é ruim. Muitos pais entendem que são pais quando o bebê nasce e o carregam, muitos quando ouvem o batimento cardíaco, outros nunca entendem, porém, a mãe é quem deve lidar com toda a maternidade desde o primeiro momento, o fardo é toda dela porque ela é Quem cria é quem muda o corpo, mas também é quem mais muda a vida. A maioria dessas meninas que vocês viram por aí chegaram assustadas no primeiro dia, não importa se queriam ou não a gravidez, todas chegam assustadas, porque toda mudança assusta, e algumas já chegaram sem saber o que vão fazer , então eu entendo o seu medo. Mas não passe por isso sozinho, não precisa complicar a situação. A decisão que você tem que tomar é só sua, mas eu recomendo que você converse com ele, explique para ele, porque pelo que Hayden me explicou, você não é apenas um casal de namorados, e a situação que você está passando através, você deve sobreviver juntos para permanecer assim.
Eu não conseguia falar sem começar a chorar, mas agradeci com a cabeça. Ela me passou a imagem que ela imprimiu, do que era o embrião na minha barriga, coisa que só ela como médica podia ver, porque eu não entendia o resto da imagem em preto e branco. Ela também me deu uma receita para as vitaminas que eu deveria tomar, os exames de laboratório que eu teria que fazer e recomendações para uma gravidez saudável.
Quando saí do escritório, apenas Fernando me esperava, não havia sinal do resto da família. Isso me entristeceu um pouco mais porque, embora não quisesse que Ramsés entrasse no escritório, gostaria que ele me esperasse.
— Hayden esbarrou em alguns colegas e ficou nervoso e nós o convencemos a ir ao restaurante do outro lado da rua para esperar.
Ele não explicou por que meu francês não estava lá, quando em outras circunstâncias ele não poderia se mover de lá, mesmo com a polícia insistindo nele.
Entreguei— lhe os papéis, mas também a imagem que o médico me tinha passado e ele olhou— a durante algum tempo e sem dizer uma palavra começamos a caminhar para a saída. Não sei qual era a cara dele, não ousei olhar para ele. Se seu rosto fosse de ilusão, de alegria, partiria meu coração.
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