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Capitulo 02

Mary

Eu abri os olhos ao ouvir o toque do meu celular soar na escuridão do meu quarto, a única luz vinha da tela do aparelho.

Eu juro que dessa vez eu vou matá-lo.

— O que você quer? — eu murmurei ainda sonolenta, ouvindo a voz do Russo soar natural.

Ele não dorme?

— Marianne, você poderia me levar um cappuccino com canela amanhã?

— São três horas da manhã, Peter — Eu rosnei — Você não podia ter esperado pra me falar isso?

— Eu achei que te acordaria muito cedo — Ele se justificou, fazendo minha exasperação subir.

Eu me sentei na cama, bocejando.

— Peter, você me acordou agora — Eu respirei fundo.

— Mas você pode voltar a dormir agora — Eu senti um sorriso em sua voz.

— Eu vou desligar — Eu murmurei.

— Boa noite, Marianne — Ele desejou.

— Você vai ter muito chantilly no seu café amanhã, Piatri — Eu revirei os olhos.

— Por favor, vamos manter o Peter — ele zombou antes de encerrar a chamada

Eu joguei o celular na mesa de cabeceira, caindo na cama de novo. Já faz um ano que eu estava trabalhando com Pyotr, e eu posso jurar que esse russo maluco ainda vai acabar me enlouquecendo em algum momento.

Ele, apesar de ainda insistir em me chamar de Marianne, tinha se mostrado um bom chefe. Nós não somos exatamente amigos, afinal eu não sei muito sobre sua vida, a não ser que ele é russo e tem três irmãs. Eu sequer consigo pronunciar seu nome da forma certa. No fim, chegamos a um acordo de que eu o chamaria pela versão americanizada de seu nome, mas sempre que eu queria irritá-lo, arrumava uma nova forma bizarra de tentar pronunciar 'pyotr'.

Meu pai também me contou que ele veio para os Estados Unidos para fazer a faculdade, conseguindo um visto de estudante que se transformou em um visto para trabalho quando ele se formou e foi contratado pela Navruz Publications. Ele cresceu depressa na editora depois disso, Omar disse que foi a melhor decisão que Elena tomou, pois ele elevou a Book Review a outro nível.

Isso era tudo o que eu tinha reunido sobre o Russo em um ano, isso é, sobre sua história. Sobre seus gostos pessoais eu aprendi bastante. Ele não é fã de chantilly, gosta das suas bebidas extremamente quentes, prefere chocolate branco à chocolate ao leite ou meio amargo. Tem uma paixão incrível pela leitura, tanto que a transformou em seu ganha pão, odeia ir em reuniões sozinho e acaba sempre me arrastando junto, se aproveitando do fato de que ninguém tem coragem de me barrar por ser a herdeira Navruz.

E tem uma mania inexplicável de me ligar de madrugada pelas mais diversas razões. Confirmar se eu despachei um documento, se entrei em contato com algum escritor, perguntar sobre reuniões e, aparentemente, pedir um café diferente para o dia seguinte. Essas chamadas aconteciam cerca de três vezes por semana, e eu sempre acabava descontando minha irritação em alguém no dia seguinte.

Eu tentei voltar a dormir, mas depois de mais de uma hora revirando na cama, percebi que  meu sono se foi de vez. Eu me levantei, tomando um banho demorado, pelo menos poderia me arrumar com calma. Muita calma.

Eu vesti um macacão social branco, sapatilhas pretas — que eu trocaria por um par de scarpins floridos assim que chegasse na editora — e deixei meus cabelos soltos.

Um pouco mais cedo do que eu costumava, eu saí de casa, decidida a caminhar até o prédio da Navruz Publications. Não era um longo percurso, se caminhasse tranquilamente eu chegaria em vinte minutos.

Eu consegui pegar a Starbucks vazia por algum milagre, comprei o cappuccino com canela e pedi para caprichar no chantilly, aquele russo terá que lidar com a minha irritação hoje. Após conseguir um vanilla Latte para mim, atravessei a rua em direção ao prédio, onde um dos seguranças me cumprimentou de forma amigável. Eu tentei não descontar meu mau humor nele, o coitado não tinha culpa do meu chefe ser um completo lunático!  Entrei no elevador e quando as portas estavam prestes a se fechar, Halley entrou apressada.

— Bom dia — Ela me olhou com curiosidade — Está cedo para você, não?

— Bem, é o que acontece quando eu estou acordada há mais de três horas  — Eu murmurei.

— Outro telefonema? — Halley  perguntou com diversão.

— Eu juro que ele não dorme! — Eu exclamei — Dessa vez foi para mudar o tipo de café.

— Então ele está encrencado — ela cantarolou seguindo para fora do elevador.

— Você não faz ideia — Eu sorri seguindo o meu caminho.

Pyotr ainda não tinha chegado no escritório.

Claro que não... Ele me acorda para pedir um café e nem está aqui para receber.

Eu coloquei o copo térmico sobre a sua mesa e voltei para a minha sala para buscar alguns livros que ele havia ganhado.

Eu levei a caixa para dentro do seu escritório e a coloquei no chão na frente da sua estante. É bom aproveitar que o lugar está vazio e começar a trabalhar. Coloquei fones de ouvidos e liguei meu celular em alguma música aleatória, apenas para passar o tempo.

— They say I'm really sexy, The boys they wanna sex me. They always standing next to me, Always dancing next to me — Eu cantarolei com a musica, deixando meu corpo se mover com o ritmo enquanto eu me abaixava para pegar outro livro — Trying to feel my hump, hump, looking at my lump, lump…

Eu notei uma movimentação com minha visão periférica, me virei depressa para encontrar  Pyotr encostado no batente da porta, me observando com uma sobrancelha erguida.

Desde quando ele está parado ali?

— Peter... — Eu retirei os fones com pressa, tentando me impedir de corar — Eu não te ouvi chegar.

Meu chefe  me pegou mesmo rebolando em seu escritório?

— Eu estou interrompendo? — Ele perguntou me fazendo corar ainda mais.

Eu o observei por um momento, ele estava bem bonito hoje. usava um terno preto com a camisa branca com o colarinho aberto sem gravata. Seus cabelos estavam penteados para trás com esmero. Muito sexy.  

— Eu termino isso depois — Eu arregalei os olhos ao perceber o rumo dos meus pensamentos, fazendo o homem franzir o cenho e se desencostar do batente da porta.

— Precisa de ajuda? — Ele se aproximou quando eu me abaixei para pegar a caixa que ainda tinha alguns livros.

— Não! — Eu exclamei me erguendo com a caixa nas mãos — Quero dizer, eu me viro. Onde está sua gravata, Piotre?

— Eu esqueci em casa, e você sabe bem que não é assim que se pronuncia — Ele respirou fundo antes de pegar a caixa da minha mão — Me dá isso, eu arrumo.

— Eu posso fazer isso, é meu trabalho — Eu protestei.

— Eu decido o que é seu trabalho. Onde está meu café? — ele recolocou a caixa no chão.

— Na mesa — Eu indiquei o copo tentando fugir dali.

Qual o seu problema, Mary? É só o Peter! Você está com raiva dele, aliás. E daí se ele te pegou cantando e rebolando no escritório dele?

— Mary, tem chantilly aqui — A voz decepcionada do russo chamou minha atenção enquanto eu estava saindo da sala.

Ele me chamou de Mary? Eu me virei mais uma vez em sua direção e tive que me controlar para não rir de sua expressão.

— Você não poderia apenas beber sem abrir o copo, como todo mundo faz? — Eu me aproximei da sua mesa.

— Como você conseguiu errar dessa vez? Não colocam chantilly em cappuccino — Ele reclamou.

— Foi um pedido especial meu - Eu pisquei para ele, esquecendo o constrangimento de momentos atrás — Eu te avisei que te puniria por me acordar de madrugada.

Eu cruzei os braços esperando por sua reação. Ele estava pensativo, provavelmente ponderando se brigava comigo ou não. Mas no fundo, ele sabe que mereceu.

— Você tem uma colher? — Ele perguntou por fim.

— É sério isso? — Eu revirei os olhos — Peter, você não sabe nem o gosto que tem, por que não experimenta?

— Eu sei o gosto que tem — Ele me encarou — É doce.

— Sabe o que mais é doce? Chocolate branco. E ainda assim, você adora — Eu revirei os olhos — olha, eu volto já, vou buscar uma colher.

— Achei que você queria me punir — Ele me lembrou.

— Considere uma recompensa por ter me chamado de Mary — Eu sorri — Quem sabe assim você se acostuma.

Eu segui até a copa que tinha no andar, conseguindo uma colher em um balcão.

— E então, Como está indo a punição? — A voz de Halley me surpreendeu.

— Eu estou indo tirar o chantilly do café dele — Eu suspirei.

— Como isso aconteceu? Onde foi parar toda aquela determinação de fazê-lo sofrer? — ela gargalhou.

— Eu tenho que encontrar outra forma de concretizar isso — Eu suspirei — Alguma ideia?

— E se você passasse a ligar pra ele de madrugada? — Ela sugeriu enquanto retornamos.

— Eu prefiro dormir — Eu neguei — Além disso, eu tenho quase certeza de que ele não dorme.

— Que tal arrumar uma nova maneira bizarra de pronunciar Pyotr? — Ela sorriu.

— Ele já se acostumou — Eu mordi meu lábio inferior, parando junto ao batente da porta que levava à minha sala — Eu vou pensar em algo até o fim do dia.

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