Capítulo 5 fale comigo querida
— O que você disse para ele se soltar? — Fernando se aproximou de nós e ofereceu uma bebida a cada um de nós.
— Ele me ofereceu uma sessão de corpo de chocolate— , Ramsés respondeu por mim para minha indignação.
— Ramsés, nós realmente precisamos trabalhar em seus filtros.— Seu pai riu, mas tentou esconder por respeito ao meu constrangimento crescente.
— Isso foi rápido.— Gabriel caminhou até nós e deu um tapinha nas costas de seu irmão.
Como sempre, o problema estava no passado.
— Não havia chocolate suficiente— , o francês respondeu enquanto beijava minha cabeça e caminhava até onde Mike e Hayden estavam conversando agora em outros termos que não os que eu tinha visto antes.
Eu havia lambuzado o pescoço e os seios com o chocolate e, embora pudéssemos ter um orgasmo com muita facilidade, a casa estava cheia de familiares e amigos.
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Eram quase quatro da manhã quando comecei a sentir sono e deixei a cabeça cair no ombro de Ramsés. Muitos dos convidados já haviam partido, incluindo Hayden, Mike e Fernando, que reservaram quartos em um hotel próximo.
Gabriel jogou— se ao meu lado no sofá e me fez acordar um pouco sobressaltada.
— É a melhor festa de aniversário que já tive. Obrigada Beleza – ela me deu um beijo na testa e se recostou no móvel, visivelmente exausta, colocou as pernas por cima das minhas como costumava fazer.
— Já cantaram seu aniversário?— Apesar de estar dormindo, entendi o duplo sentido das palavras de Ramsés.
— Sim, e apagaram a minha vela — o português terminou a frase com uma piscadela como se precisasse acrescentar mais malícia ao seu comentário.
— Você não deveria estar dizendo essas coisas sobre nenhuma garota,— Isabel interveio.
Os olhos de Gabriel se arregalaram e ele murmurou um pedido de desculpas. No entanto, a cara de desapontamento e aborrecimento do meu amigo magoou os portugueses. Esse comentário o atrasou enormemente com ela, embora não fosse como se ele estivesse em um terreno muito avançado também.
Sara, por sua vez, não percebeu, ela ainda estava conversando animadamente com Isaac enquanto Donovan os observava do outro lado do apartamento. Eu não sabia o que meu amigo estava jogando, mas o ruivo parecia bem zangado e se eu sabia alguma coisa sobre eles, é que Donovan podia ser muito perigoso quando estava com ciúmes.
Pouco a pouco o apartamento continuou a esvaziar. Sara e Isabel foram as últimas a sair, Isaack desceu com elas junto com Donovan, que fez questão de acompanhá— las.
Comecei a jogar fora todo o lixo com a ajuda dos irmãos, não era hora de limpar, mas também não podia deixar tanta bagunça. Quando terminamos de recolher todo o lixo, a porta do apartamento foi escancarada.
— Você a beijou...— o ruivo repreendeu Isaack.
— Ela me beijou, o que é muito diferente, e ela estava bêbada.—
— Eu te beijei bêbado e você me bateu.
— Porque você é homem e eu também; E isso não está certo.
Oh não, por que ele disse isso?
Os olhos de Donovan brilharam com pura malícia. Quando eu disse que era perigoso, era a esse momento que me referia.
Isaack nem teve chance de reagir quando Donovan o jogou contra a parede mais próxima, agarrando— o pelo colarinho e beijando— o.
Foi curto, apenas alguns segundos.
— Me desculpe, coisa de bêbado— ele sorriu satisfeito e como se nada tivesse acontecido começou a nos ajudar a limpar.
Isaack ficou paralisado na mesma posição, sem saber o que fazer ou dizer. Quando ele se virou para nos olhar, nós três, que estávamos contemplando a cena, surpresos, retomamos a limpeza tentando escondê— la. Isaack, sem sequer se despedir, saiu do apartamento.
— Donovan— Eu bati no braço dele, ele era tão musculoso que meu golpe nem incomodou, mas ele sorriu satisfeito e lambeu os lábios com total descaramento.
— Vou ver como ele está— , avisei Ramsés.
Subi correndo as escadas e entrei sem bater. Isaack andava pela casa, passando as mãos na cabeça.
—Isa… é você-
Não consegui terminar a frase, ele caminhou até onde eu estava e me pegou pelo rosto e carimbou sua boca com a minha.
Eu empurrei com força, mas era impossível movê— lo. Ele recuou quando o beijo terminou, colocando muita distância entre nós.
— Você está louco? Oh meu Deus, Ramsés vai te matar. Gabriel vai te matar. Que fizeste?.
Levei as mãos à boca, como se quisesse verificar se a sensação que a boca dele deixou na minha era falsa, mas não, havia essa sensação estranha.
— Sinto muito, Amelia, eu só queria...
— O que? Estragar meu relacionamento? Nossa amizade? O quê?, retruquei furiosamente.
Ele teria que contar a Ramsés e não sabia como impedir que ele quisesse matá— lo e considerando que ele não guarda nada para si mesmo, Gabriel iria descobrir e ajudá— lo no assassinato. Isaack ainda não falou, parecendo mais desesperado do que segundos antes.
— Querida— , Ramsés apareceu na porta e fez uma careta para o meu rosto, — vamos para a cama.— estou morrendo de sono
Escondi— o o melhor que pude e sem saber o que fazer ou dizer, com os nervos à flor da pele e o medo a abater— me, sorri— lhe e peguei— lhe na mão.
— Vamos, eu também estou cansado.— Conversamos mais tarde, Isaack — eu disse dispensa e ele apenas assentiu.
Deixei Ramsés me conduzir pelo corredor e direto para o meu quarto. Encontramos Donovan quando ele estava saindo do apartamento.
— Como ele está?— , perguntou assim que Ramsés entrou no apartamento.
— Louco... fale com ele.— Minha cara séria o fez franzir a testa, mas ele não perguntou nada.
Ele se despediu e eu finalmente entrei no apartamento, ele parecia bastante arrumado, eu já sabia que Donovan era meio maníaco com limpeza e ordem mas não sabia o quão rápido ele podia ser. Gabriel dormia na mobília em uma posição bastante estranha.
— Deixe aí— , Ramsés me disse quando fui acordá— lo.
— Não posso, ele vai acordar com dores no corpo e isso o deixa de péssimo humor.—
— Gabriel. Gabriel, eu acordei ele sacudindo ele e ele resmungou. Vá dormir no quarto, vamos. Te ajudo.
Gabriel levantou— se, abriu os olhos e voltou a fechá— los. Eu o guiei como um garotinho até seu quarto, segurando seu braço com força para ajudá— lo a manter o equilíbrio. Ele estava bêbado de sono. Ele estava deitado na cama, de bruços e eu tive que lutar com seus sapatos até conseguir tirá— los e empurrá— lo para caber.
— Quantas vezes você já fez isso?— Ramsés perguntou da porta, ele estava observando todo o meu trabalho.
Poderia ter me ajudado...
— Muitos— , confessei enquanto tentava mover o português.
Eu finalmente consegui que ele se acomodasse em uma posição mais sensata na cama e joguei o cobertor sobre ele pouco antes de apagar a luz, colocar o telefone para carregar e sair do quarto.
Ramsés abraçou— me e beijou— me a cabeça.
— Eu não sei como me sentir sobre isso— , ele falou enquanto íamos para a cama, depois de nossa própria rotina que incluía vestir o pijama e escovar os dentes, uma rotina que trazia boas lembranças.
Aconcheguei— me ao seu lado como não fazia há muito tempo, cheirei seu peito e o apertei contra mim para que seu calor me dominasse.
— Por quê?— Eu finalmente perguntei quando consegui ficar em uma posição razoavelmente confortável.
— Você tem essa... intimidade que você não tinha antes e da qual eu não faço parte.— Há muitas coisas que estou perdendo.
— Você está sempre lá para nós. É seu irmão, não precisa ficar com ciúmes...
— Não é esse tipo de ciúme... Fui eu que coloquei o Gabriel no quarto quando ele caiu no sofá de casa. Também era ele quem sabia do que você gostava e do que não gostava... hoje pelo menos eu te ofereci aquelas batatas fritas com alho e cebola e ele não sabia que te causavam tanto nojo, Gabriel sabia. Eu sei que o que estou dizendo é bobagem, mas não posso deixar de me sentir assim.
Meu coração afundou com sua sinceridade. Eu o abracei mais forte e com a mesma intensidade ele me respondeu.
— Menos tempo para ir. Quando você estiver aqui, poderá cuidar de todas as coisas com alegria novamente. Sentimos tanto a sua falta que tivemos que nos contentar. Gabriel me trata como se eu fosse você e mais de uma vez já escapou de me chamar de irmão.
Espero que você não o trate como eu.
— Impossível.
— Se ele me trocou por você... Com o que ele me trocou?
Não quis responder— lhe porque a dor que a sua voz me transmitia causava— me dor.
Ele não substituiu você.
— Mas…
— Mas nada. Ele não substituiu você. Gabriel é meu amigo, meu melhor amigo e meu cunhado. Ele sabe muito mais sobre mim agora porque tivemos que aprender a viver juntos, mas não porque ele está suplantando você. E o mesmo aconteceu dele para mim. Sentimos sua falta todos os dias, Ramsés. Com certeza Susana agora é quem faz o seu café e talvez Ulises seja o primeiro a saber de algo que te acontece durante o dia, mas isso não significa que você está nos substituindo.
Ele beijou— me e sorriu, não sei se o tinha convencido e ajudado a dissipar as suas dúvidas e receios, mas em todo o caso o seu sorriso deixou— me mais calma.
***
Pov Ramsés.
— Irmão, levanta. Vamos, temos pouco tempo - Irmão, levante— se. Vamos, temos pouco tempo.
— Mais est- ce que tout le monde between dans la chambre d'Amelia sans frapper à la porte? - Mas será que todos entram no quarto de Amélia sem bater na porta?
— Não sou o mundo inteiro e sempre que posso entro na sala do...- Não sou todo mundo e sempre que posso entro no quarto dele...
Abri os olhos e estendi a mão para agarrar sua camisa. Ele continuou com suas piadas e depois de ver a maneira como eles se tratavam, eu não estava no clima. Mas o maldito português se esquivou de rir e foi até a porta. Só então percebi que ele estava vestindo roupas esportivas. Ele me jogou algumas roupas e terminando de me alongar me levantei e fui até o banheiro.
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— Há quanto tempo você não corre?— ele perguntou quando viu que eu estava tendo dificuldade em acompanhá— lo.
Eu corro sempre que posso, mas não é muito frequente. Tenho mais tempo para fazer algumas máquinas na academia do prédio do Hayden. De lá eu ligo para Amelia na maioria das vezes.
— Respire fundo, vamos.— Minha respiração estava uma bagunça e eu tive dificuldade em acompanhá— lo.
— E com que frequência você corre?— , perguntei, finalmente parando para me recompor.
— Todo dia duas vezes ao dia, um pouco de manhã e depois vou para a academia, e um pouco à tarde antes de Amelia chegar.
— Por que antes dela chegar?—
— Porque assim me dá tempo de voltar para casa, tomar um banho, me masturbar em paz e preparar o jantar para ele.
Eu ri quando ele fez o mesmo.
— Espero que você lave as mãos antes de fazer o jantar para minha namorada.—
— Claro que sim, sei como ela é delicada com a limpeza.
— Você se masturba todos os dias?— Aí você fala que esses músculos são das máquinas...
Foi a vez dele de rir. Começamos a caminhar de volta para casa, estávamos há quase uma hora correndo, algo que não fazíamos desde que morávamos juntos. Estou feliz por ter acordado com isso.
— Bem, eu exagerei na rotina, nem sempre me masturbo, mas ainda gosto de correr antes dela chegar para ela não ficar sozinha. É um hábito que adquiri desde que fomos morar juntos.
—Você não pode dizer “desde que dividimos um apartamento”? Aquela coisa de eles morarem juntos soa muito como se fossem um casal.
— Os casais se atiram, nós não fazemos isso, pode ficar tranquilo.
— Por que você teve que adquirir esse hábito?—
— Porque ela não gostava de ficar sozinha em casa, era um misto de medo e saudade. Nas primeiras vezes eu não entendia porque eu a pegava sentada na recepção conversando com a recepcionista, depois comecei a fazê— la falar com o Isaack até que ela finalmente confessou.
Ele não me disse nada sobre isso...
Eu não gostava de aprender coisas da boca dos outros, menos ainda se fossem coisas de Amélia. Por que você não me contou?
— Não queria te preocupar, é pelo mesmo motivo que também não te contei.
Caminhamos mais um pouco em silêncio e foi a minha vez de quebrá— lo.
— Como você está indo na aula?—
— Você quer a verdade ou a mentira?—
— Ambos.
— A mentira é que estou indo bem, são aulas difíceis, mas estou indo bem.
— E a verdade?— , insisti quando ele se calou.
— A verdade é que não passei no primeiro exame desde o início do semestre. Eu estudo, eu estudo e não dá certo. Isaack está me ajudando a estudar para as próximas provas, mas o nível...
— Papai sabe?—
— Nenhum deles. Se eu não melhorar na segunda rodada de avaliações, terei que confessar.
— Você não pediu ajuda a Mike?—
— Estou um pouco envergonhado — Gabriel abaixou a cabeça, olhando os passos que dava.
Não insisti porque compreendia perfeitamente aquele sentimento. Eu estava tentando muito não decepcionar Hayden.
— E você como vai?.
— Não falhei, mas quase não durmo, às vezes almoço só quando volto para casa, o que significa que faço apenas duas refeições por dia. Falta— me tempo para estudar e tenho muito material para ler.
Soltei todo o ar que pude, senti um grande alívio quando desabafei com meu irmão.
— E os comprimidos que a Susana te deu? Você continuou tomando?
— Te disse que não.
— Bem— , seu olhar me inspecionou de perto, — você sabe muito bem que seria uma tentação demais para nós.—
— Eu sei.
Menti descaradamente como não fazia há muito tempo, como nunca fiz com meu irmão. Mas era meia mentira, certamente se eu tivesse tomado alguns comprimidos de novo, mas não pretendia continuar agora que estava de volta.
Aqueles comprimidos eram passados para mim.
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Paramos em um semáforo antes de chegar ao prédio, as ruas estavam parcialmente desertas apesar de serem quase dez da manhã. Gabriel me explicou que por ser uma área universitária, todos estavam dormindo nas festas da noite anterior.
— Vamos entrar aqui um instante, tenho que comprar umas coisas para casa.
Viramos na esquina para um pequeno supermercado. Gabriel cumprimentou o gerente e o rapaz mandou cumprimentos a Amélia, algo que não me divertiu. Ele pegou uma cesta e começou a procurar as coisas que precisavam, sempre checando no celular.
— Amelia fez um documento compartilhado onde coloca as coisas que precisam ser compradas, quando alguém estiver pronto — ela me explicou.
Peguei o telefone dela e comecei a verificar a lista. Fiquei feliz em ver que ela incluiu coisas que eu já sabia sobre ela. O documento foi atualizado enquanto eu o abria e via como novos itens para comprar apareciam, alguns eram para mim, como pêssegos e manteiga de amendoim.
Eu odiava me sentir assim, mas não pude evitar.
Terminamos as compras e com as sacolas na mão voltamos para casa.
Quando entramos Amelia estava servindo uma xícara de café para Hayden, o único que sorriu sinceramente ao tomá— la e até provou a bebida com sincero prazer. Meu pai, por outro lado, sorriu com uma cara circunstancial e Mike parecia estar considerando a possibilidade de ter sido envenenado.
— Salvem— se— , meu pai sussurrou em nossos ouvidos enquanto nos cumprimentava.
Aproximei— me da Amélia e dei— lhe um beijo que não queria que acabasse nunca e só acabou porque os adultos pigarrearam.
— Bom dia, meu doce bombom.— Murmurei contra seus lábios.
Ela olhou para mim, o que me fez sorrir. Eu amo ter esse efeito sobre ela.
— Bom dia meu perseguidor.
— E por que ele é um perseguidor hoje?— Mike perguntou ao sair da cozinha, onde estava jogando furtivamente fora sua xícara de café.
— O convite de compartilhamento de arquivo que tenho com Gabriel sobre a casa foi enviado.
— Como você fez isso tão rápido?— meu irmão perguntou.
Dei de ombros, não revelaria meus segredos.
Amelia abraçou minha cintura com força, seu cheiro floral característico me inundou e me deu a tranquilidade que havia perdido desde que me despedi dela no aeroporto.
— Fiz café. Você quer um pouco?
— Não precisa, a gente já bebe no supermercado— , respondi.
— Esse café é nojento— , ela reclamou.
— Querido Cristo, se isso parece nojento para você, significa que é uma merda— Mike, como sempre, não conseguia ficar quieto, felizmente Amelia não entendeu seu comentário.
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Tomei um banho rápido assim como Gabriel e trocamos de roupa. Hoje iríamos passear com a família, pois amanhã todos teríamos que voltar para nossas respectivas cidades. Hayden e eu voltaríamos para Atlanta, Mike voltaria para Los Angeles e papai iria para Washington.
Passamos o dia conhecendo a cidade, com Amelia e Gabriel como nossos guias. Eles nos levaram para conhecer os mesmos lugares que visitavam quando eram recém— chegados à cidade.
A primeira coisa que visitamos foi a Old State House , de cuja varanda a constituição era lida. Depois apanhámos um elétrico turístico que nos levou pelo resto da cidade e por fim entrámos no passeio anfíbio que nos levou pelo museu da ciência, pelo centro prudencial e acabou no New England Aquarium , onde terminámos o dia.
Quando saímos do aquário já estava escuro, estávamos cansados e com fome. Procuramos o restaurante mais próximo que pudéssemos encontrar na área e pedimos uma quantidade absurda de comida para todos.
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— A melhor refeição que já comi em muito tempo.— Mike se recostou na cadeira, satisfeito por ter deixado um prato vazio.
— Acho que não vou conseguir comer por dias — Hayden pediu a um dos garçons uma bebida quente para ajudá— lo a digerir.
— Faça dois— , meu pai pediu. É melhor trazer a garrafa. Como comemos tanto? Somos porcos.
— Não sei o que te surpreende, lembra quando visitamos a família de Hayden?— Engordei uns dez quilos no primeiro dia – Gabriel não estava exagerando, aquela família nos fazia comer tanto que chegamos a acreditar que estavam engordando para nos matar em dezembro.
— Também não se sinta tão especial, é assim que você come lá— , explicou Hayden.
— Lá na sua casa?— Amelia estava terminando as últimas mordidas de sua sobremesa.
—Lá na Venezuela —Hayden respondeu entre risos—, boa comida é o que identifica minha cidade, isso e as férias de dezembro.
O estalajadeiro voltou com a bebida e nos serviu um pouco. O líquido amargo com sabor de café queimou minha garganta, mas assim que chegou ao meu estômago, senti um alívio na digestão.
—Ok pessoal, não vamos tirar mais tempo de vocês hoje. Perder— se por um tempo.
Foi por essas coisas que amei minha família. Meu pai acenou para nós enquanto saíamos correndo do restaurante. Eu adorava estar com eles, sentia muita falta dos meus pais e do meu irmão, mas queria passar um momento a sós com a minha menina.
***
Pov Amélia .
Em outras circunstâncias eu teria lamentado, mas estava morrendo de vontade de ficar a sós com Ramsés. Saímos do restaurante sem rumo, mas acabei levando ele para o Boston Public Garden, um dos meus lugares preferidos. Percorremos os seus caminhos de mãos dadas, desfrutando da nossa companhia e do silêncio.
Ficamos nas pequenas estátuas da mãe pata e seus patinhos a seguindo. A escultura produziu em mim um misto de ternura e melancolia, tristeza e alegria.
— Há tantos lugares que quero te mostrar. Sempre que Gabriel e eu saímos para passear, falamos em levar você conosco quando estiver aqui.
Eu ainda estava preocupado com a conversa que tive com Ramsés e seu medo de se sentir suplantado. Eu queria que ele tivesse certeza de que não era assim e que Gabriel e eu sempre tínhamos isso em mente.
— Eles podem me levar em alguns meses.— Não tenho tido muito tempo para sair em Atlanta, mas mesmo quando estou no metrô penso nas coisas que gostaria que você visse porque sei que você adoraria. Outro dia tinha um cara fazendo um show de mágica e pediu um livro para alguém da plateia. Uma moça ofereceu a ele o que ele estava lendo e não sei o que ele pretendia fazer de truque, mas não deu certo e o livro acabou destruído. Juntos, colocamos dinheiro para que o pobre mágico pudesse substituí— lo.
Nós rimos alto. Gostaria de estar lá para ver.
— Você nunca me contou— , eu disse depois de um tempo, tínhamos retomado nossa caminhada e agora íamos em direção ao apartamento.
— Nunca tenho tempo para te dizer tudo o que quero ou... o que há de errado comigo.
Suas palavras não soaram acusatórias, pelo contrário, parecia que ele sabia algo mais e que esperava terminar de ouvir isso de mim. Mas, o que é estranho, eu não fazia ideia do que ele estava falando.
— Gabriel me disse que você não gosta de ficar sozinho no apartamento.
Aquele português não podia ficar calado. Incrível.
— Foi só no começo, senti tanto a sua falta e tudo era novo... me assustou. Eu não queria preocupá— lo e você tem muito estresse e cansaço para lidar com minhas ansiedades tolas.
— Eu não quero que você me afaste, Amelia. Eu quero que você me diga o bom e o ruim. Não estou chateado, porque eu também já deixei de te contar muitas coisas porque o tempo que temos para conversar é muito pouco para gastar falando de coisas que nos entristecem ou que nos incomodam.
— Eu sei, você está certo. Lamento.
Levantei— me na ponta dos pés para alcançar seus lábios e ele embalou meu rosto em suas mãos para me beijar suavemente.
— Existe algo que você deveria me dizer que você não me disse antes para não me preocupar?—
Houve muitas coisas que evitei contar a ele, a mais séria e recente foi o beijo que Isaack tinha me dado ontem à noite, mas me recusei a estragar nosso dia perfeito.
—Às vezes tenho pesadelos com o Stuart—confessei a ele—, quando isso acontece te ligo porque ouvir você me acalma, mas se for tarde demais ou você não puder me atender, peço ao Gabriel que fique comigo até Eu volto a dormir.
— Por isso você gosta que a gente adormeça com a videochamada andando...
— Sim— , eu me senti tolamente arrependido pelo que acabara de confessar, mas sobretudo pelo que não estava contando a ele.
Tive pesadelos com o Stuart, em alguns ele entrava no apartamento, algumas noites até no meu quarto. Muitos dos pesadelos eram cenas um tanto adulteradas do sequestro que vivemos e outro lote eram representações dos medos que experimentei naquele dia, como a possibilidade de perder Ramsés ou Gabriel, ou ser abusado por ele novamente.
No entanto, Ramsés notou o principal detalhe: todas as noites em que conversávamos, ele pedia para ela não desligar a ligação, porque todas as noites ela tinha pesadelos com Stuart. Mas ele não disse nada sobre isso e eu apreciei.
— E você tem algo que não me contou?— Eu perguntei, tentando desviar o assunto da conversa para longe de mim.
Ramsés procurou em sua memória por um tempo e finalmente falou
— Na maioria das vezes você me vê comendo à noite, é a única comida que comi durante o dia.
—Ramsés…
— Esta é uma situação louca, Blossom. Normalmente comemos o que podemos entre os pequenos intervalos: um biscoito, um iogurte, um pãozinho; mas um almoço como tal é difícil e bastante complicado. Quando o Hayden tem tempo, rapta— me a mim, à Susana e até ao Ulises e leva— nos a comer algo mais decente, mas nem sempre tem tempo, e nem sempre podemos estar longe.
— Eu entendo, realmente entendo, mas isso não para de me preocupar. É pedir demais que você leve o almoço com você?
Ele riu e me puxou para um pequeno abraço.
— Você ficaria mais calmo se eu dissesse que vou começar a levar alguma coisa para comer caso não possa almoçar?—
Como não amá— lo? Eu o abracei forte, agradecendo pelo detalhe, por ter mudado alguma coisa nele, na rotina dele, só para me agradar. Às vezes, as pessoas dão por certo as mudanças que alguém que nos ama faz por nós, como se fosse uma obrigação e não uma demonstração de compromisso, mas é algo que deve ser sempre valorizado.
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Finalmente chegamos ao apartamento e estava vazio.
— Onde estão todos?— Ramsés perguntou enquanto eu ia para a cozinha pegar um pouco de água.
—Não faço ideia, talvez ainda estejam no restaurante.
— Porque não quero que cheguem inesperadamente ao apartamento.
— E eles são especialistas nisso, é como um sexto sentido que eles têm para nos interromper — Lembrei— me de todas as vezes que fomos interrompidos pelo desejo que tínhamos um do outro.
— Só precisamos de uma hora e meia, pelo menos. É melhor que sejam dois, estou realmente ansioso por isso.
— Uau— , minha barriga esquentou imediatamente, — temos que garantir que eles não venham então.— Ramsés!
— Duas horas e meia, ele acabou de perceber que estou falando com você.
Rindo, ele desligou a ligação e se aproximou de mim. Tentei evitá— lo, na verdade corri pela sala até o outro lado.
— Você e eu falaremos agora sobre sua ânsia de contar tudo a seu irmão.
— Só temos duas horas, não me deram a metade adicional para te satisfazer. Não vamos perder tempo querida.
Ele se moveu em minha direção novamente e eu corri de volta para o outro lado.
— Bem, vamos conversar sobre isso.— Até porque Gabriel também não sabe ficar calado e depois usa essa informação para me envergonhar na frente de quem quer que seja.
— Falarei com ele depois disso.—
Ramsés voltou a aproximar— se de mim e eu voltei a correr.
— Você sabe que o que você está fazendo só me excita mais?— Com seu olhar ele me fez olhar para sua virilha e pude ver como sua ereção pressionava o tecido de suas calças.
Engoli em seco, porque minha intenção não era excitá— lo... muito menos me excitar. A piada voltou para mim.
— Não quero que a família saiba todas as nossas intimidades.—
Eu me movi lentamente para o lado e ele seguiu meu movimento.
— Eu só estava me certificando de que eles não apareceriam inesperadamente.— Ramsés tirou a camisa em um movimento, expondo todos os seus músculos tatuados à minha vista.
Fiquei sem saliva para engolir. Por que ele tinha que se tornar tão irresistível para mim quando queria tomar uma posição firme?
— Basta perguntar a Gabriel onde eles estavam.
— Mas Gabriel não cuidou de mim.— Ele começou a desabotoar a calça sem tirar os olhos de mim.
Meu olhar varreu suas pernas quando a calça caiu no chão. Ele nem estava mais usando sapatos e meias e não conseguia se lembrar de quando os tirou.
Eu estava aquecido a ponto de derreter quando ele foi deixado sozinho em boxers e sua ereção saltou para mim.
— Se você não falasse com Gabriel...—
— Eu estava conversando com meu pai.—
Ele pulou para onde eu estava e só por um milagre divino consegui desviar.
— Ramsés!— Eu gritei horrorizado, e ele torceu seu sorriso enquanto se preparava para pular de volta para onde eu estava.
Ele gostava de me caçar e não se preocupava em esconder isso.
— Amelia... meu pai sabe o quanto eu te quero sem que eu diga a ele. Acho que quem não sabe é você...
Ele emaranhou as mãos na borda da cueca e começou a baixá— la lentamente. Ele estava me torturando, me matando, me provocando.
Finalmente ele se abaixou para removê— lo e sua ereção foi liberada.
Tive que agarrar o encosto da cadeira o mais perto que pude para não cair.
— Agora você vai parar de correr ou eu tenho que continuar fingindo que não posso te pegar?—
Fui ofendido em vários níveis...
Ele viu minha ofensa e descrença. Seu sorriso torceu mais uma vez, seus olhos brilhando quando ele os estreitou. Ele pulou para onde eu estava sem que eu tivesse a chance de me mexer. Passei de livre a presa em seus braços, com sua ereção em minha perna, cravando— se em minha pele.
— Perdoe— me— , ele sussurrou contra a pele do meu pescoço, fazendo— o ficar arrepiado.
— Você não achou que...
Sua língua agora lambia meu pescoço, suas mãos subindo pela minha camisa e soltando meu sutiã.
— O quê?— , ele insistiu quando eu fiquei em silêncio.
Eu não conseguia nem lembrar o que eu estava dizendo a ele... muito menos quando suas mãos apertaram meus seios.
— Como você quer?— Ele puxou minha camisa e a jogou no chão. — Suave? Lento? Rápido? Áspero?
Suas palavras vieram direto para minha virilha. Meu sistema nervoso estava entrando em colapso.
Ele se agachou na minha frente, soltou o botão da minha calça e começou a puxá— la para baixo.
— Você quer que comecemos lá embaixo?—
Ele puxou minha calça e acabou na lateral dos meus pés. Ele me virou nos calcanhares e mordeu uma das minhas nádegas.
— Na frente ou atrás?—
Quando ele se levantou, ele me prendeu contra a parede, sua ereção na minha bunda estava me deixando mais louca do que já estava.
— Aqui? Na cozinha? No banheiro? No quarto do Gabriel?
Eu ri e isso conseguiu me tirar um pouco do estado de devaneio onde ele me tinha enquanto continuava a atacar com beijos e carícias.
—Me diga como você quer—ele ronronou enquanto enfiava uma das mãos dentro da minha calcinha e começava a me acariciar—Devo te foder com a mão, com a boca, ou com...?
Ele arrancou um gemido de mim quando me virou e mergulhou sua ereção na minha umidade.
— Fale comigo, querida — então minhas últimas roupas caíram no chão e fiquei tão nua quanto ele.
Sua intimidade desliza com a minha, ele me enche de beijos intensos, suaves, desesperados, lentos.
— Não farei mais nada enquanto você não me disser como quer. Comentário veux- tu que je te fasse l'amour, Amelia? - Como você quer que eu faça amor com você, Amelia?— Ele disse isso tão devagar que eu não precisei que ele traduzisse.
— Bruto, forte, aqui e agora.
Ele sorriu.
— Com a minha língua, com a minha mão...
— Pelo amor de Deus, Ramsés. baise- moi- foda— me
Ele riu alto e bateu sua boca na minha. Suas mãos apertaram com força a pele por onde passaram
— Você não me disse em que posição.— Você disse como, quando, onde...
Peguei sua ereção em minha mão e comecei a massageá— la. A voz dele se perdeu com o meu gesto, foi a vez dele não conseguir falar.
— Você vai embora amanhã e vai demorar mais de dois meses até que possamos nos ver de novo... me faça lembrar de você até então.
Eu me agachei na frente dele e o devorei. Ramsés segurou meu cabelo, ditando o ritmo. Seu pulso podia ser sentido por todo o meu corpo ou talvez fosse meu coração acelerado pela intensidade do momento.
Ele me fez levantar e me colocou na mesa da sala de jantar, era a coisa mais próxima que tínhamos. Ele se posicionou entre minhas pernas e pegou uma camisinha do vaso no centro.
— O que…
—Gabriel pensa em tudo... tem mais preservativos espalhados pelo apartamento do que você pensa...
Já falaria aos portugueses, depois de o terem feito desinfetar toda a casa.
Ramsés rapidamente colocou a camisinha e se perdeu dentro de mim sem mais delongas, com força, suas mãos segurando minha cabeça com um misto de delicadeza e aspereza que me deixou desnorteada. Suas estocadas eram selvagens, e com cada uma ele chegava mais fundo em mim.
Seu corpo quente e suado grudado no meu, o cheiro de seu suor e seu perfume misturados aos nossos aromas. Nós rosnamos, suspiramos e gememos até ouvir um pequeno “crack”.
—Ramsés…
Sem se afastar de mim, ele me levantou e acabamos caindo no assento próximo, minhas pernas esticadas até o teto, ele parado na minha frente segurando— as.
Seu sorriso se intensificou quando ela me viu, ela lambeu os lábios e mordeu os lábios antes de começar suas estocadas novamente.
— Mais, mais— , eu exigi, frenética pelas sensações que só ele poderia me causar.
Então ouvimos outro “crack” e a mesinha de canto onde eu colocava as revistas desabou no chão. Ficamos olhando para a mesa, como se estivéssemos tentando encontrar uma explicação coerente, mas quando Ramsés retomou seus movimentos, parei de me importar.
Eu me pendurei no pescoço dele e o fiz sentar no outro móvel, para ficar na posição que eu mais gostasse: eu sobre ele. Comecei a subir e descer enquanto observava seus olhos ficarem brancos e ele estava respirando com dificuldade.
Quando senti o formigamento que anunciava meu orgasmo, parei, querendo que fosse eterno, que prolongasse o momento pela eternidade. Levantei— me e retomei a mesma posição, mas agora de costas para ele.
— Eu amo essa vista— , ele gemeu enquanto acariciava minha bunda.
Pela impressão, inclinei— me para a frente e descansei com as mãos na mesinha de centro, derrubando os controles remotos no chão devido aos movimentos que o francês mais uma vez conduziu.
Quando minhas pernas cederam, Ramsés me ergueu em seu peito novamente e se levantou comigo ainda conectada a ele. Ele me jogou contra a parede mais próxima e assim, estando atrás de mim, com as mãos segurando meus seios, ele me deu as últimas estocadas que me levaram a um poderoso orgasmo que me fez gritar seu nome e o nome de várias divindades. Quando ele caiu em seu próprio clímax, ele rosnou meu nome e uma maldição agradável em francês.
Eu adorava quando terminava assim.
Respirando com dificuldade e nossos músculos virando geleia, nos separamos da parede apenas para ouvir o terceiro “crack” da noite. Uma pequena pintura decorativa caiu no chão e quebrou.
Deitamos exaustos e nus sobre os móveis e foi aí que nos permitimos rir do estrago que havíamos causado.
