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Capítulo 3 — A Casa Que Não Perdoa

— Complicado — Enzo murmurou.

— Não gosto dessa palavra.

— Então escolha outra. Perigoso. Sujo. Conveniente demais.

Dante apoiou-se na cadeira.

— Conveniente?

— Antonio é acusado de trair você. Morre antes de ser interrogado. A filha aparece com documentos apontando para um inimigo que já queremos destruir. Parece quase uma história feita para nos distrair.

Dante pensara o mesmo.

O que o irritava era Enzo ter dito em voz alta.

— A menina estava assustada — Dante disse.

— Medo também pode ser encenado.

— Não por ela.

Enzo olhou para ele.

Dante percebeu o erro antes que a frase terminasse de pesar no ar.

Não por ela.

Que certeza era aquela?

Ele não tinha nenhuma.

Sofia Ricci poderia ser exatamente o que parecia: uma jovem enlutada, assustada, inocente, jogada num jogo grande demais para suas mãos pequenas.

Ou poderia ser a arma mais delicada que a Mano Nera já enviara para dentro de sua casa.

O problema era que Dante tinha olhado nos olhos dela.

E havia visto dor.

Não a dor performada de quem tentava comover um inimigo. Dor crua. Raiva verdadeira. Luto ainda sangrando.

Ele conhecia mentiras.

Tinha sido criado entre elas.

Sofia Ricci não mentia sobre o pai.

Mas isso não significava que soubesse toda a verdade.

— Quero todos os passos de Antonio nos últimos seis meses — Dante ordenou. — Contatos, ligações, contas, reuniões, amantes, médicos, padres, qualquer maldito café que ele tenha tomado fora da rotina.

Enzo assentiu.

— E a garota?

Dante olhou para a taça de uísque, ainda cheia.

— Fica aqui.

— Como prisioneira?

— Como garantia.

— Dante...

O tom de Enzo mudou. Pouca coisa. Mas Dante ouviu.

— Diga.

— Uma mulher inocente dentro desta casa pode virar problema.

— Uma mulher culpada fora dela vira guerra.

— E uma mulher bonita perto demais de você vira fraqueza.

O silêncio caiu.

Dante se levantou devagar.

— Escolha melhor suas próximas palavras.

Enzo não recuou. Talvez por ser velho demais. Talvez por conhecê-lo desde menino. Talvez por achar que tinha esse direito.

— Seu pai morreu porque amou a mulher errada.

A frase atravessou o escritório como uma lâmina antiga.

Dante sentiu a velha ferida abrir, mas não deixou que o rosto mostrasse. Nunca deixava.

Seu pai, Salvatore Bellucci, havia sido um homem temido, respeitado, brutal. Mas tivera uma fraqueza: a esposa. Elena Bellucci. A mãe de Dante.

E os inimigos descobriram.

Dante tinha dezessete anos quando encontrou a mãe caída no jardim de inverno, usando um vestido claro manchado de sangue, os olhos abertos para o teto de vidro. Lembrava do cheiro das flores. Lembrava da mão dela fria entre as suas. Lembrava do pai gritando ordens, prometendo vingança, quebrando o mundo em pedaços.

Depois daquela noite, Salvatore nunca mais fora o mesmo.

E Dante aprendera a lição.

Amor era uma porta aberta.

E portas abertas convidavam assassinos.

— Sofia Ricci não significa nada para mim — Dante disse.

Enzo o estudou por um instante.

— Ótimo. Então não será difícil usá-la como isca, se necessário.

Algo escuro e imediato se moveu dentro de Dante.

Pequeno.

Violento.

Irracional.

Ele se aproximou de Enzo com calma demais.

— Você não usará ninguém nesta casa sem minha ordem.

Enzo ergueu as sobrancelhas.

— Naturalmente.

Dante sustentou o olhar dele.

— Principalmente ela.

A segunda frase não deveria ter sido dita.

Dante percebeu.

Enzo também.

Mas o conselheiro apenas inclinou a cabeça.

— Como quiser.

Um ruído discreto soou no corredor. Passos rápidos. Uma batida na porta.

— Entre — Dante ordenou.

Marco apareceu.

Seu primo por parte de mãe e chefe da segurança interna da mansão. Forte, leal, impulsivo. Tinha uma cicatriz fina atravessando a sobrancelha esquerda e o hábito irritante de dizer o que pensava quando deveria calar.

— Temos um problema — Marco disse.

— Só um? A madrugada está generosa.

— A garota Ricci tentou sair do quarto.

Dante não se surpreendeu.

Na verdade, algo parecido com diversão ameaçou tocar sua boca.

— Já?

— Pela janela.

Enzo soltou um som baixo, quase um riso.

— Corajosa.

Dante lançou-lhe um olhar frio antes de voltar a Marco.

— Ela se feriu?

Marco piscou.

A pergunta saíra rápido demais.

— Não. Mas quase quebrou o pescoço tentando alcançar a varanda lateral. Lucia a segurou a tempo.

Dante saiu do escritório sem dizer mais nada.

Os corredores da mansão estavam silenciosos, mas não vazios. Homens armados se moviam discretamente pelas sombras. A casa Bellucci parecia dormir apenas para quem não conhecia seus segredos. Na verdade, a mansão nunca dormia. Sempre havia olhos. Sempre havia armas. Sempre havia alguém pronto para matar ou morrer.

Ao se aproximar do quarto leste, Dante ouviu a voz de Sofia antes de vê-la.

— Eu não sou uma criminosa! Não podem me trancar aqui como se eu fosse um animal!

Lucia, a governanta, respondeu com a calma de quem já sobrevivera a três gerações de Bellucci.

— Signorina, ninguém a trancou.

— Tem dois homens na porta!

— Exatamente. Na porta. Não dentro do quarto.

— Que gentileza. Devo agradecer?

Dante parou por um segundo do lado de fora.

Não deveria gostar daquela insolência.

Não gostou.

Não exatamente.

Mas sentiu o canto da boca querer se mover outra vez.

Isso o irritou.

Ele abriu a porta.

Sofia estava no meio do quarto, descalça, usando ainda o vestido preto simples que vestira ao chegar, embora agora estivesse seco. O cabelo castanho caía solto pelos ombros, ligeiramente bagunçado. As bochechas estavam coradas de raiva. Os olhos verdes brilhavam como se ela preferisse incendiar a mansão a permanecer ali.

A janela atrás dela estava aberta.

A cortina balançava com o vento frio da madrugada.

Lucia estava ao lado da cama, impassível.

Dois seguranças ocupavam a entrada.

Sofia virou-se para Dante.

Por um instante, o quarto inteiro pareceu perder importância.

Ela era pequena demais para a fúria que carregava.

E bonita demais para a paz dele.

Dante odiou perceber.

— Tentando fugir? — ele perguntou.

— Tentando ir embora. Fugir é o que prisioneiros fazem.

— Então estamos de acordo.

Ela apertou os lábios.

— Você é arrogante.

— E você é imprudente.

— Eu tinha uma vida ontem de manhã.

— Ontem de manhã seu pai ainda estava vivo.

A frase foi cruel.

Ele soube assim que disse.

O rosto de Sofia perdeu parte da cor. A raiva nos olhos dela tremeu, cedendo espaço à dor.

Dante sentiu algo incômodo no peito.

Não remorso.

Ele não tinha esse luxo.

Mas algo próximo o suficiente para desagradá-lo.

— Saia, Lucia — ele ordenou.

A governanta hesitou apenas um segundo.

— Signore.

Lucia deixou o quarto. Os seguranças também.

Sofia ficou mais rígida ao perceber que estava sozinha com ele.

Dante notou.

— Tem medo de mim?

Ela ergueu o queixo.

— Tenho bom senso.

— Não foi o que pareceu quando me bateu.

— Quer que eu peça desculpas?

— Não.

Ela franziu a testa.

— Não?

— Prefiro desculpas sinceras. Você não está arrependida.

— Não estou.

Dante caminhou devagar pelo quarto. Era amplo, decorado em tons de creme e dourado antigo, com móveis elegantes, uma cama grande demais e uma lareira apagada. Um quarto feito para hóspedes importantes. Ou reféns valiosos.

— Você entende o risco que correu tentando sair pela janela?

— Entendo o risco que corro ficando.

— Não entende nada.

Ela soltou uma risada amarga.

— Então explique, senhor Bellucci. Explique como manter uma mulher trancada em sua casa é para protegê-la.

Dante parou diante dela.

— Dois homens seguiram seu táxi até aqui.

Sofia congelou.

— O quê?

— Você não percebeu porque estava ocupada demais tremendo no banco de trás.

— Está mentindo.

— Não preciso mentir para assustar você. A verdade faz isso melhor.

Ela desviou o olhar por um instante. Pela primeira vez, a raiva vacilou.

— Quem eram?

— Ainda não sei.

— Homens da Mano Nera?

— Talvez.

— Ou seus homens?

Dante estreitou os olhos.

— Cuidado.

— Não. Eu estou cansada de ter cuidado. Meu pai está morto. Minha casa está revirada. Eu trouxe os documentos para você porque ele confiou em você. E agora você me acusa, me prende e espera que eu aceite tudo calada?

— Sim.

A resposta, seca e simples, a deixou ainda mais furiosa.

— Você é impossível.

— E você é ingênua.

— Pare de me chamar assim.

— Pare de agir assim.

Sofia deu um passo na direção dele.

— Ingênua seria acreditar que um homem como você pode proteger alguém sem querer algo em troca.

Dante baixou os olhos para ela.

— E o que acha que eu quero de você?

A pergunta mudou o ar.

Sofia percebeu.

Ele também.

O silêncio entre os dois deixou de ser apenas raiva. Tornou-se outra coisa. Mais quente. Mais perigosa.

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