Capítulo 14
Mas aprendi a aceitar a minha realidade e seguir em frente.
O que está feito, está feito.
Não posso mudar isso.
Não se pode voltar no tempo. A única coisa que se pode fazer é recolher os pedaços da sua vida e seguir em frente.
Embora, no fundo, eu continue esperando por um milagre.
Continuo esperando voltar a ver Ernesto.
Sinto saudades dele, mesmo depois de tantos anos. Às vezes me pergunto se ele se casou novamente, se tem filhos, se encontrou a felicidade.
Mas aprendi a deixar de pensar nisso. Só me faz mal.
Ele merece ser feliz. Eu... não mereço.
Eu fui uma péssima esposa.
Chegamos à porta do Hospital Público de Once, parei um táxi e as crianças entraram. O trajeto até a escola foi curto.
—Tchau, meus amores! —gritei, acenando para eles enquanto entravam com suas mochilas.
Ryan se virou e acenou com a mão, Emma me mandou um beijo.
Me levaram de volta ao hospital, onde desci, paguei ao motorista e suspirei antes de entrar.
Mas algo chamou minha atenção.
Um grupo de enfermeiras e alguns médicos estavam reunidos em frente à parede da entrada, lendo algo com expressões sérias.
Franzi a testa e me aproximei.
O que está acontecendo?
Meu celular vibrou na bolsa. Era Nikki.
— Nikki? — respondi, com uma expressão séria.
—Gabi, você já viu? —disse ela, com urgência na voz.
—Ver o quê...? —minha voz se apagou quando li o cartaz na parede:
“PRÉTIO DO HOSPITAL VENDIDO. TODOS OS FUNCIONÁRIOS DEVEM DESOCUPAR O LOCAL O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL.”
Senti como se o chão se abrisse sob meus pés.
—Não... não, não, não —sussurrei.
—Gabi, você está aí? —perguntou Nikki.
—Estão nos... estão nos pedindo para ir embora —disse eu, com os olhos cheios de lágrimas.
—Sim, o governo comprou o prédio. Eles vão despejar também os quartos dos funcionários —disse Nikki, com a voz abafada.
—O quê...? —perguntei, sem fôlego.
—Eu sei. É horrível. Minha irmã está arrasada, mas ela tem um plano B... Estou mais preocupada com você e as crianças —disse ela.
—Nikki, eu não tenho um plano B —sussurrei.
—Eu sei. Mas fique tranquila, eu vou visitá-la mais tarde. Tenho uma ideia que pode ajudá-la. Aguente firme, tá? —disse ela, e desligou.
Abaixei lentamente o telefone, sentindo meu mundo desmoronar diante dos meus olhos.
Minha única fonte de renda, meu único lar... tudo estava prestes a desaparecer.
“Como vou cuidar dos meus filhos agora? Como vou alimentá-los? Voltaremos para as ruas novamente?”
O Dr. Mark já não estava lá para me ajudar. Ele havia deixado o hospital três anos antes.
“O que vou fazer...?”
—Tia Nikki! — ouvi meus filhos gritarem, tirando-me dos meus pensamentos.
Eu os vi correndo em direção a Nikki, abraçando-a com força.
—Ah, meus anjinhos lindos! —disse Nikki, abaixando-se para abraçá-los.
—Senti mais saudades de você do que da Emma! —disse Ryan, estufando o peito.
— Não, eu senti mais saudades de você do que Ryan! — respondeu Emma.
— Não, eu mais! — gritou Ryan.
—Não, eu! —respondeu Emma.
Meu Deus, esses dois são como cão e gato.
Nikki soltou uma gargalhada.
—Tudo bem, tudo bem. Vocês sentiram minha falta também, e eu senti mais ainda —disse ela, beliscando-lhes suavemente as bochechas, provocando risadas.
—Trouxe biscoitos para vocês! —cantou, mostrando um saco.
—Que legal! Obrigado, tia Nikki! —gritaram em uníssono, tirando-lhe a sacola antes de correrem para a cama.
Nikki endireitou-se e lançou-me um sorriso cansado.
— Ei, você — brincou ela.
Soltei um suspiro enquanto me virava para a cozinha. Nikki me seguiu.
—Estou tão devastada, Nikki. Não sei o que vou fazer... —disse, deixando minha voz falhar.
—Eu sei. Mas, Gabi, por que você está se torturando pensando em um plano, se eu já tenho um? —disse ela, arqueando uma sobrancelha.
Cruzei os braços, exausta.
—Você realmente tem um plano? —perguntei.
—Claro! —respondeu ele.
—E isso não é... um pouco duvidoso, não é? —perguntei, franzindo a testa.
Nikki soltou um bufo, exasperada.
—Gabi, pelo amor de Deus. Relaxe e me escute. É um trabalho legal... bem, você vai conseguir o emprego de uma forma não tão legal, mas o trabalho em si é legal —disse ela.
Abri a boca, horrorizada.
—Nikki! —exclamei.
Ela levantou as mãos, divertida.
— Shhh, acalme-se. Não é nada de mal. Ninguém vai para a prisão, eu prometo — disse ele, com um sorriso malicioso.
Olhei para ela, confusa.
—Nikki... não entendo nada —disse eu.
Ela soltou um suspiro.
—Gabi... você vai conseguir um emprego legal por meios ilegais —disse ela.
Fiquei boquiaberta.
—Nikki! —repiti, com os olhos arregalados.
Ela cruzou os braços, levantando uma sobrancelha.
—Você confia em mim ou não? —perguntou.
Olhei para ela fixamente, com o coração batendo forte.
E, por alguma razão, eu sabia que devia confiar.
