Capítulo 2 - Revisado
— Como assim você conseguiu sua chance? — Emma perguntou, com sua voz esganiçada e escandalosa, do outro lado da linha. — Não acredito que vão te mandar pra ele!
Ohana estava em sua casa, a noite já havia chegado e a única companhia que a morena tinha era uma taça de vinho cheia até a metade e seu celular, que estava em sua mão direita. Enquanto bebia, conversava com suas únicas três amigas.
Pela tela, que se dividia em três espaços distintos, era possível para ela enxergar uma jovem de cabelos ruivos e o rosto cheio de sardas, Emma, uma outra de cabelos negros que estavam presos num rabo de cavalo mal feito, Sol, e uma última com o cabelo colorido que tinha a aparência mais jovial entre as três, Aysha.
As quatro mulheres haviam se conhecido na faculdade, logo que entraram na New York University. A relação que tinham era complexa, fingiam umas para as outras que eram melhores amigas, mas, bem no fundo, torciam intimamente para serem, do quarteto, as melhores. Todas desejavam o sucesso profissional, mas não uma das outras, queriam ser as melhores e as invejáveis, mas isso não mudava a influência que tinham umas sobre as outras. Eram as melhores ouvintes e confidentes, apesar da inveja velada que mantinha o grupo de pé.
— Pois é! — Ohana confirmou, após mais um gole de vinho. — Ela simplesmente olhou para minha cara e falou “Você tem compromisso no sábado?” — Ohana imitou a voz grossa de Lenor, fingindo uma expressão convencida. — Eu quase surtei!
A gargalhada das quatro encheram a sala e, por um momento, até se esqueceram da competitividade que a oportunidade de Ohana instigou. Então, com um brilho no olhar e uma mecha azul enrolada no dedo anelar, Aysha falou:
— Poderíamos ir todas juntas!
A fala pegou as outras duas de surpresa, elas se calaram diante da ideia por apenas um momento, antes de confirmar com muita animação. Um sabado das meninas em um show de um artista pop? O que poderia dar errado?
Ohana não sabia se se sentia confortável com a possibilidade das outras três estarem presentes no seu grande dia, mas ela sabia que não era como se qualquer uma tivesse chance de roubar seu furo, o momento era dela e ninguém iria tirá-lo.
— Eu acho que a ideia é ótima! Seria uma noite só das garotas! — confirmou, dando mais um longo gole em seu vinho.
— Olha, me disseram que ele só aceita as mais bonitas — Sol falou com um ar malicioso. — Já sabe o que vai vestir Nana?
— Ainda não — ela balançou a cabeça, fazendo os fios negros saírem do lugar. — Mas acho que a Lenor vai cuidar disso, ela me mandou ir no escritório dela amanhã cedo, então acho que já deve ter um plano.
— Claro que ela tem, todos os tabloides do estado querem uma notícia dele, a Lenor quer sair na frente, ela já deve ter arquitetado tudo — Emma falava de forma um tanto quanto debochada, mas sabia que a revista Cochicho e sua líder eram os melhores.
— Tá com inveja é? — Ohana alfinetou, rindo levemente e vendo a outra revirar os olhos. — Seu momento também vai chegar, amiga!
— Vai a merda! — Emma retrucou, mostrando o dedo do meio. — Eu tenho que ir, diferente da bonitinha ai, eu não tenho média com minha chefe!
— Também preciso ir, amanhã o dia começa cedo! Boa noite meninas — falou Ohana, finalizando o vinho e ouvindo a resposta em coro de suas amigas antes de desligar.
Quando o silêncio voltou a reinar em sua casa novamente, ela encarou a pequena sala do apartamento e suspirou, vendo Pompom, seu gato de estimação, se esticar e bocejar. Ela o chamava carinhosamente de Pompy, havia telado todas janelas e a varanda que dava acesso à rua para mantê-lo em casa, porém, vez ou outra, ele ainda escapava, ela só não sabia por onde.
— Boa noite, Pompy — murmurou, caminhando em direção ao seu quarto e se jogando em sua cama, precisava dormir.
Enquanto o sono chegava para Ohana lentamente, em Manhattan, a noite começava a ferver. O Madson Square Garden estava lotado, as pessoas se amontoavam, gritavam e pulavam ansiosas para que a atração principal da noite entrasse. Muitos esperaram muito tempo por aquele dia, enfrentaram enormes filas e economizaram muito dinheiro para garantir seu ingresso.
Dentro do camarim, a silhueta do astro da noite refletia no espelho. Sua pele parecia brilhar levemente diante da luz do ambiente, o peitoral estava nu, era definido, o que contribuia com seu ar sensual e desejável. Não se podia ver seu rosto, mas em nada isso ocultava a clara beleza dele. Era alto, tinha músculos definidos, cabelos escuros de um tom castanho, altos o bastante para formar algumas ondas que seguiam para várias direções, pouco alinhadas, e olhos que se assemelhavam ao âmbar.
Seu nome era perfeito para ele, uma divindade da música e da sensualidade, que encantava a todos com sua voz e beleza. Não o havia escolhido ao acaso, se chamava Apolo por saber bem o que causava nas pessoas.
— Apolo, tá na hora — a voz masculina ressoou pelo camarim, chamando atenção do homem que estava em frente ao espelho. — Tem gente pra caralho lá fora.
Apolo riu, balançando a cabeça, mal acreditava que aquilo realmente estava acontecendo, não imaginou que chegaria tão longe. Colocou alguns colares no pescoço, acessórios de alguns patrocinadores, e seguiu em direção a saída.
De longe, enquanto caminhava em direção ao palco, ouvia seu nome através de milhares de vozes, que clamavam por ele, que estavam ansiosas para vê-lo, e Apolo amava aquilo.
Parou em frente a pequena escada e respirou profundamente, fechando os olhos por um momento e sentindo duas batidinhas em seu ombro, provavelmente Lucian, seu melhor amigo. Então, quando os abriu novamente, o microfone foi posto em sua mão e as luzes baixaram, os gritos se tornaram mais fortes e, depois, cessaram.
Então Apolo entrou no palco e fez o que sabia fazer, cantou, seduziu, se permitiu ser livre.
A música parecia sincronizada com seu corpo, com sua voz. Seu timbre era rouco e melódico, sensual de forma que a maior parte da plateia se derretia diante do seu charme natural. Não viam seu rosto, mas ele sabia que seu corpo e sua voz eram o bastante, era disso que gostava.
Enquanto cantavam com ele e imploravam por sua atenção, mesmo que por um segundo, Apolo fazia seu Show como se fosse o primeiro e o último. Seu corpo se movia, suas mãos desciam por seu peito e, em algum momento daquela noite louca, ele até puxou uma ou duas fãs para o palco.
Sua performance era perfeita e todos sabiam, por isso investiram tanto nele.
Mas, às vezes, ele surpreendia a todos.
Aquela foi uma dessas vezes.
Enquanto a guitarra fazia seu solo, a plateia foi ao delírio quando, enquanto seu corpo se movia bem colado ao de uma fã, seus lábios se uniram num beijo intenso, sensual e completamente quente. Os lábios dela eram macios, apesar de finos, e tinham um delicioso gosto de menta.
Apolo segurou com força a nuca delicada dela, sentindo a pele suave úmida pelo suor, a puxando contra si e colando seus corpos enquanto a plateia gritava e pulava ao som do solo de guitarra e ao ver a cena alucinante no palco.
A garota mal conseguia respirar sequer acreditava que aquilo estava acontecendo. O beijo foi, sem dúvida alguma, o melhor que ela recebeu em toda sua vida, era quente e sensual, fazia seu corpo arder em desejo. Não perdeu a oportunidade de tirar uma casquinha, afinal, quando teria aquela oportunidade de novo? O beijou intensamente, desceu os dedos por seu peitoral e chegou até a roçar seu joelho entre as pernas do astro, sentindo o volume em sua calça e se surpreendendo com a firmeza do que tocou. Então, quando ele se afastou, ela estava tonta e excitada.
No timing perfeito, Apolo voltou a cantar, como se aquele fosse somente um detalhe trivial em sua apresentação, como se não fosse nada demais. E de fato não era, mais uma boca beijada, um bom beijo, mas nada além disso.
O show continuou e ele se entregou cada vez mais, até que a última música se encerrou e ele saiu do palco em meio a uma nuvem de fumaça, deixando o público pedindo por mais. O sol estava quase nascendo e, com ele, a necessidade que ele tinha de voltar para sua segunda vida.
